sexta-feira, 20 de agosto de 2010

História do cerco de Lisboa - José Saramago

No ano passado tive a oportunidade de ler um dos grandes romances da literatura contemporânea portuguesa. Tratava-se de História do cerco de Lisboa, de José Saramago. Eis um (ns) trecho (s) que colaboraram para a minha purificação dos sentimentos da psique, pois a cena que ali fora retratada pelo mestre saudoso, foram as mesmas que vivi quando trafegava feliz por uma invernal Lisboa, mais precisamente no bairro da Mouraria, ou bairro do castelo:

“Há meses que Raimundo Silva, não entra no castelo, mas agora vai lá, acabou de o decidir, embora pense que, finalmente, para isso é que se saiu de casa, ou então não lhe teria ocorrido tão naturalmente a ideia, o eu espírito, façamos de conta, criou-lhe um sentimento de repugnância, de invencível resistência à necessidade de ter de entrar na cozinha, mas fê-lo para melhor o levar ao engano, temeu que à sugestão, Vamos ao castelo, ele respondesse de mau modo, Fazer o quê, e precisamente isso era o que o espírito, ou não sabia, ou não podia confessar. O vento sopra em rajadas violentas, os cabelos do revisor agitam-se num redemoinho, as abas da gabardina estalam nos lençóis molhados. É um disparate vir ao castelo com um tempo assim, subir às torres desabrigadas, pode mesmo cair duma daquelas escadas sem corrimão, a vantagem é não haver ninguém, pode-se desfrutar do sítio sem testemunhas, ver a cidade, Raimundo Silva quer ver a cidade, ainda não sabe para quê. A grande esplanada está deserta, o chão alagado de poças de água que o vento empurra em minúsculas ondas, e as árvores rangem aos sacões de ventania, isto é quase um ciclone[...] Raimundo Silva aproxima-se do muro, olha para baixo e ao longe os telhados, as regiões superiores das fachadas e das empenas, à esquerda o rio sujo de barro, o arco triunfal da Rua Augusta”.

Naquele dia 03 de fevereiro, num dia que chovera três vezes em menos de seis horas, um amigo e eu, desprendido das mulheres, que se extraviaram fazendo compras (que pena!), fomos os dois percorrer a Lisboa que desejávamos. Depois de suculentos pasteizinhos de Belém, tínhamos que fazer a digestão. Fomos a Praça do Comércio e lá vimos as Gaivotas, que voam ao longe no rio Tejo; desbravamos até onde pegaríamos o bondinho da linha 28 rumo ao Castelo de São Jorge. Possuidores do VIVA, cartão de transportes lisboeta, adentramos no bonde e passamos o cartão no sensor. Alguns minutos de subida e descemos, porém não seguimos as placas. Tivemos que pegar um bonde para retornar, pois havíamos passado do ponto. Pedimos auxílio à motorista e ela nos indicou o local onde deveríamos desembarcar. Nem um minuto depois passávamos por uma rua chamada Rua do contador mor. Subimos a pé até o cume, onde ficava o castelejo. Uma vez lá dentro, foi possível vislumbrar as armas usadas (ou não) na história do cerco de Lisboa, ainda no século XI. E junto aquelas armas era possível enxergar teclados avermelhados, um por-do-sol tímido de um dia nublado, a ponte que cortava o rio Tejo. Decidimos, meu amigo e eu, enveredar o castelo. Lá subimos degraus e mais degraus para chegarmos próximo as bandeiras de Lisboa e Portugal. Sim, lá em cima não havia proteção alguma e a ventania que fazia tinha um ar de sólido terror, pois o medo que tive de cair lá de cima era imenso. Para piorar o clímax se aproximou. Isso ocorreu quando tive que saltar uma poça da água maior que minha perna... e o pior era que a poça da água estava justamente na fronteira entre a estrada de “peões” e o primeiro degrau da escada (detalhe, a escada não tinha corrimão. Tinha que ser muito macho para pular e não se dissolver nas arestas da terra). Meu amigo olhou-me e percebeu no meu olhar o medo que dominava minhas pernas involuntárias. Mas meu orgulho foi maior, respirei fundo e encarei o medo, pulando-o. Cena câmera lenta. Tive que fazer um pulo a la Daiane dos Santos ou As Panteras detonando ou de algum filme chinês. Um segundo depois o problema acabou e lá estava eu descendo rumo ao bondinho, e este nos levaria até o monumento de Fernando Pessoa, na praça Camões. Pronto: mais um momento sensacional de um espírito que se permite aventurar por fronteiras nunca dantes inimaginadas.

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