Lendo mais um capítulo de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, deparei-me com mais uma página da literatura que provoca em mim a catarse. Sim, estou purificado por ter lido isso. Quem é meu amigo sabe do que falo; quem apenas me conhece, que por essas palavras acabe por me conhecer melhor.
Eis o que a personagem Mauro, do romance citado, pronunciou a respeito do protagonista Eduardo Marciano:
“Você, Lorde Byron, é inteligente também, mas de uma inteligência fina, penetrante, como aço, como uma espada. Ao contrário de mim, você é mais capaz de se fazer amado do que de amar. Sua lógica é irresistível, mas impiedosa, irritante. É desses remédios que matam que matam a doença e o doente. Você tem sentimento poético, e muito – no entanto é incapaz de escrever um verso que preste. Por quê? Sei lá. Há qualquer coisa que te contém, que te segura, como uma mão. Sua compreensão di mundo, da vida, e das coisas é surpreendente, seu olho clínico é infalível, mas você é um homem refreado, bem-comportado, bem-educado, flor do asfalto, lírio do salão, um príncipe, o nosso Príncipe de Gales., como diz o Hugo. Tem uma aura de pureza não conspurcada, mas é ascético demais, aprimorado demais, debilitado por excesso de tratamento. Não se contamina nunca, e isso humilha todo mundo. É esportivo, é atlético, é saudável, prevenido contra todas as doenças, mas, um dia não vai resistir a um simples resfriado: há de cair de cama e afinal descobrir que para o vírus da gripe ainda não existe antibiótico”.
Eis o que a personagem Hugo, do mesmo romance citado, explanou sobre o protagonista Eduardo Marciano:
“E você, Eduardo. Você, o puro, o intocado, o que se preserva, como disse Mauro. Seu horror ao compromisso porque se julga um comprometido, tem uma missão a cumprir, é um escritor. Você e sua simpatia, sua saúde... Bem-sucedido em tudo, mas cheio de arestas que ferem sem querer. Seu ar de quem está sempre indo a um lugar que não é aqui, para se encontrar com alguém que não somos nós. Seu desprezo pelos fracos porque se julga forte, sua inteligência incomoda, sua explicação para tudo, seu senso prático – tudo orgulho. O orgulho de ser o primeiro – a vida para você é um campeonato de natação. Sua desenvoltura, sua excitação mental, sua fidelidade a um destino certo, tudo isso faz de você presa certa do demônio – mesmo sua vocação para o ascetismo, para a vida áspera, espartana. Você e seus escritores ingleses, você e sua chave que abre todas as portas. Orgulho: você e seu orgulho. De nós três, o de mais sorte, o escolhido, nosso amparo, nossa esperança. E de nós três, talvez, o mais miserável, talvez o mais desgraçado, porque condenado à incapacidade de amar, pelo orgulho, ou à solidão, pela renúncia”.
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