sábado, 11 de dezembro de 2010

Despedida de Valência - a urbe da saudade

A história terminou desta maneira:
Fomos conversando, titubeantes, mas titubeantes por causa do excesso de fluência das línguas românicas.
A princípio o romeno disse-me que se tratava de hombres no sentido de homo sapiens, hombre sem gênero, no sentido de persona. Tendando me enganar a parte, conversamos sobre família, amigos e sobre religião. Ele disse-me, para justificar o meu questionamento, que era casado, mas não tinha filhos. O numero de anos que vivera é o mesmo quando Cristo contava três dias antes de ressusrgir. Falamos sobre religião. Parecíamos duas personagens de comédia romântica quando mostramos um ao outro o livro de Salmos que possuíamos. O vampiro cristão disse-me que era evangélico; e eu disse que acreditava numa força maior conduz a vida das pessoas. Expliquei-lhe que seguia a doutrina de Allan Kardec. Eu não sabia se os evangélicos da Romênia eram os mesmos da ceita macabra e dizimática do ressurgimento. Não aumentei esses dogmas epistolares e clericalistas, visto que sabia que o romeno era uma pessoa boa, de bons sentimentos, mesmo que antes tenha mentido descaradamente para um trabalhador com forte mediunidade enviada pelos espíritos superiores da esfera das violetas na janela. Mas para alfinetar, visto que não sou tão santo quanto deveria (é por isso que estou reencarnado, alma imperfeita), disse para ele que houve no Brasil um programa de televisão, as telenovelas, que tinha uma personagem destacada das outras, a evangélica da libertinagem, Creuza. Contei-lhe que atrás dos balcões da hipocrisia, a personagem se vendia para os mais desejos irreprimidos que as vulvas copulares poderiam beber. Os olhos do romeno piscaram duas vezes.

Conversamos mais que o habitual. Depois dos vocabulários terem cessado, fui para a sacada, onde olhava a avingunda del naranjos, dividida pela linha 4 e 6 do electrico, dos prédios da faculdade de economia, do campus tarongers, dos galhos das árvores que dançavam com o trepidar do vento de verão. Do outro lado, as quadras de tênis, ao horizonte o centro de Valência, as montanhas. Uma única lágrima crepitava dos meus olhos quando percebi, no meu espírito ainda romântico, que estaria olhando tudo aquilo pela última vez. Mas ao mesmo tempo tratava-se de um misto de felicidade com perda, pois não há no mundo melhor experiência de ir para outro pais, conhecer pessoas novas, trocar culturas, e neste país aprender a língua em loco.

O colega romeno alertou-me do aparecimento dos mosquitos. Com isso entrei e fechei a porta. Tiramos uma foto (eu mais preto impossível; preto in mediterrâneo). Trocamos e-mail. Passei a arrumar a mala. Que tristeza. Foram quatro dias espetaculares em minha vida. Com certeza não contei ao leitor, minuciosamente, os fatos do dia, caracteres que competiam apenas as vidas pessoais de minhas companheiras de jornada;mas digo, por mim, que esses foram os 4 melhores dias do ano de 2010 (MAL SABIA EU QUE SERIA UM DOS QUATRO MELHORES DIAS DE 2010).

Às cinco e meia da manhã acordei com a ligação de minha amiga Felícia.
— Vamos amigo!
— Vamos — disse ainda dormindo.
Fui para a casa de banho. Vinte minutos depois tocava o ombro do amigo romeno, este acordou, levantou-se e nos abraçamos, mas um abraço forte, desprendido de qualquer desejo reparado, ou não reparado, preconceituoso ou não, do abraço de um brasileiro que pensa ser um europeu com um romeno tímido e acanhado. (Pessoas assim chegam fácil-fácil na minha vida). Brasileiros gostam de abraçar, de se tocar. Pensei que ele se acanharia, mas não. Romenos também gostam de um abraço apertado. Puxei minha mala pelo mesmo corredor, abri a mesma porta que abrira cinco dias antes. O romeno ficou segurando-a e me disse:
— Escreve para me.
— Pode deixar — respondi batendo continência.
Acenamos e dei as costas. A porta fechou. Olhei pela última vez (?) aquele corredor repleto de apartamentos, onde moravam estudantes de vários lugares do mundo. E eu, por cinco dias, fui um deles. Entrei para a história do Colégio Mayor Galileu Galilei.

Na saída entreguei a chave do apartamento 158. Despedi-me do recepcionista. Sentadas no hall estavam minhas amigas, minhas companheiras, à minha espera. Neste exato momento em que escrevo, sinto um forte aperto em declarar cenas vividas com tanta intensidade, com tanta verdade que chegam a me faltar o ar, secar os lábios como se uma parte do meu espírito tenha ficado por lá, realizando os sonhos de infância. Sim choro, choro por ser patético, patético por ser um doente apaixonado, apaixonado por ter um vazio, um vazio difícil de complemento, de uma alma insatisfeita. Ali, como em poucos momentos de minha vida, eu sabia que era feliz. Descia as escadas do colégio Mayor para desbravar o resto da Catalunha. Pegamos o electrico. Quando entrei neste, respirei fundo e não quis olhar para trás. Descemos na Benimaclet; e com destino ao aeroporto, seguimos o fabuloso destino. Com destino ao aeroporto, ponto final da linha, descemos na estação Xàtiva, onde fica a Estação do Norte, onde pegaríamos o Renfe para Barcelona.

Era seis e quinze da manhã quando lá chegamos. Fomos a um café. Compramos água, salgadinhos e um café. Deparamo-nos com um personagem parecido com Bryan Kinney; mas isso foi passageiro; um tipo bem catalão. Em seguida fomos passar as malas no raio X e pagamos o trem.

A 200 km/h o trem, que beirava o mediterrâneo, dava todo um luxo a viagem, mais um prazer que colecionaria. Realmente, turismo é a melhor terapia. Três horas depois descemos na próxima estação: Barcelona-Sants, onde fomos recebidos com bem-vindos a capital da Catalunha, o local dos sonhos, da arquitetura, a beleza, do charme, e dos escândalos que viveríamos.

Um comentário:

  1. Quem viveu o privilégio de estar nessa viagem sente cada vírgula de emoção em tuas linhas. Linda descrição. Amei.

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