Despedi-me de minha mãe. Profética como sempre anunciou-me: “NÃO SAIAM DO AEROPORTO, PODEM PERDER O VOO”. Abracei-me a ela e ficamos nos abanando mesmo quando eu passava no detector de metais.
Mal sabia eu que minha mãe abanava a todos os aviões que decolavam ali. Minha mamãe não sabia qual era o avião que o filho era número. Coisas de uma Valério!
Um a um, os pesquisadores foram cruzando o túnel rumo à aeronave, que tinha como destino inicial o aeroporto internacional Tom Jobim. Como poetizavam os amigos portuários da Bossa, “Tem dias que eu fico, pensando na vida...”.
Assim que entramos no avião, Porto alegre começou a chorar, triste com a saída temporária de seus concidadãos. Uma magia se deu quando o voo lotado cruzou as nuvens negras e alcançou o mais alto pé atingindo espaços entre a estratosfera e atmosfera. Era apenas ceu azul, e nuvens amigas abaixo de nós.
Quando chegamos ao Rio de Janeiro, onde ficaríamos até as seguintes nove horas, fomos procurar um local para tomar café. Ali percebemos o quanto tudo na cidade maravilhosa era caro. Claro que pelo fato de ser num porto, num aeroporto, os produtos autoelevam seus preços, mas sei que a realidade fora dali era a mesma. É mui caro viver no humus da malandragem!
Para passar o tempo, descobrimos que haviam, entre os terminais 1 e 2, um carrinho patrocinado pelo banco Santander que transitava os passageiros ilhados no terminal. Pronto! Ali estava iniciando a primeira história da nossa viagem. Tratando-se de 12 mulheres e eu, o único membro com membro masculino, saberíamos que a ideia mais elementar desta aventura seria retratada em mil picancias escandalosas, muitas delas simples, outras duplas e mui complexas, como diria meu amigo Marquês de Sade. Como me perguntara um aluno: “O Senhor tem dado em casa?” e eu respondo: “Olha, eu não... e tu, tens dado em casa?” O aluno, esperto e lépido, disse que não se tratava de uma pegadinha brejeira, mas sim de uma pergunta seria e despretensiosa. Então, senhor leitor, não pense que o fato de 12 mulheres e um segredo viajarem juntos teria como séria conseqüência o ecoar de uma sexualidade; não, não crede nisso, crede melhor na historia de amor sexual impossível, ou seja, assexuada. O que quero bem dizer que viajar com 12 mulheres é uma aventura que todo homem, possuidor de um membro que nada diz, nem dança, se é que podes entender a lavra feliz, devido aos contextos históricos-filosóficos-sociais e sexuais, tem de passar na vida. Pois numa viagem, tu as descobre o que há no mais profundo da sua alma, da alma-áurea efervescente da feminilidade.
Sim, a primeira história da nossa viagem ocorrera quando encontramos aqueles carrinhos... carrinhos guiados por rapazes que conheciam como ninguém a paisagem bucólica e bélica da cidade maravilhosa. A maravilha é que uma das turistas do aeroporto, aquela que jamais esperaríamos uma atitude de tamanha iniciativa, iniciativa mui ambígua, que despertou nos demais passageiros do carrinho, algumas gargalhadas de impulsividade lasciva. Iniciativa aquela foi a de perguntar interrogações de cunho pessoal e intransferível: que horas o motorista ia batia o cartão; quem sabe ele poderia apresentar a cidade (que é uma maravilha). As apresentações começaram ali, todos devidamente vestidos. E ele dissera: “A sua esquerda está o complexo do alemão, a vila cruzeiro e a Igreja com as escadarias da Penha”. Um minuto se passou e a viagem “libertina” e ambígua chegara ao fim.
Uma simples história que provocou risadas deveras em boa fração do grupo. Não contarei detalhes, nem pronunciar iniciais para não depositarmos nas injurias mundanas o descrédito do pecado e da maledicência. Gloria a vós, Senhor! Graças a Deus!
Porém, mal sabiam os turistas do paraíso que passariam por momentos de fortes emoções logo no primeiro episódio. Prepare-se leitor, nem a policia federal seria capaz de capturar o...
Depois de mais um saboroso almoço, muita fofoca, muita discussão sobre a filologia românica e suas tendências atuais e conversar sobre o destino de Totó na novela das oito (hahaha), corremos para o nosso check-in.
Adentramos para o portão de embarque, passamos pela polícia federal e adentramos ao mundo dos free shops. Como a vida é boa sem impostos brasileiros. Corri para embebedar do meu Dolce & Gabanna.
Enquanto isso alguns já deitavam, outros conversavam dispersamente, outras iam de comboio ao toilette.
“Atenção senhores passageiros para o voo 178 TAP com destino a Lisboa. O portão de embarque mudou. Dirigam-se para o portão 34”
Lá fomos nós e outros aventureiros desconhecidos para o portão 34.
Mais tarde, quando o cansaço já tomava conta dos corpos inebriados pelo deus hipnos, é-nos anunciado o momento decisivo. “Atenção senhores passageiros para o voo 178 TAP com destino a Lisboa. Preparem-se para o embarque na aeronave. Duas filas se formaram: aquela dos passageiros do fundo do avião; e daqueles que ficaram na frente, evidentemente. Primeiramente adentraram os passageiros do fundão (isso me lembrou passeios escolares da turma do fundão do ônibus, ou mesmo da sala de aula). Nós estávamos estrategicamente posicionados o mais próximo da porta, pois desejávamos dar uma fugidinha por Lisboa antes de embarcarmos para Barcelona, nosso terceiro estouro da pipoca. (AGORA ME LEMBRO DAS PALAVRAS DE MINHA MAMÃE, que sempre tem razão quantos as profecias de Nostradamus. MAS EU TINHA QUE REVER MINHA LISBOA PERDIDA!!!). Quando chegou a nossa vez de embarcar na lata voadora, o mais terrível evento aventureiro e turístico ocorreu na porta de embarque: uma das colegas de voo anunciou que perdeu seu passaporte.
— E agora, Mon Dieu, como ela viajará?
É claro e elementar que com as 12 mulheres e 1 segredo esse fato tornou-se um escândalo. Mas essa microfábula escandalosa de Cervantes somente será contada no próximo capitulo.
E como fazia Manuel Carlos em Páginas da Vida, a poesia de Tom Jobim era cantada sempre no final do capitulo helenístico e mostrado alguns flashes do próximo episódio.
“Vou te contaaaaaaaaaaaar ”
cenas do próximo episódio... (muito noveleiro mesmo)