quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

DISCURSO DO PROFESSOR PARANINFO AOS ALUNOS DA TURMA 83/2011


,uma vírgula, este pequeno símbolo de pontuação iniciou a nossa relação. Conforme disse o cineasta francês Jean-Luc Godard “a história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem”. É justamente inspirada nessa epigrafe que a metáfora da vida constituiu minha história com a turma 83, logo, a nossa história. Conhecemo-nos no meio da trajetória, mas, que pena, no final dela. Mas foi dessa forma, no meio do fim, que a vida combinou o nosso encontro. Nossa relação começou com a nebulosa sombra chamada orações subordinadas. Com a minha chegada, senti no olhar destes alunos que a sombra da gramática estava desaparecendo e uma luz de conhecimento, conhecimento este que tanto desejavam e que pude enxergar nos olhares que pediam: “Por favor, escuta-nos”. Foi um sonho que estava se realizando.
Clarice Lispector inicia o romance Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres da mesma forma como foi a nossa história, com uma vírgula. A sincronicidade dos fatos não é tão misteriosa. Observem novamente o título da obra Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Estes formandos, a cada aula de Língua Portuguesa, demonstravam a aprendizagem e o prazer de ter uma aula ministrada por mim. Não houve aula em que não era dito: “Sor, eu te amo”, ou “Sor, o senhor é o melhor professor que eu já tive”. Em nossas aulas, recheadas de aprendizagem e prazer, não discutíamos somente a Língua Portuguesa. Conversamos muito sobre Literatura e, quando conversamos sobre Literatura, os assuntos se multiplicam: falávamos sobre Psicanálise, amor, personalidade, viajávamos para outros continentes, onde conhecemos uma sala de aula de 8ª série em Angola, descobrimos culturas em Moçambique, velejamos pelas ruas do Afeganistão. Conhecemos Eugênio, Olívia, Rami, Tony, Amir, Hassan, Gregor, Mersault, Cândido, Eugênia, Naná, Claude, Jacques, Chaval, Etienne Lantier e outros tantos personagens, antes desconhecidos de vocês, que marcaram o ano. Com os autores, viajamos o mundo sem sair de casa. Erico Verissimo, Paulina Chiziane, Khaled Hosseini, Kafka, Zola, Camus. Viajamos o mundo. Alguns até pensavam que se tratava de aulas de Geografia, quando o professor de Português levava mapas para a sala de aula, ou mesmo de História, quando discutíamos os comportamentos políticos das personagens. Eis a sedução em dar aulas de Língua Portuguesa. Posso dizer que ministrar esta disciplina é dar aula sobre a arte de viver.
Viver, estes alunos sabem fazê-lo. Ainda hei de encontrar uma turma tão emotiva como esta. Não há nesta escola, certamente, turma tão emocionante quanto a 83. Estes formandos compõem uma seleta escolha divina de amor. Não houve dias em que não houve um sorriso, um abraço, um acalento. Para mim eles disseram: “Sor, me ajuda”. E ali estava eu, no meio do pátio ouvindo, agachado tocando o ombro de cada um deles. Vejo neles uma força indestrutível, uma força de campeões, alunos que batalham, alunos sinceros, alunos protagonistas de sua história. Em todos os capítulos houve uma grande emoção em que a turma 83 estava protagonizando.  Os integrantes são movidos pelo combustível humano chamado Paixão. Mergulham nas águas do agora, não deixam nada para depois. Amo, amo agora. Nossos encontros eram ricos, riquíssimos, pois, como dizia nosso conhecido amigo Voltaire “Devemos julgar um homem mais por suas perguntas do que por suas respostas”. Estes estudantes, que neste momento passam pela imensa ponte entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, não apenas responderam certeiramente os questionamentos do professor, mas também contribuíram com questões que mostravam a força de suas personalidades. Tanto que nesta turma há poetas, lutadores, dançarinas, sentinelas e deuses. Sim, há alunos deuses. Deus o livre!
Por isso digo, jamais permitam que diminuam o caráter de vocês. Quando alguém diminui-los, mostre para este alguém, em ação, em comportamento respeitável entre os homens, que vocês são capazes de ser, e isso sei que são, de provar a grandeza que há dentro de cada um.
Apego-me ao texto do autor norte-americano Walt Whitman para simbolizar o momento em que vivemos. O nome deste texto é “Oh Capitão! Meu Capitão!”. Imagino vocês a me dizer:
“Oh capitão! Meu capitão! Nossa viagem medonha terminou; o barco venceu todas as tormentas, o prêmio que perseguimos foi ganho; o porto está próximo, ouço os sinos, o povo todo exulta, enquanto seguem com o olhar a quilha firme, o barco raivoso e audaz:
O restante do poema conta a morte do capitão e seus marinheiros tentando reavivá-lo. O povo no porto aclama ansioso pela chegada triunfal. Os heróis haviam conseguido depois de uma dura viagem, uma viagem guiada, claro, pelo Capitão. Agora, como nos momentos imperfeitos, o sucesso não era integral. A felicidade ocorreu sem a vida do líder, que os guiou nas ondas.
Sim, meus alunos, é assim que me sinto a partir de agora. Uma parte de mim irá com vocês assim que vocês passarem pela imigração para o Ensino Médio. O carimbo selará nossa separação, logo nossa despedida. Resultamos de um trabalho que constituiu de força, de determinação, de união e de perseverança. Estendo minha mão uma última vez, pois o capitão se despede, sem jamais esquecê-los, pois esta tripulação viajou na mesma onda, a mesma onda que pulamos, quando corremos para oceano no Balneário. Fomos e estamos no topo da montanha. No ponto máximo. Cheios de medo da altura, naturalmente. Do alto da montanha enxergam o mar, verde, sereno, e lembrem que um dia estávamos lá em baixo, surfando na mesma onda, fazendo com que os todos estivessem em sintonia. Já que agora estão no topo, desafios condizentes com vossas habilidades serão atribuídos a vocês. Agora o desafio não é o mar. O desafio agora são os ventos. E sei que conseguirão vencê-los.
Assim termino meu discurso, salientando e retribuindo os vários “eu te amo” que recebi. Digo: eu vos amo, 83. Vesti a camisa desta turma e sempre vestirei enquanto formem homens de bem, de valor e de respeito. Uma das coisas que menos sei lidar é com a despedida. E como disse o escritor francês Alexandre Dumas: “Em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz.” Inspirado nesta fala, saliento que terminarei minhas palavras da mesma forma que comecei, pois nossa história, por mais que separados, não acaba aqui. Lembraremos de nosso encontro marcado pela vida, da aula em que todos choramos por não querer o rompimento e por sonhar com a união. Nossa história é um romance ou uma poesia que ficará em nossas memórias enquanto houver paixão, enquanto houver vida, enquanto houver a nossa onda. É por isso que não ponho um ponto final. TODOS, juntos, unidos no mesmo propósito, somos uma oração subordinada adjetiva explicativa, todos juntos, eu e vocês, juntos para sempre, entre vírgulas,


Prof. Alex Valério - 28/12/2011

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