segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Magnânima
Sábado, 28 de agosto de 2010, meu primeiro dia, como posso dizer?, como um docente. Lá estava eu, ao lado da mestra mor Lígia Sávio, a Ligíssima. Como foi bom ser penetrado por ela nesse mundo palestreiro. Digo penetrado porque o assunto tratado era Marquês de Sade. Lá, pude enxergar pessoas fantásticas, amantes da literatura, alunos que desejavam estar ali. Pude verificar indivíduos nunca dantes visto: intelectuais participativos. Foi muito bacana fazer um pequeno esboço do romance sádico, Os 120 dias de Sodoma ou a escola da libertinagem. Divertido e de um humor negro, da qual sou muito fã, Sade encantava com sua literatura proscrita. Mas meu intuito aqui não era falar desse evento fenomenal na minha vida. Mas sim exaltar Palas Atena, Lígia Sávio, mulher fantástica que conheci ainda no 3º semestre de graduação, láaaaaaaaa na cadeira lusófona – Literaturas de Língua Portuguesa. Ah os tempo de Carlos e Joaninha; de Ricardo Reis e Lídia; Simão, Mariana e Teresa; Rami; a morte e a gadanha; a ventoinha fálica; Ana Deus Queira; Porém, muito depois disso foi que nossas relações de estreitaram: sim, após ter sido seu aluno, e depois de ter sido seu aluno a saudade batia no peito e hoje regresso à mente de Minerva. Foi um sabor recebê-la outrora em minha casa; junto de amigos queridos, vê-la exoticamente, como um fiel membro da Cidade Baixa, em meu aniversário. Tê-la como amiga e ouvir as histórias que Ovídio não pode me ensinar. Apresentar-me “os antros” da Lima e Silva (essa é ótima). Tudo um escândalo. Passeios com Thor. Excursões em bibliotecas na companhia de Bárbara, a Barbaríssima, que conta com a presença do famoso genrinho. Viva o casamento! Tudo peripécias platônicas monumentais. Turismo no coupé de Aníssima, na presença de Carlos meu herói (hahahahahah): conversas malditas! Vídeos para Marguerite Gautier. Templo positivista: viva os rebenques da vida! Houve o dia em que estávamos no elevador da biblioteca, subindo, e tão subindo que tudo ficara escuro e o pavor tomava conta naquele mistério. A porta se abriu e o espaço utópico estava na nossa frente, como naqueles mostrados por Edgar Allan Poe. Sim, era o andar clandestino da biblioteca, o andar abandonado. Não, não tão abandonado, pois existia ali um sofá aparentemente novo, um sofá aparentemente novo no meio daquela imensa sala clandestina e escura. (hahahahahahah – GOZO PROSCRITO). Saiba Ligíssima que quando crescer quero ser como tu. Até parece poesia barata essa linguagem que uso, mas é o que de mais caro posso repisar de dentro de mim. Também não é seda, nem confete, mas sim um símbolo da minha admiração e respeito a tua personalidade fantástica. Sei que muitas vezes te tiro da sala dos professores, que as vezes me comporto importunamente, mas tudo são excessos de admiração. E não puxa saquismo! Digo isso para os invejosos de plantão, que pensam que sou dessa espécie de falsos amigos. E como dizia François Villon: “SEJAM FRITAS AS LÍNGUAS INVEJOSAS”. E digo mais, depois eu as como com ervilha. Usurpo e rasgo. Sim, Ligíssima, vivamos mais aventuras malditas e francesas. Beijos suaves no coração. Ahahahahahahahaha – GOZO SANCIONADO.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Eis uma poesia patética que escrevi numa noite insone... tão insone e incoerente que não percebi o quanto há de patético... mas passemos vergonha mesmo com isso que oenso ser um poema. ...
Olho para os lados e não vejo nada
Não vejo nada porque nos lados não há não
Mas no nada não não há
Um há que o lado é nada não
Sou um Álvaro
Ou um Campos
Ou um nada
Sou um Álvaro, um Campos e um nada
Se olho para o lado e não vejo nada
É porque o lado olha para o lado e não me vê
Se eu fosse o lado e olhassem para o nada
Me veria de um lado que se crê
De uma quinta o que precisa é de se crê
que o nada é o tudo sem se vê
Mas se olho para o lado e não me vê
É porque o lado olha para o lado e não me crê
Se eu fosse o lado e olhassem para o nada
Me veria de um lado que se crê
Mas se a quinta não é nada
Nada Campos Álvaro vê
Sou um Álvaro,
Ou um Campos,
Ou um nada,
Sou um Álvaro, um Campos e um nada
Olho para os lados e não vejo nada
Não vejo nada porque nos lados não há não
Mas no nada não não há
Um há que o lado é nada não
Olho para os lados e não vejo nada
Não vejo nada porque nos lados não há não
Mas no nada não não há
Um há que o lado é nada não
Sou um Álvaro
Ou um Campos
Ou um nada
Sou um Álvaro, um Campos e um nada
Se olho para o lado e não vejo nada
É porque o lado olha para o lado e não me vê
Se eu fosse o lado e olhassem para o nada
Me veria de um lado que se crê
De uma quinta o que precisa é de se crê
que o nada é o tudo sem se vê
Mas se olho para o lado e não me vê
É porque o lado olha para o lado e não me crê
Se eu fosse o lado e olhassem para o nada
Me veria de um lado que se crê
Mas se a quinta não é nada
Nada Campos Álvaro vê
Sou um Álvaro,
Ou um Campos,
Ou um nada,
Sou um Álvaro, um Campos e um nada
Olho para os lados e não vejo nada
Não vejo nada porque nos lados não há não
Mas no nada não não há
Um há que o lado é nada não
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Não foi desta vez Afrodite, tecelã de intrigas
Eis um texto muito recorrente na literatura dos apaixonados que extrai de um substrato, superestrato e de um adstrato. Autor, não julgo citar... tão célebre que minha figura aqui é reduzida a meras palavras soltas e sem sentido na tela de um computador. Leia-las.
Professora, quero que não se preocupes que não assumirei em público minhas ideias perambulantes a respeito dos olhares oblíquos do “professor” que avizinha a cadeira, o prédio, o trânsito. Não, nunca apaixonei-me por “professores”, nunca mesmo, pois as figuras maternas e paternas, “aparentemente bem representadas em mim”, foram bem encenadas no decorrer de minha vida. “Pois então”, “digo-vo”, “ ” professora, não me apaixono por “professores”. E repito, nunca o fiz e nem o “queria”, mas os olhares tão descompostos de um Capitu me salientam o permeio da ambiguidade da psique humana. Muito estudamos sobre a sociedade, “lemos” desde Platão e chegamos ao último romance recém lançado na livraria e todos estes falam de células, pequenas células “que” compõem uma comunidade de pessoas complexas que, através da ambiguidade “ , ” representam o desafeto de um mundo as avessas. Quem sabe, “o que acho muito difícil”, a professora não entenda essas aspas, mas eu as entendo, são “ambíguas”, sim, ambíguas, sem aspas, que representam o lado aleivoso dos espíritos inquietos dentro de si. Aqui, professora, sem aspas, digo-vo, que sou uma pessoa de bem, de bons sentimentos com o próximo, pois tudo o que faço é em prol do bem individual e coletivo, individual meu, e coletivo dos socialistas de plantão. Repito, sem aspas, quero como todos os viventes encontrar a pacificação da alma, mas se a minha pacificação é o custo do sofrimento e desconfiança do outro, digo-vo, não, não estarei no meu momento de pacificação, ou seja, abstenho-me de ser feliz, de me realizar, para deixar os fatos como deveriam estar, sem aspas, nem apóstrofos. Creio, que minha infância perdida, minha pulsação esquecida e meu coração escondido possam derivar em aprendizados e condutas nunca dantes navegadas. Querido, Vasco da Gama, diga-me o caminho que me levam as Índias e me deixe persegui-lo, ensina-me, como um professor, os caminhos de olhares escuros, perceptíveis, porém adialogado que a ciência ainda não descobrira em tempos muito antes do barroco. Ai, quantas duvidas. Ser ou não ser, eis a questão. Eis o que os professores devem nos ensinar? Sim, devem, mas aqueles entre “ ”, entre sorrisos de quarta camada, de quartas intenções, de questionamentos ululantes, devem aprender com os alunos a arte da verdade, a arte do respeito, a arte da verdade, a arte do respeito, sem aspas. Sim, sofro, sofro porque julgo ter sido pego numa arapuca, cilada armada, de combinações estratégicas, logradas pela insídia armadilha de um ardil astucioso. Sim, combinem antes, depois me pegam... “...” . Mas deixo assim, sou uma pessoa de bem, e por ser de bem fico bem, saio bem, mas saio mal, pois minhas expectativas mal elaboradas tiveram maus resultados, que não repercutiram no bem ansiado, nem no bom amaciado. Mas sem amaciado fico feliz, mesmo não completo, incompleto, continuarei só sorrisos e esperar um aluno chegar. Viva a livre-docência, pois com professores, aprendemos muito. Fecha-se as aspas que não foram fechadas, nem abertas.
Professora, quero que não se preocupes que não assumirei em público minhas ideias perambulantes a respeito dos olhares oblíquos do “professor” que avizinha a cadeira, o prédio, o trânsito. Não, nunca apaixonei-me por “professores”, nunca mesmo, pois as figuras maternas e paternas, “aparentemente bem representadas em mim”, foram bem encenadas no decorrer de minha vida. “Pois então”, “digo-vo”, “ ” professora, não me apaixono por “professores”. E repito, nunca o fiz e nem o “queria”, mas os olhares tão descompostos de um Capitu me salientam o permeio da ambiguidade da psique humana. Muito estudamos sobre a sociedade, “lemos” desde Platão e chegamos ao último romance recém lançado na livraria e todos estes falam de células, pequenas células “que” compõem uma comunidade de pessoas complexas que, através da ambiguidade “ , ” representam o desafeto de um mundo as avessas. Quem sabe, “o que acho muito difícil”, a professora não entenda essas aspas, mas eu as entendo, são “ambíguas”, sim, ambíguas, sem aspas, que representam o lado aleivoso dos espíritos inquietos dentro de si. Aqui, professora, sem aspas, digo-vo, que sou uma pessoa de bem, de bons sentimentos com o próximo, pois tudo o que faço é em prol do bem individual e coletivo, individual meu, e coletivo dos socialistas de plantão. Repito, sem aspas, quero como todos os viventes encontrar a pacificação da alma, mas se a minha pacificação é o custo do sofrimento e desconfiança do outro, digo-vo, não, não estarei no meu momento de pacificação, ou seja, abstenho-me de ser feliz, de me realizar, para deixar os fatos como deveriam estar, sem aspas, nem apóstrofos. Creio, que minha infância perdida, minha pulsação esquecida e meu coração escondido possam derivar em aprendizados e condutas nunca dantes navegadas. Querido, Vasco da Gama, diga-me o caminho que me levam as Índias e me deixe persegui-lo, ensina-me, como um professor, os caminhos de olhares escuros, perceptíveis, porém adialogado que a ciência ainda não descobrira em tempos muito antes do barroco. Ai, quantas duvidas. Ser ou não ser, eis a questão. Eis o que os professores devem nos ensinar? Sim, devem, mas aqueles entre “ ”, entre sorrisos de quarta camada, de quartas intenções, de questionamentos ululantes, devem aprender com os alunos a arte da verdade, a arte do respeito, a arte da verdade, a arte do respeito, sem aspas. Sim, sofro, sofro porque julgo ter sido pego numa arapuca, cilada armada, de combinações estratégicas, logradas pela insídia armadilha de um ardil astucioso. Sim, combinem antes, depois me pegam... “...” . Mas deixo assim, sou uma pessoa de bem, e por ser de bem fico bem, saio bem, mas saio mal, pois minhas expectativas mal elaboradas tiveram maus resultados, que não repercutiram no bem ansiado, nem no bom amaciado. Mas sem amaciado fico feliz, mesmo não completo, incompleto, continuarei só sorrisos e esperar um aluno chegar. Viva a livre-docência, pois com professores, aprendemos muito. Fecha-se as aspas que não foram fechadas, nem abertas.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
História do cerco de Lisboa - José Saramago
No ano passado tive a oportunidade de ler um dos grandes romances da literatura contemporânea portuguesa. Tratava-se de História do cerco de Lisboa, de José Saramago. Eis um (ns) trecho (s) que colaboraram para a minha purificação dos sentimentos da psique, pois a cena que ali fora retratada pelo mestre saudoso, foram as mesmas que vivi quando trafegava feliz por uma invernal Lisboa, mais precisamente no bairro da Mouraria, ou bairro do castelo:
“Há meses que Raimundo Silva, não entra no castelo, mas agora vai lá, acabou de o decidir, embora pense que, finalmente, para isso é que se saiu de casa, ou então não lhe teria ocorrido tão naturalmente a ideia, o eu espírito, façamos de conta, criou-lhe um sentimento de repugnância, de invencível resistência à necessidade de ter de entrar na cozinha, mas fê-lo para melhor o levar ao engano, temeu que à sugestão, Vamos ao castelo, ele respondesse de mau modo, Fazer o quê, e precisamente isso era o que o espírito, ou não sabia, ou não podia confessar. O vento sopra em rajadas violentas, os cabelos do revisor agitam-se num redemoinho, as abas da gabardina estalam nos lençóis molhados. É um disparate vir ao castelo com um tempo assim, subir às torres desabrigadas, pode mesmo cair duma daquelas escadas sem corrimão, a vantagem é não haver ninguém, pode-se desfrutar do sítio sem testemunhas, ver a cidade, Raimundo Silva quer ver a cidade, ainda não sabe para quê. A grande esplanada está deserta, o chão alagado de poças de água que o vento empurra em minúsculas ondas, e as árvores rangem aos sacões de ventania, isto é quase um ciclone[...] Raimundo Silva aproxima-se do muro, olha para baixo e ao longe os telhados, as regiões superiores das fachadas e das empenas, à esquerda o rio sujo de barro, o arco triunfal da Rua Augusta”.
Naquele dia 03 de fevereiro, num dia que chovera três vezes em menos de seis horas, um amigo e eu, desprendido das mulheres, que se extraviaram fazendo compras (que pena!), fomos os dois percorrer a Lisboa que desejávamos. Depois de suculentos pasteizinhos de Belém, tínhamos que fazer a digestão. Fomos a Praça do Comércio e lá vimos as Gaivotas, que voam ao longe no rio Tejo; desbravamos até onde pegaríamos o bondinho da linha 28 rumo ao Castelo de São Jorge. Possuidores do VIVA, cartão de transportes lisboeta, adentramos no bonde e passamos o cartão no sensor. Alguns minutos de subida e descemos, porém não seguimos as placas. Tivemos que pegar um bonde para retornar, pois havíamos passado do ponto. Pedimos auxílio à motorista e ela nos indicou o local onde deveríamos desembarcar. Nem um minuto depois passávamos por uma rua chamada Rua do contador mor. Subimos a pé até o cume, onde ficava o castelejo. Uma vez lá dentro, foi possível vislumbrar as armas usadas (ou não) na história do cerco de Lisboa, ainda no século XI. E junto aquelas armas era possível enxergar teclados avermelhados, um por-do-sol tímido de um dia nublado, a ponte que cortava o rio Tejo. Decidimos, meu amigo e eu, enveredar o castelo. Lá subimos degraus e mais degraus para chegarmos próximo as bandeiras de Lisboa e Portugal. Sim, lá em cima não havia proteção alguma e a ventania que fazia tinha um ar de sólido terror, pois o medo que tive de cair lá de cima era imenso. Para piorar o clímax se aproximou. Isso ocorreu quando tive que saltar uma poça da água maior que minha perna... e o pior era que a poça da água estava justamente na fronteira entre a estrada de “peões” e o primeiro degrau da escada (detalhe, a escada não tinha corrimão. Tinha que ser muito macho para pular e não se dissolver nas arestas da terra). Meu amigo olhou-me e percebeu no meu olhar o medo que dominava minhas pernas involuntárias. Mas meu orgulho foi maior, respirei fundo e encarei o medo, pulando-o. Cena câmera lenta. Tive que fazer um pulo a la Daiane dos Santos ou As Panteras detonando ou de algum filme chinês. Um segundo depois o problema acabou e lá estava eu descendo rumo ao bondinho, e este nos levaria até o monumento de Fernando Pessoa, na praça Camões. Pronto: mais um momento sensacional de um espírito que se permite aventurar por fronteiras nunca dantes inimaginadas.
“Há meses que Raimundo Silva, não entra no castelo, mas agora vai lá, acabou de o decidir, embora pense que, finalmente, para isso é que se saiu de casa, ou então não lhe teria ocorrido tão naturalmente a ideia, o eu espírito, façamos de conta, criou-lhe um sentimento de repugnância, de invencível resistência à necessidade de ter de entrar na cozinha, mas fê-lo para melhor o levar ao engano, temeu que à sugestão, Vamos ao castelo, ele respondesse de mau modo, Fazer o quê, e precisamente isso era o que o espírito, ou não sabia, ou não podia confessar. O vento sopra em rajadas violentas, os cabelos do revisor agitam-se num redemoinho, as abas da gabardina estalam nos lençóis molhados. É um disparate vir ao castelo com um tempo assim, subir às torres desabrigadas, pode mesmo cair duma daquelas escadas sem corrimão, a vantagem é não haver ninguém, pode-se desfrutar do sítio sem testemunhas, ver a cidade, Raimundo Silva quer ver a cidade, ainda não sabe para quê. A grande esplanada está deserta, o chão alagado de poças de água que o vento empurra em minúsculas ondas, e as árvores rangem aos sacões de ventania, isto é quase um ciclone[...] Raimundo Silva aproxima-se do muro, olha para baixo e ao longe os telhados, as regiões superiores das fachadas e das empenas, à esquerda o rio sujo de barro, o arco triunfal da Rua Augusta”.
Naquele dia 03 de fevereiro, num dia que chovera três vezes em menos de seis horas, um amigo e eu, desprendido das mulheres, que se extraviaram fazendo compras (que pena!), fomos os dois percorrer a Lisboa que desejávamos. Depois de suculentos pasteizinhos de Belém, tínhamos que fazer a digestão. Fomos a Praça do Comércio e lá vimos as Gaivotas, que voam ao longe no rio Tejo; desbravamos até onde pegaríamos o bondinho da linha 28 rumo ao Castelo de São Jorge. Possuidores do VIVA, cartão de transportes lisboeta, adentramos no bonde e passamos o cartão no sensor. Alguns minutos de subida e descemos, porém não seguimos as placas. Tivemos que pegar um bonde para retornar, pois havíamos passado do ponto. Pedimos auxílio à motorista e ela nos indicou o local onde deveríamos desembarcar. Nem um minuto depois passávamos por uma rua chamada Rua do contador mor. Subimos a pé até o cume, onde ficava o castelejo. Uma vez lá dentro, foi possível vislumbrar as armas usadas (ou não) na história do cerco de Lisboa, ainda no século XI. E junto aquelas armas era possível enxergar teclados avermelhados, um por-do-sol tímido de um dia nublado, a ponte que cortava o rio Tejo. Decidimos, meu amigo e eu, enveredar o castelo. Lá subimos degraus e mais degraus para chegarmos próximo as bandeiras de Lisboa e Portugal. Sim, lá em cima não havia proteção alguma e a ventania que fazia tinha um ar de sólido terror, pois o medo que tive de cair lá de cima era imenso. Para piorar o clímax se aproximou. Isso ocorreu quando tive que saltar uma poça da água maior que minha perna... e o pior era que a poça da água estava justamente na fronteira entre a estrada de “peões” e o primeiro degrau da escada (detalhe, a escada não tinha corrimão. Tinha que ser muito macho para pular e não se dissolver nas arestas da terra). Meu amigo olhou-me e percebeu no meu olhar o medo que dominava minhas pernas involuntárias. Mas meu orgulho foi maior, respirei fundo e encarei o medo, pulando-o. Cena câmera lenta. Tive que fazer um pulo a la Daiane dos Santos ou As Panteras detonando ou de algum filme chinês. Um segundo depois o problema acabou e lá estava eu descendo rumo ao bondinho, e este nos levaria até o monumento de Fernando Pessoa, na praça Camões. Pronto: mais um momento sensacional de um espírito que se permite aventurar por fronteiras nunca dantes inimaginadas.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A Pele de Onagro - Honoré de Balzac
Esta é uma das falas de Rafael de Valentin, personagem de Balzac em A Pele de Onagro: “ Dediquei minha vida ao estudo e ao pensamento, mas eles não me alimentaram. Não quero ser ludibriado por uma pregação digna de Swedenborg, nem por seu amuleto oriental, nem pelos seus caridosos esforços que faz para reter-me num mundo onde minha existência é doravante impossível. Vejamos! Quero um jantar regiamente esplêndido, uma bacanal digna do século em que tudo, dizem, se aperfeiçoou! Que meus convivas sejam jovens, espirituosos e sem preconceitos, alegres até a loucura! Que os vinhos se sucedam sempre mais incisivos, espumantes e capazes por nos embriagar por três dias! Que essa noite seja enfeitada de (mulheres) ardentes! Quero que a Orgia do delírio, rugindo, nos leve em seu carro de quatro cavalos para além dos limites do mundo e nos lancem em praias desconhecidas: que as almas subam aos céus ou mergulhem na lama, que se elevem ou se rebaixem, pouco importa! Ordeno a esse poder sinistro que junte todas as alegrias numa só. [...] desejo também antigos cantos eróticos depois de beber, cantos que despertem os mortos, e beijos sem fim cujo clamor percorra Paris como um crepitar de incêndio, despertando os esposos e inspirando-lhes um ardor penetrante que rejuvenesça todos, mesmo os septuagenários”.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O Encontro Marcado - Fernando Sabino
Lendo mais um capítulo de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, deparei-me com mais uma página da literatura que provoca em mim a catarse. Sim, estou purificado por ter lido isso. Quem é meu amigo sabe do que falo; quem apenas me conhece, que por essas palavras acabe por me conhecer melhor.
Eis o que a personagem Mauro, do romance citado, pronunciou a respeito do protagonista Eduardo Marciano:
“Você, Lorde Byron, é inteligente também, mas de uma inteligência fina, penetrante, como aço, como uma espada. Ao contrário de mim, você é mais capaz de se fazer amado do que de amar. Sua lógica é irresistível, mas impiedosa, irritante. É desses remédios que matam que matam a doença e o doente. Você tem sentimento poético, e muito – no entanto é incapaz de escrever um verso que preste. Por quê? Sei lá. Há qualquer coisa que te contém, que te segura, como uma mão. Sua compreensão di mundo, da vida, e das coisas é surpreendente, seu olho clínico é infalível, mas você é um homem refreado, bem-comportado, bem-educado, flor do asfalto, lírio do salão, um príncipe, o nosso Príncipe de Gales., como diz o Hugo. Tem uma aura de pureza não conspurcada, mas é ascético demais, aprimorado demais, debilitado por excesso de tratamento. Não se contamina nunca, e isso humilha todo mundo. É esportivo, é atlético, é saudável, prevenido contra todas as doenças, mas, um dia não vai resistir a um simples resfriado: há de cair de cama e afinal descobrir que para o vírus da gripe ainda não existe antibiótico”.
Eis o que a personagem Hugo, do mesmo romance citado, explanou sobre o protagonista Eduardo Marciano:
“E você, Eduardo. Você, o puro, o intocado, o que se preserva, como disse Mauro. Seu horror ao compromisso porque se julga um comprometido, tem uma missão a cumprir, é um escritor. Você e sua simpatia, sua saúde... Bem-sucedido em tudo, mas cheio de arestas que ferem sem querer. Seu ar de quem está sempre indo a um lugar que não é aqui, para se encontrar com alguém que não somos nós. Seu desprezo pelos fracos porque se julga forte, sua inteligência incomoda, sua explicação para tudo, seu senso prático – tudo orgulho. O orgulho de ser o primeiro – a vida para você é um campeonato de natação. Sua desenvoltura, sua excitação mental, sua fidelidade a um destino certo, tudo isso faz de você presa certa do demônio – mesmo sua vocação para o ascetismo, para a vida áspera, espartana. Você e seus escritores ingleses, você e sua chave que abre todas as portas. Orgulho: você e seu orgulho. De nós três, o de mais sorte, o escolhido, nosso amparo, nossa esperança. E de nós três, talvez, o mais miserável, talvez o mais desgraçado, porque condenado à incapacidade de amar, pelo orgulho, ou à solidão, pela renúncia”.
Eis o que a personagem Mauro, do romance citado, pronunciou a respeito do protagonista Eduardo Marciano:
“Você, Lorde Byron, é inteligente também, mas de uma inteligência fina, penetrante, como aço, como uma espada. Ao contrário de mim, você é mais capaz de se fazer amado do que de amar. Sua lógica é irresistível, mas impiedosa, irritante. É desses remédios que matam que matam a doença e o doente. Você tem sentimento poético, e muito – no entanto é incapaz de escrever um verso que preste. Por quê? Sei lá. Há qualquer coisa que te contém, que te segura, como uma mão. Sua compreensão di mundo, da vida, e das coisas é surpreendente, seu olho clínico é infalível, mas você é um homem refreado, bem-comportado, bem-educado, flor do asfalto, lírio do salão, um príncipe, o nosso Príncipe de Gales., como diz o Hugo. Tem uma aura de pureza não conspurcada, mas é ascético demais, aprimorado demais, debilitado por excesso de tratamento. Não se contamina nunca, e isso humilha todo mundo. É esportivo, é atlético, é saudável, prevenido contra todas as doenças, mas, um dia não vai resistir a um simples resfriado: há de cair de cama e afinal descobrir que para o vírus da gripe ainda não existe antibiótico”.
Eis o que a personagem Hugo, do mesmo romance citado, explanou sobre o protagonista Eduardo Marciano:
“E você, Eduardo. Você, o puro, o intocado, o que se preserva, como disse Mauro. Seu horror ao compromisso porque se julga um comprometido, tem uma missão a cumprir, é um escritor. Você e sua simpatia, sua saúde... Bem-sucedido em tudo, mas cheio de arestas que ferem sem querer. Seu ar de quem está sempre indo a um lugar que não é aqui, para se encontrar com alguém que não somos nós. Seu desprezo pelos fracos porque se julga forte, sua inteligência incomoda, sua explicação para tudo, seu senso prático – tudo orgulho. O orgulho de ser o primeiro – a vida para você é um campeonato de natação. Sua desenvoltura, sua excitação mental, sua fidelidade a um destino certo, tudo isso faz de você presa certa do demônio – mesmo sua vocação para o ascetismo, para a vida áspera, espartana. Você e seus escritores ingleses, você e sua chave que abre todas as portas. Orgulho: você e seu orgulho. De nós três, o de mais sorte, o escolhido, nosso amparo, nossa esperança. E de nós três, talvez, o mais miserável, talvez o mais desgraçado, porque condenado à incapacidade de amar, pelo orgulho, ou à solidão, pela renúncia”.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
cú-cú! Te damos de presente um vôo a cada minuto!
Eis o que recebi na minha caixa de e-mail dois dias atrás. Inicialmente pensei que era uma brincadeira - cú-cú. hahahahaha. Mas depois de abrir a foto da empresa aérea espanhola Vueling percebi o contéudo de análise semiótica. Foi uma tradução fiel do português de Portugal. Viva as variações lexicais!!!


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