Minhas reminiscências de 2010 acercam histórias que são inusitadas (para mim que sempre teve tudo muito bem projetado e realizado na vida). Mas para os outros, quem sabe tu que me lês, não tenha a impressão do inusitado. Quem sabe isso que aqui relatarei nas lembranças 2010 sejam historietas triviais, sofridas e conquistadas entre os demais mutantes da terra.
Para mim, 2010 foi um ano de mudanças, muitas delas radicais. Conheci, no quarto dia do ano, por meio da internet, uma parceria sexual intensa, e tão intensa que durara um dia – graças a Deus; não me lembrava mais como era o nosso litoral: arrepiei-me quando vi a cor das águas tramandaienses; fui a uma casa da praia de uns amigos e lá estavam mais de 30 pessoas; discussões deselegantes por mensagens de texto; afastei-me de pessoas; dispus-me a conhecer outras; fechei-me para o amor; e quando estava fechado para o amor, uma colega de faculdade decidiu fazer o papel de Eros: uma festa, somado a encontros em esquinas que não foram marcados (destino puro) e tudo isso diluído em loucuras do coração humano fez com que eu me resguardasse mais uma vez; mas quando pensei que estaria em paz em relação ao amor, um olhar, somente um olhar e uma gargalhada novos me ludibriaram para o caldeirão da ansiedade; tudo isso ocorreu no ano em que passei 11/12 desempregado, desempregado numa vida cor de rosa; li mais livros tinha em expectativa; conheci autores; fui em casa de Luis Fernando Verissimo e conheci o local onde Erico Verissimo escreveu romances que marcaram a minha vida de leitor; participei de uma oficina de Crônicas com Moacyr Scliar (ele disse que eu escrevo bem); apresentei trabalhos em seminários e congressos; ganhei uma bolsa para participar de um encontro acadêmico na Espanha; ganhei caronas de grandes mulheres-acadêmicas que me deixaram na porta de casa; tive o prazer de conhecer grandes mulheres: Lindy, Cândida, Thais, Cléia, Felicia, Dieniffer, Tia Cida, Aníssima, Barbaríssima, Landinha, Lorena, Martha; viajar: peguei oito voos, cruzei o oceano duas vezes, atravessei a Espanha de trem, revi Lisboa e Paris, conheci a Catalunha e desbravei as cidades camaleoas do mediterrâneo – Valência e Barcelona, embarquei em um ônibus para o litoral (ida e volta), pus mala no carro e fui com uma colega para o centro do estado; festas: não houveram muitas, mas as que houveram provocaram emoções fortes; bebidas: pouco, muito pouco, mas de três semanas para cá, compensou a de uma encarnação (motivo, amores insones); desilusões amorosas: 2; histórias mal contadas: 3; pessoas que afastei de mim: 5; mas as que se aproximaram de mim: creio que umas 15; empregos: 1, engraçadíssimo, ocioso, sexual, divertido, trabalhoso, intrigante, celestial. Entrei em atividade total com a minha profissão: visitei escolas, conheci pessoas importantes da área da educação, corrigi mais de 3000 redações, assisti a aulas motivadoras.
O que mais me marcou em 2010 foram os meus alunos, alunos que conquistei no período de estágio. Eram 19 crianças que tinham desespero pelo conhecimento. Odiavam a escola como qualquer adolescente. Mas gostavam das aulas engraçadas e divertidas de Língua Portuguesa que eu lhes proporcionava. Eles foram mais um motivo de minha ansiedade e depressão, que por motivos não identificados, me visitaram muito neste ano. 2010 foi o ano em que mais chorei. Dormia, chorando. Acordava, assustado. A preguiça me acompanhava em todo o lugar. O descaso emocional dominava meus sentidos; a insatisfação guiava minha conduta. Mas isso se curou com uma viagem. Quem sabe tudo isso se deu devido à ansiedade que tive para prepará-la e para esperá-la. Sei que depois de viajar algo mudou mais um pouco dentro de mim. A depressão de quem volta da Espanha é normal, mas trata-se de uma depressão sócio-cultural – que deve ocorrer com qualquer habitante do terceiro mundo.
Perdi meus alunos; perdi meus amores; perdi algumas pessoas;
Mas em 2011 reconquistarei tudo.
A RECONQUISTA
Reconquistarei meus alunos, porque sou um bom professor; reconquistarei meus amores, por que sou um amante compreensivo; reconquistarei novos amigos — os que se foram não eram amigos. Isso não acabe aos alunos, porque eles sempre o serão; os amores, sempre o serão.
Só sei que quanto mais tenho esperança, mais espero. Quanto mais espero, mais estarei preparado para correr atrás. Quanto mais corro, mais posso cansar. Mas como espero, não cansarei na corrida esperançosa dos sonhos perdidos, porque reconquistá-los-ei em 2011, da mesma forma que os perdi em 2010.
RECONQUISTA é a palavra-chave.
Reconquistar-me-ei.
Conquistar (segundo o dicionário de sinônimos do Word): alastrar-se, difundir-se, invadir, apoderar-se, apossar-se, apropriar-se, usurpar, cobrar, tomar, absorver, adquirir, atrair, captar, colonizar; sucesso, vitória.
Se o prefixo latino –re significa movimento para trás, repetição, algumas fatos repetir-se-ão para aprendizado e vitória. Espero não me debulhar em lágrimas. Mas visto que conquista significa sucesso, reconquistar, é reter o que já tínhamos ganhado.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Estação, Barcelona
Caríssimo leitor, prepare-se para as próximas leituras dessas peripécias turísticas. As emoções, a que os aventureiros do mundo achado sobreviveram, perdurarão nas linhas do tempo – como as emoções de qualquer outro turista – mas usamos aqui para dar mais emoção a cerca da emoção. Certamente o leitor aguardará as últimas quatro ou cinco postagens a respeito da viagem que os amigos fizeram a repastada Europa.
Era nove e quarenta da manhã quando minhas duas amigas e eu desembarcamos em Barcelona, mais precisamente na estação Barcelona-Sants. Fomos pedir ajuda no balcão de informações para saber como chegaríamos a nosso hotel, visto que não conseguíamos achar no mapa que possuíamos, nem mesmo no Google Map, a rua onde ficava o hotel onde nos hospedaríamos. Ali, nas informações, ao sermos atendidos com muita simpatia, fomos informados que nosso hotel não era em Barcelona, mas sim numa cidade metropolitana chamada Saint Joan Despi – o que poderíamos mencionar a distância proporcional entre Porto Alegre e Esteio. Que maravilha ir com uma empresa conhecida e confiável!
Pegamos a linha 157 algumas quadras depois de Barcelona-Sants. Leitor-seguidor, observe na entrelinha que a linha 157 fica próximo da estação de trem. Isso será útil para futuros esclarecimentos no segundo episódio das aventuras barcelonescas.
No final da linha, às 11 horas da manhã, fomos recepcionados no hotel. Deixamos nossas malas em nossos respectivos quartos e voltamos para Barcelona. Descobrimos um eléctrico que nos deixa em Barcelona-Sants, para onde voltamos, para receber as meninas que chegariam as 13 horas.
Antes disso, almoçamos num badaladíssimo restaurante, o Mc Donalds. Uma vez locupletados, percebemos, alguns passos afora do fastfood, que havia guarda-valise no terminal. Então tive a ideia de, ao invés das meninas, que já estavam em trânsito, irem a Saint Joan Despi somente para guardar as malas... Do resto, o leitor-inteligente pode chegar a conclusões sábias.
Atrasado, o Renfe chegou por volta das 13h30min. Escrevemos Família Tobias num papel e esperamos as belas brasileiras. Assim que elas nos viram com aquela placa familiar, puseram-se todas a rirem e abraçarem os parentes saudosos. Depois disso, guardamos suas leves malas e partimos para a terra de Gaudí.
Pegamos a linha 5 do metro. Salve-se quem puder numa estação de metro durante o verão. Cinco paradas depois descíamos na estação Sagrada Família. Era somente seguir as setas turísticas, subir as escadas, ver (no meu caso e do grupo) pela primeira vez como era Barcelona, andar alguns passos à esquerda e ficar boquiaberto com a suntuosidade do monumento. A quantidade de pessoas era absurda. Filas homéricas que pareciam uma corrente oracional pela fé que girava o quarteirão. Conseguimos entrada GRUPO e adentramos, primeiramente, no museo de la sagrada família, que fica no subsolo da basílica. Ali encontramos toda a suntuosidade da arquitetura do catalão Antoní Gaudí, além de observar todos os projetos que idealizaram o intento onde estávamos conhecendo. Sabe-se que uma Igreja é um local para recolhimento e conversas (por vezes decoradas em orações) com Deus. Mas como a casa do Pai estava, e parece que sempre esteve em obras, e creio que continuará estando, o último lugar para o recolhimento e conversas com o criador é a Sagrada Família, pois os sons furibundos que as máquinas oferecem e a presença acalorada dos curiosos turistas ampliam aos fieis sagrados a impropriedade da composição de uma Ave-Maria, por exemplo. Paz!, pedem os acreditados.
A fila para subir as colunas da basílica era imensa. Duraria cerca de quarenta e cinco minutos para conseguirmos acessar uma das torres. Ficaria para uma próxima vez.
Embarcamos na mesma linha de metro e nos dirigimos em direção a Cornellà Center para que pudéssemos descer na estação Diagonal, onde, ali perto, fica La Pedrera, a casa do arquiteto Gaudí. Trafegamos a pé pelo quadrilátero mais rico e elegante da capital catalã: Passeig de Gràcia. As grifes, os banquinhos no meio da avenida, os cafés que esbanjam boa-educação, logo bom-gosto. Não era necessário muito caminhar, pois logo chegamos a uma muvuca. “Deve ser ali”, eu disse. Assim que ali chegamos, percebi que algumas amigas não desejavam entrar. Fomos então, Felícia, Tais, Marcilene, Lúcia e eu. Com o cartão internacional do estudante ISIC paga-se sete euros para se aventurar na casa do arquiteto. Assim que adentramos no prédio, encantamo-nos com as curvas e o colorido que Gaudí esboçou. Embarcamos num elevador que nos deixava exclusivamente no andar que antecipava os castelos de areia, o terraço do prédio. Subindo as escadas ovais (é claro), desbravamos a obra. Dali, poderíamos enxergar boa parte da cidade, desde o mediterrâneo, azul-espelho do céu, até a basílica.
Certamente deste terraço Gaudí idealizava a Sagrada Família, a alguns quarteirões dali. Do outro lado, víamos a Torre Agbar, imenso torre fálica que colore Barcelona em suas quentes noites. O piso do terraço, de uma amarelo-areia, o sobe e desce de escadinhas, o cercado oval, o medo de cair de lá.
Em seguida, fomos navegando pela casa do arquiteto: tudo como no século XIX. O escritório com sua foto e seus livros, o quarto da empregada, o quarto de Gaudí, a cozinha com a mesa adornada de frutas, o frio banheiro social. Ainda tivemos tempo para a lojinha de souvenirs, que fica num dos aposentos. Para descer, aventurávamos pelas escadas, conhecendo os corredores daquele célebre edifício. Nas portas, os nomes dos antigos proprietários dos abandonados imóveis.
Assim que ganhamos a rua, encontramos as amigas que tinham desejado fazer um lanche. Contaram-nos, horrorizadas, que tiveram que pagar um euro para se sentarem numa das dispostas mesas dos cafés da calçada da fama.
Os aventureiros da casa de Gaudí, por moléstia e cansaço, jogaram-se num daqueles soberbos bancos. Na verdade, não eram tão soberbos, tornavam-se assim porque eram bancos da Avinguda Passeig de Gràcia. Averiguamos o roteiro de viagem, olhamos nossa posição no mapa, e decidimos que iríamos a outra obra de Gaudí (para dar uma variada). Park Güell.
Deixamos nos levar pela linha 3, em direção a Canyelles, onde desceríamos, antes, em Lesseps. Fomos andando por aquelas ruazinhas boêmias de Barcelona. Olhava para cima e disse para Lúcia que gosto de bairros altos, pois quanto mais alto, mais podemos apreciar a vista da cidade. Como num passe de mágica, uma placa de mostrou e anunciou que para chegar ao Park Güell tínhamos que entrar na próxima rua. Uma vez nesta, várias camadas de escadas rolantes se mostravam e nos dirigiam ao cume de um bairro. Estávamos encantados com aquela praticidade. Quando ao topo chegamos, pudemos ver a beleza da arquitetura, que muito identificou a cultura espanhola e catalã. Ao fundo, o mar mediterrâneo. Tivemos ainda oportunidade, entre risadas e gargalhadas (que não convém aqui relatar – pois são histórias de bastidores) subir a outro cume, a uma cruz, um símbolo, cujo significado ainda não pesquisei, e não sei porque estava lá. Mas nos aventuramos e juntos tiramos uma foto naquele pequena montanha (acima de outra montanha), pequena montanha esta desprotegida de qualquer deslize.


Continuando a aventura turística, permanecemos o trajeto daquele imenso parque. Certo momento, naquela mata, encontramos a obra propriamente dita de Gaudí. As pessoas descansavam, desfrutavam da liberdade, crianças corriam, turistas regozijavam. Tratava-se de um lugar amparado por linhas curvilíneas que subsistiam devido a cem colunas situadas num nível inferior. As passagens, as colunas, a LAGARTA, o museu.
Já estava anoitecendo, quando decidimos voltar a Barcelona-Sants, resgatar as malas e ir para o hotel, em Saint-Joan Despi. Para isso não pegamos o ônibus 157. Fomos de metro. Pegamos na linha 3, em direção a estação Zona Universitária, e desceríamos na estação de mesmo nome. De lá pegamos um elétrico.
Cheias de bolhas nos pés, as aventureiros iam puxando suas malas pelas ruas de Sanint-Joan Despi. Angustiadas, perguntavam-se onde deveria estar o hotel. Uma vez lá e devidamente acomodados, alguns foram jantar no restaurante do hotel. Outros, como Lindy, Cândida e eu, fomos ao supermercado e compramos sanduíches e bebidas não-alcoólicas.
Uma vez de banhozinhos tomados e alimentados, depositamo-nos em nossas alcovas e sonhamos com qual obra de Gaudí veríamos no dia seguinte.
Mal sabiam alguns dos integrantes da viagem, que passariam por momentos emocionalmente-trágicos no segundo dia da viagem à Barcelona.
Mas por enquanto eles dormiam, sonhando com a realidade recém-conhecida, Gaudí.
Fortes emoções barcelonescas na próxima postagem.
Era nove e quarenta da manhã quando minhas duas amigas e eu desembarcamos em Barcelona, mais precisamente na estação Barcelona-Sants. Fomos pedir ajuda no balcão de informações para saber como chegaríamos a nosso hotel, visto que não conseguíamos achar no mapa que possuíamos, nem mesmo no Google Map, a rua onde ficava o hotel onde nos hospedaríamos. Ali, nas informações, ao sermos atendidos com muita simpatia, fomos informados que nosso hotel não era em Barcelona, mas sim numa cidade metropolitana chamada Saint Joan Despi – o que poderíamos mencionar a distância proporcional entre Porto Alegre e Esteio. Que maravilha ir com uma empresa conhecida e confiável!
Pegamos a linha 157 algumas quadras depois de Barcelona-Sants. Leitor-seguidor, observe na entrelinha que a linha 157 fica próximo da estação de trem. Isso será útil para futuros esclarecimentos no segundo episódio das aventuras barcelonescas.
No final da linha, às 11 horas da manhã, fomos recepcionados no hotel. Deixamos nossas malas em nossos respectivos quartos e voltamos para Barcelona. Descobrimos um eléctrico que nos deixa em Barcelona-Sants, para onde voltamos, para receber as meninas que chegariam as 13 horas.
Antes disso, almoçamos num badaladíssimo restaurante, o Mc Donalds. Uma vez locupletados, percebemos, alguns passos afora do fastfood, que havia guarda-valise no terminal. Então tive a ideia de, ao invés das meninas, que já estavam em trânsito, irem a Saint Joan Despi somente para guardar as malas... Do resto, o leitor-inteligente pode chegar a conclusões sábias.
Atrasado, o Renfe chegou por volta das 13h30min. Escrevemos Família Tobias num papel e esperamos as belas brasileiras. Assim que elas nos viram com aquela placa familiar, puseram-se todas a rirem e abraçarem os parentes saudosos. Depois disso, guardamos suas leves malas e partimos para a terra de Gaudí.
Pegamos a linha 5 do metro. Salve-se quem puder numa estação de metro durante o verão. Cinco paradas depois descíamos na estação Sagrada Família. Era somente seguir as setas turísticas, subir as escadas, ver (no meu caso e do grupo) pela primeira vez como era Barcelona, andar alguns passos à esquerda e ficar boquiaberto com a suntuosidade do monumento. A quantidade de pessoas era absurda. Filas homéricas que pareciam uma corrente oracional pela fé que girava o quarteirão. Conseguimos entrada GRUPO e adentramos, primeiramente, no museo de la sagrada família, que fica no subsolo da basílica. Ali encontramos toda a suntuosidade da arquitetura do catalão Antoní Gaudí, além de observar todos os projetos que idealizaram o intento onde estávamos conhecendo. Sabe-se que uma Igreja é um local para recolhimento e conversas (por vezes decoradas em orações) com Deus. Mas como a casa do Pai estava, e parece que sempre esteve em obras, e creio que continuará estando, o último lugar para o recolhimento e conversas com o criador é a Sagrada Família, pois os sons furibundos que as máquinas oferecem e a presença acalorada dos curiosos turistas ampliam aos fieis sagrados a impropriedade da composição de uma Ave-Maria, por exemplo. Paz!, pedem os acreditados.
A fila para subir as colunas da basílica era imensa. Duraria cerca de quarenta e cinco minutos para conseguirmos acessar uma das torres. Ficaria para uma próxima vez.
Embarcamos na mesma linha de metro e nos dirigimos em direção a Cornellà Center para que pudéssemos descer na estação Diagonal, onde, ali perto, fica La Pedrera, a casa do arquiteto Gaudí. Trafegamos a pé pelo quadrilátero mais rico e elegante da capital catalã: Passeig de Gràcia. As grifes, os banquinhos no meio da avenida, os cafés que esbanjam boa-educação, logo bom-gosto. Não era necessário muito caminhar, pois logo chegamos a uma muvuca. “Deve ser ali”, eu disse. Assim que ali chegamos, percebi que algumas amigas não desejavam entrar. Fomos então, Felícia, Tais, Marcilene, Lúcia e eu. Com o cartão internacional do estudante ISIC paga-se sete euros para se aventurar na casa do arquiteto. Assim que adentramos no prédio, encantamo-nos com as curvas e o colorido que Gaudí esboçou. Embarcamos num elevador que nos deixava exclusivamente no andar que antecipava os castelos de areia, o terraço do prédio. Subindo as escadas ovais (é claro), desbravamos a obra. Dali, poderíamos enxergar boa parte da cidade, desde o mediterrâneo, azul-espelho do céu, até a basílica.
Certamente deste terraço Gaudí idealizava a Sagrada Família, a alguns quarteirões dali. Do outro lado, víamos a Torre Agbar, imenso torre fálica que colore Barcelona em suas quentes noites. O piso do terraço, de uma amarelo-areia, o sobe e desce de escadinhas, o cercado oval, o medo de cair de lá.
Em seguida, fomos navegando pela casa do arquiteto: tudo como no século XIX. O escritório com sua foto e seus livros, o quarto da empregada, o quarto de Gaudí, a cozinha com a mesa adornada de frutas, o frio banheiro social. Ainda tivemos tempo para a lojinha de souvenirs, que fica num dos aposentos. Para descer, aventurávamos pelas escadas, conhecendo os corredores daquele célebre edifício. Nas portas, os nomes dos antigos proprietários dos abandonados imóveis.
Assim que ganhamos a rua, encontramos as amigas que tinham desejado fazer um lanche. Contaram-nos, horrorizadas, que tiveram que pagar um euro para se sentarem numa das dispostas mesas dos cafés da calçada da fama.
Os aventureiros da casa de Gaudí, por moléstia e cansaço, jogaram-se num daqueles soberbos bancos. Na verdade, não eram tão soberbos, tornavam-se assim porque eram bancos da Avinguda Passeig de Gràcia. Averiguamos o roteiro de viagem, olhamos nossa posição no mapa, e decidimos que iríamos a outra obra de Gaudí (para dar uma variada). Park Güell.
Deixamos nos levar pela linha 3, em direção a Canyelles, onde desceríamos, antes, em Lesseps. Fomos andando por aquelas ruazinhas boêmias de Barcelona. Olhava para cima e disse para Lúcia que gosto de bairros altos, pois quanto mais alto, mais podemos apreciar a vista da cidade. Como num passe de mágica, uma placa de mostrou e anunciou que para chegar ao Park Güell tínhamos que entrar na próxima rua. Uma vez nesta, várias camadas de escadas rolantes se mostravam e nos dirigiam ao cume de um bairro. Estávamos encantados com aquela praticidade. Quando ao topo chegamos, pudemos ver a beleza da arquitetura, que muito identificou a cultura espanhola e catalã. Ao fundo, o mar mediterrâneo. Tivemos ainda oportunidade, entre risadas e gargalhadas (que não convém aqui relatar – pois são histórias de bastidores) subir a outro cume, a uma cruz, um símbolo, cujo significado ainda não pesquisei, e não sei porque estava lá. Mas nos aventuramos e juntos tiramos uma foto naquele pequena montanha (acima de outra montanha), pequena montanha esta desprotegida de qualquer deslize.
Continuando a aventura turística, permanecemos o trajeto daquele imenso parque. Certo momento, naquela mata, encontramos a obra propriamente dita de Gaudí. As pessoas descansavam, desfrutavam da liberdade, crianças corriam, turistas regozijavam. Tratava-se de um lugar amparado por linhas curvilíneas que subsistiam devido a cem colunas situadas num nível inferior. As passagens, as colunas, a LAGARTA, o museu.
Já estava anoitecendo, quando decidimos voltar a Barcelona-Sants, resgatar as malas e ir para o hotel, em Saint-Joan Despi. Para isso não pegamos o ônibus 157. Fomos de metro. Pegamos na linha 3, em direção a estação Zona Universitária, e desceríamos na estação de mesmo nome. De lá pegamos um elétrico.
Cheias de bolhas nos pés, as aventureiros iam puxando suas malas pelas ruas de Sanint-Joan Despi. Angustiadas, perguntavam-se onde deveria estar o hotel. Uma vez lá e devidamente acomodados, alguns foram jantar no restaurante do hotel. Outros, como Lindy, Cândida e eu, fomos ao supermercado e compramos sanduíches e bebidas não-alcoólicas.
Uma vez de banhozinhos tomados e alimentados, depositamo-nos em nossas alcovas e sonhamos com qual obra de Gaudí veríamos no dia seguinte.
Mal sabiam alguns dos integrantes da viagem, que passariam por momentos emocionalmente-trágicos no segundo dia da viagem à Barcelona.
Mas por enquanto eles dormiam, sonhando com a realidade recém-conhecida, Gaudí.
Fortes emoções barcelonescas na próxima postagem.
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PERIPÉCIAS ARISTOTÉLICAS PELO MUNDO
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Comemorando demoniacamente o Natal
Havia algo de estranho nesse natal. As cenas não eram típicas. Sei apenas que minha mãe e eu pegamos um táxi em direção a casa de minha madrasta, na Cidade Baixa. Quando chegamos a meu bairro preferido, percebi que havia algo de podre no reino da Dinamarca. O Olaria estava às escuras, O Olaria-morto que enxergava de numa janela de nono andar. O Zaffari fechado. Certamente os funcionários-bourbons tinham, deveras, direito a Santa Ceia. A Lima e Silva sitiada. Bares e pubs fechados. Não estava crendo naquilo, crendo no fantasma que se tornou a personagem personificada por mim. As estranhezas ocorreram quando lá cheguei, no apartamento da comemoração do nascimento do enviado. A primeira tela que vi foi de uma mãe que dava de mamar a sua filha recém-nascida. Aquilo me lembrou o seio da República alimentando o povo. Era a primeira vez tive a oportunidade de conhecer a pequena-nascida, nascida dois meses antes de Jesus (audaciosa ela, não?). A criança alimentava-se com uma habilidade feroz, quase animalesca, degustando toda a sua comemoração por ter nascido em Outubro. Apresentei-me a criança, que me olhava, não com olhos de cigana obliqua e dissimulada, mas sim com uma curiosidade obtusa, calculando os catetos e as hipotenusas de cada gesto meu. Achei a criança de um carisma que muito me sensibilizou. Tanto me sensibilizou, que um minuto depois ela estava no meu colo, não para mamar, pois nessa encarnação não me foram atribuídas glândulas mamárias, mas sim acomodou-se a minha proteção de sua pequena-sesta. Assim que lembrei que a sesta vem depois de uma refeição, e que os bebês costumam, durante sua sesta brindar com um regozijo a existência estomacal, pus-me em pânico trigonométrico. Olhei para a minha calça branca. Uma azia me dominou. E se eu tinha sintonia, mesmo que carismática com aquela pequena-notável, certamente ela também passava sua pequena-ânsia-esofágica. Por Jesus! Ela iria gorfar na minha camiseta gola V, V de Vingança por tê-la tirado das tetas da República. Olhei de soslaio para o lado e encontrei o BICO. Por mais que eu odeie bicos (e por mais que os tenha chupado até os sete anos), vi nessa ferramenta a habilidade mais vil de não ser uma presa fácil da bile daquela herdeira. Mas ela chupava por apenas alguns segundos com aquele objeto libertino, chupava-o delicadamente, e depois cuspia-o, para o meu desespero total. Então, mais uma vez, olhando de esguelha, percebi que a mãe estava atrás de mim. Perguntei para o bebê-gorfador: “ Onde está a mamãe desse bebê lindo, hein, onde está a mamãe?”. Num zás-trás de segundo, a mulher surgiu, recompensando os dez minutos de desespero e repasto. Nem o pai da física calcularia com tamanha precisão a velocidade que a coisa se deu. Não foram três segundos que a criança se viu no colo sem igual, fraterno e humano... Três segundos de reconhecimento aristotélico (nem Telêmaco deveria ter tanta emoção ao reconhecer Ulisses); três segundos de pura exultação; três segundos de júbilo e um segundo apenas de lançamento. FELIZ NATAL!
Ainda havia três horas corrosivas de ceia natalina. Ainda havia outras duas crianças, filhas da mesma mãe; mãe, esta, atual esposa ou concubina, do irmão de minha madrasta. Minha pedagogia não permite relações inter-pessoais com crianças. Sou daqueles que não tenho muita paciência com os aprendizes; sou mais ditatorial, gostando de impor limites as indisciplinadas. E ali estava um clássico exemplo da anarquia e deselegância. Uma delas, a maior, que acabara de passar para o quinto ano, teve o desplante de acariciar o meu cabelo, melenas estas que passo horas para alinhar. O olhar, que somente eu seria capaz de fazer, fulminou a criança, que arregalou os olhos, compreendendo com a profunda sapiência, a linguagem corporal do pecado que ela acabou de cometer em plena comemoração de Jesus Cristo.
Segundos depois, naquele palco, na cena 3, outra criança apareceu, justamente quando eu queria assistir Passione, a novela mais coerente da TV brasileira. A criança em questão era a mais nova, a mais ousada, não tinha a primeira série ainda, logo não era corrompida pela sociedade. Sentou-se a minha frente e passou a fazer comentários que somente uma criança-honesta pode fazer. Ela falou do meu sapato, da minha calça, da minha gola V de Vingança, do meu cabelo recém-desalinhado. Eu me comuniquei com ela, com o mesmo olhar que aterrorizei a outra. Mas com essa, como todos os casos de irmãos diferentes, soltou uma gargalhada. Tive medo dessa criança. Ela era pior do que eu imaginava. Visto que ela começou a dissertar de modo científico sobre o meu olhar, eu a interrompi e perguntei se ela já conhecia a historinha de João e Maria. Ela disse que não. Então falei num estouro: “A Mariazinha era uma guriazinha bem pequenininha e muito bonitinha. Os dentinhos dela tinham uma janelinha. Igualzinho a essa tua. E um dia Mariazinha foi presa na casa de uma bruxa. E essa bruxa deu um peru de natal para ela, para que a Mariazinha ficasse bem gorda. E no dia que a Mariazinha ficasse bem gorda, a bruxa ia fazer picadinho da Mariazinha e a colocaria no forno. E tu sabe por quê? Porque a Mariazinha não calava a boca, não ficava quieta. Imagina se invés do Papai Noel entrasse ali a Bruxa e te colocasse no forno, junto do Peru e do Tender?” perguntei e sai dali. A criança dava gargalhadas homéricas. Foi atrás de mim e disse que queria ouvir outra história. (Tudo que eu havia aprendido na faculdade com Bethelhein sobre a psicanálise nos contos de fadas não tinha dado certo). FELIZ NATAL!
Depois disso chegaram, meu irmão, minha cunhada e a mãe desta. O bebezinho- gorfador havia mamado mais uma vez. Não sei se aquilo era uma tática da mãe, que dava o seio e depois azarava alguém com o colo existencialista. Sei que a próxima vítima da linguagem da criança foi a cunhada. Um quarto de hora depois, a cria abocanhou o bico da mãe. Ninguém mais resguardou a criança. Toda a existência da menina surgiu do âmago e esta batizou toda a genetriz. Aquilo era um circo, um picadeiro lamacento, um comemorar demoniacamente o natal. Só esperava que ninguém fizesse como Macabéa e vomitasse um coágulo.
Em seguida, quando fomos, os adultos sentarem-se à mesa, as infanto-anárquicas, indispostas de toda e qualquer etiqueta de Danuzinha Leão, locupletaram a mesa deixando os adultos insurretos, porém com uma elegância digna dos aborígenes parisienses.
PRECISEI DE ÁLCOOL. Joguei-me num vinho chileno.
Falando em parisenses, da janela da sala, podia ver a cidade, inclusive a minha casa, aos altos de Montmartre, com os cemitérios do bairro e sua basílica pomposa. Queria a minha casa, os meus livros. Depois que as crianças cearam sem total disciplina, prometi a mim mesmo que um dias levá-las-ia no templo positivista de Porto Alegre, ali perto de casa, na João Pessoa, quando elas ouviriam do palestrante: “Temos que voltar aos tempos heróicos da ditadura. Temos que voltar aos tempos do rebenque. Quem não teve um rebenque na vida e não esta vivo?”. Mas como eu não era dono da casa, nem pai, nem mãe das comunistas, eu me abstia de contar histórias infantis (que parece que deu certo, pois algo dentro daquela criança mudou para comigo. Isso se mostrou com o respeito quando eu olhei de soslaio para ela).
Era meia-noite. ELE nasceu à meia-noite? Algumas luzes explodiam na cidade, tímidas e disseminadas no ceu porto-alegrense. Um avião surgia do aeroporto Salgado Filho. Queria viajar. Todos nos abraçamos e desejamos os mesmos clichês de sempre, que por sinal são os mesmos do ano novo. Não seria nada mal que dividíssemos os desejos de natal daqueles de desejaríamos no réveillon. Mas ainda bem que não ficamos naqueles lugares-comuns de paz, amor, felicidade. Desejamos também o concreto, o que bem sabemos o que o outro deseja. É muito mais interessante e fundamental do que o famigerado e inteligentíssimo TUDO DE BOM.
Alguns raios-tempestade surgiam no céu. Já era hora de voltar para casa. Ali começou a dialética do táxi, pois as centrais não atendiam as chamadas dos clientes que desejavam a todo custo e sofrimento ir para casa. Eu exclamei: “Mãe, vamos descer, que, assim que chegarmos na rua, um táxi sobrepujará a Lima e Silva e entraremos no final feliz desse conto de fadas.” Todos duvidaram de minhas palavras. Como era natal, contive-me, com o poder de Cristo, da propriedade da verdade, pois, em tese, sou dono dela. “Que um raio estoure na minha frente se eu não estiver certo”. Virei-me para a janela e queria, devido o calor intenso, que, caísse um temporal impar.
Disse para todos, alguns minutos depois: “Au revoir, famille”. Era muita discussão por causa de um táxi. Puxei a âncora, dei um tchau-geral. Chamei o elevador. Descemos. Na saída, quando abrimos a terceira porta para a rua (hoje vivemos trancafiados), surgiu, me meio a chuva, um táxi, vazio, livre, como o seio da República.
Em cinco minutos estávamos em casa. Despi-me e fui enriquecer-me com meu novo amigo, Vargas Llosa. Durante a leitura, estrondos de Zeus, ou de Posidon alavancaram as emoções. Ulisses deve ter furado o olho do ciclope polifemo?
Estava tão entretido com as histórias de La tía Julia y el escribidor que mal dava valor aos estrondos que os deuses enviavam. As luzes piscavam, anunciando a possível treva. Certo momento, o raio, o mais raio de todos os raios, surgiu, bem diante de mim. Sim, leitor-de-espírito-natalino, a história não é fantástica. Eu, na noite de natal, amém, quando embalava a manjedoura, o meu livro, presenciei a presença do invisível, do estrondo apocalíptico. Direto da minha sacada um baque ultra-mega-explosivo-e-ensurdecedor tormentou bem em minha sacada, mais precisamente na churrasqueira, que estorricou em faíscas. Fechei a manjedoura e fiquei petrificado de tamanho horror. Desci para ver minha mãe, que andava com a mão nos ouvidos. Fomos juntos até a janela mais próxima-e-protegida para ver se não tinha aberto uma cratera na avenida.
As trombetas ameaçavam tocar. O enviado estava chegando para o juízo final. E já era sábado, o sétimo dia dos adventistas. Tudo se destruiria no dia em que tudo se concretizou? Oh, que terrível. Não havia nada pior que as trevas e os raios e as águas e os dilúvios.
Com o tempo, o tempo acalmou.
E com isso, o texto também.
FELIZ NATAL!
TUDO DE BOM (sem ponto final)
Ainda havia três horas corrosivas de ceia natalina. Ainda havia outras duas crianças, filhas da mesma mãe; mãe, esta, atual esposa ou concubina, do irmão de minha madrasta. Minha pedagogia não permite relações inter-pessoais com crianças. Sou daqueles que não tenho muita paciência com os aprendizes; sou mais ditatorial, gostando de impor limites as indisciplinadas. E ali estava um clássico exemplo da anarquia e deselegância. Uma delas, a maior, que acabara de passar para o quinto ano, teve o desplante de acariciar o meu cabelo, melenas estas que passo horas para alinhar. O olhar, que somente eu seria capaz de fazer, fulminou a criança, que arregalou os olhos, compreendendo com a profunda sapiência, a linguagem corporal do pecado que ela acabou de cometer em plena comemoração de Jesus Cristo.
Segundos depois, naquele palco, na cena 3, outra criança apareceu, justamente quando eu queria assistir Passione, a novela mais coerente da TV brasileira. A criança em questão era a mais nova, a mais ousada, não tinha a primeira série ainda, logo não era corrompida pela sociedade. Sentou-se a minha frente e passou a fazer comentários que somente uma criança-honesta pode fazer. Ela falou do meu sapato, da minha calça, da minha gola V de Vingança, do meu cabelo recém-desalinhado. Eu me comuniquei com ela, com o mesmo olhar que aterrorizei a outra. Mas com essa, como todos os casos de irmãos diferentes, soltou uma gargalhada. Tive medo dessa criança. Ela era pior do que eu imaginava. Visto que ela começou a dissertar de modo científico sobre o meu olhar, eu a interrompi e perguntei se ela já conhecia a historinha de João e Maria. Ela disse que não. Então falei num estouro: “A Mariazinha era uma guriazinha bem pequenininha e muito bonitinha. Os dentinhos dela tinham uma janelinha. Igualzinho a essa tua. E um dia Mariazinha foi presa na casa de uma bruxa. E essa bruxa deu um peru de natal para ela, para que a Mariazinha ficasse bem gorda. E no dia que a Mariazinha ficasse bem gorda, a bruxa ia fazer picadinho da Mariazinha e a colocaria no forno. E tu sabe por quê? Porque a Mariazinha não calava a boca, não ficava quieta. Imagina se invés do Papai Noel entrasse ali a Bruxa e te colocasse no forno, junto do Peru e do Tender?” perguntei e sai dali. A criança dava gargalhadas homéricas. Foi atrás de mim e disse que queria ouvir outra história. (Tudo que eu havia aprendido na faculdade com Bethelhein sobre a psicanálise nos contos de fadas não tinha dado certo). FELIZ NATAL!
Depois disso chegaram, meu irmão, minha cunhada e a mãe desta. O bebezinho- gorfador havia mamado mais uma vez. Não sei se aquilo era uma tática da mãe, que dava o seio e depois azarava alguém com o colo existencialista. Sei que a próxima vítima da linguagem da criança foi a cunhada. Um quarto de hora depois, a cria abocanhou o bico da mãe. Ninguém mais resguardou a criança. Toda a existência da menina surgiu do âmago e esta batizou toda a genetriz. Aquilo era um circo, um picadeiro lamacento, um comemorar demoniacamente o natal. Só esperava que ninguém fizesse como Macabéa e vomitasse um coágulo.
Em seguida, quando fomos, os adultos sentarem-se à mesa, as infanto-anárquicas, indispostas de toda e qualquer etiqueta de Danuzinha Leão, locupletaram a mesa deixando os adultos insurretos, porém com uma elegância digna dos aborígenes parisienses.
PRECISEI DE ÁLCOOL. Joguei-me num vinho chileno.
Falando em parisenses, da janela da sala, podia ver a cidade, inclusive a minha casa, aos altos de Montmartre, com os cemitérios do bairro e sua basílica pomposa. Queria a minha casa, os meus livros. Depois que as crianças cearam sem total disciplina, prometi a mim mesmo que um dias levá-las-ia no templo positivista de Porto Alegre, ali perto de casa, na João Pessoa, quando elas ouviriam do palestrante: “Temos que voltar aos tempos heróicos da ditadura. Temos que voltar aos tempos do rebenque. Quem não teve um rebenque na vida e não esta vivo?”. Mas como eu não era dono da casa, nem pai, nem mãe das comunistas, eu me abstia de contar histórias infantis (que parece que deu certo, pois algo dentro daquela criança mudou para comigo. Isso se mostrou com o respeito quando eu olhei de soslaio para ela).
Era meia-noite. ELE nasceu à meia-noite? Algumas luzes explodiam na cidade, tímidas e disseminadas no ceu porto-alegrense. Um avião surgia do aeroporto Salgado Filho. Queria viajar. Todos nos abraçamos e desejamos os mesmos clichês de sempre, que por sinal são os mesmos do ano novo. Não seria nada mal que dividíssemos os desejos de natal daqueles de desejaríamos no réveillon. Mas ainda bem que não ficamos naqueles lugares-comuns de paz, amor, felicidade. Desejamos também o concreto, o que bem sabemos o que o outro deseja. É muito mais interessante e fundamental do que o famigerado e inteligentíssimo TUDO DE BOM.
Alguns raios-tempestade surgiam no céu. Já era hora de voltar para casa. Ali começou a dialética do táxi, pois as centrais não atendiam as chamadas dos clientes que desejavam a todo custo e sofrimento ir para casa. Eu exclamei: “Mãe, vamos descer, que, assim que chegarmos na rua, um táxi sobrepujará a Lima e Silva e entraremos no final feliz desse conto de fadas.” Todos duvidaram de minhas palavras. Como era natal, contive-me, com o poder de Cristo, da propriedade da verdade, pois, em tese, sou dono dela. “Que um raio estoure na minha frente se eu não estiver certo”. Virei-me para a janela e queria, devido o calor intenso, que, caísse um temporal impar.
Disse para todos, alguns minutos depois: “Au revoir, famille”. Era muita discussão por causa de um táxi. Puxei a âncora, dei um tchau-geral. Chamei o elevador. Descemos. Na saída, quando abrimos a terceira porta para a rua (hoje vivemos trancafiados), surgiu, me meio a chuva, um táxi, vazio, livre, como o seio da República.
Em cinco minutos estávamos em casa. Despi-me e fui enriquecer-me com meu novo amigo, Vargas Llosa. Durante a leitura, estrondos de Zeus, ou de Posidon alavancaram as emoções. Ulisses deve ter furado o olho do ciclope polifemo?
Estava tão entretido com as histórias de La tía Julia y el escribidor que mal dava valor aos estrondos que os deuses enviavam. As luzes piscavam, anunciando a possível treva. Certo momento, o raio, o mais raio de todos os raios, surgiu, bem diante de mim. Sim, leitor-de-espírito-natalino, a história não é fantástica. Eu, na noite de natal, amém, quando embalava a manjedoura, o meu livro, presenciei a presença do invisível, do estrondo apocalíptico. Direto da minha sacada um baque ultra-mega-explosivo-e-ensurdecedor tormentou bem em minha sacada, mais precisamente na churrasqueira, que estorricou em faíscas. Fechei a manjedoura e fiquei petrificado de tamanho horror. Desci para ver minha mãe, que andava com a mão nos ouvidos. Fomos juntos até a janela mais próxima-e-protegida para ver se não tinha aberto uma cratera na avenida.
As trombetas ameaçavam tocar. O enviado estava chegando para o juízo final. E já era sábado, o sétimo dia dos adventistas. Tudo se destruiria no dia em que tudo se concretizou? Oh, que terrível. Não havia nada pior que as trevas e os raios e as águas e os dilúvios.
Com o tempo, o tempo acalmou.
E com isso, o texto também.
FELIZ NATAL!
TUDO DE BOM (sem ponto final)
sábado, 11 de dezembro de 2010
Despedida de Valência - a urbe da saudade
A história terminou desta maneira:
Fomos conversando, titubeantes, mas titubeantes por causa do excesso de fluência das línguas românicas.
A princípio o romeno disse-me que se tratava de hombres no sentido de homo sapiens, hombre sem gênero, no sentido de persona. Tendando me enganar a parte, conversamos sobre família, amigos e sobre religião. Ele disse-me, para justificar o meu questionamento, que era casado, mas não tinha filhos. O numero de anos que vivera é o mesmo quando Cristo contava três dias antes de ressusrgir. Falamos sobre religião. Parecíamos duas personagens de comédia romântica quando mostramos um ao outro o livro de Salmos que possuíamos. O vampiro cristão disse-me que era evangélico; e eu disse que acreditava numa força maior conduz a vida das pessoas. Expliquei-lhe que seguia a doutrina de Allan Kardec. Eu não sabia se os evangélicos da Romênia eram os mesmos da ceita macabra e dizimática do ressurgimento. Não aumentei esses dogmas epistolares e clericalistas, visto que sabia que o romeno era uma pessoa boa, de bons sentimentos, mesmo que antes tenha mentido descaradamente para um trabalhador com forte mediunidade enviada pelos espíritos superiores da esfera das violetas na janela. Mas para alfinetar, visto que não sou tão santo quanto deveria (é por isso que estou reencarnado, alma imperfeita), disse para ele que houve no Brasil um programa de televisão, as telenovelas, que tinha uma personagem destacada das outras, a evangélica da libertinagem, Creuza. Contei-lhe que atrás dos balcões da hipocrisia, a personagem se vendia para os mais desejos irreprimidos que as vulvas copulares poderiam beber. Os olhos do romeno piscaram duas vezes.
Conversamos mais que o habitual. Depois dos vocabulários terem cessado, fui para a sacada, onde olhava a avingunda del naranjos, dividida pela linha 4 e 6 do electrico, dos prédios da faculdade de economia, do campus tarongers, dos galhos das árvores que dançavam com o trepidar do vento de verão. Do outro lado, as quadras de tênis, ao horizonte o centro de Valência, as montanhas. Uma única lágrima crepitava dos meus olhos quando percebi, no meu espírito ainda romântico, que estaria olhando tudo aquilo pela última vez. Mas ao mesmo tempo tratava-se de um misto de felicidade com perda, pois não há no mundo melhor experiência de ir para outro pais, conhecer pessoas novas, trocar culturas, e neste país aprender a língua em loco.
O colega romeno alertou-me do aparecimento dos mosquitos. Com isso entrei e fechei a porta. Tiramos uma foto (eu mais preto impossível; preto in mediterrâneo). Trocamos e-mail. Passei a arrumar a mala. Que tristeza. Foram quatro dias espetaculares em minha vida. Com certeza não contei ao leitor, minuciosamente, os fatos do dia, caracteres que competiam apenas as vidas pessoais de minhas companheiras de jornada;mas digo, por mim, que esses foram os 4 melhores dias do ano de 2010 (MAL SABIA EU QUE SERIA UM DOS QUATRO MELHORES DIAS DE 2010).
Às cinco e meia da manhã acordei com a ligação de minha amiga Felícia.
— Vamos amigo!
— Vamos — disse ainda dormindo.
Fui para a casa de banho. Vinte minutos depois tocava o ombro do amigo romeno, este acordou, levantou-se e nos abraçamos, mas um abraço forte, desprendido de qualquer desejo reparado, ou não reparado, preconceituoso ou não, do abraço de um brasileiro que pensa ser um europeu com um romeno tímido e acanhado. (Pessoas assim chegam fácil-fácil na minha vida). Brasileiros gostam de abraçar, de se tocar. Pensei que ele se acanharia, mas não. Romenos também gostam de um abraço apertado. Puxei minha mala pelo mesmo corredor, abri a mesma porta que abrira cinco dias antes. O romeno ficou segurando-a e me disse:
— Escreve para me.
— Pode deixar — respondi batendo continência.
Acenamos e dei as costas. A porta fechou. Olhei pela última vez (?) aquele corredor repleto de apartamentos, onde moravam estudantes de vários lugares do mundo. E eu, por cinco dias, fui um deles. Entrei para a história do Colégio Mayor Galileu Galilei.
Na saída entreguei a chave do apartamento 158. Despedi-me do recepcionista. Sentadas no hall estavam minhas amigas, minhas companheiras, à minha espera. Neste exato momento em que escrevo, sinto um forte aperto em declarar cenas vividas com tanta intensidade, com tanta verdade que chegam a me faltar o ar, secar os lábios como se uma parte do meu espírito tenha ficado por lá, realizando os sonhos de infância. Sim choro, choro por ser patético, patético por ser um doente apaixonado, apaixonado por ter um vazio, um vazio difícil de complemento, de uma alma insatisfeita. Ali, como em poucos momentos de minha vida, eu sabia que era feliz. Descia as escadas do colégio Mayor para desbravar o resto da Catalunha. Pegamos o electrico. Quando entrei neste, respirei fundo e não quis olhar para trás. Descemos na Benimaclet; e com destino ao aeroporto, seguimos o fabuloso destino. Com destino ao aeroporto, ponto final da linha, descemos na estação Xàtiva, onde fica a Estação do Norte, onde pegaríamos o Renfe para Barcelona.
Era seis e quinze da manhã quando lá chegamos. Fomos a um café. Compramos água, salgadinhos e um café. Deparamo-nos com um personagem parecido com Bryan Kinney; mas isso foi passageiro; um tipo bem catalão. Em seguida fomos passar as malas no raio X e pagamos o trem.
A 200 km/h o trem, que beirava o mediterrâneo, dava todo um luxo a viagem, mais um prazer que colecionaria. Realmente, turismo é a melhor terapia. Três horas depois descemos na próxima estação: Barcelona-Sants, onde fomos recebidos com bem-vindos a capital da Catalunha, o local dos sonhos, da arquitetura, a beleza, do charme, e dos escândalos que viveríamos.
Fomos conversando, titubeantes, mas titubeantes por causa do excesso de fluência das línguas românicas.
A princípio o romeno disse-me que se tratava de hombres no sentido de homo sapiens, hombre sem gênero, no sentido de persona. Tendando me enganar a parte, conversamos sobre família, amigos e sobre religião. Ele disse-me, para justificar o meu questionamento, que era casado, mas não tinha filhos. O numero de anos que vivera é o mesmo quando Cristo contava três dias antes de ressusrgir. Falamos sobre religião. Parecíamos duas personagens de comédia romântica quando mostramos um ao outro o livro de Salmos que possuíamos. O vampiro cristão disse-me que era evangélico; e eu disse que acreditava numa força maior conduz a vida das pessoas. Expliquei-lhe que seguia a doutrina de Allan Kardec. Eu não sabia se os evangélicos da Romênia eram os mesmos da ceita macabra e dizimática do ressurgimento. Não aumentei esses dogmas epistolares e clericalistas, visto que sabia que o romeno era uma pessoa boa, de bons sentimentos, mesmo que antes tenha mentido descaradamente para um trabalhador com forte mediunidade enviada pelos espíritos superiores da esfera das violetas na janela. Mas para alfinetar, visto que não sou tão santo quanto deveria (é por isso que estou reencarnado, alma imperfeita), disse para ele que houve no Brasil um programa de televisão, as telenovelas, que tinha uma personagem destacada das outras, a evangélica da libertinagem, Creuza. Contei-lhe que atrás dos balcões da hipocrisia, a personagem se vendia para os mais desejos irreprimidos que as vulvas copulares poderiam beber. Os olhos do romeno piscaram duas vezes.
Conversamos mais que o habitual. Depois dos vocabulários terem cessado, fui para a sacada, onde olhava a avingunda del naranjos, dividida pela linha 4 e 6 do electrico, dos prédios da faculdade de economia, do campus tarongers, dos galhos das árvores que dançavam com o trepidar do vento de verão. Do outro lado, as quadras de tênis, ao horizonte o centro de Valência, as montanhas. Uma única lágrima crepitava dos meus olhos quando percebi, no meu espírito ainda romântico, que estaria olhando tudo aquilo pela última vez. Mas ao mesmo tempo tratava-se de um misto de felicidade com perda, pois não há no mundo melhor experiência de ir para outro pais, conhecer pessoas novas, trocar culturas, e neste país aprender a língua em loco.
O colega romeno alertou-me do aparecimento dos mosquitos. Com isso entrei e fechei a porta. Tiramos uma foto (eu mais preto impossível; preto in mediterrâneo). Trocamos e-mail. Passei a arrumar a mala. Que tristeza. Foram quatro dias espetaculares em minha vida. Com certeza não contei ao leitor, minuciosamente, os fatos do dia, caracteres que competiam apenas as vidas pessoais de minhas companheiras de jornada;mas digo, por mim, que esses foram os 4 melhores dias do ano de 2010 (MAL SABIA EU QUE SERIA UM DOS QUATRO MELHORES DIAS DE 2010).
Às cinco e meia da manhã acordei com a ligação de minha amiga Felícia.
— Vamos amigo!
— Vamos — disse ainda dormindo.
Fui para a casa de banho. Vinte minutos depois tocava o ombro do amigo romeno, este acordou, levantou-se e nos abraçamos, mas um abraço forte, desprendido de qualquer desejo reparado, ou não reparado, preconceituoso ou não, do abraço de um brasileiro que pensa ser um europeu com um romeno tímido e acanhado. (Pessoas assim chegam fácil-fácil na minha vida). Brasileiros gostam de abraçar, de se tocar. Pensei que ele se acanharia, mas não. Romenos também gostam de um abraço apertado. Puxei minha mala pelo mesmo corredor, abri a mesma porta que abrira cinco dias antes. O romeno ficou segurando-a e me disse:
— Escreve para me.
— Pode deixar — respondi batendo continência.
Acenamos e dei as costas. A porta fechou. Olhei pela última vez (?) aquele corredor repleto de apartamentos, onde moravam estudantes de vários lugares do mundo. E eu, por cinco dias, fui um deles. Entrei para a história do Colégio Mayor Galileu Galilei.
Na saída entreguei a chave do apartamento 158. Despedi-me do recepcionista. Sentadas no hall estavam minhas amigas, minhas companheiras, à minha espera. Neste exato momento em que escrevo, sinto um forte aperto em declarar cenas vividas com tanta intensidade, com tanta verdade que chegam a me faltar o ar, secar os lábios como se uma parte do meu espírito tenha ficado por lá, realizando os sonhos de infância. Sim choro, choro por ser patético, patético por ser um doente apaixonado, apaixonado por ter um vazio, um vazio difícil de complemento, de uma alma insatisfeita. Ali, como em poucos momentos de minha vida, eu sabia que era feliz. Descia as escadas do colégio Mayor para desbravar o resto da Catalunha. Pegamos o electrico. Quando entrei neste, respirei fundo e não quis olhar para trás. Descemos na Benimaclet; e com destino ao aeroporto, seguimos o fabuloso destino. Com destino ao aeroporto, ponto final da linha, descemos na estação Xàtiva, onde fica a Estação do Norte, onde pegaríamos o Renfe para Barcelona.
Era seis e quinze da manhã quando lá chegamos. Fomos a um café. Compramos água, salgadinhos e um café. Deparamo-nos com um personagem parecido com Bryan Kinney; mas isso foi passageiro; um tipo bem catalão. Em seguida fomos passar as malas no raio X e pagamos o trem.
A 200 km/h o trem, que beirava o mediterrâneo, dava todo um luxo a viagem, mais um prazer que colecionaria. Realmente, turismo é a melhor terapia. Três horas depois descemos na próxima estação: Barcelona-Sants, onde fomos recebidos com bem-vindos a capital da Catalunha, o local dos sonhos, da arquitetura, a beleza, do charme, e dos escândalos que viveríamos.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Não se sabe a que nome isso se dá
Ele ganhou um fora. Saiu pela Cidade Baixa à procura de uma alma que o ajudasse. Com ela, foi para a vida boêmia e se esgueiraram em meio de hectoplasmas chefiados por Che Guevara. Adentraram num bar cubano, bem barulhento, tomados por sapateios que vinham do andar superior; cercados de mesinhas que mais pereciam pisos ou peças de uma obra de Gaudí. Não sabiam se estavam num clima comunista, que em algum momento arrebentaria a porta o mestre Fidel, ou se realmente se divertiriam naquela noite digna de um suicídio. Digna de um suicídio, digna de uma morte anunciada, de uma morte para uma nova vida. Ele ganhou um fora e se perdeu lá dentro. Naquele ambiente cidade-baixense, mais precisamente no Sierra Maestra, localizado numa ruazinha pútrida, esquecida, velada, morta. Quem por ali passava, poderia enxergar as orgias que ocorria lá dentro, pois um vidro insone e cercado pela calefação dos corações sugados, mostrava, como uma vitrine, os casais dançando, as pernas entrecruzadas, aquele bate-coxa, aquela lascívia, aqueles compassos. Indescritíveis. Lá estava o coração piegas do homem apaixonado, interessado e fora do contexto sexual. Ele e a amiga tomavam a bebida da insanidade, que nomeada na carta de destilados, se autodescrevia – BEBER SEM MIEDO. O medo, ele perdera há horas, não seria um destilado chamado VACA LOKA que regrediria a vida daquele jovem antiquadamente romântico. No final daquela bebida, a embriaguês, que usurpa e rasga a moral dos fracos, entorpeceu a subconsciência do atuante. A tontura dos dionísos, o esquecimento dos deuses, o ambiente incoerente – onde as pernas não faziam mais sentido –, a falta do outro – que poderia estar ali, mas, por opção, e não condição, decidiu estar longe –: tudo isso, mesclado, dava um sentido de pseudofelicidade, mas por escrever felicidade, não deixava de ser felicidade, pois esquecer é ser feliz, mesmo que de mentira. Como a taça de vaca loka cambaleante, o homem, que agora se tornara, pedira uma ácida marguerita. Enquanto não vinha o ébrio bálsamo precioso de Dom Quixote... Um viva a Dom Quixote, o herói dos sonhos, o herói dos moinhos da vida, dos sofrimentos que devemos ultrapassar. Enquanto não vinha o ébrio bálsamo precioso, um grupo musical tomava lugar no recinto. E nesse grupo, havia uma personagem tipicamente cubana, o homem que tocava um instrumento que, para o homem sofredor, e não tocador, parecia ser um instrumento, não sexual, provindo do nordeste. Logo tinham um forró tocado pela típica personagem cubana. Viva Fidel! Uma panamense, a garçonete do antro, aparecia rebolando as ancas de animal do campo – como dizia o amigo Álvares de Azevedo. A marguerita fora sendo sugada com parcimônia; enquanto os canapés, acepipes enganadores dos estômagos esperançosos, foram sendo degustados pela azia corrosiva das palavras reveladas. O Sierra Maestra era o cume de Sísifo. Mesmo embriagado, o jovem – que recém se tornara homem – ainda não acreditava que suas ânsias amorosas e mediúnicas tinham chegado a um fim mau; fim mau, pois prevera e sentira e olhara tudo pelas arestas que o amor não vê. Neste instante, ele lembrara de um cego ter passado em sua frente, minutos antes do encontro derradeiro, cuja palavra central era o não, não-mau, não-fim. Para ele, não havia mais motivos que o prenderiam naquela selva de criaturas que se deliciavam nos vértices corpóreos. O que ele queria era cuidar, cuidar dele e cuidar do outro. Tão simples como amar. Tão complexo como odiar. Mas isso ele não sentia, por ser desprovido de desumanidade; mas por ser desprovido de desumanidade, a humanidade dizia apenas o não-sim e o não-embriaguês. Presos na liberdade da João Pessoa, os amigos gargalhavam a maestria do deus, que também fugia daquelas arestas amorosas, daqueles cálculos trigonométricos que se chamam sentimento-aceitação. Aceitação-isolamento. Solidão-ansiedade. Ele olhou para as árvores escuras da Redenção. Gargalhava. Gargalhava uma gargalhada-embriaguês, uma gargalhada-mentira. Abraçado a amiga, continuava o caminho tortuoso das epifânias. José Bonifácio, salva-o com o seu positivismo, com o seu progresso. Venâncio Aires, acuda-o, apresente-o a farmácia de sua esquina para que a droga o acalme, para que a droga o restabelecesse. Tinha um táxi ali na frente. Não quis embarcar. O silêncio do táxi, e o falar do taxista, o irritaria. Queria ônibus, povo, roleta, sorte, coletividade, diversidade entre iguais. Despediu-se da amiga. Tonto, dizia que as babas da vaca loka o salvaram de muito. No ônibus, ao passar a roleta dos estudantes-isentos-de-sabedoria, olhou para todos, como nunca fizera anteriormente. Tentava desvendar as histórias de todos. Olhava profundo. Os passageiros perceberam que se tratava de um bêbado, de um jovem-bêbado-apaixonado. Ele ziguezagueara e se jogara num banco. Cinco paradas depois, a lágrima-única no meio das árvores brotava. Quando acenou a porta do edifício, o choro convulsivo o dominou. Subira as escadas no meio da escuridão. No apartamento, fora para a cobertura-incoberta, e ali explodira de desespero, de incerteza, de perguntas continuáveis, de lacunas formadas por pontes. Na cozinha, locupletara-se de azeitonas e ovos de codorna. Codorna? – se questionava – Para quê, pois não preciso me sulcar desse alimento libidinoso? Jogou-se na cama. Seminu, o homem dormira sem sonhos. Na manhã, com o despertar do televisor, abrira as pálpebras doidas, e lembrara-se de tudo. Ele não podia ter vivido tudo aquilo. Levantou-se, banhou-se. Saiu para trabalhar. Lá, com uma fome de literatura, a fome que os adeptos da paixão não sentem, ele sentou-se e recontinuou a leitura de Sartre, autor com quem estava há meses. Ele estava com a Náusea. Mas com a Náusea que o libertou. Ele leu:
“Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata estava saindo. Precipitou-se sobre mim.
— Tenho que lhe agradecer, senhor. Suas fotografias me proporcionaram horas inesquecíveis.”
Ele lembrou-se da cena lida meses atrás, quando o Autodidata vira as fotos de Antoine de Roquentin, quando fotografara em suas viagens pelo mundo.
“Ao vê-lo, tive um momento de esperança: a dois talvez fosse mais fácil atravessar o dia. Mas com o Autodidata só aparentemente se está a dois.
O guarda vinha em nossa direção: um corso baixinho, irascível, com bigodes de tambor-mor. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo os calcanhares. No inverno cospe nos lenços que depois põe para secar no calefator.
O Autodidata se aproximou tanto que sentia em meu rosto o sopro de sua respiração:
— Não lhe direi nada diante desse homem — disse em tom confidencial. — Se o senhor quisesse...
— O quê?
Enrusbeceu e suas ancas ondularam graciosamente:
— Ah, senhor! Estou me precipitando. Aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?
— Com muito prazer.
Tinha tanta vontade de almoçar com ele quanto de me enforcar.
— Fico muito feliz — disse o Autodidata.
Acrescentou rapidamente:
— Irei buscá-lo se quiser.
E desapareceu, certamente com medo de que eu mudasse de opinião se me desse tempo”
Fechou o livro. A catarse era evidente. Era uma quinta-feira de sua vida, quando tudo acontecera numa quarta revelatória. Agora o novo homem queria saber como foi o almoço de quarta-feira de Antoine, o rapaz da biblioteca, e o leitor voraz, o Autodidata. Sartre e sua La Nausée seriam seus primeiros companheiros. Abriu as páginas, devorando-as até chegar numa quarta-feira melhor. Numa quarta-feira no Café Mably.
“Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata estava saindo. Precipitou-se sobre mim.
— Tenho que lhe agradecer, senhor. Suas fotografias me proporcionaram horas inesquecíveis.”
Ele lembrou-se da cena lida meses atrás, quando o Autodidata vira as fotos de Antoine de Roquentin, quando fotografara em suas viagens pelo mundo.
“Ao vê-lo, tive um momento de esperança: a dois talvez fosse mais fácil atravessar o dia. Mas com o Autodidata só aparentemente se está a dois.
O guarda vinha em nossa direção: um corso baixinho, irascível, com bigodes de tambor-mor. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo os calcanhares. No inverno cospe nos lenços que depois põe para secar no calefator.
O Autodidata se aproximou tanto que sentia em meu rosto o sopro de sua respiração:
— Não lhe direi nada diante desse homem — disse em tom confidencial. — Se o senhor quisesse...
— O quê?
Enrusbeceu e suas ancas ondularam graciosamente:
— Ah, senhor! Estou me precipitando. Aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?
— Com muito prazer.
Tinha tanta vontade de almoçar com ele quanto de me enforcar.
— Fico muito feliz — disse o Autodidata.
Acrescentou rapidamente:
— Irei buscá-lo se quiser.
E desapareceu, certamente com medo de que eu mudasse de opinião se me desse tempo”
Fechou o livro. A catarse era evidente. Era uma quinta-feira de sua vida, quando tudo acontecera numa quarta revelatória. Agora o novo homem queria saber como foi o almoço de quarta-feira de Antoine, o rapaz da biblioteca, e o leitor voraz, o Autodidata. Sartre e sua La Nausée seriam seus primeiros companheiros. Abriu as páginas, devorando-as até chegar numa quarta-feira melhor. Numa quarta-feira no Café Mably.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Terceiro dia em Valência
Era o que estava faltando para que a viaje ou Voyage ou viagem se tornasse o marco inicial do neoneonaturalismo. O que o romeno tinha na cabeça? Tentei captar na profundeza de minha mediunidade o que ele pensava quando me perguntara se tinha muchos hombres em la platja? Não consegui. A alma cigana do romeno, mais a força da sua descendência noturna com o conde Drácula fez com que eu não conseguisse ler o que se passava dentro dele. Muito menos perceber se alguma coisa concreta latejava nele.
Até que a resposta veio molhada como as ondas de Malvarrosa. Respondi:
— Sim... há muchos hombres.
Ele continuava com o sorriso de cigana obliqua e dissimulada. Havia mistérios naquele olhar, naqueles trejeitos, nos olhos arrepiados. Fiquei olhando para ele depois de ter respondido a santa inquisição. A troca de olhar foi tão intensa que os dele se quedaram.
Ele fora se deitar e me virei para o computador. Fiquei conversando com amigos no Brasil sobre o ocorrido. As maiores intrigas e dicas quentíssimas me foram alertadas para que eu pudesse resolver esse mistério dos hombres da platja.
O amigo romeno dormia em sua furna mortuária, quando decidi fechar um dos olhos para descansar.
********
O sol e os pássaros da Catalunha anunciavam que um novo dia iniciava aos pés do Mediterrâneo. Era o dia de minha comunicação. Felícia, Lindy e eu tomamos um café da manhã rapidamente e nos descambamos a faculdade. Lá, nos deslocamos ao quarto andar do prédio. Adentramos a secció 10 – Anàlisi del discurs i de la conversació. Escrit i oral Llengua dels mitjans de comunicació. As apresentações não tinham iniciado. Inseri o arquivo no PC da sala para que pudéssemos passar os slides. Conversei com uma portuguesa, que seria a primeira a comunicar. Quando ela teve a voz, começou a discursar em francês. Vinte minutos depois ela encerrou a fala.
Felícia e eu subimos para compormos nossa comunicação. Lindy ficou gravando. Foi uma das melhores desenvolturas que tive numa apresentação em congresso. Inicialmente falei para os presentes que iríamos apresentar em Língua Portuguesa:
— Primeiramente gostaria de informar que nossa comunicação será em Língua Portuguesa, visto que o nosso francês está em processo de aquisição.
— Não há grandes percalços, pois temos aqui um grupo de portugueses — disse a pesquisadora que se apresentou anteriormente apontando para as colegas — aqui atrás há um grupo de franceses que compreendem a nossa língua e ali atrás temos espanhóis que também entendem o português. Logo, não terão problemas.
A mágica tinha iniciado ali. A cada slide, os presentes anotavam, sorriam, ovacionavam com olhos brilhantes as nossas palavras.Vinte minutos depois, o público que ali estava conversou sobre nossa pesquisa e sobre os argumentos que utilizamos para embasar o comportamento da ciberlinguagem no Brasil. Os presentes elogiaram nossa iniciativa em dividir no congresso de filologia uma pesquisa sobre a língua portuguesa no Brasil.
— Estão de parabénssssssssss — disse com seu S chiado de portuguesa.
Ganhamos as ruas de Valência.
Fomos para a Torre dos Serranos. Por dois eurinhos penetramos na torre. Depois continuamos percorrendo as ruazinhas espanholas do centro gótico. Felícia, Lindy e eu apresentamos as demais os pontos turísticos que elas não conheciam. Fomos novamente ao Mercado Modernista de Valência. Lá, a tia, aquela que tomou vinho pensando que era gratuito, comprou uns acepipes para o grupo: um saco cheio de azeitonas. Valor: alguns eurinhos. Nunca sai comendo qualquer coisa na rua. Ali pude aproveitar os sabores que a vida pode proporcionar nos fatos mais simples, como por exemplo comer azeitona na rua.
Depois do mercado e das azeitonas, fomos para a Praça do Ajuntamiento, palco de inúmeras reivindicações dos valencianos. Mais tarde, pegamos a linha 80 do ônibus em direção a Avigunda de Blasco Ibáñez. Fomos almoçar na faculdade de psicologia, que fica em frente da faculdade de filologia. Almoçamos. Assim que saiamos, um encontro. O colega romeno surgia com sua capa de morcego.
— Mas o que fazes a cá?
— Lunch.
Conversamos mais algumas palavrinhas em diversas línguas; o que era natural.
Tocou-me as costas, quando ele se despediu.
Felícia disse:
— Meu amigo, tem algo ai nessa história. Ele fala comigo, ai tudo bem. Mas contigo, ele falta pular em cima de ti. E quando vai embora ainda te massageia as costas.
Contei tudo o que aconteceu na noite anterior a minha amiga. Ela ficou amarela. No final de uma longa conversa, decidi:
— No final da noite farei um ultimato.
Tínhamos um plano de ir à praia. Quando fui para casa pegar os trajes necessários uma depressão se apossou de minha alma. Comecei a chorar como uma criança. Como uma criança que não queria ir embora. Como uma criança que sabia que era feliz ali, e a vida estava dizendo que um novo ciclo, romântico como sempre, estava iniciando. Chorava copiosamente. Corri para o quarto de Felícia e pedi o netbook emprestado. Escrevi como aquela personagem do filme ALGUÉM TEM QUE CEDER, que chorava em todo o lugar em que estava, assim que desiludira do amor. As teclas do computador de minha amiga estavam encharcadas de saudade do que ainda não tinha perdido, mas que estava, dentro de doze horas, perder. Nem Jack Bauer teria tanta presteza em evitar essa vilania.
Fomos para a praia.
A água estava gelada. Logo, não entramos na água. Ficamos observando os escândalos que a sociedade espanhola pode proporcionar em seu litoral. Um deles, dos dez mais escândalos da viagem, pode-se dizer que esse é o terceiro mais ruidoso de todos. Lá estava eu sentado nas areias valencianas, quando vislumbrei algo que vestia uma tanga nada delicada. Esta estava embocada na contraboca daquela criatura.
— Gurias, aquilo é um homem ou uma mulher fazendo topless?
— Onde?
— Ali — apontei discretamente.
— É um homem.
A criatura saia da água como se fosse a sereia de Ulisses. Cantava chamando os bofes disponíveis na área. Vestia aquela tanguinha e desfilava seus sessenta anos de sensualidade pela praya de Malvarrosa. As mulheres que estavam de titis de fora observavam o destile de Gisele, que abanava os cabelos que não tinha. A criatura, filho do ciclope polifemo, andava de lá a cá, mas esse cá, graças ao deus Hermes não era perto de nós. Mal sabia ele que uma mira estava contra ele. Era a minha mira. Grande e forte e arrebatadora mira. Um clic, como faz a Arno, e a foto fora tirada para o escândalo dos porto-alegrenses amigos. Mas pudico leitor, que pensa que somente o fato da tanga estar enganzada nos montes da Galileia era o fim do mundo, estas enganado. Além da peça estar desfrutando das mais profundas matas, o elemento frontal, o caroço dilatado por algum Viagra, denotava a circunferência de um ângulo obtuso, ou melhor, agudo perpendicular a 90º. Tudo andava na frente do homem, e nada atrás.
— Quem deu crack para essa criatura? — perguntei.
Após alguns minutos de desfiles, o homem, munido de seus acessórios, grandes e pequenos, perpendiculares ou não, fora embora, para que os outros espanhóis pudessem escandalizar. E assim foi. Um grupo de jovens começou a dançar uma espécie de funk nas areias brancas de Malvarrosa. Tocavam-se, se acaricivam e simulavam cópulas.
— Mas onde estamos, meu Deus? Cidreira? Rei do Peixe? Pinhal?
As águas não eram mais cristalinas.
Ainda queria provar uma paella valenciana. Mas não, com a minha tristeza e desanimo, por deixar Valência e seus escândalos costeiros, decidi acompanhar minhas amigas Felícia e Lindy no BURGER KING. Prometi a Valência que voltaria para provar a paella verdadeira, preparada na matriz.
Quando regressei ao Colégio Mayor lá estava o romeno.
Alguns minutos depois e depois de respirar fundo perguntei para ele:
— Eu fiquei sem entender o porquê da tua pergunta de ontem?
— Qual pergunta? — disse sorrindo.
— Se tinha muchos hombres em la platja?
Essa continuação ocorrerá, assim que as palavras saírem pelos vãos dos dedos.
Até que a resposta veio molhada como as ondas de Malvarrosa. Respondi:
— Sim... há muchos hombres.
Ele continuava com o sorriso de cigana obliqua e dissimulada. Havia mistérios naquele olhar, naqueles trejeitos, nos olhos arrepiados. Fiquei olhando para ele depois de ter respondido a santa inquisição. A troca de olhar foi tão intensa que os dele se quedaram.
Ele fora se deitar e me virei para o computador. Fiquei conversando com amigos no Brasil sobre o ocorrido. As maiores intrigas e dicas quentíssimas me foram alertadas para que eu pudesse resolver esse mistério dos hombres da platja.
O amigo romeno dormia em sua furna mortuária, quando decidi fechar um dos olhos para descansar.
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O sol e os pássaros da Catalunha anunciavam que um novo dia iniciava aos pés do Mediterrâneo. Era o dia de minha comunicação. Felícia, Lindy e eu tomamos um café da manhã rapidamente e nos descambamos a faculdade. Lá, nos deslocamos ao quarto andar do prédio. Adentramos a secció 10 – Anàlisi del discurs i de la conversació. Escrit i oral Llengua dels mitjans de comunicació. As apresentações não tinham iniciado. Inseri o arquivo no PC da sala para que pudéssemos passar os slides. Conversei com uma portuguesa, que seria a primeira a comunicar. Quando ela teve a voz, começou a discursar em francês. Vinte minutos depois ela encerrou a fala.
Felícia e eu subimos para compormos nossa comunicação. Lindy ficou gravando. Foi uma das melhores desenvolturas que tive numa apresentação em congresso. Inicialmente falei para os presentes que iríamos apresentar em Língua Portuguesa:
— Primeiramente gostaria de informar que nossa comunicação será em Língua Portuguesa, visto que o nosso francês está em processo de aquisição.
— Não há grandes percalços, pois temos aqui um grupo de portugueses — disse a pesquisadora que se apresentou anteriormente apontando para as colegas — aqui atrás há um grupo de franceses que compreendem a nossa língua e ali atrás temos espanhóis que também entendem o português. Logo, não terão problemas.
A mágica tinha iniciado ali. A cada slide, os presentes anotavam, sorriam, ovacionavam com olhos brilhantes as nossas palavras.Vinte minutos depois, o público que ali estava conversou sobre nossa pesquisa e sobre os argumentos que utilizamos para embasar o comportamento da ciberlinguagem no Brasil. Os presentes elogiaram nossa iniciativa em dividir no congresso de filologia uma pesquisa sobre a língua portuguesa no Brasil.
— Estão de parabénssssssssss — disse com seu S chiado de portuguesa.
Ganhamos as ruas de Valência.
Fomos para a Torre dos Serranos. Por dois eurinhos penetramos na torre. Depois continuamos percorrendo as ruazinhas espanholas do centro gótico. Felícia, Lindy e eu apresentamos as demais os pontos turísticos que elas não conheciam. Fomos novamente ao Mercado Modernista de Valência. Lá, a tia, aquela que tomou vinho pensando que era gratuito, comprou uns acepipes para o grupo: um saco cheio de azeitonas. Valor: alguns eurinhos. Nunca sai comendo qualquer coisa na rua. Ali pude aproveitar os sabores que a vida pode proporcionar nos fatos mais simples, como por exemplo comer azeitona na rua.
Depois do mercado e das azeitonas, fomos para a Praça do Ajuntamiento, palco de inúmeras reivindicações dos valencianos. Mais tarde, pegamos a linha 80 do ônibus em direção a Avigunda de Blasco Ibáñez. Fomos almoçar na faculdade de psicologia, que fica em frente da faculdade de filologia. Almoçamos. Assim que saiamos, um encontro. O colega romeno surgia com sua capa de morcego.
— Mas o que fazes a cá?
— Lunch.
Conversamos mais algumas palavrinhas em diversas línguas; o que era natural.
Tocou-me as costas, quando ele se despediu.
Felícia disse:
— Meu amigo, tem algo ai nessa história. Ele fala comigo, ai tudo bem. Mas contigo, ele falta pular em cima de ti. E quando vai embora ainda te massageia as costas.
Contei tudo o que aconteceu na noite anterior a minha amiga. Ela ficou amarela. No final de uma longa conversa, decidi:
— No final da noite farei um ultimato.
Tínhamos um plano de ir à praia. Quando fui para casa pegar os trajes necessários uma depressão se apossou de minha alma. Comecei a chorar como uma criança. Como uma criança que não queria ir embora. Como uma criança que sabia que era feliz ali, e a vida estava dizendo que um novo ciclo, romântico como sempre, estava iniciando. Chorava copiosamente. Corri para o quarto de Felícia e pedi o netbook emprestado. Escrevi como aquela personagem do filme ALGUÉM TEM QUE CEDER, que chorava em todo o lugar em que estava, assim que desiludira do amor. As teclas do computador de minha amiga estavam encharcadas de saudade do que ainda não tinha perdido, mas que estava, dentro de doze horas, perder. Nem Jack Bauer teria tanta presteza em evitar essa vilania.
Fomos para a praia.
A água estava gelada. Logo, não entramos na água. Ficamos observando os escândalos que a sociedade espanhola pode proporcionar em seu litoral. Um deles, dos dez mais escândalos da viagem, pode-se dizer que esse é o terceiro mais ruidoso de todos. Lá estava eu sentado nas areias valencianas, quando vislumbrei algo que vestia uma tanga nada delicada. Esta estava embocada na contraboca daquela criatura.
— Gurias, aquilo é um homem ou uma mulher fazendo topless?
— Onde?
— Ali — apontei discretamente.
— É um homem.
A criatura saia da água como se fosse a sereia de Ulisses. Cantava chamando os bofes disponíveis na área. Vestia aquela tanguinha e desfilava seus sessenta anos de sensualidade pela praya de Malvarrosa. As mulheres que estavam de titis de fora observavam o destile de Gisele, que abanava os cabelos que não tinha. A criatura, filho do ciclope polifemo, andava de lá a cá, mas esse cá, graças ao deus Hermes não era perto de nós. Mal sabia ele que uma mira estava contra ele. Era a minha mira. Grande e forte e arrebatadora mira. Um clic, como faz a Arno, e a foto fora tirada para o escândalo dos porto-alegrenses amigos. Mas pudico leitor, que pensa que somente o fato da tanga estar enganzada nos montes da Galileia era o fim do mundo, estas enganado. Além da peça estar desfrutando das mais profundas matas, o elemento frontal, o caroço dilatado por algum Viagra, denotava a circunferência de um ângulo obtuso, ou melhor, agudo perpendicular a 90º. Tudo andava na frente do homem, e nada atrás.
— Quem deu crack para essa criatura? — perguntei.
Após alguns minutos de desfiles, o homem, munido de seus acessórios, grandes e pequenos, perpendiculares ou não, fora embora, para que os outros espanhóis pudessem escandalizar. E assim foi. Um grupo de jovens começou a dançar uma espécie de funk nas areias brancas de Malvarrosa. Tocavam-se, se acaricivam e simulavam cópulas.
— Mas onde estamos, meu Deus? Cidreira? Rei do Peixe? Pinhal?
As águas não eram mais cristalinas.
Ainda queria provar uma paella valenciana. Mas não, com a minha tristeza e desanimo, por deixar Valência e seus escândalos costeiros, decidi acompanhar minhas amigas Felícia e Lindy no BURGER KING. Prometi a Valência que voltaria para provar a paella verdadeira, preparada na matriz.
Quando regressei ao Colégio Mayor lá estava o romeno.
Alguns minutos depois e depois de respirar fundo perguntei para ele:
— Eu fiquei sem entender o porquê da tua pergunta de ontem?
— Qual pergunta? — disse sorrindo.
— Se tinha muchos hombres em la platja?
Essa continuação ocorrerá, assim que as palavras saírem pelos vãos dos dedos.
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