terça-feira, 22 de julho de 2014

Dize-me, doutor, o que eu tenho?

A vida às vezes se mostra contrária aos nossos planos. Temos inúmeras expectativas seja nos outros ou o que as pessoas esperam de nós. Hoje vivi uma cena bem peculiar e bem engraçada. Aristóteles, na Arte Poética, salientou que peripécia “é a mutação dos sucessos no contrário, efetuada do modo como dissemos; e esta inversão deve produzir-se, também o dissemos, verossímil e necessariamente. Assim, no Édipo, o mensageiro que viera no propósito de tranquilizar o rei e de libertá-lo do terror que sentia nas suas relações com a mãe, descobrindo quem ele era, causou o efeito contrário”. Hoje vivi uma peripécia. Semanas, dias, meses, horas, vidas atrás tive ímpeto de mudar o rumo das coisas, sair da rotina, mudar os ares, jogar tudo para o céu. Temos que observar coisinhas tão pequininhas de nossa sociedadezinha com as quais não concordamos e temos que viver miseravelmente com elas. São tantas as adversidades morais, éticas, sociais que temos que enfrentar que acabamos acreditando não suportar os revezes divergentes de nossa pequena mente dita humana. Percebendo que esses revezes não têm fim e buscando acreditar que EU, em caixa-alta, como EU mesmo sou para tudo, sempre gritante, tenha culpa nos acontecimentos absurdos da vida, conclui que tinha que ir até um psiquiatra, uma vez que sozinho não estava dando. Indo almoçar com minha amiga, passei na frente de uma clínica, que fica na subida de minha rua. Falei com a secretária do meu interesse. Ela sobressaltou a sobrancelha e o corpo e disse: “Se o senhor quiser, tenho um horário para agora mesmo.” Disse a ela que não, pois teria que voltar em casa para pegar meu cartão do plano de saúde. E ela: “O Dr. M. só atende às terças-feiras. O ideal é que fosse hoje.” Pensei na mesma ideia que a da secretária, pois começando a tomar os remédios hoje mesmo, na próxima semana, certamente, seria um novo homem, um novo eu. Disse a secretária, cujo nome é o mesmo de minha mãe, que iria almoçar e que em duas horas estaria devolta para a metamorfose. Depois de saborear um belíssimo Filé de frango recheado envolto em uma ornamentada crosta de castanhas do Pará ao molho de vinho branco, nhoque com confit de tomates e um suculento involtini de abobrinha com ricota e azeitonas da minha maravilhosa amiga gourmet, eu disse a ela: “Tenho um horário marcado com um psiquiatra. Olha que orgulho!” Ela me disse: “Mas que maravilha! Onde? Preciso de uma receita. Ai que saudade do meu Alprazolan.” Lembrei do dito remédio. Um vento passou em meu rosto e lembrei daquele domingo de fevereiro quando todos os amigos estavam hospedados no apartamento de Titia no litoral norte (ah! O apartamento de titia). Esta minha amiga simplesmente disse depois de um estafante dia de praia: “Agora, de café-da-tarde, vamos tomar uma boletinha e nanar, pois temos que pegar estrada para Porto Alegre. O mundo inteiro estará indo para lá depois do feriado. Portanto, a estrada será longa.” Tremendo na base, tomei meio remédio. Me pus no sofá da sala do apartamento de titia a jogar Candy Crush (o jogo de frutinhas) quando simplesmente um sono súbito me acometeu. O céu fico preto, as frutinhas do Candy Crush ficaram pretas, o apartamento de titia ficou preto, e eu dormi. Três pequenas horas depois uma paz tremenda dentro de mim. Pegamos o carro e partimos para a estrada. Nada mais nada menos que quatro horas depois estávamos em Porto Alegre. Durante a viagem rimos, demos gargalhadas das peripécias do final de semana. Nunca quatro horas de estrada foram tão rápidas quanto a desta viagem (detalhe: Porto Alegre-Tramandaí a viagem dura 1h20 – se for muito devagar ainda). Mas chegamos bem felizes às cinco da manhã. No quarto de hóspedes da casa de meus amigos, simplesmente me joguei na cama. Não vou descrever a cama. Por isso, já faço um merchan e vou deixar a Luiza (do Magazine) fazer a descrição para vocês:


Dormi longas e calorosas horas nessa cama. Acordei novo. Mais tarde fui para casa e lembrei que estava ocorrendo uma greve dos ônibus de Porto Alegre. Fui a pé para casa com o calorão todo. E mesmo assim não me senti mal. FIM DO FLASH BACK. O vento passou e a mesma amiga disse que eu tentasse uma receitinha do Alprazolan. Era uma boa ideia. Despedimo-nos. Fui até meu apartamento, que é ali perto, peguei o cartão do plano de saúde. Na clínica, esperei por alguns instantes até que um Psiquiatra sério, cenho de poucos amigos, clamou por meu nome. Ele me indicou a quarta porta à direita. Que tenso. Fui caminhando por aquele corredor contando apenas as portas. Quando cheguei na de número 4 um pavor momentâneo se deu que cheguei a lembrar da porta dos desesperados do Sérgio Malandro. Aff! Vai o vídeozinho ai!


Na sala, havia duas poltronas, uma estante de livros. As paredes eram verdes e a luz revelava um certo tom de mistério deixando o clima um tanto nebuloso. O médico simplesmente perguntou: “O que te traz aqui?”. Eu abri um papiro e falei tudo! Depois de tantas ideias, o médico simplesmente disse o que eu tinha:

...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... ........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... .................................................................................................................................................................................................................................................................... ....................................................................................................................................................................................................................................................................

NADA

Ele ainda disse que nenhum remédio me ajudaria. Somente me prejudicaria. Pedi pelo menos um Alprazolanzinho a tira gosto. NADA.

Ao sair, mandei um whatsapp para minha amiga de fé Felicia Volkweis, conhecida de todos, desde os tempos em que os visigodos invadiram Valência, na Espanha. Sabem o que ela me disse, caros leitores, em áudio no wpp? Isto.
“Haha. Essa foi muito boa! Tipo, queridinho, tu não tem nada. Volta pra casa. Vai tomar um chá!”

Assim termino esse post tomando um chá de limão e gengibre. Até que me sinto melhor!