,uma vírgula, este pequeno símbolo de
pontuação iniciou a nossa relação. Conforme disse o cineasta francês Jean-Luc
Godard “a história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não
necessariamente nessa ordem”. É justamente inspirada nessa epigrafe que a metáfora
da vida constituiu minha história com a turma 83, logo, a nossa história.
Conhecemo-nos no meio da trajetória, mas, que pena, no final dela. Mas foi
dessa forma, no meio do fim, que a vida combinou o nosso encontro. Nossa
relação começou com a nebulosa sombra chamada orações subordinadas. Com a minha
chegada, senti no olhar destes alunos que a sombra da gramática estava
desaparecendo e uma luz de conhecimento, conhecimento este que tanto desejavam
e que pude enxergar nos olhares que pediam: “Por favor, escuta-nos”. Foi um
sonho que estava se realizando.
Clarice Lispector inicia
o romance Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres da mesma forma
como foi a nossa história, com uma vírgula. A sincronicidade dos fatos não é
tão misteriosa. Observem novamente o título da obra Uma aprendizagem ou O
Livro dos Prazeres. Estes formandos, a cada aula de Língua Portuguesa,
demonstravam a aprendizagem e o prazer de ter uma aula ministrada por mim. Não
houve aula em que não era dito: “Sor, eu te amo”, ou “Sor, o senhor é o melhor
professor que eu já tive”. Em nossas aulas, recheadas de aprendizagem e prazer,
não discutíamos somente a Língua Portuguesa. Conversamos muito sobre Literatura
e, quando conversamos sobre Literatura, os assuntos se multiplicam: falávamos
sobre Psicanálise, amor, personalidade, viajávamos para outros continentes,
onde conhecemos uma sala de aula de 8ª série em Angola, descobrimos culturas em
Moçambique, velejamos pelas ruas do Afeganistão. Conhecemos Eugênio, Olívia,
Rami, Tony, Amir, Hassan, Gregor, Mersault, Cândido, Eugênia, Naná, Claude,
Jacques, Chaval, Etienne Lantier e outros tantos personagens, antes
desconhecidos de vocês, que marcaram o ano. Com os autores, viajamos o mundo sem
sair de casa. Erico Verissimo, Paulina Chiziane, Khaled Hosseini, Kafka, Zola,
Camus. Viajamos o mundo. Alguns até pensavam que se tratava de aulas de
Geografia, quando o professor de Português levava mapas para a sala de aula, ou
mesmo de História, quando discutíamos os comportamentos políticos das
personagens. Eis a sedução em dar aulas de Língua Portuguesa. Posso dizer que
ministrar esta disciplina é dar aula sobre a arte de viver.
Viver, estes alunos sabem
fazê-lo. Ainda hei de encontrar uma turma tão emotiva como esta. Não há nesta
escola, certamente, turma tão emocionante quanto a 83. Estes formandos compõem
uma seleta escolha divina de amor. Não houve dias em que não houve um sorriso,
um abraço, um acalento. Para mim eles disseram: “Sor, me ajuda”. E ali estava
eu, no meio do pátio ouvindo, agachado tocando o ombro de cada um deles. Vejo
neles uma força indestrutível, uma força de campeões, alunos que batalham,
alunos sinceros, alunos protagonistas de sua história. Em todos os capítulos
houve uma grande emoção em que a turma 83 estava protagonizando. Os integrantes são movidos pelo combustível
humano chamado Paixão. Mergulham nas águas do agora, não deixam nada para
depois. Amo, amo agora. Nossos encontros eram ricos, riquíssimos, pois, como
dizia nosso conhecido amigo Voltaire “Devemos julgar um homem mais por suas
perguntas do que por suas respostas”. Estes estudantes, que neste momento
passam pela imensa ponte entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, não
apenas responderam certeiramente os questionamentos do professor, mas também
contribuíram com questões que mostravam a força de suas personalidades. Tanto
que nesta turma há poetas, lutadores, dançarinas, sentinelas e deuses. Sim, há
alunos deuses. Deus o livre!
Por isso digo, jamais
permitam que diminuam o caráter de vocês. Quando alguém diminui-los, mostre
para este alguém, em ação, em comportamento respeitável entre os homens, que
vocês são capazes de ser, e isso sei que são, de provar a grandeza que há
dentro de cada um.
Apego-me ao texto do
autor norte-americano Walt Whitman para simbolizar o momento em que vivemos. O
nome deste texto é “Oh Capitão! Meu Capitão!”. Imagino vocês a me dizer:
“Oh capitão! Meu capitão!
Nossa viagem medonha terminou; o barco venceu todas as tormentas, o prêmio que
perseguimos foi ganho; o porto está próximo, ouço os sinos, o povo todo exulta,
enquanto seguem com o olhar a quilha firme, o barco raivoso e audaz:
O restante do poema conta
a morte do capitão e seus marinheiros tentando reavivá-lo. O povo no porto
aclama ansioso pela chegada triunfal. Os heróis haviam conseguido depois de uma
dura viagem, uma viagem guiada, claro, pelo Capitão. Agora, como nos momentos
imperfeitos, o sucesso não era integral. A felicidade ocorreu sem a vida do
líder, que os guiou nas ondas.
Sim, meus alunos, é assim
que me sinto a partir de agora. Uma parte de mim irá com vocês assim que vocês
passarem pela imigração para o Ensino Médio. O carimbo selará nossa separação,
logo nossa despedida. Resultamos de um trabalho que constituiu de força, de determinação,
de união e de perseverança. Estendo minha mão uma última vez, pois o capitão se
despede, sem jamais esquecê-los, pois esta tripulação viajou na mesma onda, a
mesma onda que pulamos, quando corremos para oceano no Balneário. Fomos e
estamos no topo da montanha. No ponto máximo. Cheios de medo da altura,
naturalmente. Do alto da montanha enxergam o mar, verde, sereno, e lembrem que
um dia estávamos lá em baixo, surfando na mesma onda, fazendo com que os todos
estivessem em sintonia.
Já que agora estão no topo, desafios condizentes com vossas
habilidades serão atribuídos a vocês. Agora o desafio não é o mar. O desafio
agora são os ventos. E sei que conseguirão vencê-los.
Assim termino meu
discurso, salientando e retribuindo os vários “eu te amo” que recebi. Digo: eu
vos amo, 83. Vesti a camisa desta turma e sempre vestirei enquanto formem
homens de bem, de valor e de respeito. Uma das coisas que menos sei lidar é com
a despedida. E como disse o escritor francês Alexandre Dumas: “Em amor, não há
último adeus, senão aquele que se não diz.” Inspirado nesta fala, saliento que
terminarei minhas palavras da mesma forma que comecei, pois nossa história, por
mais que separados, não acaba aqui. Lembraremos de nosso encontro marcado pela
vida, da aula em que todos choramos por não querer o rompimento e por sonhar
com a união. Nossa história é um romance ou uma poesia que ficará em nossas
memórias enquanto houver paixão, enquanto houver vida, enquanto houver a nossa onda.
É por isso que não ponho um ponto final. TODOS, juntos, unidos no mesmo
propósito, somos uma oração subordinada adjetiva explicativa, todos juntos, eu
e vocês, juntos para sempre, entre vírgulas,
Prof. Alex Valério - 28/12/2011