sábado, 16 de julho de 2011

O REGRESSO DE ULISSES BEM-AVENTURADO

Caros amigos, Ulisses regressou a Itaca e de lá sairá novamente. Um guerreiro jamais deseja viver em paz em sua terra, deseja sempre desbravar novos mundos. Por esta razão, sigo o exemplo mítico, porém, cheio de boas aventuras, ao contrário do primeiro, que levara 20 anos para regressar ao seio matrimonial. Espero não encontrar uma Circe, ou uma Calipso, muito menos encontrar um Ciclope, filho de um deus, desejo não encontrar sereias arfantes doidas para me locupletar com sonhos d'ouro.

Sim, leitor. Ulisses regressou para contar suas peripécias homéricas.

Desta vez, novos personagens ingressaram nesta epopeia. Tipos humanos fantásticos que recentemente conheci e, se der, todos conhecerão por aqui. Temos bancária, professores, professoras, alunos, pessoas normais, loucas(? - dentre elas o narrador), participações especiais (que de tão especiais darão seu belo ar nesta aventura). Há também fugitivos de vidas rotineiras, famintos de mindo novo. Todos, enfim, personagens que desejam algo a mais. E, de tanto desejarem algo a mais, serão alimentados pelas emoções que ocorrem apenas em viagens. Certamente encontraremos alguns monstros, como já o fizera Ulisses, mas os venceremos com o devido humor "indianista" de indiadas europeias.

A viagem começará. O roteiro já foi escrito. O embarcar é inevitável. Éolo nos mandará bons ventos e nenhum dos tripulantes abrirá a bolsa misteriosa que guarda as tempetuosas brisas. Assim será. Apertemos o cinto, poltronas na vertical e bonne voyage.

quinta-feira, 31 de março de 2011

POR NOSSA SENHORA DA MEDIANEIRA, PROTEGEI-OS E SALVAI-OS

Hoje passei por um dia difícil, mas em meio a todas as trevas conflitantes, uma luz mental surgiu. Era a luz do banheiro. Oh, como era bom banhar meu espírito com sais, oh sais de macadâmia! Quanta delícia depois de um turbulento dia de trabalho. Entre espuma e água, meu corpo (somente o corpo, visto que a mente ainda fervilhava) descansava o que podia. Então, no meu daquelas efervescências mentais, meus ouvidos pareciam não acreditar no que ouvia: uma criança berrava de dor. Continuei no meu mundinho egocêntrico. Em seguida a criança voltou a projetor a força de sua glote. Então decidi abrir a janela que dá contato com a avenida. Os carros trafegavam como de costume, quando a criança-gritadeira voltava a urrar e correr em direção a avenida movimentada. Cerrei a visão e quase ingeri meus sais de macadâmia. A criança gritava desesperada porque seu pai era alvo de um terrível vilão, vilão este que portava uma arma mortífera: um tijolo. Uma mulher correu para salvagurdar a criança, enquanto o pai da criança era salvaguardado por ele próprio. Naquele segundo, quando o homem levantou o antebraço para violentar o pai da criança-gritadoira, minha mente voltou naquele 2006 (parece que era essa data) ou seria 2007, noite de final da libertadores, campeonato cujos rivais eram Grêmio e Boca Juniors. Era um dia quente, de expectativa, Porto Alegre fervilhava de emoção, curiosidade e ânsia. A Avenida da Azenha tumultuada com aquela peça grega. A Ipiranga estirpava os habitantes da Zona Norte. Da Tinga, meu povo de ama, vinham outras tribos. Da Carlos Gomes, vinham eles, os meus irmãos e amigos argentinos. Porto Alegre estava trancada. As veias da cidade necessitando de cateterismo. Que viesse já o metro. Muito custei para regressar para o meu lar doce. Assim que lá adentrei, corri para o sabonete que lambuzaria meu magro-corpo, na época. Uma vez relaxado para assistir uma novela de Manoel Carlos ou Sílvio de Abreu ou Gilberto Braga, jantei. Após o relaxamento, fui a água-furtada de meu quarto e me pus a ler, visto que o Boca Juniors passara em frente de minha casa, na mesma avenida que a criança correria cinco anos depois. O helicóptero perseguia os argentinos, a brigada os salvaguardava. Como podemos lembrar, o Boca Junior (que tal?) desmoralizou o Grêmio futebol porto-alegrense. E eu, no meio daquela comuna parisiense, querendo ler um livro. A cada gol do Boca Juniors uma mulher, que também assistia a partida futebolística em seu alpendre, gritava: — BOCAAAAAAAAAAA E o Gremista que flaneriava pela rua declinava: — Putaaaaaaaaaaaaaaa E ela: — BOCAAAAAAAA E ele: — Puuuuuuuuta Era uma buzinada dos infernos. Mas onde poderíamos encontrar a paz naquele inferno? A vida me diria apenas que isso somente aconteceria quando tivesse um encontro na relva, é claro sem aquela dama nua, o que me causaria um problema existencialista, visto a náusea sartreana dos homens. Certo momento, mais um gol. Só lembro de que se tratava de um ponto que definiu o jogo das coxas grossas. Então um rojão explodiu de uma casa e espargiu no céu porto-alegrense. E a velha: — BOOOOOOOOCAAAAAAAA De onde estourara os fogos de artifício, pude ouvir a discussão aristotélica de dois homens suburbanos. Sim, caro leitor, na rua que corta a avenida do bairro onde moro a cor muda assim que pisa-se na sétima casa. Ali, a rua já sobe, e um outro bairro cinzento (ou azul cubista dos tempos negros de Picasso) se pinta e as malocas de alvernaria crescem primitivamente. Ali, naquele protótipo de favela, a discussão filosófica de dois homens se mostrou aos ouvidos do homem que vós narra a peripécia. Assim que vi um homem nu, com a cabeça, a cabeça de membros sem tronco, uma cabeça irritada e gritadeira abrir briga com o vizinho, cuja casa se separa alguns centímetros úmidos e explosivos, corri para pegar meu binóculo. AQUELA EU NÃO PODIA PERDER. Era a história dos subúrbios que Machado de Assis queria contar no final de D. Casmurro. Eu, senhores-leitores, fiquei excitado, com imenso volume de prazer, quando assistia de camarote central aquela tragédia dos mineiros que brotavam da terra, em Germinal. A questão maior é que ninguém brotou da terra, muito pelo contrário, o ar que germinou à cova solitária. Sim, choroso leitor. Uma briga se deu no ringue: tudo acontecia no telhado daquela vã casa. Era um empurra-empurra dos homens, um ódio sanguinário da carne nua naquelas navalhas. — BOCAAAAAAAA – gritava a velha. Enquanto o Grêmio tentava dar a rasteira no Boca, o homem da Boca deu uma rasteira no homem nu, que saíra voando como um pombo. Mas como era um pombo sem treinamento, acabou caindo na cova solitária nos anjos sonolentos. Aquela sombra desaparecera no vão das casas desafortunadas. O juiz apitou o fim de jogo. Fiquei pensando se aquele pobre homem havia ido passear com Caronte no Auto da Barca do Inferno. Só sei que o possível assassino fugia da possível viúva, do possível morto, cujas mãos possíveis apareceram denotando a vida que ainda pulsava naquela miséria. O quase assassino tentou investir com uma taquara enorme contra o homem nu e brochado. A iminente viúva gritava com um bebê no colo – o mesmo bebê que cresceria anos depois e correria na avenida. Como ia dizendo, a iminente viúva gritava, mostrando a força hereditária do urro, do urro da mulher que jamais viria, novamente, seu homem nu, de pé, forte, voraz, vivo, ereto. Num átimo de segundo, o homem conseguira escapar pelos muros burgueses. O meu binóculo perseguidor observava tudo atento. Da outra rua mais acima, vinha a mulher desesperada para salvagurdar (como todos se salvaguardam nessa tragédia!) o marido desarrumado. O vilão terrível, o algoz nas noites perdedoras, corria pela avenida atrás do homem nu. Este, desesperado, correra até a parada do ônibus para pegar a linha da Carris. Visto que homem não tinha bolso para pagar ao cobrador, o motorista decidiu continuar sua jornada. O executor dos fogos de artifício corria atrás do homem sem bolso, do homem sem sombra, o fugidor da morte anunciada. — SOCORRO, POLÍCIA. BRIGADA. TAXISTA! O nu, lutando contra o cansaço dos joelhos acarinhados pelas palmas das mãos, ia para o meio da avenida pedir clemência aos cristãos. Pobre coitado. No seu caminho havia apenas pagãos e ateus. Todos passavam sem o préstimo da caridade. Como dizia um amigo, fora da caridade não há salvação. Como ninguém era caridoso com ele, a salvação foi acorrer a medidas mais extrínsecas sobre a possível sobrevivência. Já que os homens não se ajudam, Deus mandou-lhe uma fada, a Bela, para que pudesse correr na primeira viela do bairro desfavorecido da rua de cima. — POR NOSSA SENHORA DA MEDIANEIRA, salva-me desse tormento, desse terrível algoz sanguinolento! A mulher corria danada com a criança no colo e dizia ao iminente assassino: — Eu sei do teu passado seu ladrão de galinha. O vilão não falava nada. — Vamos! Faça comigo o mesmo que ia fazer com meu marido — dizia ela empurrando o atirador de homens que caminham nos telhados. O vilão não falava absolutamente nada. — Seu bosta. Ladrão. LADRÃO. LADRÃAAAAAAAAAAAAAAO. O terrível carnífice deu as costas a mulher desasada e encontrou seu homem amado, brochado e nu. Ainda pude ouvir o que ele disse: — Pô, eu só gostaria de dormir. Tenho que acordar às cinco da manhã pra pagar minhas contas e vem esse ladrão me fazer dessas na minha janela. — BOOOOOOOOOOCAAAAAAAA — gritava a mulher depois do drama ter acabado. Mas o drama não acabou. O antebraço do vilão ia dilacerar o crânio do mesmo homem que anos atrás, naquela noite de final de campeonato, havia tentado matar um trabalhador do alto de um ringe criativo. Sim, leitor, seria o vilão de ontem o mocinho de hoje? A criança que gritava na avenida DA NOSSA SENHORA DA MEDIANEIRA era a mesma que ouvira sua mãe gritar anos atrás? Que escola! O homem, o vilão da vez, contra o mocinho da vez, o pai que provocava o choro compulsivo de não vê-lo em tamanha barricada, estava pronto para uma terrível vingança. Mas o homem, cujos olhos de macadâmia eu não conseguia identificar se era o mesmo de anos atrás (visto que o homem de anos atrás não tinha roupas, e este agora as possuía). O vilão de outrora correu para se proteger do duro tijolo. O vingador do passado (de possíveis drogas, decerto) jogou-lhe um dos tijolos de uma nova construção. O tijolinho que falava na construção fracionou-se no muro, a alguns palpos do explosivo rasteirador de teclados. Era somente mais um cenário do reflexo que foi o meu dia: mulheres, como aquela de Delacroix, que guia o povo, que se matam por uma ideologia política. VIVA A REPÚBLICA! FRATERNIDADE, IGUALDADE e acima de tudo HUMANIDADE. — BOOOOOOCAAAAAAAAAA

terça-feira, 29 de março de 2011

Um momento comigo mesmo, comigo próprio

Não tenho tido histórias para contar. Tenho vivido recluso, dentro de uma cloaca, uma cloaca intelectual, subversiva e indômita. Agora que essa palavra me surgiu, tenho vivido sim uma história indômita. Voltei a ser professor. Desta vez de literatura, minha paixão, minha realidade, minha vida. Eu, que vivo num mundo esférico longe dos humanos terrestres, embebido de absinto de meu amigo Rimbaud. Sim, sou um Policarpo, um Quixote, um eunuco, um Quaresma sem Páscoa. Quando terei a sorte de encarar a realidade? No final da narrativa, como fizeram esses meus amigos alucinógenos? Será que meu mergulho na literatura, nesse mundo real-alucinante-memorial, é o caminho correto para encontrar meus vazios? Ou tentar preencher os vazios alheios? Eu, que sempre estive, e pelo visto sempre estarei com o livro em punho, fui o meu melhor amigo. Meu melhor amigo, com o livro como objeto. Hoje, meu companheiro é Zola. Mas meu amigo, o melhor, sempre fui eu. Alex sempre fez companhia para Alex. Pessoa que conheço melhor no mundo? Eu! Não há quem melhor conheça! Às vezes queremos avaliar o outro, melhorar o outro, ajudar o outro; mas quem precisa ser avaliado, melhorado e ajudado é apenas que faz companhia para si mesmo. Agora sou professor novamente, professor-realizador, realizador de sonhos d’Ouro da infância perdida, sonhos d’aurora da minha vida, tempos que não voltam mais. Hoje conversei com um primo, um primo jovem, um primo de 18 anos. Como é apaixonado, como sofre por um amor-difícil. E o pior é que eu sofro das mesmas dores que um jovem romântico e cabisbaixo. Queria ser mais jovem, e quando jovem mais lúcido, e quando lúcido, completo. Que saudade de meus dezoito anos, nove anos atrás, somente. Quando eu tinha dezoito anos, estava num cursinho pré-vestibular, infeliz, incompleto, pequeno, ansioso (muito mais que agora), cheio de plenitude para as realizações. Tudo o que sonhava aos dezoito, era o mesmo que sonhava aos onze, e o mesmo que sonhava aos sete. Agora escrevendo, percebo que gostaria de ter dezoito anos com a mentalidade e sofreguidão dos vinte e seis (quase vinte e sete). Agora sou o professor de alunos de dezesseis anos... quantos aprendizados... chavão! Tudo a seu tempo. Aprendi. Aprendi que não temos vilões-bonzinhos, sorridentes, que estes foram repelidos e que não poderão pegar o que seria nosso e bondosamente-vilã se dedicasse a assumir a postura de CHAMADA. Aos chamados, fogo! A vida foi uma boa mestra. Então, alunos da 2C, divertimo-nos, pois os da 82 eu perdi; agora esses novos, sei que não serão meus, pois são de uma grande-pequena mestra, sábia, pessoa culta que efetivamente merece, por saber o que ensina. Turma 2C, bom dia, boa sorte, sucesso.

segunda-feira, 28 de março de 2011

BAILE DE MÁSCARAS NUM DIA DE SOL ESTRELADO - quarto ato

INÍCIO DO QUARTO ATO Homem, rapaz, brigadiana.

RAPAZ — Não... não há nada de mais nisso. É que eu tenho o “poder” de ler o que há dentro das pessoas. Tu eu não estou conseguindo ver nada.

HOMEM — Por que não?

RAPAZ — Não sei. Mas eu quero te agradecer. Essa é a primeira vez que alguém escuta a história da minha vida.

HOMEM — Não precisa agradecer. Eu já tenho o costume de ouvir.

RAPAZ — Tu é alguém muito especial.

HOMEM — Por quê?

RAPAZ — Por que se trata de um professor de literatura muito...

HOMEM — Muito...

RAPAZ — No colégio, eu não gostava de ler. Minha namorada é quem lê para mim.

HOMEM — Tua NAMORADA lê o quê?

RAPAZ — Ela deve ser agora minha ex-namorada... só quero ver quando eu chegar em Porto Alegre.

HOMEM — Ela ainda é tua namorada. Não se desespere a toa. Tudo se acertará quando chegar em casa. Mas o que ela lia para ti?

RAPAZ — Um romance que eu não lembro direito a história.

HOMEM — Qual romance? RAPAZ — Helena.

HOMEM — Helena! Nossa. Mas qual Helena? De que autor?

RAPAZ — Não lembro. Me conta a história.

(O homem fica calado propositalmente. Titubeia).

RAPAZ — Eu lembro que era uma mulher que chegava numa cidade do interior.

HOMEM — Sim!

RAPAZ — Que ganhou uma herança.

HOMEM — Sim!

RAPAZ — E parece que ela se apaixonou pelo irmão.

HOMEM — Muito bem. (Silêncio).

RAPAZ — Tu é muito especial.

HOMEM — Muito obrigado!

RAPAZ — Ouve as pessoas, simpático, bonito, de um carisma irretocável.

HOMEM (rindo)— Eu? De um carisma irretocável?

RAPAZ (sorrindo) — Sim. (Tirando o boné): — Vou te dar de presente por me ouvir.

(Dando o boné ao homem).

HOMEM — Eu não posso aceitar?

RAPAZ — Mas aceite.

HOMEM — Está bem, eu aceito. (sem pegar no boné): — E te presenteio por ser tão especial também.

RAPAZ (colocando o boné de volta na cabeça) — Está bem.

HOMEM — Fique com ele para que tu não contes a tua namorada que o boné foi roubado em Tramandaí.

RAPAZ — Eu vou escrever um livro.

HOMEM (sorrindo) — É?!

RAPAZ — Sim. Não sei o título. Creio que será apenas dezoito. Ou seria Além dos dezoito. O que tu acha?

HOMEM — Apenas dezoito dá um sentido de finitude aos dezoito; Além a própria palavra diz... RAPAZ — Um dia tu também vai escrever um livro.

HOMEM — É?

RAPAZ — Quem sabe tu contará a nossa história? (O homem sorri).

HOMEM — A nossa história?

RAPAZ — Sim, a nossa. A da nossa viagem. (O homem sorri, comovido). (Silêncio).

RAPAZ (olhando para as mãos do homem:) — O que há nos nós dos dedos?

HOMEM (titubeando) — Luta. Eu pratico uns socos por ai, na academia.

RAPAZ — Sabe que eu sou ganhador de Vale tudo?

HOMEM — Vai me dizer que tu ganhaste o campeonato mundial, baby?

RAPAZ — O Nacional. (O homem gargalha).

HOMEM — Francamente. Tu, um menino tão magrinho. RAPAZ — Magrinho? (Levantando a manga da camiseta) Toca aqui no meu braço.

(Levando lentamente a mão, o homem toca o braço fino do rapaz).

HOMEM (irônico) — Quanta força bruta. Parabéns pelo prêmio. (Ambos riem gostosamente). (As luzes de Porto Alegre se mostram).

RAPAZ — Estamos chegando.

HOMEM (pensando) — A hora da verdade. (Uma brigadiana que estava sentada atrás do homem e do rapaz segura uma pistola). (O homem tira os óculos).

RAPAZ — Agora eu te vejo. Agora está nu. A nossa história está chegando ao fim.

HOMEM — Apenas dezoito?


FIM DO QUARTO ATO

terça-feira, 22 de março de 2011

O CASAMENTO DO ANO - Barbaríssima Sávio Costa

Para quem conhecia Bárbara Sávio Costa, a filha da magnânima Lígia Sávio, antes do dia 12 de março, saberia que esse era o dia de seu casamento. Segundo a noiva, os preparativos da papelada, dos estágios probatórios e da compra do apartamento eram os ideais de um futuro feliz da vida à dois.

A cada encontro que tive com essa assumidade de luz, meus ouvidos se enchiam de novidade. Muitos conflitos e ansiedades cotidianos se inseriram no caminho da noiva. Porém, nem as intrigas que o preço do amor impõe ao casal, impediram que eles burlassem as regras da utópica sociedade e consumassem o casamento longe do cartório.

O dia 12 de março estava chegando.
Porém, um tsunami se aproximava do Chile e tudo podia acontecer. Estávamos preocupados com a colisão de duas placas tecnônicas nas profundezas do rio Guaíba. O casamento só poderia acontecer se o dia estivesse dia, e a noite escura estivesse como a noite. O jornal dizia: PARA AMANHÃ, CHUVA! Será que o casamento do dia 12 de março seria desmoronado com o mau tempo? A noiva dizia espumando: “Querem destruir o meu casamento. O meu casório vai sair a todo jeito”.

Quando acordei, assim que abri os olhos, a luz do dia, a luz azul celeste sorria na minha janela sem persianas. Sim, o casamento aconteceria. Preparei meu discurso, visto que eu seria o Padre Amaro. Depois do almoço, para acalmar as ideias, decidi cochilar. O casório era às 17h na Redenção, mais precisamente no Buda. O Padre, eu, acordou às 16h. Antes de vestir a batina, fui me banhar e pensar na Amelinha. Depois peguei meu Papa-móvel e me dirigi ao santuário da felicidade.

A noiva estava chegando, estava chegando no dia 12, que chegou.
Com essa informação, algo estremeceu os ânimos: o noivo não sabia onde era o Buda. O NOIVO ESTAVA PERDIDO NA REDENÇÃO. Para segurar a noiva, coube a minha mãe, sim, minha mãezinha, a senhora Vera Valério de Pequim, que estava usufruindo da cultura porto-alegrense no Brique da Redenção quando encontrou a azarada noiva do noivo azarado. Minha mãe que mal conhecia a noiva, mas conhecia a mãe desta, que passara por momentos módicos-etílicos.

O noivo fora encontrado no chafariz de Montjüic, perto do Arco do Triunfo parisiense.

Como estavam todos a postos, a noiva podia chegar.

Todos que estavam a postos, todos que não conhecíamos, turistas moradores da cidade desconhecedores da existência do Buda da Redenção, estavam lá, com suas criancinhas e máquinas fotográficas. Naturalmente foram saindo.

A noiva chegou. O padre assumiu a sua postura. Assim que os noivos trocaram olhares, o Padre teve que interferir devido o medo de estragar a surpresa do beijo no final da cerimônia.

Li o texto que previamente preparei. Em seguida, uma nova personagem entrou em cena para também dar a benção ao casal. Na fala desta, os noivos já trocavam as alianças. Quando começou a fala protocolar da noiva para o noivo, este interrompeu dizendo:

— Deus sabe que tu me ama, chega.
E se beijaram deliciosamente.

A noiva jogou o bouquet. Quem pegou?
A mãe do padre. Sim, leitor-seguidor, a mãe do padre, a minha mãe.

Em seguida fomos para uma grama seca e lá nos jogamos. Bebemos e comemos até anoitecer. Fomos para a casa de Ligia, onde embebemos Absinto, vinho frisante, cerveja e Coca-cola. Lembra-se da festa de réveillon.

Nem duas horas se passaram e já estavam, os recém-casados, de malas prontas para a lua de mel num hotel quatro estrelas.

Então com velas, recitamos Fernando Pessoa; com incensos comprados num mercadinho da Serraria (que vendia também livros filosóficos) declamamos Gregório de Matos; com outra vela declamou-se Camões. Era o sarau literário.

Enquanto isso no hotel quatro estrelas, a esposa e o marido transpiravam escarlates presos na caixa de pandora. O amor é fogo que arde sem se ver...

segunda-feira, 21 de março de 2011

BAILE DE MÁSCARAS NUM DIA DE SOL ESTRELADO - terceiro ato

TERCEIRO ATO

RAPAZ — Eu conheci... os lugares... que todo mundo conhece. Mas também conheci a sujeira de Paris. A nossa sujeira começa lá.

HOMEM — Então a nossa sujeira começa lá. Que ruas tu conheces de Paris.

RAPAZ — Ah, ruas e bairros eu não lembro. E tu, já viajou?

HOMEM (sorrindo) — Eu? Eu não. Nunca sai de Porto Alegre.

RAPAZ — Capão não conta?

HOMEM — Ah sim. Mas também não conta comparar suas aventuras pelo mundo. Viajar pelo mundo deve ser fascinante. Ainda mais quando ainda temos dezoito anos.

RAPAZ — E o que tem feito que ainda não viajou?

HOMEM — Estudado.

RAPAZ — Estudado o quê?

HOMEM (mostrando o livro) — Literatura.

RAPAZ — Tu não me respondeu... o que tu faz?

HOMEM — Sou professor.

RAPAZ — Um professor de Literatura. Não me dava bem com um professor de Literatura. Mas agora tenho um amigo professor.

HOMEM — Parece que sim.

RAPAZ (tocando no livro que estava no colo do homem) — Posso ver o livro?

HOMEM — Pode, com prazer.

(O rapaz lê um pequeno trecho).

RAPAZ — Não entendi muito bem. Do que se trata.

HOMEM — Bom. Tu leste a introdução de um crítico. O livro trata-se do Teatro do Absurdo.

RAPAZ (lendo a capa) — Alfred Jarry. Ubu-Rei.

HOMEM — É isso ai.

(Silêncio).

RAPAZ — Eu gosto de andar de Skate.

HOMEM — Posso te falar uma coisa?

RAPAZ — Pode.

HOMEM — Creio que falta um pouco de verossimilhança em tua história.

RAPAZ — O que é verossimilhança.

HOMEM — É a semelhança com a realidade.

RAPAZ — Então tu quer dizer que falta semelhança com a realidade a minha história.

HOMEM — Um tanto. O que podemos pensar de um rapaz de dezoito anos, que é promoter, perdeu a namorada, foi assaltado, sem celular? A namorada de dezessete pegou, desesperada, o carro. A sogra o expulsou de casa. Em seguida, me conta que já viajou a vários países.

RAPAZ (com sobrancelhas arqueadas) — E ainda não te contei que reuni 40 mil pessoas no Rio de Janeiro para apresentar uma banda de garagem.

HOMEM — Olha que surpreendente. Mais um dado. Porém, quando tu me contas que gosta de andar de Skate isso me parece mais o teu perfil, não que tudo o que tu me contou não seja verdade, mas isso me parece mais plausível.

RAPAZ — Por quê?

HOMEM — A roupa que tu vestes: a bermuda, a camiseta, o boné. (Mostrando o livro) No teatro, as personagens, como qualquer ser humano, veste uma máscara. Criamos sempre um sentido, alguém que gostaríamos de ser.

RAPAZ — Máscara?

HOMEM — Máscara não é no sentido que todo mundo pensa. É um termo literário dito por Aristóteles. Personagem é igual a uma máscara.

RAPAZ — Será que a máscara que tu veste mesmo é a de Professor de Literatura? Quem tu é, na verdade?

HOMEM — Um homem que tu ainda tentou desvendar e não consegiu?

RAPAZ — É verdade! Tu é o livro cadeado mais fechado que conheci.

HOMEM — Então me explica... Por que tu queres saber quem eu sou? Um motivo maior nisso há.


FIM DO TERCEIRO ATO

segunda-feira, 14 de março de 2011

BAILE DE MÁSCARAS NUM DIA DE SOL ESTRELADO - segundo ato

SEGUNDO ATO

Homem, rapaz


RAPAZ — Sou apenas um jovem que acabou de perder a mulher e que foi assaltado. Mas o que mais me dói é a perda da mulher que amo (mostrando o anel prateado do dedo direito).

HOMEM — E como foi essa perda?

RAPAZ — Ela não aceita quem eu sou. Até a minha sogra impediu a minha entrada em casa.

HOMEM — Quem tu és? O que tu faz?

RAPAZ (tristonho) — Ela diz que eu devo tomar rumo na vida. Muito prazer, Ardo.

HOMEM — Como, não ouvi?

RAPAZ — Ardo.

HOMEM — E por que Ardo tem que tomar um rumo na vida?

RAPAZ — Porque eu sou Promoter. Trabalho com eventos, festas. Ela é muito ciumenta. Ela acha que eu to traindo ela.

HOMEM — Ela teria razão em pensar isso?

RAPAZ — Não. Nunca fiz isso. Qual é o teu signo?

HOMEM — Áries.

RAPAZ — Áries?! Signo de pessoas calmas. Combina com o meu?

HOMEM (Sorri de surpresa) — Pessoas calmas? (Sorrindo) E qual o teu signo?

RAPAZ — Leão. Áries e Leão são signos que se dão bem.

HOMEM — Nossa temos um astrólogo!

(O rapaz ri).

RAPAZ — Não chegamos a tanto. Mas o ariano é calmo, sereno, não gosta de briga, seguro.

HOMEM — Nossa... calmo, sereno, não gosta de briga, seguro... A tua namorada é de Áries para teres tanta experiência com os astros?

RAPAZ — Não, ela é de Peixes.

HOMEM — E cadê a tua namorada agora?

RAPAZ — Ela pegou um carro e saiu desesperada pela free way.

HOMEM — Quantos anos tu tens?

RAPAZ — Dezoito

HOMEM — E ela?

RAPAZ — Dezessete.

HOMEM — Dezessete anos dirigindo na Free Way?

RAPAZ — Sim, ela tem uma carteira especial de motorista. Mas ela só pode dirigir com a mãe dela. A questão que ela não está com a minha sogra. Na verdade nem sei se ainda é minha sogra. Essa mulher me odeia. Ela é uma perua. Ainda bem que o carro é automático.

HOMEM (desconfiado, mas controlando as emoções. Agindo naturalmente) — Então a tua namorada foi de carro, sozinha, para Porto Alegre, sem a tua sogra, que por lei, deveria estar no carro com ela. Creio que esteja faltando alguma coisa nessa história para que ela precisasse sair de uma maneira tão... descontrolada.

RAPAZ (com pesar) — A minha namorada é muito ciumenta. Ela toma remédios. Ela é bem descontrolada. O que eu mais quero é tê-la comigo. Que ela me aceite de volta.

HOMEM — Mas ela vai te aceitar. Tenha fé.

RAPAZ — Eu acredito no meu São Jorge.

HOMEM — Muito bem. São Jorge, então, vai te ajudar.

RAPAZ — E para piorar o meu caso ainda fui assaltado.

HOMEM (virando-se para o rapaz) — Hum!

RAPAZ — Nunca mais venho a Tramandaí. O cara pegou minha mochila. Mandou que eu desse o meu celular. A sorte que eu tinha dez reais no bolso. Foi por isso que eu paguei a passagem. Quanto custava a passagem?

HOMEM — Eu peguei R$ 22.

RAPAZ (sorrindo) — Tive um desconto.

HOMEM (sorriso amarelo) — Sim. Veja o lado bom de tudo isso. Agora está indo para casa e resolver tudo com a sua namorada.

RAPAZ — O pior é se eu não resolver. Eu moro com elas.

HOMEM — E teus pais?

RAPAZ — Minha mãe morreu no meu parto. E meu pai morreu quando eu tinha quinze anos.

(Silêncio. Por-do-sol. Trânsito congestionado. Os dois olham por cima das poltronas)

RAPAZ — Era o que estava faltando.

HOMEM — Mas de todos os males, o congestionamento é o menor drama de todos. Já já continuaremos.

RAPAZ — E tu. Me conta. Quem tu é? Fala um pouco de ti.

HOMEM — Sobre o que queres saber?

RAPAZ — Tua profissão, por exemplo. A cor dos teus olhos, que eu ainda não vi.

HOMEM — Mas para que ver a cor dos meus olhos se eles tem a mesma cor dos teus?

RAPAZ — Verdes?

HOMEM — Não. Mas eu posso ver os teus, e eles não são verdes. São castanhos.

RAPAZ — Sem o sol, eles são verdes.

HOMEM — Então o dono desses olhos verdes que só refletem essa cor na sombra é um Promoter.

RAPAZ (pondo a cabeça na poltrona e olhando para o homem. Sorriso e olhar maliciosos) — Sim, um viajante.

HOMEM — Viajante?

RAPAZ — Sim, já fui para muitos lugares no mundo: Londres, Estados Unidos, Paris.

HOMEM — Que bacana! Quanta experiência já na tua idade!

RAPAZ — Conheço pessoas no mundo inteiro.

HOMEM — E como tu fez para viajar por todos esses lugares?

RAPAZ — Sendo um viajante.

HOMEM (desconfiado, mas agindo naturalmente, mentindo, fingindo pesar) — Eu tenho o sonho de conhecer Paris. (Falsa euforia) Diga-me como é. O que conheceste por lá? (Pensando) — Agora eu pego esse gurizinho.

(Já era noite. O homem ainda escondia seus olhos por meio dos óculos escuros)

FIM DO SEGUNDO ATO

sexta-feira, 11 de março de 2011

BAILE DE MÁSCARAS NUM DIA DE SOL ESTRELADO - primeiro ato

PRIMEIRO ATO

Homem, rapaz, moça loira, cobradora, mulher idosa, motorista e uns cinquenta figurantes

(Um homem de óculos escuros estava num ônibus. Era a linha Capão da Canoa-Porto Alegre. Todos os lugares estavam ocupados. A luz forte do sol, na Av. Paraguaçu, perseguia o ônibus).

HOMEM (pensando) — Merda! Esse sol-absurdo vai me perseguir a viagem toda? (Olhando o relógio). Quatro e meia da tarde! Ainda tem três horas de viagem. (Olha para a loira a seu lado).

(Ao lado deste homem, um loira, que em seu colo segurava um travesseiro e sua bolsa de Nova York e seu celular. Ela escutava música. Tentava proteger o rosto do sol. O homem, percebendo isso, fechava a tela, protegendo-os daquele sol).

HOMEM (pegando o celular. Discando) — Alo! Oi! Sim, sim, acabei de chegar a um lugar nunca antes navegado. Passei por uma via-crusis, digno de uma obra de Clarice Lispector. Foram dunas, poeira, buracos. Creio que ainda esteja em Mariluz, ou uma dessas praiazinhas, ou mesmo Imbé. Não sei. Só sei que não se trata de Tramandaí. O ônibus levou uma hora para chegar aqui. Além do sol ser um absurdo, temos essa Paraguaçu terrível. Sim... claro (rindo de algo). Depois eu te ligo, se eu chegar vivo em Porto Alegre. Creio que tenhamos que cruzar a linha internacional da data. Vou chegar ontem em Porto, as três da tarde (risos). Até ontem (risos). Beijo.

(O ônibus sai da rodoviária de Mariluz. O vento bate faz com que as telas que protegia o sol de debatam. Rodoviária de Imbé. O homem de óculos escuros abre a tela de proteção. A loira a seu lado se move, dando a entender que vai levantar. Ela arruma guarda o celular na bolsa, se levanta, anda pelo corredor do ônibus e vai embora. O ônibus sai de Imbé. Mais sol. O homem olha contra o astro. Nada diz. Rodoviária de Tramandaí. Alguns passageiros desembarcam. Outros embarcam. Ele se levanta, deixa seu travesseiro e o livro na poltrona e anuncia ao motorista que está indo ao banheiro. Instantes depois, ele regressa).

HOMEM (pensando) — Que não venha nenhuma criança se sentar comigo. (Olhando ao redor do ônibus). Só há três ligares disponíveis. Acho que vou sozinho até Porto.

(O ônibus arranca. O sol volta a bater. O homem não fecha a tela. Pouco tempo depois o ônibus para e um rapaz embarca. Este conversa alguma coisa com a cobradora. O homem de óculos o observa. O rapaz se senta numa das primeiras poltronas. Em seguida, uma senhora embarca e o rapaz se levanta. Fica de pé).

HOMEM (pensando) — Que barbaridade! O rapaz está praticamente em cima da senhora.

(A cobradora falou algo para o rapaz. Ela fez um gesto com a mão direita. Ele passou a andar pelo coletivo. Chegou próximo do homem).

RAPAZ (sorrindo) — Posso te fazer companhia?

HOMEM (se arrumando na poltrona) — Sim, claro (sorri).

RAPAZ (olhando para o livro) — Que livro é esse?

HOMEM (se voltando para ele) — Teatro.

RAPAZ — É diretor de teatro?

HOMEM — Não.

RAPAZ — Sobre o que é esse livro.

HOMEM — Teatro do Absurdo. Ubu Rei, de Jarry.

RAPAZ — Tu é do Teatro?

HOMEM — Não. E tu? O que faz?

RAPAZ — Quer saber o que faço? Vou te contar quem sou eu. (Sorriso )

(O sol não estava mais na janela do homem. Agora o sol estava do outro lado do ônibus).

FIM DO PRIMEIRO ATO

quinta-feira, 10 de março de 2011

Segundo dia com Hélio

No dia seguinte, na segunda-feira de carnaval, carnívora como somente ela, o encontro com Hélio foi inevitável. Thaís Deamici, a mãe desta, a prima desta e eu amigo destas todas fomos para a beira da praia, onde Hélio já nos aguardava com sua paciência grotesca. Esse admirador de praias, de surf, de corpos apolíneos, adorava observar como tudo acontecia. Sedento, aquecia-se e aquecia todos os corpos. Tratava-se de um opulento promiscuo.

Quando lá chegamos, ele sorria para nós, iradiando a espiritualidade que somente ele poderia proporcionar. Por mais que seja um vilão, Hélio era um ser iluminado. Sarcástico, irônico, se metamorfoseava de paciente, enquanto seu espírito, ansioso e destemido, viajava por todos os trópicos e meridianos. Seduz e afasta homens.

Mas, naquele dia, ele não queria saber se paciência, queria ação. Tratava-se de ALGO que a metereologia não poderia prever. Ele aparecia quando bem entendia. Por isso era sarcástico e irônico, ria de tudo e de todos que pensavam crer nas facetas de um homem loquaz. Inveterado, puxou-nos para a água e maneira voraz. As ondas se abalavam em beijos escondidos e afogados. Mulheres e crianças, como sempre primeiros, olhavam perplexas a discrição daquele Hélio paradoxal. Cada vez mais rumo à África nos aproximávamos. Sim, fundo, mais fundo, extravasável, trangressível, cossecantemente intangível.

O salva-vidas da casinha 71, casinha seleta, nada familiar, nem ligada ao samba, casinha das pessoas da paz; diferentemente da 75, repleta de samba (QUIOSQUE-SAMBARILOVE), gado humano, crianças gritando (o que Hélio também não apraz), bolinhas voadoras em nossas cabeças, latinhas de cerveja por todo o lugar, milhos verde (bem cozido, bastante manteiga e SAL) sem vida no chão, carcomidos pela poeira das rochas oceanográficas. Mas como ia contando o quadro clínico da dor, o salva-vidas da casinha 71 não precisou nos salvar, visto que Hélio, que nos acompanhava por conhecer todos os mares (ele é muito viajado), sabia até onde poderíamos avançar naquele oceano não muito privilegiado.

Depois de enxergar vários Hélios, depois de sentir um espasmo de gozo, no Atlântico Sul (que tristeza!), fiquei na areia, dormi. Mas antes, com a potência do fogo de Hélio, este, queimou o cigarro. Cigarro que fumei!

No mesmo momento que o frio chegava, Hélio tinha ido embora. Foi-se. Foi-se apenas com olhar, sem toque, sem nada, sem uma fotinho. Somente um sorriso, uma lacrimejada e desapareceu com a ventania que trazia as nuvens da noite.



No dia seguinte, Hélio não apareceu. As nuvens esparsas impediam que nos víssemos. Hélio, o deus sol, estava inoportuno. Era terça-feira de carnaval, sem mais carne. A previsão do tempo não preverá tanta ventania e pouco Hélio, ou melhor, pouco sol.

domingo, 6 de março de 2011

Encontro, fora de época, de carnaval, com Hélio

Era ainda sexta-feira, quando Hélio me convidou para ir a Capão da Canoa. Tinha sido uma sexta-feira emocionalmente difícil e nada como ele, a quem amo apenas no inverno. Sim, Hélio só aparece em minha vida no inverno. Visto que Hélio se trata de um ser fogoso e quente, dirigi-me ao convite a ele, visto que a vida em Porto Alegre estava muito cansativa e intensa.
No sábado, decidi preparar meu TCC, para que no domingo, meu amigo Hélio, que é muito melhor em Capão do que na capital. Parece que Hélio é melhor no litoral, pois ele se torna mais interessante com a presença inelutável de um irmão, o vento, o primo irmão do Nordestão.
Thais Deamici, que tinha me convidado para ver (rever) Hélio, seu amigo também, esperava-me na rodoviária de Capão. Foi muito interessante revê-lo, conforme havia nos convidado, para encontrá-lo em Capão Novo, uma praia de bom-astral, digna de uma estrela que encontraríamos.
Assim que Thais e eu o vimos, levantamos, juntos, as mãos para o céu. HÉLIO, meu amigo, que bom vê-lo! – dizia Thais. Abraçaram-se até um deles de torrar. Depois, meu olho se fechou assim que a forte luz que irradiava Hélio. Este sorriu para mim com seus olhos cor de mel, sorrimos. O seu sorriso me bronzeou como o sol.

Foi uma tarde agradabilíssima. Thais, Hélio e eu. Antes do anoitecer, Hélio se despediu de nós, com o frio que faz no litoral. Ele fora para casa, prometendo que nos encontraríamos para um flerte fatal. Fora uma tarde muito rápida. Hélio pediu-me paciência, visto que teríamos ainda três dias para nos aventurarmos, para nos aventurarmos num ponto deserto de Capão Novo, vida nova.

Caros amigos-leitores-seguidores. Deveras estão surpresos com essa descrição, como também devem estar se questionando quem é Hélio. Hélio é uma estrela discreta, não gosta de fotos publicadas, nem estrelismos, visto que não é a primeira que conhecemos. Mas amigas, amigos, que conhecem a minha história, paciência! Digo o mesmo que esse homem me falou: PACIÊNCIA!!! Amanhã todos saberão do que digo, ou não, mas por favor, não contem para Hélio, pois ele não acessa internet, nem se conecta com essas ferramentas que unem os humanos desunidos. Até amanhã!!!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Homem do Hino

Caros leitores-seguidores... vou contar agora, um fato que ocorreu em minha vida, ainda nesta manhã. Lá estava eu, junto à equipe, organizando um evento que reuniu todos os Diretores de escolas estaduais de Porto Alegre. Criei o Power-point. Fiquei responsável pelo passar dos slides e do Hino Cacional. Quando o horário deu o sinal, e com a chegada do Secretário Estadual de Educação, José Clóvis de Azevedo, percebemos todos uma grande tragédia: os microfones não funcionavam. O evento ocorreu na Escola Parobé, em Porto Alegre. Tudo tinha sido testado, visto que o som funcionava muito bem quando passava a Banda Marcial Juliana, a banda marcial do Colégio Júlio de Castilhos. Visto esse terror, o vice-diretor do Parabé, engajado com a causa, e com seus equipamentos, pediu que eu fosse até a sala dele e pegasse outro equipamento. Estavam todos já sentados, aguardando o início dos trabalhos. Corri rumo ao equipamento. No meio do trajeto, um colega gritou por mim, informando-me que o som tinha sido restituído. Quando regressei ao auditório, cercado por uma plateia com mais de 250 diretores, a minha Coordenadora, que emanava sua voz no microfone, disse a todos: “Chegou o homem do Hino”. Mal sabia eu que efetivamente seria o HOMEM DO HINO. Não obstante, pus-me no meu semi-gabinete, e disparei o play para que o hino fosse gritado para toda Porto Alegre ouvir. Não, Porto Alegre não ouvia. O silêncio era ensurdecedor. A máquina não queria fazer com a pátria amada aclamasse suas cordas-surradas da educação. Usei de outros artifícios tecnológicos. Tudo em vão. Logo disse a minha Coordenadora com tom blase: “Não deu!”. Como num bambolê, esta disse a todos: “Não deu, pessoal. Vamos cantar, de pé, o Hino Nacional”. AGORA O HOMEM DO HINO ENTRARIA EM CENA. Observe, leitor-seguidor. Como um bom Ramones, one, two, three, four... “Ouviram do Ipiranga...” Cantávamos todos. Foi muito bonito e emocionante. Certo momento da grande solenidade à flâmula, minha Coordenadora fazia gestos discretos com as mãos. O sinal não-verbal de girar os dedos me deixou um tanto descofortável, pois não entendia o que a chefe me dizia por baixo dos momentos protocolares. Mal sabia eu que estava fazendo a maior gafe à sociedade brasileira.

O evento se deu com compensador sucesso. O microfone passou a funcionar. Os slides deslizaram com paz no futuro e gloria no passado. Discussões se deram para a melhoria da educação da 1ª Coordenadoria Regional da Educação.

Depois, com o fim do evento, levamos o que restou de salgadinhos e docinhos para a Coordenadoria. Lá, todos em volta dos deliciosos acepipes, chegamos ao ponto em que eu entrei em pauta. Falavam sobre a quebra de protocolo que eu cometi na frente do Secretário e na frente de todos os Diretores. O que era, Meu Deus? Eu, o próprio, no suor das ânsias do Hino não ter tocado, e também por estar na frente de tal autoridade oficial, cantei, como o varão à musa, o Hino Nacional de costas para a bandeira. Sim, leitor que me persegue e ri deste evento, ou que antegozas a minha volúpia. Era por isso que minha Coordenadora, durante um ato tão solene à pátria salve-salve, girava os dedos para que eu me recompusesse.

No final, como uma boa chave de ouro, disse: “É que do outro lado estava a bandeira da França, minha gente. É por isso”.

Todas caíram numa gargalhada protocolar.

Fim.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

E assim foi, simples, básico, informal, e bem temperado.

Totalmente imprevisível, este (e aquele), que foi um final de semana diferente em minha pseudoidílica vida. Tinha eu marcado um (petit) jantar com Thais Deamici em meu tugúrio na sexta-feira à noite. Mamãe preparara seu famoso carreteiro à mussarela. Depois de termos perdido nosso tempo, em digestão, assistindo a Insensato Coração e ao bélico episódio daquele “programeco” que pós-segue a trama de Gilberto Braga (Vale Tudo? – Insensato Coração?, quanto hibridismo). Aquele BBB indecoroso e vazio. E tão vazio, que ao assisti-lo, quase meu estômago se esvaziou como um Vulcano do Olímpo, em queda arquejante da minha moral. Saltei em fuga alucinante a minha alcova. Assim que cansamos de tantos pensamentos enervantes, passamos a assistir a uma comédia romântica, obras norte-americanas muito caras a mim. Desta vez, ou pela décima vez que assistia à película, SIMPLESMENTE COMPLICADO. Depois, continuamos a conversar, conversar. Invadimos a cozinha a procura de alguma bebida ou acepipe que melhor nos aprouvesse. Assim que olhamos para o cuco, um grito lancinante ecoou da glote: Três da manhã. Num piscar de olhos dormimos.

Na manhã derradeira de horário de verão (ó quanta tristeza), enquanto Thaís ainda sonhava com os Sonhos D’Ouro, eu ia lendo meu Émile Zola. Mais tarde, acordados para a realidade naturalista, tomamos o petit-déjeuner. Horas depois estamos num Centro Espírita, mais uma aventura. Lá nos encontraríamos com Dieniffer, amiga-aventureira. Após inúmeras aventuras espirituais e gritos dignos de espíritos obsessores que necessitavam da ajuda das luzes da espiritualidade maior, todos presos a urbe da matéria, aclamando por dores dignas da carne dos encarnados, fomos os três, devidamente sanados por passes mediúnicos, salas misteriosas de desobsessão, palestras elucidativas, fomos os três tomar um café no shopping Bourbon Ipiranga – local onde não há sequer uma livraria genuinamente de livros digna de presença de alunos de Letras. Logo, fomos para um café com croissant no Mc Café (algo que nos salva desse fast food letal). O café vale muito a pena. Ficamos por uma hora naquele lugar. Depois ficamos parados, olhando um para o belo semblante do outro, e os três se questionando: o que iríamos fazer? Para chegarmos a um denominador comum, ficamos mais metade de hora investigando os possíveis destinos. Pensamos Cidade Baixa, na Rua da República – boa pedida. Dieniffer sugeriu minha residência: compraríamos um vinho no Zafarri e pediríamos uma pizza. Para mim, qualquer destino esta ótimo. Thais não queria casa, queria uma Polar no Tapas (mais uma cerveja no Tapas). Depois Dieniffer sugeriu que todos fossem para a casa dela (longe do circuito literário). Pensei nos bolinhos indianos do Tapas. Fomos para o caixa eletrônico. De lá entramos no Zaffari para comprarmos o vinho. Lá, tive uma ideia: ao invés de pedirmos uma pizza, propus preparar o prato da noite. Elas poderiam escolher. Pediram-me o Misterioso Strogonoff de Alex Valery de Paris. Nas compras, destacamos que o preço do quilo do Patinho estava pela hora derradeira da morte. Então indiquei que fossemos comprar a carne perto de minha residência, cujo açougueiro, digno do Ventre de Paris, cortava as iscas, para mim, a seu bel-prazer.


Horitas despues, o Misterioso Strogonoff estava à mesa. Diennifer fez a salada e o brigadeiro; Thais preparou o ponto da locupletagem. Mais tarde, depois do jantar, abrimos o vinho e caímos no brigadeiro. Assistimos VICKY CRISTINA BARCELONA – evidentemente que Dieniffer e eu suspirávamos com algumas cenas.

Em seguida do jantar, do brigadeiro, do filme, do vinho, tivemos energia para ler – lentamente – em francês, e mais energia ainda para treinar o francês falado – que é muito mais fácil ou adequado. Ficamos uma hora com o CD de francês:

— Bonjur, Je m’appelle Céline Legrand.
— Bonjour, madame. Monsieur Rossi, enchantée
— Enchantée.
— Alors, à demain ?
— Oui, au revoir.
— Au revoir. À biêntôt.

Dorminos.

Na manhã seguinte, assim que acordei, peguei Zola, uma leitura gostosa. Depois, quando ouvi vozes, dei sinal de vida. Dieniffer surgiu nas escadas. Falamos por boas horas sobre literatura e sobre a baixa esfera composta por professores da faculdade porto-alegrense (coisas de pessoas pequenas).

Descemos. Que horas era? Thais dizia um horário. O cuco da cozinha dizia outro. Meu celular mostrava outra posição. Será que mudou automaticamente? O computador estava louco, informava 23h. O sol desaparecera numa nuvem. Quase fui à janela gritar: Que horas sãaaaaaaaaaaaao? Não importando, fomos para o nosso petit-déjeuner, regado a iogurtes, café creme, grand café e le thé au lait, fois gras...

Ficamos dissertando sobre o futuro, como sempre. Sim, sobre o futuro. Por que conversar sobre o presente, pois se justamente o presente que vivemos? Sim, sobre o futuro. Pois é pensando no futuro, que os pensamentos, antes passados, se realizam abruptos, e por vezes demorados, nos nossos primas realizadores e decorativos de nossa vida gutural e nada fugaz. Sim, pensamos nos projetos intelecto-emocionais que nossas propensões de elevação de alma e belo saber de pequenos e inefáveis burgueses que pensamos que somos. Pensamos como sonhadores do amanhã, e somente do amanhã, porque o agora já tornou-se passado, e o próximo segundo é o da realização do projeto anteriormente exclamado, exclamado com tanta volúpia e energia atômica, que num espasmo de gozo frenético e fugaz, esse sim fugaz, se esvai para o próximo projeto.



Fim abrupto e sem sentido... que continuasse o final de semana.

E assim foi, simples, básico, informal, e bem temperado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Porto Alegre diluvial

Era um dos dias mais lindos do verão 2011. Céu nublado, uma chuva gostosa que caia no asfalto intumescido de Porto Alegre. A cidade estava abandonada, as casas se acolheram num átimo de trégua do tormentoso calor, de cuja Natureza não suportava a pressão. Justamente naquele belo dia de chuva, dias desses de ficar em casa lendo um bom livro ou assistindo a uma boa comédia, com pipoca e guaraná (receita da Antártica), seria um programa legal, mas mais legal ainda é ter marcado, antes num dia de sol, dia feio, um encontro com minhas amigas: uma tarde de sábado entre muitas risadas (humor que enerva como um ENO), belas conversas sobre o cotidiano-absurdo e sobre os projetos mais obscuros que enervam, como o mesmo sal de frutas, nas nossas mentes borbulhantes e rocambolescas.

Porém, um belo dia não significa que ele seria de todo belo. Primeiramente tive que cruzar a cidade, ir a um distrito totalmente fora do meu circuito literário: zona norte da capital. Cheio de esperança em encontrar a primeira estação de metro perto de minha residência, dei-me conta que não estava em Barcelona. O que é uma tragédia escrita por Sófocles, para mim. Contentei-me com o fajuto ônibus da Carris. Fiquei mais de vinte minutos aguardando um mísero T2. Esperando um mísero T2 na companhia mais arbitrária da alta-roda porto-alegrense. Bem que eu poderia ter pego na internet os horários deste ônibus, pois um dos meus ódios, que são poucos – dois – e um deles é ficar numa parada de ônibus aguardando o coletivo. Para mim, PARADA-DE-ÔNIBUS, como já diz por si própria a palavra aglutinada, o que deve parar na parada de ônibus é o ônibus e não os reféns do governo (e ainda por cima a passagem está pela hora da morte... estou morrendo por isso, sim, morrendo, porque mendigo meia-passagem pelo fato de ser um estudante). E como ia dizendo, desculpe as fugas de assunto, esse é o meu maior mau, mau esse de toda uma sociedade, sociedade virulenta de subjetividade. Mas como eu ia dizendo, mais uma vez, sobre os meus ódios, o meu segundo, e último, ódio, é de esperar por alguém. Odeio quando marco com alguém em determinado horário e esse alguém se atrasa. E por odiar isso, acabo odiando quando alguém espera por mim. Sim, minha amiga Dieniffer esperava-me no Triângulo da Assis Brasil.

Quinze minutos depois, quando cheguei à Assis Brasil, deparei-me com aquelas paradas de ônibus estranhas, de uma cultura muito estranha para mim. Ônibus com letra A para em determinado espaço, que a B e a C não estacionam. Lá estava eu a correr atrás dos ônibus da Conorte: “Passa no Triângulo?”. Lá vinha um Passo das Pedras. Lembrei de um terrível trauma nessa idílica linha turística do porto dos casais. Sai correndo por entre as poças voadoras. Mais tarde vinha outro vermelhinho da Conorte, Nova Gleba. Que isso, minha gente? Onde fica Nova Gleba? Em seguida decidi atacar a linha Hospital. O motorista, simpático, respondeu-me com amabilidade, que não passava no meu destino. Esperei. Esperei. Esperei. Até que surgiu um Elizabeth. Ataquei. Entrei no coletivo. Rapidamente já estávamos no Obirici. Foi neste momento quando mandei um torpedo para Dieniffer, que me esperava há mais de meia-hora. Assim que passei pelo Shopping Lindoia mandei um rápido torpedo para minha amiga. Ali anunciei, mentirosamente, que o ônibus, para o azar do relógio, tinha estragado. Um minuto depois estava no destino. TRIÂNGULO. Quando ali desci, pensando que estava protegido da chuva perpétua, fui congelado com um caldo vindo dos céus. Tinha passado por um momento de desatenção. Como estava no Brasil, as obras estavam todas pela metade. Somente a metade do terminal de ônibus estava protegida. O lugar era um novo dilúvio. E sentadinha num banquinho, Dieniffer me aguardava com sorriso de musa do verão.

Uma vez cumprimentados, telefonei para Felícia para sabermos a melhor rota para irmos a sua casa. O leitor que me acompanha não há de acreditar no que linha de ônibus ela disse para eu pegar. Caso sejes (e sejes está certo, neste caso) um leitor de boa intuição (e atento a ironia), Felícia pediu que eu pegasse a linha Elizabeth, que me deixaria duas paradas de ônibus do Triângulo. NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO. Quase tive uma sincope pluvial com aquela orientação. Ainda por cima ela recomendou-me várias outras possíveis linhas: Nova Gleba (onde fica isso?), Educandário, Agostinho. Dois minutos depois estávamos passando pelo Motel Medieval, que era muito parecido com o Castelo de São Jorge. Esse era o ponto turístico do bairro. Outro ponto turístico do distrito era a BIGFARMA, que ficava à esquina da casa de minha amiga Felícia, que mora na Gruta Zeferiana.

Depois sim. Foi somente gozo. Além de termos nos empanturrado com os melhores acepipes e da guaraná (sem pipoca e sem filme), fomos trocando experiências e observando a dialética do comportamento humano carente de locomoção. Divertimo-nos. Depilamo-nos. Carregamo-nos. A noite era um bebê. Muito tinham ainda que contar, pois eu, um bom homem introspectivo, fui para o meu tugúrio locupletar-me de mim mesmo. E isso também é muito bom, além de estar dentro de casa com os amigos no outro lado da cidade.

Eis uma história simples, digna de uma redaçãozinha, que as fajutas professoras de português, retrogradas, pedem para escrever sobre esse tema tão erudito. Na próxima vez escreverei sobre as minhas férias. Porto Alegre é demais! E Porto alegre me dói! Mas não digo a ninguém...


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Siga-a.

Caros amigos, queiram ver o perfil que minha amiga Felícia fez de mim, no blog que ela administra.

Siga-a:
http://feliciavolkweis.blogspot.com/2011/02/alex-valerio-personagem-esferica.html?showComment=1297350770344#c7587309393073765914

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mais uma vez Paris - parte 3/3 - POSTAGEM FINAL DA VIAGEM

Sim, já era hora de voltar para casa...

Mas, antes, continuemos a narração travada.

Sabe-se que Cléia e eu andávamos pelo Boulevard Saint-Germain à procura do Café de Flore. Como tínhamos deixado o endereço no hotel, não sabíamos para que lado ficava o café. Em Paris, as numerações dos prédios e residências são por ordem (um, dois, três), diferentemente como é em Porto Alegre, uma desordem aleatória de números (que em sua média se resume de dez em dez). Logo, o achamento do Café foi uma dura caminhada. Andávamos entorpecidos pelo grande Boulevard, o boulevard mais intelectual e elegante da capital francesa. Cândida, a amiga dos teleféricos perdidos, comprara seu calçado na lojinha Côte a Côte com pleno sucesso. Quando esta pensara que poderia simplesmente ver o preço de uma sandália, pegá-la e ir ao caixa para pagar, chegou à conclusão que as coisas eram mais simples ainda, pois a vendedora que a atendeu falava a última língua do Lácio. A atendente era de Cabo Verde. Enquanto travavam uma conversa na mesma língua, em Paris, Dieniffer entrava em processo de desencarne; mas um trespasse em grande estilo. Mas não. Mentira. Ela aguentava, em escuro silêncio, os gritos que de seu corpo quase impulsante. Fora Lindy quem percebeu o estado de nossa amiga. Mais tarde estávamos nós, todos, com as últimas forças de turistas não alimentados, em direção ao café existencialista. Inicialmente, para nos coordenarmos, tivemos, Cléia e eu, pedir auxílio a duas francesas. Abordei-as e falei:

— Je voudrais Café de Flore. Jean-Paul Sartre. Simone de Bouvoir. Sil vous plaît.
Elas faziam cara de quem não sabia o que era o Café, o café mais conhecido do mundo. Falavam algumas coisas em francês, outras em inglês. Uma vez desacreditadas, fomos andando pela mesma rua da loja Côte a Côte. Quando andávamos, as duas francesas vinham, desesperadas, gritando por nós.
— Vous voullez... vous vollez. Garçon. Garçon.
Olhamos para trás. Elas queriam nos convencer que a ir a outro café, visto que o distrito era apinhado deles. Agradecemos. E elas se foram.
— Que amor as francesas. Estamos encantados — eu disse a Cléia. Agora sim, todos novamente, e Dieniffer quase sem pulso, e muito discreta em seu caso clínico (ou a minha total insensibiliade). Fomos andando, e andando, e andando, e andando por aquele boulevard. Quando até eu estava já me entregando, a luz da História me guiou até X do tesouro. Deparamo-nos na Place Sartre-Bouvoir.







Estamos perto. Muito perto. Alguns passos depois, felizes da vida, adentramos ao café. Sentamo-nos. Quando descansava naquela poltrona pensava: “Será que Sartre se sentou nessa mesmo estofado?” As meninas foram ao toilette. Enquanto isso eu ia observando as pessoas. Algo de muito estranho acontecia ali. Tive uma leve sensação que eu era um estrangeiro ali dentro. A forma como as pessoas se portavam e se vestiam era muito além daquela que eu me comportaria e/ou me vestiria para ir tomar um simples café. Tive a nítida sensação, ali, que estávamos, não num simples café. Os garçons passavam por nós e não nos atendiam. Decidimos subir. O garçon apareceu. Não nos abordou. Ficou parado. Depois entrou um casal de idosos. A velhinha, quando se sentou, alinhou os cabelos. Ficamos, os brasileiros, e o casal de velhinhos de não sei de quê lugar do mundo, esperando ser atendidos. O garçon parado como um obelisco da Place Vêndome. Este, rendido pela cultura, foi até uma caixinha e dali pegou os menus. Entregou a nossa mesa e a dos companheiros da terceira idade. Frente a esse impasse cultural, as risadas foi o que somente me restou. Mas essas risadas cessaram no momento em vi o preço dos pratos. O meu Croque Monsieur custava €10. Para uma simples coca-cola era necessário desembolsar a bagatela de €6,60. Jamais pagaria R$15 por uma lata de refrigerante.Um café da manhã custava €25. Quase cinco vezes mais que o mais saboroso café-da-manhã que tomamos em Montmartre. Chegamos a conclusão que deveríamos sair dali. Mas como isso se daria? A luz aconteceu quando o casal de velhinhos levantou-se, o senhor falou algumas palavras entre risos e desceram as escadinhas. Entramos na onda da debandada. Levantamo-nos. Cleia fez uns trejeitos de falta de compreensão do menu (até poderíamos almoçar ali, mas pedir um prato, com nome em francês, evidentemente, e não saber o que pediríamos e pagarmos por isso muito caro – para um turista estudante universitário...). Fomos embora.


Pegamos o metro na estação Saint-Michael. Descemos na Châtelet. Na conexão com a linha amarela, descemos na estação LOUVRE-RIVOLI (estação que está dentro do Museu do Louvre).
Porém, com as inúmeras saídas, acabamos nos deparando com a saída para a rua, na Rue de Rivoli. Corremos para um café. Entramos num charmoso café. Uma atendente muito simpática nos atendeu e nos acomodou numa mesa de janela para uma estreita e típica rua europeia. Ela ainda me ensinou a falar francês. Muito se falava que os franceses não tratam bem os turistas. Cada caso não deve ser avaliado generalizadamente. Das duas vezes em que estive nessa cidade, sempre fui bem tratado pelos irmãos parisienses. Pedimos nossos alimentos. Lindy pediu salsicha com fritas (prato preparado, tipícamente, por Lise Macquart, do romance de Le Ventre de Paris, de Émile Zola). As meninas pediram Lasagne. E eu, evidentemente, provaria o misterioso Croque Monsieur. Os pratos chegaram loucos para serem devorados. Quando deparei-me com o que eu pedi, um susto tremendo de quebra de expectativa me sugou: o tão aguardado Croque Monsieur é, nada mais, nada menos, do que uma torrada. Uma torrada bem trabalhada, com queijo prensado dentro e fora do pão.
— Lindy, poderia me ceder, para eu provar, algumas batatas e um pedacinho dessa salsicha?


Fomos andando pela Rue de Rivoli, um dos cortes mais Reais (de realeza) de Paris. Andávamos por uma das arestas do Louvre. Assim que vimos um dos arcos disponíveis para transpor, o fizemos e do outro lado estava a Pirâmide de entrada no Museu. Cândida chorava, desacreditada por estar ali.

Entramos. As meninas pagaram €9,50 para ingressar. Eu optei por ir ao Musée D’Orsay. Deixei-as. Marcamos de nos encontrar, pontualmente as 18h na frente da Pirâmide, justamente na placa que diz Musée du Louvre.


Era 17h15min. O D’Orsay fechava pontualmente as 18h. Eu tinha que entrar para ver pelo menos alguma peça de Monet, Manet, Dégas, Cézanne. Eu tinha que pelo menos ver O ABSINTO. Uma ansiedade quis me dominar quando me vi sentado, sozinho, um brasileiro sozinho numa estação de metro. Com o mapa na mão entrei no Louvre-Rivoli. Eu sabia que o D’Orsay ficava perto do Louvre, mas não lembrava o quanto. No metro, decidi descer na estação Concorde. Tomei a rua. Olhei para o longe e lá estava o Sena (o museu beira o rio). Para ter certeza, abordei um garçon, tipicamente francês, levemente delicado, afeminado, loiro, fumando um cigarro, escorado numa banca de revista fechada.
— Bonjour. Ju voudrais Musée D’Orsay, sil vous plaît.
O rapaz me falou uma porção de palavras. No meio delas, muitos gestos que me direcionavam.
— Merci.
— De rien — disse ele dando uma tragada.
Fui me dirigindo ao Sena. Quando me aproximei vislumbrei o museu do outro lado. Estava no Quai des Tuileries. Os carros andavam em alta velocidade. Não havia sinaleira para eu atravessar. Nem se quisesse poderia, pois havia uma cerca que me impediria. O Jardim das Tulherias se manifestava ao meu lado. Andava o mais rápido que conseguia. No relógio: 17h45min. Não adiantava. Eles colocam todos para fora assim que o museu fecha. Ia olhando para o D’Orsay. Seria da próxima vez, dizia conformado. Lembrei-me da primeira vez que estive em Paris.

Andava de bicicleta por toda a cidade. O filho de Lúcia e eu. Passamos quatro horas pedalando. Percorremos quase todo o Sena que compunha as arestas de Paris. Naquele dia saímos do apartamento, alugamos a bicicleta no Boulevard Sébastopol, perto do Centre Georges Pompidou. Pedalamos pela Rue de Rivoli, passamos pelo Louvre, pelas Tulherias, passamos pelo D’Orsay, trafegamos o túnel des Invalides, passeamos pelo Campo de Marte, vislumbrando a Torre Eiffel, nos deparamos com Hôtel des Invalides, Place de la Concorde. Almoçamos um crepe na Notre-Dame de Paris. depois continuamos pedalando pela margem do Sena até chegarmos ao 13º distrito, onde fica a Biblioteca Nacional da França. Voltamos tudo. Passamos pela Bastilha. Hôtel de Ville. Quando estávamos chegando em casa, na rua do nosso apartamento (que alugamos na época), na Rue Notre-Dame de Nazareth. Padalávamos, já cansados, quando a Polícia Francesa nos abordou e mandou que parássemos. Eu, com cara de apavorado, simplesmente respondia um Je ne parle pas francais. O policial me fazia mais pergunta. Eu acenava um não e voltava a dizer que não compreendia o francês. O tira simplesmente entoou: Nattion? Eu respondi, e ele não esboçou nenhum tipo de preconceito. Ele começou a explicar a nossa arbitrariedade. Eu, apavorado, não entendia. Gabriel, o filho de Lúcia, compreendeu a charada. Nosso erro foi ter andado na contra-mão (coisa que fizemos o dia todo). No final, não ganhamos a multa de Cem Euros que nos seria imposta por infração de trânsito.

Cheguei na ponte que dava acesso ao Musée D’Orsay. Mas era 17h50min. Assim que cheguei à porta das Tulherias, quase dei um grito de horror, pois o que separava os dois museus era a ponte que ficava antes do Quai Voltaire.

Entrei no Louvre pela pirâmide. Andei pela livraria que lá havia. O Museu fechou. Fiquei transitando ainda o quanto pude. Estava chateado por não ter acessado o D’Orsay.



Na saída, as meninas me esperavam. Estavam chateadas por não terem visto a Vênus de Milo. O tempo era verdadeiramente um inimigo.

Depois fomos à Montparnase. As meninas queriam conhecer a Galerie Lafayatte, que neste distrito, fica na Torre Montparnase. Estava fechada. Domingo não há comércio.

Pegamos um metro. Descemos na estação Bir-Hakeim. Fomos nos despedir da Torre Eiffel. Lá, na beira do Sena, compramos um ticket para passear de barco pelo rio. Com o cartão de estudante internacional ISIC paga-se apenas € 5. Uma hora de intenso passeio. Músicas, explanações sobre os pontos turísticos, o passar de baixo da ponte, a bandeira da França agitando no bateau. Mal sabíamos que ali, naquele bateau, seria o último cenário para a aventura parisiense. Porque ali houve uma celebre história para se contar. Estávamos admirando Paris, conversávamos, fazendo uma retrospectiva da viagem, de todos os acontecimentos já contados anteriormente. Revivemos os mais escandalosos. Riamos naquele anoitecer dourado da cidade. Passávamos por baixo das pontes. Observávamos a Ilê de la Cité. A Notre-Dame. Quando o bateau fazia o retorno, as meninas perceberam que dois rapazes olhavam furtivamente para mim. “Olha os bofes!”, dizia Dieniffer. Discretamente, olhei para eles. Era verdade. Um deles, naquele frio, vestia um casaco e uma echarpe. O outro, de olhar mais instigador, olhar de lince, determinado, vestia uma blusa, o que dava a entender uma maior discrição. O primeiro se entregara com seus trejeitos; o segundo se resignava a dar um olhar. Alguns minutos depois, depois de muitos olhares, duas mulheres surgiram e passaram a tirar fotografias com eles. Os quatro riam e gargalhavam. Nós, coadjuvantes, olhávamos cheios de dúvidas. Eram dois casais? As mulheres perceberam que eles olhavam para mim? Então elas, que estavam sentadinhas, decidiram dominar o terreno? A baixaria começaria ali mesmo. Eu disse:
— Opa! Temos então um bom candelabro italiano. Cinco numa cama não seria nada mal. É hoje que temos um bom ménage à trois. Vamos beber todos e iremos nos divertir num bom sexo transgressor — eu disse em som alto, pensando que se tratavam de alemães, ou americanos, ou finlandeses, ou russos — Elas devem ser lésbicas, ou todos bissexuais. Isso, lésbicas e bissexuais.
Claro, querido leitor, que as coisas não são tão simples, ou não tão óbvias. Tu deves imaginar o terror que eu tive após pronunciar essas palavras, em alto e bom som. Sim, queridos leitores-ansiosos, eles passaram a falar alto, no meio daquela agitação dionisíaca, vendo a Torre Eiffel na frente, toda iluminada. Sim, leitores-espertos, eles e elas falavam em LÍNGUA PORTUGUESA. Logo, eles ouviram nitidamente tudo o que eu os falava.

Enquanto isso na linha 12 do metrô...
Lúcia, Thais e Tia Cida voltavam do passeio que fizeram de Barco no Rio Sena. Estavam cansadas. E insatisfeitas por não terem comprado os cremes que desejavam na Galerie Lafayette da Boulevard Haussmann.

Enquanto isso no Hotel Paris XV...
Marcela e Deisy refletiam, com pés descansados, o futuro incerto de Marcilene. O relógio do laptop indicava nove horas e meia da noite.
— Onde está Felícia?
— Ela sumiu.
— Não podemos esperar para saber da ideia de Felícia. Vamos tomar uma providência, já.
Era a hora de chamar a polícia francesa.

Enquanto isso no Boulevard Sérurier, no Parc de la Villette, uma mulher loira, munida de uma bolsa e uma câmera digital, corria perdida na noite escura do 19º distrito. Corria desesperada, gritando por ajuda, quando uma outra mulher, de andar duvidoso, aproximou-se dela, piscou-lhe o olho, sorriu de soslaio e... Ela saiu correndo, a bolsa caiu no chão, mas a câmera ficara presa em sua mão. A loira gritava. O mulher misteriosa andava atrás dela. Pegara-lhe a bolsa. Mexia no que existia dentro. Uma corrida alucinada. Um táxi surgia insuspeito na Avenue Jean Jaurès. Help me! Help me! O táxi não parou para aquela mulher que corria com uma câmera digital na mão. A misteriosa passante do Parque de la Villette pegou-a pelo braço, esta gritava de terror. Não havia um turista sequer. Não havia polícia que a protegesse. Iam andando Rue D’Hautopoul. Um pequeno cemitério se mostrava ali. Entraram. A mulher gritava desesperada. A misteriosa simplesmente falou:
— Morra, sua MONSTRA. Morra — disse uma mulher cuja sombra dava um tiro a queima roupa na turista da câmera digital.
A mesma sombra corria e entrava na estação de metrô OURCQ, ali perto.
No dia seguinte esse era o grande mistério de Paris. Digno da obra de Eugene Sue.


O passeio tinha acabado. Os olhares continuavam cheios de mistérios. Cândida disse:
— Elas estão percebendo os olhares. Vai dar briga. Vai dar briga.
Todos iam andando, numa fila, para sair do barco. O rapaz dos olhares furtivos olhava para trás. As mulheres o seguiam. Quando todos saímos do barco, as meninas decidiram ir ao toilette. Alguns minutos depois ficamos na porta do barco, quando um dos rapazes, o mais extravagante surgiu perto de mim. Gelei-me. Não tinha reação. Todos os meus movimentos congelaram. Cândida falou baixo que era para eu me cuidar, pois a mulher estava atrás de mim. Discretamente, olhei para trás. Sim, uma delas estava passando por mim. Trocamos olhares. Insisti olhando para ela até que, envolvida por uma súbita timidez, ela baixou a cabeça. Um minuto depois os quatro iam embora, iam embora sem o meu ménage à trois.
Saímos dali, pegamos o metro e quinze minutos depois estávamos no Boulevard Victor, num charmoso restaurante. Jantávamos. Brindávamos a grande aventura que chegava ao fim. Comemorávamos a amizade que tínhamos fortalecido durante essa grande jornada.
— Às lembranças de tudo o que vivemos. À nossa duradoura e sólida amizade. Que assim seja!

Chegando no Paris XV, dando mais gargalhadas, e por essas gargalhadas, Marcela e Deisy apareceram na janela do quarto e nos disse:
— Marcilene desapareceu. Lucia, Tais e Tia Cida chegaram agora a pouco. Mas a Marcilene não chegou até agora.
Subimos imediatamente para o quarto delas. Ficamos conversando coisas que ocorreram no dia. Meia-hora depois, bati no quarto de Lucia, Tais e Felícia. A porta se abriu e lá estava ela, Marcilene, com a câmera na mão, descarregando mais de duas mil fotos (que tirara durante aquele dia).
— As meninas disseram que iam chamar a polícia. Onde tu estavas, Marcilene?
— Quando eu me vi perdida no Louvre, dei vários passeios. Claro que fui a Monalisa. Depois peguei um taxi numa rua e falei para o taxista: “Notre-Dame”. Rapidinho ele me deixou lá. Entrei na Igreja. Que linda a Catedral. Belíssima. Depois fiquei andando pelo margem do Sena. Não sabendo para onde eu ia, acabei voltando para a Catedral.

No dia seguinte estávamos todos no aeroporto. Voltando para o Brasil.

Dieniffer e Tia Cida embarcaram num voo Easy Jet com destino a Veneza.

Fizemos uma conexão em Lisboa, num voo turbulento. De Lisboa para o Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro para Porto Alegre – com escala em São Paulo.

No voo Lisboa-Rio, Marcela, Deisy e Marcilene ganharam champagne da primeira classe. O hospedeiro era um efeminado do tipo Jacques Leclair, que usa desse subterfúgio para seduzir as mulheres.

Esse mesmo hospedeiro chamava para todo o voo ouvir que Cléia era uma mulher perigosa.

Lindy e Cândida voltavam felizes para casa.

Lucia e Tais apertavam as mãos. Tinham cumprido mais uma viagem juntas.

Felícia e eu riamos de todas as situações. Inclusive quando um dos hospedeiros acordou-me para servir o jantar. Eu não despertava. Ele então usou de recursos mais incisivos para eu sair do sono. Assim que meus olhos abriram dei um pulo no hospedeiro, pedindo-lhe desculpas. MALDITO HOSPEDEIRO. QUANDO EU TINHA CONSEGUIDO DORMIR, ELE ME ACORDOU. MALDITO.


Essa foi a nossa viagem. De imensa emoção, de inúmeros aprendizados, de grandes pretensões. Deixávamos para trás cidades que proporcionaram momentos de realização pessoal. Fomos a fundo na cultura, nas trocas de informação, conversamos com pessoas que vivem e nasceram lá. Encontramos pessoas de Porto Alegre. Da Romênia. De Cabo Verde. Da Itália. Da Sérvia. Da Costa do Marfim. Gaúchos que moram na Austrália. Alemães perdidos em metros. Sim, fomos felizes, e deixávamos um pouco desta felicidade nas cidades que freqüentamos, pois agora somos parte da história desses lugares. Um dia eles ali voltariam, sim voltarão. Juntos não sabem. Mas lá voltarão e resgatarão aquela pequena felicidade que angustia o retorno. Quem vai uma vez, tem a sede do retorno. Quem vai duas, deseja morar lá. Quem vai uma terceira, quem sabe fica para sempre. Mas isso não é regra. Cada experiência é única, cada vivência é um olhar no limiar dos acontecimentos. Dentro do avião TAP PORTUGAL eles não voltavam os mesmos de quando lá chegaram. LISBOA, VALÊNCIA, GANDHIA, BARCELONA, SAINT-JOAN DESPI, PARIS. Elas mudaram suas vidas para sempre. O que mudaram quem sabe ainda não perceberiam. Mas um novo olhar para a vida teriam. As pessoas os olhariam diferentemente. Seriam pequenos-deuses que realizaram um sonho feito para todos. Ver Lisboa sob a visão do Castelo de São Jorge. Experimentar o Colégio Mayor Galileu Galilei. Banhar-se nas praias do Mediterrâneo. Desbravar Barcelona por cima. Tomar um café tipicamente da manhã em Paris.

Agora o mundo era deles. Cruzaram o Rio Guaíba, transpuseram seus maiores medos, lágrimas derramavam direto dos pés cheios de bolhas, cruzaram por pequenas tragédias que sempre ocorrem numa viagem, histórias intensas que somente ocorrem em viagens, esperaram ter o poder de ver todo o roteiro, correr contra o tempo, correr contra o corpo cansado, correr para o hotel no primeiro cansaço. Muito faltou. E por ter faltado é para lá que voltaremos, no dia quando nosso espírito estiver equilibrado o suficiente para lá voltar e sofrer novamente a lembrança concreta das experiências vividas.

NENHUMA VIAGEM É IGUAL A ANTERIOR.
VOLTEM. SERÁ TUDO DIFERENTE E MELHOR, ACREDITEM.
ASSIM FOI COMIGO, ASSIM SERÁ COM TODOS.
BOA VIAGEM...


Lúcia...

Fabiane... Marcilene...Deisy ...

Marcela...
Tais...
Tia Cida...
Cléia...


Dieniffer...
Cândida...
Lindy...
Felícia...
Eu...





Lembranças do Colégio Mayor Galileu Galilei... grande experiência...


Fiz parte desta história...



Av. de los Naranjos (em frete ao Galileu Galilei)...

Metro de superfície de Valência...
Aguardando o metrô...




Vista panorâmica de Valência...

Eu ando pelo mundo

prestando atenção em cores

Que eu não sei o nome

Cores de Almodovar

Cores de Frida Kahlo

Corres...

Adriana Calcanhoto






Um final feliz...
Fim








Fim?
Evidentemente que não...
As aventuras hão de contunuar
até a próxima temporada!!!
Au revoir...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Palavras de um amor-confuso, confuso amor

Estou nem casa de uma amiga, de um professora-amiga, para um jantar fenomenal. Amigos, amigos, amigas, amigas, e tu ai, bem longe, me confundindo, brincando comigo, debochando, esbugalhando meus sentimentos frangalhados. Por que fazes isso? Qual é o teu problema? Estou aqui feliz, dando minhas risadas, energizando o ar de bom humor... até que vens o teu espírito até mim e deflora meus bons eflúvios. Agora vou beber, para esquecer o que não gostaria de sentir, de sofrer... de sofrer por alguém que brinca comigo... as mensagens são óbvias? ou mais loucuras do destino sobre as minhas imaginações férteis? Quando penso em te esqueçer, tu me surges, poeta, e me risca a pele, sangrada já. Só sei que não sei mais quem sou. Não sei mais o que sinto. Não sei mais o que quero. A questão para ti é. Se queres, diga logo, sem medo, um não para ti mesmo... esse mesmo não, será o meu sim. Diga não para teus medos. Que eu digo sim, para as minhas aventuras infortunas. saiba o que quer, mas não brinque comigo, mais. O pior que eu quero mais... agora... daqui a pouco...nunca.


Quero escrever mais, mas não consigo. Choro já. Que pena... porquê? Para quê? só tu o sabes.