sexta-feira, 29 de outubro de 2010
...
Para reiterar aquele sentimento sisifesco: "Aos amigos, tudo; aos inimigos, à lei". Boa sorte. Sorte se necessita; sucesso de tem.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Recado ao leitor
Caro leitor, não pense que desisti de contar as peripécias aristotélicas no mundo. Continuarei escrevendo-as. Fica ainda o mistério se o tal hospedeiro é o não gay. Mas isso pouco importa, o que mais importa é a intriga narratológica. Mas eu, como demiurgo, sei o que vou contar. Só eu sei o final da história. Mas não pensem que me gabo por tamanho poder. Justifico que estou sem tempo para continuar a narrativa épica das aventuras no continente idoso. Mas vou continuar, não se preocupe. Tome um calmante. Tudo dará certo!!! Beijos suculentos no cangote.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Desabafo mundano materialista.
Sinto-me totalmente um estrangeiro no mundo em que vivo. Sinto-me uma personagem que olhou para o sol e deu mais quatro tiros, quatro batidas na porta da desgraça. Sinto-me como um Meursault. Sinto-me um Camus. Sinto-me como um homem absurdo, que não está apto para viver as regras dessa sociedade burocrata que apenas valoriza o que está escrito num papel. Sou bem-vindo ao tramites da vida real, aos tramites do suicídio moral e do desrespeito ao indivíduo. Sei que sou mais um indivíduo no meio da coletividade, como dizia meu futuro amigo Céline. Acho que estou precisando de um lex, uma boletinha, um soninho bom e não mais acordar desse pesadelo de inúmeras incoerências filosóficas e mui misteriosas. Canso de fazer parte dessa esfera lunática cujo protagonista sou eu, Sísifo. Agora sei que a pedra vai descer e te-la-ei que subir novamente.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Tontura
O jantar de sábado, quando bebemos, misturando bebidas, foi um que de escandaloso. Precisamos repetir a dose. Já!
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O primeiro dia em Valência
Caro leitor, quando eu adentrara ao alojamiento de número 158 minha vida mudaria, pois enfim lavaria meus olhos com água abundante. Porém, a primeira ação que fiz foi enxergar meu colega de quarto. Lá estava ele deitado, como se estivesse olhando para cima e pensando na vida. Olhamos-nos e nos cumprimentamos. A primeira questão imediata partiu dele: where you from? Lá fui eu, cheio de orgulho da nação brasileira, disse: Brasil. Ele pareceu ter feito um misto de ódio e alivio, pois arregalara os olhos, sorrira sem olhar para mim e respirara fundo.
Senhor leitor, eu omiti-vos. Omiti na hora quando cheguei ao Colégio Mayor e ao informar meu nome e descobrir que o quarto para onde me seria destinado era o 158, havia descoberto que um romano dividiria o quarto comigo. Meu Deus, um romeno. Eu jamais tinha imaginado que alguém da Romênia lá estaria. Os fatos são bem mais instigantes quando não os prevemos, nem quando criamos expectativas.
Eu disse para ele que já sabia que o where you from dele era Romênia. Ele esbugalhou mais ainda os olhos, mais esbugalhados que já eram ao natural. Ele me perguntou se eu falava francês? Pouco. Inglês? Só leio. Romeno? Nem uma sentença. Castelhano? Portunhol. Após uma conversa estranha e praticamente no escuro, decidi ir para a casa de baño tomar um banho.
Depois de ter me banhado com o primeiro banho valenciano, pus-me a deitar. Na escuridão da noite, somente uma lua vampiresca (provinda da Transilvânia) iluminava o quarto. Lá estava eu, dormindo desconfortavelmente numa cama confortável. O romeno dormia como se estivesse num caixão. Ele estava esperando a oportunidade propicia para por os caninos afiados para fora e degustar, como num supermercado, o sangue latino-brasileiro. Mas isso não aconteceu, continuo um reles mortal, nem virei personagem da saga crepúsculo.
Era sete da manhã quando fui acordado por Edward. Opa! O nome dele não é Edward. Mas sim M... Ele acordou-me e começamos a conversar. Eram quatro dialetos: castelhano, português, francês e inglês (nesta ordem). Quando vocábulos se perdiam no conhecimento linguístico, outra língua entrava em ação. Logo eram frases compostas sempre, em média, por duas línguas. Inicialmente ele mostrou-me o caderno de resumos do congresso e desejava saber onde eu estava. Procurei-me no índice por sobrenome e facilmente encontrei. Mostrei para a ele o resumo. Depois fomos conversando sobre nossos países, economia, cultura. Falamos de nossas profissões. E enfim falamos sobre o café da manhã. Já era hora do café da manhã. Ele desceu, enquanto eu fui para o banho. Meus olhos já não mais lacrimejavam.
Meia-hora depois desci e pude encontrar minhas amigas. Encontrei na saída meu colega de quarto. Ele estava com suas amigas romenas. Apresentamos-nos todos. Em seguida estava me servindo no Buffet. Foi o melhor desayuno que tive em todos os hotéis em que já estive no mundo. Quando cheguei à mesa deparei-me com o homem que julguei ser um integrante da equipe de Osama: o homem perdido. Lá estava ele com minhas amigas. Sentei-me, falei algumas bobagens habituais, e Felícia apresentou-me a um gaucho que vive na Austrália há mais de 20 anos. Conversamos animadamente os seis. Subimos e em seguida nos dirigimos a Faculdade de Filologia.
Peguei o mapa. Tínhamos que descer na estação Benimaclet, fazer conexão e descer na estação Facultats. Lá não demorou muito para encontrarmos a instituição. Pegamos os materiais e ficamos a espera de nossas outras colegas de viagem. Como elas não apareciam, mandamo-nos.
Naquele dia não havia apresentações, nem palestras. Por isso, cidade para que te quero.
Mas antes eu tinha que fazer umas comprinhas pessoais. Encontramos o Mercadona, o Zaffari do turista porto-alegrense. Fiquei horrorizado com o preço dos produtos: um desodorante, sabonete líquido, lenços para renite (não precisava, mas comprei para quando precisasse no Brasil), shampoo, escova de dente. Tudo isso me custou no caixa sete euros. Sete euros. Sete euros. No Brasil, aqui em baixo, passaria dos 40 reais a soma dos mesmos produtos. Viva os impostos aduaneiros!
Fomos para o centro gótico de Valência.
Pegamos o metro rumo a estação Xàtiva. Lá nos deparamos com uma plaza de touros, construída entre os anos 1850-1860 para ser o cenário das grandes touradas. Um escândalo. Mais adiante fomos andando pelo centro a pé. Pobre de nossos pés. Um calor escaldante de 26ºC acusava no termômetro. No final desta imensa avenida, chamada Carrer Cólon, nos deparamos com a Plaza Porta de la Mar, porta que deve o seu nome à antiga Porta do Mar, a entrada que comunicava a cidade com as povoações marinhas e a zona portuária. Ali, olhando para o mapa, percebemos que não saberíamos para que lado ir. Então decidimos pedir ajuda, desejávamos ir a Roma. Abordamos um homem por volta dos 40 anos e dissemos que desejávamos ir a Plaza del ajuntamiento. O celular dele tocou, ele atendeu e disse que estava ajudando turistas e que depois poderia ligar. Achei aquilo de primeira! Guiou-nos. Agradecemos a simpatia e fomos ao nosso destino. O calor estava cada vez mais intenso. Pela primeira vez na minha vida meu corpo gritava por água. Andando e andando acabamos chegando a Plaza de la Reina, onde estava a catedral de Valência. Um escândalo. Em seguida, pelas ruas estreitas nos encontramos com a torre de Santa Catarina, igreja datada de 1245. As meninas já pensavam em almoço, mas eu, insaciável para conhecer a cidade, pois não era meio-dia ainda, desejava conhecer mais e mais, por mais que meus pés também já estavam dilatando de dor. Tomamos uma água. Em busca da Plaza del ajuntamiento, acabamos nos apresentando ao Mercado Central de Valência. Um primor! Construído entre os anos 1910 e 1928. Trata-se de um mercado como todos conhecemos. Como um Mercado Publico de Porto Alegre sem o cheiro de peixe. Como um Mercado Público de Porto Alegre sem sujeira. É o lugar mais limpo que já vi na vida, se tratando de mercados centrais. Ali nos arredores, há as Lonjas, Lonjas de la Seda ou de los Mercaderes, de 1482, patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO. Depois de uma caminhadinha achamos a Torre de Quart. Este ponto turístico foi construído por Pere Bofill entre 1441 e 1460 e ganhou esse nome por ser caminho que conduzia a aldeia de Quart de Poblet. Desde 1626 até o século XVIII foi prisão para mulheres.
Cansados de tanto caminhar, decidimos voltar para casa e almoçar. Desejávamos encontrar uma estação de metro. Olhávamos para os lados e nada. E aquele calor, e aquela sede, e aquele sol, e aquele céu. Certo momento pedimos auxílio a uma senhora que passeava com um bebê. Esta deixou a criança e foi até nós. Brincou conosco e apontou-nos uma estação que havia no meio de uma praça. Agradecemos a gentileza e fomos ao nosso destino. Instantes e passos dilacerantes depois encontramos a estação. Uns 15 minutos depois estávamos no hotel e almoçando.
Descansamos por uma hora e meia.
Depois disso pegamos o elétrico que passava em frente de casa e nos dirigimos a estação Eugenia Viñes, que ficava na playa de malvarrosa. Lá estava eu indo para o mar mediterrâneo. Que ansiedade. Minha expectativa esperava enxergar um mar verde, não algo medonho como uma água de Tramandaí.
Era uma imensa camada de areia, um caminho que saia dos chuveiros e vinha até o calçadão (para que os banhistas não sujem os pés de areia após a limpeza. Inteligente!). Lá embaixo estava o mar. Mas que cor era aquela que enxergava? Ia maravilhado fiscalizando as pessoas, a temperatura da areia, as mulheres de topless, homens de cueca tomando banho de sol, senhoras e moças de soutien e calcinha na praia, crianças na beira da água, cachorros brincando com seus donos. Lindy e eu jogamo-nos para dentro d’água. Quentinha, brava, transparente, verde, muito diferente de Tramandaí, sem pescadores, nem redes, nem aqueles peixinhos que beliscam os pés dos andarilhos de beira d’água. Lindy perdera os chinelos e ficou perguntando na beira da praia logo depois de sairmos da água: “Cadê o chineloooooo”. Coisas da professora Lindy.
No final do dia, após a praia, Felícia, Lindy e eu fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Eu tinha que saber como eram os monumentos arquitetônicos de Valência à noite. Embarcamos na linha 6 do elétrico. E da estação final, Marítim-Serreria, fomos a pé até as facetas de Deus pelas mãos do homem. No meio do trajeto, pelas ruas serem curvilíneas, acabamos perdendo o sentido. E mais uma vez fomos vítimas de autóctones simpáticos. Cinco minutos de caminhada meus olhos foram capazes de avistar a assombrosa Ponte de Assut l’Or. Percorremos pelo L’Hemisfèric.
Voltaríamos ali com o resto do pessoal no dia seguinte para que possamos adentrar aos museus.
Regressamos para casa. Jantamos. No refeitório do Colégio Mayor estavam os alunos fazendo prendas e piadas, que na minha concepção de mundo não eram engraçadas. Nem entre eles tinha a devida graça. Creio que era o mico de estudante novo, pois era sempre (do almoço e do jantar) o mesmo que tinha que fazer as palhaçadas na frente de todos. O nome da criatura era Antônio.
Antes de dormir, meu colega de quarto e eu conversamos por meio de nossos quatro dialetos. Rimos bastante. Eu fui para minha cama, ele para o “féretro” dele. Dormi a noite inteira. Não tive medo da lua.
Ah, leitor sorridente e esquecido, deslembrei de dizer que naquele momento que sossegávamos, após o passeio da cidade e antes de irmos à praia, conectamos a internet e vos digo que o hospedeiro gay entrou em contato com a amiga Felícia. Tratava-se de um convite para a comunidade do Facebok.
— Felícia, amiga, vamos ver as fotos dele agora! Assim saberemos se o hospedeiro é ou não é gay, eis a questão. Vamos ver o que ele te escreveu? Será que há um convite?????
— Amigooooooo, boa ideia. Vamos acessar já — respondeu Felícia numa excitação que pingava.
Mas como ia dizendo leitor ansioso, o blog é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa condição cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste blog és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o blog anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este blog e o meu estilo são como os ébrios, guiam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem. Por isso que te digo, como te dizia na última lavra do penúltimo parágrafo, não tive medo da lua, e por não ter medo da lua, dormirei. Amanhã ou depois, tu sabes, o blog anda devagar, como dizia nosso Machado de Assis, continuarei a história – com as revelações das fotos do hospedeiro gay ou não gay.
Disse para meu colega de alojamiento:
— Me despiertas para o brakfest, desayuno, café da manhã, petit dejeneur?
Amanhã, sendo despertando, eu continuo aqui.
Senhor leitor, eu omiti-vos. Omiti na hora quando cheguei ao Colégio Mayor e ao informar meu nome e descobrir que o quarto para onde me seria destinado era o 158, havia descoberto que um romano dividiria o quarto comigo. Meu Deus, um romeno. Eu jamais tinha imaginado que alguém da Romênia lá estaria. Os fatos são bem mais instigantes quando não os prevemos, nem quando criamos expectativas.
Eu disse para ele que já sabia que o where you from dele era Romênia. Ele esbugalhou mais ainda os olhos, mais esbugalhados que já eram ao natural. Ele me perguntou se eu falava francês? Pouco. Inglês? Só leio. Romeno? Nem uma sentença. Castelhano? Portunhol. Após uma conversa estranha e praticamente no escuro, decidi ir para a casa de baño tomar um banho.
Depois de ter me banhado com o primeiro banho valenciano, pus-me a deitar. Na escuridão da noite, somente uma lua vampiresca (provinda da Transilvânia) iluminava o quarto. Lá estava eu, dormindo desconfortavelmente numa cama confortável. O romeno dormia como se estivesse num caixão. Ele estava esperando a oportunidade propicia para por os caninos afiados para fora e degustar, como num supermercado, o sangue latino-brasileiro. Mas isso não aconteceu, continuo um reles mortal, nem virei personagem da saga crepúsculo.
Era sete da manhã quando fui acordado por Edward. Opa! O nome dele não é Edward. Mas sim M... Ele acordou-me e começamos a conversar. Eram quatro dialetos: castelhano, português, francês e inglês (nesta ordem). Quando vocábulos se perdiam no conhecimento linguístico, outra língua entrava em ação. Logo eram frases compostas sempre, em média, por duas línguas. Inicialmente ele mostrou-me o caderno de resumos do congresso e desejava saber onde eu estava. Procurei-me no índice por sobrenome e facilmente encontrei. Mostrei para a ele o resumo. Depois fomos conversando sobre nossos países, economia, cultura. Falamos de nossas profissões. E enfim falamos sobre o café da manhã. Já era hora do café da manhã. Ele desceu, enquanto eu fui para o banho. Meus olhos já não mais lacrimejavam.
Meia-hora depois desci e pude encontrar minhas amigas. Encontrei na saída meu colega de quarto. Ele estava com suas amigas romenas. Apresentamos-nos todos. Em seguida estava me servindo no Buffet. Foi o melhor desayuno que tive em todos os hotéis em que já estive no mundo. Quando cheguei à mesa deparei-me com o homem que julguei ser um integrante da equipe de Osama: o homem perdido. Lá estava ele com minhas amigas. Sentei-me, falei algumas bobagens habituais, e Felícia apresentou-me a um gaucho que vive na Austrália há mais de 20 anos. Conversamos animadamente os seis. Subimos e em seguida nos dirigimos a Faculdade de Filologia.
Peguei o mapa. Tínhamos que descer na estação Benimaclet, fazer conexão e descer na estação Facultats. Lá não demorou muito para encontrarmos a instituição. Pegamos os materiais e ficamos a espera de nossas outras colegas de viagem. Como elas não apareciam, mandamo-nos.
Naquele dia não havia apresentações, nem palestras. Por isso, cidade para que te quero.
Mas antes eu tinha que fazer umas comprinhas pessoais. Encontramos o Mercadona, o Zaffari do turista porto-alegrense. Fiquei horrorizado com o preço dos produtos: um desodorante, sabonete líquido, lenços para renite (não precisava, mas comprei para quando precisasse no Brasil), shampoo, escova de dente. Tudo isso me custou no caixa sete euros. Sete euros. Sete euros. No Brasil, aqui em baixo, passaria dos 40 reais a soma dos mesmos produtos. Viva os impostos aduaneiros!
Fomos para o centro gótico de Valência.
Pegamos o metro rumo a estação Xàtiva. Lá nos deparamos com uma plaza de touros, construída entre os anos 1850-1860 para ser o cenário das grandes touradas. Um escândalo. Mais adiante fomos andando pelo centro a pé. Pobre de nossos pés. Um calor escaldante de 26ºC acusava no termômetro. No final desta imensa avenida, chamada Carrer Cólon, nos deparamos com a Plaza Porta de la Mar, porta que deve o seu nome à antiga Porta do Mar, a entrada que comunicava a cidade com as povoações marinhas e a zona portuária. Ali, olhando para o mapa, percebemos que não saberíamos para que lado ir. Então decidimos pedir ajuda, desejávamos ir a Roma. Abordamos um homem por volta dos 40 anos e dissemos que desejávamos ir a Plaza del ajuntamiento. O celular dele tocou, ele atendeu e disse que estava ajudando turistas e que depois poderia ligar. Achei aquilo de primeira! Guiou-nos. Agradecemos a simpatia e fomos ao nosso destino. O calor estava cada vez mais intenso. Pela primeira vez na minha vida meu corpo gritava por água. Andando e andando acabamos chegando a Plaza de la Reina, onde estava a catedral de Valência. Um escândalo. Em seguida, pelas ruas estreitas nos encontramos com a torre de Santa Catarina, igreja datada de 1245. As meninas já pensavam em almoço, mas eu, insaciável para conhecer a cidade, pois não era meio-dia ainda, desejava conhecer mais e mais, por mais que meus pés também já estavam dilatando de dor. Tomamos uma água. Em busca da Plaza del ajuntamiento, acabamos nos apresentando ao Mercado Central de Valência. Um primor! Construído entre os anos 1910 e 1928. Trata-se de um mercado como todos conhecemos. Como um Mercado Publico de Porto Alegre sem o cheiro de peixe. Como um Mercado Público de Porto Alegre sem sujeira. É o lugar mais limpo que já vi na vida, se tratando de mercados centrais. Ali nos arredores, há as Lonjas, Lonjas de la Seda ou de los Mercaderes, de 1482, patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO. Depois de uma caminhadinha achamos a Torre de Quart. Este ponto turístico foi construído por Pere Bofill entre 1441 e 1460 e ganhou esse nome por ser caminho que conduzia a aldeia de Quart de Poblet. Desde 1626 até o século XVIII foi prisão para mulheres.
Cansados de tanto caminhar, decidimos voltar para casa e almoçar. Desejávamos encontrar uma estação de metro. Olhávamos para os lados e nada. E aquele calor, e aquela sede, e aquele sol, e aquele céu. Certo momento pedimos auxílio a uma senhora que passeava com um bebê. Esta deixou a criança e foi até nós. Brincou conosco e apontou-nos uma estação que havia no meio de uma praça. Agradecemos a gentileza e fomos ao nosso destino. Instantes e passos dilacerantes depois encontramos a estação. Uns 15 minutos depois estávamos no hotel e almoçando.
Descansamos por uma hora e meia.
Depois disso pegamos o elétrico que passava em frente de casa e nos dirigimos a estação Eugenia Viñes, que ficava na playa de malvarrosa. Lá estava eu indo para o mar mediterrâneo. Que ansiedade. Minha expectativa esperava enxergar um mar verde, não algo medonho como uma água de Tramandaí.
Era uma imensa camada de areia, um caminho que saia dos chuveiros e vinha até o calçadão (para que os banhistas não sujem os pés de areia após a limpeza. Inteligente!). Lá embaixo estava o mar. Mas que cor era aquela que enxergava? Ia maravilhado fiscalizando as pessoas, a temperatura da areia, as mulheres de topless, homens de cueca tomando banho de sol, senhoras e moças de soutien e calcinha na praia, crianças na beira da água, cachorros brincando com seus donos. Lindy e eu jogamo-nos para dentro d’água. Quentinha, brava, transparente, verde, muito diferente de Tramandaí, sem pescadores, nem redes, nem aqueles peixinhos que beliscam os pés dos andarilhos de beira d’água. Lindy perdera os chinelos e ficou perguntando na beira da praia logo depois de sairmos da água: “Cadê o chineloooooo”. Coisas da professora Lindy.
No final do dia, após a praia, Felícia, Lindy e eu fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Eu tinha que saber como eram os monumentos arquitetônicos de Valência à noite. Embarcamos na linha 6 do elétrico. E da estação final, Marítim-Serreria, fomos a pé até as facetas de Deus pelas mãos do homem. No meio do trajeto, pelas ruas serem curvilíneas, acabamos perdendo o sentido. E mais uma vez fomos vítimas de autóctones simpáticos. Cinco minutos de caminhada meus olhos foram capazes de avistar a assombrosa Ponte de Assut l’Or. Percorremos pelo L’Hemisfèric.
Voltaríamos ali com o resto do pessoal no dia seguinte para que possamos adentrar aos museus.
Regressamos para casa. Jantamos. No refeitório do Colégio Mayor estavam os alunos fazendo prendas e piadas, que na minha concepção de mundo não eram engraçadas. Nem entre eles tinha a devida graça. Creio que era o mico de estudante novo, pois era sempre (do almoço e do jantar) o mesmo que tinha que fazer as palhaçadas na frente de todos. O nome da criatura era Antônio.
Antes de dormir, meu colega de quarto e eu conversamos por meio de nossos quatro dialetos. Rimos bastante. Eu fui para minha cama, ele para o “féretro” dele. Dormi a noite inteira. Não tive medo da lua.
Ah, leitor sorridente e esquecido, deslembrei de dizer que naquele momento que sossegávamos, após o passeio da cidade e antes de irmos à praia, conectamos a internet e vos digo que o hospedeiro gay entrou em contato com a amiga Felícia. Tratava-se de um convite para a comunidade do Facebok.
— Felícia, amiga, vamos ver as fotos dele agora! Assim saberemos se o hospedeiro é ou não é gay, eis a questão. Vamos ver o que ele te escreveu? Será que há um convite?????
— Amigooooooo, boa ideia. Vamos acessar já — respondeu Felícia numa excitação que pingava.
Mas como ia dizendo leitor ansioso, o blog é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa condição cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste blog és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o blog anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este blog e o meu estilo são como os ébrios, guiam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem. Por isso que te digo, como te dizia na última lavra do penúltimo parágrafo, não tive medo da lua, e por não ter medo da lua, dormirei. Amanhã ou depois, tu sabes, o blog anda devagar, como dizia nosso Machado de Assis, continuarei a história – com as revelações das fotos do hospedeiro gay ou não gay.
Disse para meu colega de alojamiento:
— Me despiertas para o brakfest, desayuno, café da manhã, petit dejeneur?
Amanhã, sendo despertando, eu continuo aqui.
sábado, 16 de outubro de 2010
Um voo nada normal seguido de mistérios do companheiro de quarto.
Certamente devo ter deixado o leitor que me persegue mais intrigado que nunca depois da prolepse que joguei no final do episódio anterior. Espero que tua ansiedade não tenha feito com que as substâncias da criatividade tivessem entrado em ação e inúmeras ideias mirabolantes passassem por tua cabeça. Mas não o culpo, leitor, pois, quando falamos sobre sexo e ainda mais quando falamos de sexo envolvendo um voo, e ainda por cima num continente que expressa um símbolo um tanto libertino, isso faz com que qualquer individuo com comportamento normal ou na média tivesse, pelo menos, curiosidade pela história. É por isso que a dúvida será decapitada nas linhas que se seguem. Ei-las.
Naquela noite de 05 de setembro os aventureiros do paraíso estavam prontos para voar de Barcelona para Valência. Ficaram algumas horas no aeroporto da cidade catalã. Sem sombra de erro, o voo saiu em seu horário. Lá estava eu com meu olho vermelho, pobrezinho, provocava coceiras de tanto calor que sofrerá naquele calor lisboeta. Sentei-me na janela, fechei os olhos e passei a me concentrar para que aquele problema acabasse. Então uma epifania aconteceu: uma ideia clareou em minha mente! Quando eu tomasse um banho com água abundante em meus olhos,o tormento chegaria ao fim na manhã seguinte.
Ao olhar para o lado, observei duas moças e uma senhora. Era nítido que uma delas estava com medo de avião, e a outra aparentemente cândida, para mostrar sensibilidade a amiga, deu-lhe as mãos. Uma terceira mulher olhava para elas com uma cara horrorizada. Para piorar o quadro a moça cândida, não a apavorada, pegou um objeto na bagagem de mão, uma mantinha rosa adornada de enfeites. Com aquele miniedredon a mulher cândida protegeu-as. A terceira mulher olhava apoplética às lésbicas que calçavam 34. Não obstante, além de se protegeram do frio com a mantinha rosa, voltaram a se darem as mãos. Meu Deus, meus ojos vermelhos de tão inchados não acreditavam na cena hilária que se mostrava naquele palco. Enquanto eu olhava para a terceira mulher, eu ia limpando meu globo ocular com lenços umedecidos. Essa mulher já até coçava seus olhos com tamanha cena.
Um instante depois, assim que o voo Ryanair já sobrevoava a Catalunha, pode-se ver a mulher, a terceira, perguntando a moça que agonizava de medo: “ Tu tens medo de avião” NOSSA, ERA EM PORTUGUÊS. A moça agonizante disse retirando os tampões do ouvido: “Oi, a senhora falou alguma coisa?” ... “ Sim, tenho muito medo de avião, poderia ser de trem a nossa viagem”. “Mas fique bem, não vai ser da nossa vez que uma tragédia ocorrerá”
Além dessas aventuras mais que imperfeitas testemunhadas por mim, no auge de uma conjuntivite, ainda dentro deste voo pude observar outra mais escandalosa. Porém, esta teria continuações mesmo depois da viagem de volta para casa.
Lá estava eu, na minha mais transoceânica coceira, quando o hospedeiro do voo passava com suas promoções. Em nossa viagem havia uma grande personalidade, cuja alcunha foi geral, e aqui não será diferente. Essa grande pessoa chamava-se Tia, a tia da Sobrinha. Ingênua, Tia aceitou uma taça de vinho do hospedeiro. Mal sabia ela que deveria pagar pela bebida. Em outro caso, creio que a Sobrinha, pedira uma Coca-Cola, teve que arcar com as consequências. Nos voos low cost tudo que se consome, se paga.
Falando em pagar o que se consome, uma de minhas amigas, interessou-se pelo hospedeiro. Ficaram a conversar com o gajo, que era português. E o hospedeiro, esperto que só ele, ia dando todo o tipo de atenção às brasileirinhas. Ele versava sobre as nordestinas. Para ele o Brasil varonil era apenas o nordeste. Ó paí, ó! Só porque o primo dele, Cabral, chegou na Bahia, isso não quer dizer que... ah, enfim. Palavras ao vento. Hospedeiro, vá ler Hans Staden. Mais adiante, no prosseguimento do caso, o hospedeiro veio todo bobo para cima desta amiga, que questionava o preço de algum produto.
— Isso custa-lhe três eurinhos.
Quando aquele gajo falou TRÊS EURINHOS, pensei. Esse homem gosta de bater numa panela (em Portugal que bate na panela é paneleiro, e paneleiro em Portugal é um homossexual), ele paneleiro gosta de um tupinambá. Esse hospedeiro é parasita. Temos aí o hospedeiro gay.
E ele ficava todo dengoso para cima de minha amiga. Pronto, eram melhores amigas agora. Há algo de podre no reino da Dinamarca. Como dizia meu amigo Hamlet: Ser ou não ser, eis a questão.
O voo chegara em Valência. Assim que uma fila foi se dirigindo para o fundo da aeronave, fui me dirigindo também. Na saída, enquanto o hospedeiro se despedia a cumprimentar a todos os passageiros, minha amiga preparava o bote: ela pegara o seu cartão de visitas e na saída entregou para o chefe de cozinha.
Tchau! Boa noite!
Ainda nas escadas da ave-pássara, disse para minha amiga que achava que aquele hospedeiro era gay. A amiga também achou. Mas vá saber, tudo é possível. Mal sabíamos que o hospedeiro gay entraria em contato já no dia seguinte.
******
Os quatro bolsistas do congresso se dirigiram à linha do metro. Tínhamos que pagar a linha 3 em direção a Rafelbunyol e descer na estação Benimaclet. Na venda de passagens encontramos um homem totalmente perdido. Este portava uma bolsa, um óculos redondo (creio que ele era fã de Harry Potter) e fisicamente tinha um olhar perdido. Certamente era por isso que tinha esse olhar, pois estava perdido mesmo. Pedia ajuda para saber como chegar a uma instituição: El Colégio Mayor Galileu Galilei. Entrei em surto, pois o homem estava indo para o mesmo lugar que nós. Mas que língua ele falava?: não sabia castelhano, catalão, aragonês, leonês, basco, galego, langue d’oil, langue d’oc, rético, sardo. Ele falava alemão, só isso. E um inglês que a tia Beth, a Rainha, não aceitaria de bom grado.
Lá íamos nós, dentro do vagão do metro, do metro mais limpo onde já andei. Em primeiro lugar, Valência; em segundo, Madrid... As estações iam passando. Quando chegamos na parada Quart de Poblet, o homem perdido ia olhando para o mapa, para a bolsa dele, para os lados. Meu Deus, ele é um terrorrista do Osama. Ele vai nos matar. Quem ele vai matar primeiro? Veja a lista abaixo. Quem será a primeira vítima?
Passamos pelas estações Xàtiva, Alameda, Cólon, Facultats e enfim a Benimaclet. Nesta desembarcamos e pegamos conexão coma linha 4, o bondinho. Algumas estações depois estávamos na estação Tarongers, em frente ao Colégio Mayor Galileu Galilei. E nisso o homem vinha atrás de nós, sempre perdido, desamparado. De tantoque pensava naquele homem, me vi perdido. Não achava onde era a entrada da “república dos estudantes” típica da Europa. Quando ia pedir ajuda, uma estudante, moradora do colégio mayor, indicou-nos o caminho. Na recepção fomos muito bem atendidos. Ganhamos nossas chaves, porém não dividiria quando com nenhuma de minhas duas amigas, nem com a outra conhecida. Mas sim com alguém que nunca vira na vida. Quem era aquela criatura, como ele era. Recebi a chave do quarto: 158.
Lá estava eu indo para uma grande aventura, uma grande experiência de minha vida. Isso pode ser até piegas, até romântico, mas o fato de um brasileiro que vivia enfurnado em seu casulo, o seu quarto, com seus livros, sua literatura, suas músicas e seus sonhos sair de lá e se aventurar num quarto de uma república de estudantes, dividir o quarto com alguém que nunca na vida tinha visto antes é muita expectativa. Tanto para mim, quanto para ele que me esperava ansioso. Seja bem-vindo a realidade Alex, ela é melhor que os sonhos, ela é a realização dos sonhos. E para realizar esses sonhos, abri aquela porta azul e na porta, o número 158 desenhado em cinza. Era ali que conheceria um novo episódio na minha vida Amelie Poulain.
Como ele era? De onde vinha? Da Argentina, do Peru, da Colômbia (céus!)? Da Espanha mesmo? Não, impossível, as bolsas são destinadas a integrantes da comunidade europeia. Abri a porta. A porta rangeu. Uma escuridão no recinto. Um corredor. Acendi a luz. Larguei a porta. Um estrondo. E após o estrondo lá estava um rapaz deitado numa das camas.
Com licença leitor, vou dormir. Meia-noite e quarenta e quatro. Até mais. Depois conto o final. Au revoir.
Naquela noite de 05 de setembro os aventureiros do paraíso estavam prontos para voar de Barcelona para Valência. Ficaram algumas horas no aeroporto da cidade catalã. Sem sombra de erro, o voo saiu em seu horário. Lá estava eu com meu olho vermelho, pobrezinho, provocava coceiras de tanto calor que sofrerá naquele calor lisboeta. Sentei-me na janela, fechei os olhos e passei a me concentrar para que aquele problema acabasse. Então uma epifania aconteceu: uma ideia clareou em minha mente! Quando eu tomasse um banho com água abundante em meus olhos,o tormento chegaria ao fim na manhã seguinte.
Ao olhar para o lado, observei duas moças e uma senhora. Era nítido que uma delas estava com medo de avião, e a outra aparentemente cândida, para mostrar sensibilidade a amiga, deu-lhe as mãos. Uma terceira mulher olhava para elas com uma cara horrorizada. Para piorar o quadro a moça cândida, não a apavorada, pegou um objeto na bagagem de mão, uma mantinha rosa adornada de enfeites. Com aquele miniedredon a mulher cândida protegeu-as. A terceira mulher olhava apoplética às lésbicas que calçavam 34. Não obstante, além de se protegeram do frio com a mantinha rosa, voltaram a se darem as mãos. Meu Deus, meus ojos vermelhos de tão inchados não acreditavam na cena hilária que se mostrava naquele palco. Enquanto eu olhava para a terceira mulher, eu ia limpando meu globo ocular com lenços umedecidos. Essa mulher já até coçava seus olhos com tamanha cena.
Um instante depois, assim que o voo Ryanair já sobrevoava a Catalunha, pode-se ver a mulher, a terceira, perguntando a moça que agonizava de medo: “ Tu tens medo de avião” NOSSA, ERA EM PORTUGUÊS. A moça agonizante disse retirando os tampões do ouvido: “Oi, a senhora falou alguma coisa?” ... “ Sim, tenho muito medo de avião, poderia ser de trem a nossa viagem”. “Mas fique bem, não vai ser da nossa vez que uma tragédia ocorrerá”
Além dessas aventuras mais que imperfeitas testemunhadas por mim, no auge de uma conjuntivite, ainda dentro deste voo pude observar outra mais escandalosa. Porém, esta teria continuações mesmo depois da viagem de volta para casa.
Lá estava eu, na minha mais transoceânica coceira, quando o hospedeiro do voo passava com suas promoções. Em nossa viagem havia uma grande personalidade, cuja alcunha foi geral, e aqui não será diferente. Essa grande pessoa chamava-se Tia, a tia da Sobrinha. Ingênua, Tia aceitou uma taça de vinho do hospedeiro. Mal sabia ela que deveria pagar pela bebida. Em outro caso, creio que a Sobrinha, pedira uma Coca-Cola, teve que arcar com as consequências. Nos voos low cost tudo que se consome, se paga.
Falando em pagar o que se consome, uma de minhas amigas, interessou-se pelo hospedeiro. Ficaram a conversar com o gajo, que era português. E o hospedeiro, esperto que só ele, ia dando todo o tipo de atenção às brasileirinhas. Ele versava sobre as nordestinas. Para ele o Brasil varonil era apenas o nordeste. Ó paí, ó! Só porque o primo dele, Cabral, chegou na Bahia, isso não quer dizer que... ah, enfim. Palavras ao vento. Hospedeiro, vá ler Hans Staden. Mais adiante, no prosseguimento do caso, o hospedeiro veio todo bobo para cima desta amiga, que questionava o preço de algum produto.
— Isso custa-lhe três eurinhos.
Quando aquele gajo falou TRÊS EURINHOS, pensei. Esse homem gosta de bater numa panela (em Portugal que bate na panela é paneleiro, e paneleiro em Portugal é um homossexual), ele paneleiro gosta de um tupinambá. Esse hospedeiro é parasita. Temos aí o hospedeiro gay.
E ele ficava todo dengoso para cima de minha amiga. Pronto, eram melhores amigas agora. Há algo de podre no reino da Dinamarca. Como dizia meu amigo Hamlet: Ser ou não ser, eis a questão.
O voo chegara em Valência. Assim que uma fila foi se dirigindo para o fundo da aeronave, fui me dirigindo também. Na saída, enquanto o hospedeiro se despedia a cumprimentar a todos os passageiros, minha amiga preparava o bote: ela pegara o seu cartão de visitas e na saída entregou para o chefe de cozinha.
Tchau! Boa noite!
Ainda nas escadas da ave-pássara, disse para minha amiga que achava que aquele hospedeiro era gay. A amiga também achou. Mas vá saber, tudo é possível. Mal sabíamos que o hospedeiro gay entraria em contato já no dia seguinte.
******
Os quatro bolsistas do congresso se dirigiram à linha do metro. Tínhamos que pagar a linha 3 em direção a Rafelbunyol e descer na estação Benimaclet. Na venda de passagens encontramos um homem totalmente perdido. Este portava uma bolsa, um óculos redondo (creio que ele era fã de Harry Potter) e fisicamente tinha um olhar perdido. Certamente era por isso que tinha esse olhar, pois estava perdido mesmo. Pedia ajuda para saber como chegar a uma instituição: El Colégio Mayor Galileu Galilei. Entrei em surto, pois o homem estava indo para o mesmo lugar que nós. Mas que língua ele falava?: não sabia castelhano, catalão, aragonês, leonês, basco, galego, langue d’oil, langue d’oc, rético, sardo. Ele falava alemão, só isso. E um inglês que a tia Beth, a Rainha, não aceitaria de bom grado.
Lá íamos nós, dentro do vagão do metro, do metro mais limpo onde já andei. Em primeiro lugar, Valência; em segundo, Madrid... As estações iam passando. Quando chegamos na parada Quart de Poblet, o homem perdido ia olhando para o mapa, para a bolsa dele, para os lados. Meu Deus, ele é um terrorrista do Osama. Ele vai nos matar. Quem ele vai matar primeiro? Veja a lista abaixo. Quem será a primeira vítima?
Passamos pelas estações Xàtiva, Alameda, Cólon, Facultats e enfim a Benimaclet. Nesta desembarcamos e pegamos conexão coma linha 4, o bondinho. Algumas estações depois estávamos na estação Tarongers, em frente ao Colégio Mayor Galileu Galilei. E nisso o homem vinha atrás de nós, sempre perdido, desamparado. De tantoque pensava naquele homem, me vi perdido. Não achava onde era a entrada da “república dos estudantes” típica da Europa. Quando ia pedir ajuda, uma estudante, moradora do colégio mayor, indicou-nos o caminho. Na recepção fomos muito bem atendidos. Ganhamos nossas chaves, porém não dividiria quando com nenhuma de minhas duas amigas, nem com a outra conhecida. Mas sim com alguém que nunca vira na vida. Quem era aquela criatura, como ele era. Recebi a chave do quarto: 158.
Lá estava eu indo para uma grande aventura, uma grande experiência de minha vida. Isso pode ser até piegas, até romântico, mas o fato de um brasileiro que vivia enfurnado em seu casulo, o seu quarto, com seus livros, sua literatura, suas músicas e seus sonhos sair de lá e se aventurar num quarto de uma república de estudantes, dividir o quarto com alguém que nunca na vida tinha visto antes é muita expectativa. Tanto para mim, quanto para ele que me esperava ansioso. Seja bem-vindo a realidade Alex, ela é melhor que os sonhos, ela é a realização dos sonhos. E para realizar esses sonhos, abri aquela porta azul e na porta, o número 158 desenhado em cinza. Era ali que conheceria um novo episódio na minha vida Amelie Poulain.
Como ele era? De onde vinha? Da Argentina, do Peru, da Colômbia (céus!)? Da Espanha mesmo? Não, impossível, as bolsas são destinadas a integrantes da comunidade europeia. Abri a porta. A porta rangeu. Uma escuridão no recinto. Um corredor. Acendi a luz. Larguei a porta. Um estrondo. E após o estrondo lá estava um rapaz deitado numa das camas.
Com licença leitor, vou dormir. Meia-noite e quarenta e quatro. Até mais. Depois conto o final. Au revoir.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Primeiras estórias - parte 2 e derradeira - VOO TAP PORTUGAL
A história foi inacabada quando o grupo de congressistas estava a adentrar na lata voadora. Mas isso não ocorrera por motivos que nem a psicanálise poderia revolver. Sim, por uma analepse temporal, não daquelas que voltamos no tempo, mas sim daquelas que voltamos ao tempo utópico, fez com que uma de nossas colegas esquecesse onde colocara o documento fundamental para o sucesso de sua viagem.
Por Gugu Liberato! Os pintinhos foram procurando e averiguando por todos os lugares daquele saguão onde o passaporte estaria após as 16h daquela mesma data. Uma investigação minuciosa se deu, mas nada fora encontrado. Isso poderia ser apenas um caso para o nosso C.I.S – investigação criminal. Então, senhor leitor, que não tem mais fé na minha narração, por isso creio que tomas agora um café para não dormir, devido a tamanha encheção de lingüiça.
Que assim seja. Pelas forças da fada Bela e pela pergunta do senhor que questiona na beira da praia: “ Cadê o chinelo?”, um fenômeno espiritual, provindos da novela Escrito nas Estrelas, o passaporte fora encontrado ainda com vida dentro da bolsa da moça. ACHEI! Era o grito de independência dado às beiras da Bahia da Guanabara. Que cheiro bom, onde estará meu Dolce & Gabanna?
Após tremores intensos, lágrimas de desequilíbrio emocional e um viva, as doze mulheres e um membro masculino foram adentrando a ave-pássara. Logo que iria adentrar na nave do Xuxa Park, fui abordado pelo comissário de bordo, Pedro, que me disse que eu deveria entrar pelo primeiro corredor. Quando cheguei ao meu lugar, na terrível classe econômica, percebei que estava no corredor, que bom, isso não era surpresa, pois pedira isso a moça do check-in. O que foi surpreso para mim foi a presença de duas meninas e a mãe destas. As três num só impulso usurparam o meu lugar. Abordei a mais velha, a mãe, é claro, e perguntei onde era o 17E. Então a portuguesa de deu conta que, sem querer, havia se enganado. Ao olhar no horizonte, que era logo na fileira de trás, constatei que ali estavam minhas companheiras. Troquei de lugar com as portuguesas e fui para o outro lado, mais próximos de minhas companheiras transoceânicas. Ali estavam Cléia, minha companheira de Theatro São Pedro; Felícia, AMIGAAAAAAA; e a senhora T..., a mesma que fora levada pelo trem de Paris na estação Gare du Nord e desprendida do grupo sem mapa, sem lenço e sem documento. Ali estávamos mais uma vez. Que satisfação!!! Algumas fileiras a minha frente estavam minhas amigas do peito, ambas cândidas e lindíssimas e ambas na sua primeira viagem à Europa.
“Atenção senhores passageiros. Dentro de instantes estaremos descolando nosso voo com destino a Lisboa. Nossa viagem durará cerca de nove horas e meia. E faremos o possível para que o voo seja o mais perfeito possível”.
Nisso começou a programação de todo voo. Antes da descolagem, os comissários de bordo, OS HOSPEDEIROS, ficam instruindo os passageiros como deveriam se comportar em momentos de tensão. No voo TAP PORTUGAL essa ideia semiótica mudou, pois não conduzem a nada. Quem faz isso é o vídeo que passava em cada uma das televisões, que cada um dos passageiros tem disponível na poltrona da frente.
Uma vez rolados e descolados, a viagem seguia seu curso. Inicialmente me vi num conflito com a tal televisão. A minha não ligava. Tive que pedir ajuda às portuguesinhas de Fátima, as meninas que sentavam ao meu lado. Eram tão educadas. Não choravam, nem gritavam. Eram discretas, como toda criança deveria ser: MUDA. Ironias a parte, elas me indicaram o botão a que eu deveria recorrer para chegar a meu fabuloso destino. Como o conflito das gerações é sangrento. Os jovens de hoje sabem tanto, penso eu, o sexagenário do voo 178 TAP PORTUGAL. Uma vez a televisão ligada, comecei a surfar nos canais de filmes: havia uma comédia romântica bem gay, SEX and the CITY; no outro canal um filme de aventura; noutro um filme brasileiro bem pobre, podremente mostrando a pobreza do povo, aff (aliterações em p me chamam muito a atenção); um infantil, dublado, em português de Portugal, onde cachorros e gatos falavam mais corretamente a língua do que eu (hilário o filme); e ainda havia outros; mas cansei de contar palavras.
Havia várias estações de rádio. Para todos os gostos e estilos. Sintonizei-me melhor com a POP, que segundo o locutor português dizia: “ Eis a tabela de sucessos da TAP PORTUGAL. Tu estás a ouvir TAP PORTUGAL”. E disso começa a tocar Lady Gaga, Alejandro (Fernando, Roberto...). Meus pés já dançavam depois disso. Em seguida Katy Perry, Eminen feat. Rihanna. E assim vai. A música tem o poder de te levar para o mesmo lugar em que tu a escutaste numa viagem, por exemplo. Ano passado, quando estava em Lisboa, andando pelas ruas centrais, escutava num MP3 Hot Could, de Katy Perry. Toda vez que escuto essa música, me lembro dos passos que dava na praça do comércio. E agora, uma vez de volta a terra do nunca, digo-te, que todas as músicas que escutei no voo TAP PORTUGAL estão sendo tocadas em todas as rádios e quando as escuto, eu acabo me transportando para a viagem aérea.
Dei uma cochiladinha de leve. Não consigo dormir em aviões quando estou me dirigindo a meu destino; somente na volta, durmo e durmo, e quando acordo me atraco com o comissário, com o HOSPEDEIRO. (Cabe traduzir o intraduzível, que HOSPEDEIRO em Portugal é o comissário de bordo). Mas essa é uma história, uma das últimas, que relatarei desta viagem. Que bela prolepse! Que bela catáfora! Que bela sincope!
Após ter sido comido, ou melhor jantado, outras sete horas de viagem se alongaram. Mas digo que passou mui rápido. Mui rápido que pude ver minha amiga, a mais cândida de todas, a que estava ao lado da outra lindíssima, ir escovar os dentes duas vezes. Quando dava por mim, lá estava ela com o creme e a escova na mão rumo ao banheiro de avião.
Uma aventura se deu quando eu e a senhora T..., mas que satisfação, decidimos dar uma circuladinha nas pernas. Fomos ao encontro da professora e de duas colegas, a Selma e a Velma, dos Simpsons, pois formaram uma dupla de fumantes ativas na viagem. Elas dormiam, sonhando que tragavam um charuto cubano, quando foram acordadas por mim e pela senhora T... pois estávamos fazendo uma pesquisa de clima. Perguntamos se o VOO TAO PORTUGAL estava satisfatório para elas. Ainda sonolentas, com a sintonia em ritmo, responderam, demonstrando o máximo que a simpatia deveria demonstrar: “Eu pensei que já tínhamos chegado”, disse Selma. Eis a historieta que contarei. Agora não lembro-me dos fatos, desculpa-me a subjetividade, mas conterei a história crua. Sei que alguém acabou nos pedindo água, não me lembro quem. Prestativos, a senhora T... e eu fomos correndo até o fundo do avião para pedir dois copos de água. No trajeto nos deparamos com uma criatura que dormia toda coberta com a mantinha patrocinada por TAP PORTUGAL. Olhamos-nos e rimos. A aventura até o fundo do avião era muita. Mas cerca de um minuto depois chegamos até a hospedeira. Ela, com cara de poucos amigos, disse-nos que deveríamos sentar. A senhora T... pediu dois copos de água. A hospedeira os pegou e nos passou. Quando a mulher deu os copos à senhora T... uma terrível turbulência se iniciou e os começamos a dançar o rebolation, mas um rebolation TAP PORTUGAL, com copos TAP PORTUGAL, e águas TAP PORTUGAL, e uma turbulência TAP PORTUGAL. Olhei para uma televisão e ali mostrava a posição do avião em sua rota: tragédia, o avião estava bem no arquipélago de São Pedro e São Paulo. Mas levei na brincadeira, como tudo faço na vida, com a relação ao voo da Air France. Levei na brincadeira, pois estava me divertindo com aquela turbulência e de ver a senhora T... rebolando com dois copos de água na mão durante uma turbulência.
Ela me pedia ajuda. Mas eu não era nem louco de ajudá-la. Imaginei-me derrubando a água na criatura da manta TAP PORTUGAL. Nãaaaaaaao. Fiz-me de louco e fui no ritmo do Parangolé.
A água chegara ao destino sem que uma gota fosse desperdiçada pelas turbulências da vida.
Mais horas se passaram e o avião passava pela ilha de Lanzarote. Que saudade de ti, Saramago!
Outras horas depois o televisor indicava que estávamos próximos de Lisboa.
Era um inicio de manhã naquele continente idoso, um idoso que sorria com seu nascer do sol, início da vida naquele lado oriental do ocidente. Era o nascer da nossa viagem aquele favônio, o nascer da nossa vida, uma nova fase de descobertas. Aquele sol que se anunciava era o símbolo de todas as faces de um renascimento, renascimento daqueles viajantes que teriam epifânias, alomorfias, distrofias, momentos de fortes emoções, lágrimas, paixões, escândalos e, é claro, satisfações. Voltariam para casa sem acreditar no sonho, no sonho-felicidade, anestesiados dos momentos que viveriam.
O avião aterra.

Andamos de autocarro até a imigração.
Lá, as mesmas perguntas rotineiras, e um carimbo fraco, que mal se vê no passaporte.
Por ter sido o primeiro a passar pela imigração, fiquei esperando minhas amigas de aventuras lisboetas. Estas amigas seriam algumas, pois em duas horas um voo levaria três companheiras separadamente para Barcelona. A senhora T... e Felícia ficaram fazendo companhia uma a outra no aeroporto; outra companheira de viagem, a senhorita F..., recebeu uma amiga que morava na terrinha; outras três foram para Barcelona; e o resto correu para desbravar Lisboa. Tínhamos cinco horas. Corremos.


Quero salientar ao leitor esquecido a frase que minha mamãe-profética dissera em Porto Alegre, naquela cidade meridional do mundo terceiro: NÃO SAIAM DO AEROPORTO, PODEM PERDER O VOO”
Naquela corrida, ainda no aeroporto de Lisboa, que era mais aeroporto, procuramos o serviço de informações. Queria comprar o cartão VIVA!, para podermos passear nos autocarros, metros, eléctricos. O puto, como dizem em boa variação diatópica, explicou-nos que existia o cartão para um dia. Naquele cartão poderíamos utilizar em todos os transportes, excepto em metros. Tudo isso por € 3,50. Caímos de boca. Pegamos o primeiro aerobus.
Fomos passeando pelos pontos turísticos. Trafeguei novamente, de aerobus, na avenida da Liberdade, ponto lisboeta em que me perdi da outra vez em que ali estive. Naquele incidente, cigarros similares me foram indicados, indicados pelos traficantes dignos da da novela Passione. (Falando nisso, cadê o Danilo?, fecha parênteses). Descemos em frente ao Teatro Maria I. Subimos até o Castelo de São Jorge. Para chegar lá, subimos o bairro inteiro de bondinho. Adentramos no castelo. Estar ali novamente era a concretização da minha primeira viagem. Agora sim eu acredito em meus sonhos: um dia eu tinha passeado na Europa. Pois, quem vai a Europa uma vez, volta aqui para baixo e não acredita que lá esteve. Agora, que fui pela segunda vez, acredito e se acredito, não sofro. Depois do castelo de São Jorge, andando no bondinho da carreira 28, levei minhas companheiras de jornada até o monumento de Fernando Pessoa, na praça Camões. Depois fomos descendo uma rua, de cujo nome não lembro, mas lá estava Eça de Queirós abraçado a uma mulher nua. Bárbaro, nada como Eça de Queirós. Um escândalo na sociedade portuguesa. Nessa mesma rua, uma das integrantes quase morrera atropelada por um autocarro, que descia a rua uma velocidade que parecia de um filme com Keanu Reeves como o tira-herói. Mas todos foram salvos. Dirigimo-nos até a praça do comércio. Lá, depois de uma seção de fotos para a Moda Brasil (da novela TITITI), pegamos um bondinho moderno rumo à torre de Belém. Lá, como se fosse o parque da Redenção ou o Parcão aos domingos, estava apinhado de gente o lugar. Ficamos a caminhar pela beira do rio Tejo, observando o corcovado, a ponte 25 de abril, o padrão dos descobrimentos. Tudo um dejavu. Discorda-se de dejavu quando se refere a clima. Da outra vez, inverno; agora, forno. Que vontade eu tive de adentrar ao chafariz que fica em frente aos Mosteiros do Jerónimo, onde fica o túmulo de Luis de Camões, Vasco da Gama, Fernando Pessoa. Ao lado, na esquina, estava o glorioso, o fenomenal, o misterioso pasteizinho de Belém. Eu estava com fome, mas com aquele calor, que arrebatava a Lisboa nunca Dante caminhada naquela temperatura, fazia com que eu não tivesse a paciência divina para encarar uma fila de turistas que queriam a fórmula secreta do acepipe. Exaustos, de termos feito chover no nordeste, pegamos o primeiro autocarro em direção ao Cais Sodré. Ali embarcamos no autobus com destino ao aeroporto. Como eu queria ter conhecido o Parque das Nações! Mas deixa para a próxima.
Chegamos ao aeroporto de Lisboa e ficamos esperando por duas horas, até que o VOO TAP PORTUGAL nos levasse até o terceiro estouro da pipoca, Barcelona, onde esquentaríamos a panela para o quarto e derradeiro estouro, Valência, o destino de nosso congresso. Mal sabiam os aventureiros o que Valência preparava além do arroz, das laranjas e da paella original.
O VOO TAP Portugal descolou e deixou Lisboa lá em baixo, e eu lá em cima com uma alergia ao calor. Meus olhos choravam de tanto calor. Mal sabia eu, mas era a conjuntivite em ação. O voo durou uma hora e algumas pequenas frações de hora quando chegamos a Barcelona. Agora era aguardar mais um pouco, o voo da Ryanair, voo que daria para a história aos aventureiros os momentos mais intrigantes e misteriosos da viagem.
Mas isso se dará brevemente, creio que na semana que vem, quando contarei a vós, que me perseguem, a história do turbulento e sexual voo da Ryanair. Plauto daria muitas risadas com os quiproquós.
Por Gugu Liberato! Os pintinhos foram procurando e averiguando por todos os lugares daquele saguão onde o passaporte estaria após as 16h daquela mesma data. Uma investigação minuciosa se deu, mas nada fora encontrado. Isso poderia ser apenas um caso para o nosso C.I.S – investigação criminal. Então, senhor leitor, que não tem mais fé na minha narração, por isso creio que tomas agora um café para não dormir, devido a tamanha encheção de lingüiça.
Que assim seja. Pelas forças da fada Bela e pela pergunta do senhor que questiona na beira da praia: “ Cadê o chinelo?”, um fenômeno espiritual, provindos da novela Escrito nas Estrelas, o passaporte fora encontrado ainda com vida dentro da bolsa da moça. ACHEI! Era o grito de independência dado às beiras da Bahia da Guanabara. Que cheiro bom, onde estará meu Dolce & Gabanna?
Após tremores intensos, lágrimas de desequilíbrio emocional e um viva, as doze mulheres e um membro masculino foram adentrando a ave-pássara. Logo que iria adentrar na nave do Xuxa Park, fui abordado pelo comissário de bordo, Pedro, que me disse que eu deveria entrar pelo primeiro corredor. Quando cheguei ao meu lugar, na terrível classe econômica, percebei que estava no corredor, que bom, isso não era surpresa, pois pedira isso a moça do check-in. O que foi surpreso para mim foi a presença de duas meninas e a mãe destas. As três num só impulso usurparam o meu lugar. Abordei a mais velha, a mãe, é claro, e perguntei onde era o 17E. Então a portuguesa de deu conta que, sem querer, havia se enganado. Ao olhar no horizonte, que era logo na fileira de trás, constatei que ali estavam minhas companheiras. Troquei de lugar com as portuguesas e fui para o outro lado, mais próximos de minhas companheiras transoceânicas. Ali estavam Cléia, minha companheira de Theatro São Pedro; Felícia, AMIGAAAAAAA; e a senhora T..., a mesma que fora levada pelo trem de Paris na estação Gare du Nord e desprendida do grupo sem mapa, sem lenço e sem documento. Ali estávamos mais uma vez. Que satisfação!!! Algumas fileiras a minha frente estavam minhas amigas do peito, ambas cândidas e lindíssimas e ambas na sua primeira viagem à Europa.
“Atenção senhores passageiros. Dentro de instantes estaremos descolando nosso voo com destino a Lisboa. Nossa viagem durará cerca de nove horas e meia. E faremos o possível para que o voo seja o mais perfeito possível”.
Nisso começou a programação de todo voo. Antes da descolagem, os comissários de bordo, OS HOSPEDEIROS, ficam instruindo os passageiros como deveriam se comportar em momentos de tensão. No voo TAP PORTUGAL essa ideia semiótica mudou, pois não conduzem a nada. Quem faz isso é o vídeo que passava em cada uma das televisões, que cada um dos passageiros tem disponível na poltrona da frente.
Uma vez rolados e descolados, a viagem seguia seu curso. Inicialmente me vi num conflito com a tal televisão. A minha não ligava. Tive que pedir ajuda às portuguesinhas de Fátima, as meninas que sentavam ao meu lado. Eram tão educadas. Não choravam, nem gritavam. Eram discretas, como toda criança deveria ser: MUDA. Ironias a parte, elas me indicaram o botão a que eu deveria recorrer para chegar a meu fabuloso destino. Como o conflito das gerações é sangrento. Os jovens de hoje sabem tanto, penso eu, o sexagenário do voo 178 TAP PORTUGAL. Uma vez a televisão ligada, comecei a surfar nos canais de filmes: havia uma comédia romântica bem gay, SEX and the CITY; no outro canal um filme de aventura; noutro um filme brasileiro bem pobre, podremente mostrando a pobreza do povo, aff (aliterações em p me chamam muito a atenção); um infantil, dublado, em português de Portugal, onde cachorros e gatos falavam mais corretamente a língua do que eu (hilário o filme); e ainda havia outros; mas cansei de contar palavras.
Havia várias estações de rádio. Para todos os gostos e estilos. Sintonizei-me melhor com a POP, que segundo o locutor português dizia: “ Eis a tabela de sucessos da TAP PORTUGAL. Tu estás a ouvir TAP PORTUGAL”. E disso começa a tocar Lady Gaga, Alejandro (Fernando, Roberto...). Meus pés já dançavam depois disso. Em seguida Katy Perry, Eminen feat. Rihanna. E assim vai. A música tem o poder de te levar para o mesmo lugar em que tu a escutaste numa viagem, por exemplo. Ano passado, quando estava em Lisboa, andando pelas ruas centrais, escutava num MP3 Hot Could, de Katy Perry. Toda vez que escuto essa música, me lembro dos passos que dava na praça do comércio. E agora, uma vez de volta a terra do nunca, digo-te, que todas as músicas que escutei no voo TAP PORTUGAL estão sendo tocadas em todas as rádios e quando as escuto, eu acabo me transportando para a viagem aérea.
Dei uma cochiladinha de leve. Não consigo dormir em aviões quando estou me dirigindo a meu destino; somente na volta, durmo e durmo, e quando acordo me atraco com o comissário, com o HOSPEDEIRO. (Cabe traduzir o intraduzível, que HOSPEDEIRO em Portugal é o comissário de bordo). Mas essa é uma história, uma das últimas, que relatarei desta viagem. Que bela prolepse! Que bela catáfora! Que bela sincope!
Após ter sido comido, ou melhor jantado, outras sete horas de viagem se alongaram. Mas digo que passou mui rápido. Mui rápido que pude ver minha amiga, a mais cândida de todas, a que estava ao lado da outra lindíssima, ir escovar os dentes duas vezes. Quando dava por mim, lá estava ela com o creme e a escova na mão rumo ao banheiro de avião.
Uma aventura se deu quando eu e a senhora T..., mas que satisfação, decidimos dar uma circuladinha nas pernas. Fomos ao encontro da professora e de duas colegas, a Selma e a Velma, dos Simpsons, pois formaram uma dupla de fumantes ativas na viagem. Elas dormiam, sonhando que tragavam um charuto cubano, quando foram acordadas por mim e pela senhora T... pois estávamos fazendo uma pesquisa de clima. Perguntamos se o VOO TAO PORTUGAL estava satisfatório para elas. Ainda sonolentas, com a sintonia em ritmo, responderam, demonstrando o máximo que a simpatia deveria demonstrar: “Eu pensei que já tínhamos chegado”, disse Selma. Eis a historieta que contarei. Agora não lembro-me dos fatos, desculpa-me a subjetividade, mas conterei a história crua. Sei que alguém acabou nos pedindo água, não me lembro quem. Prestativos, a senhora T... e eu fomos correndo até o fundo do avião para pedir dois copos de água. No trajeto nos deparamos com uma criatura que dormia toda coberta com a mantinha patrocinada por TAP PORTUGAL. Olhamos-nos e rimos. A aventura até o fundo do avião era muita. Mas cerca de um minuto depois chegamos até a hospedeira. Ela, com cara de poucos amigos, disse-nos que deveríamos sentar. A senhora T... pediu dois copos de água. A hospedeira os pegou e nos passou. Quando a mulher deu os copos à senhora T... uma terrível turbulência se iniciou e os começamos a dançar o rebolation, mas um rebolation TAP PORTUGAL, com copos TAP PORTUGAL, e águas TAP PORTUGAL, e uma turbulência TAP PORTUGAL. Olhei para uma televisão e ali mostrava a posição do avião em sua rota: tragédia, o avião estava bem no arquipélago de São Pedro e São Paulo. Mas levei na brincadeira, como tudo faço na vida, com a relação ao voo da Air France. Levei na brincadeira, pois estava me divertindo com aquela turbulência e de ver a senhora T... rebolando com dois copos de água na mão durante uma turbulência.
Ela me pedia ajuda. Mas eu não era nem louco de ajudá-la. Imaginei-me derrubando a água na criatura da manta TAP PORTUGAL. Nãaaaaaaao. Fiz-me de louco e fui no ritmo do Parangolé.
A água chegara ao destino sem que uma gota fosse desperdiçada pelas turbulências da vida.
Mais horas se passaram e o avião passava pela ilha de Lanzarote. Que saudade de ti, Saramago!
Outras horas depois o televisor indicava que estávamos próximos de Lisboa.
Era um inicio de manhã naquele continente idoso, um idoso que sorria com seu nascer do sol, início da vida naquele lado oriental do ocidente. Era o nascer da nossa viagem aquele favônio, o nascer da nossa vida, uma nova fase de descobertas. Aquele sol que se anunciava era o símbolo de todas as faces de um renascimento, renascimento daqueles viajantes que teriam epifânias, alomorfias, distrofias, momentos de fortes emoções, lágrimas, paixões, escândalos e, é claro, satisfações. Voltariam para casa sem acreditar no sonho, no sonho-felicidade, anestesiados dos momentos que viveriam.
O avião aterra.
Andamos de autocarro até a imigração.
Lá, as mesmas perguntas rotineiras, e um carimbo fraco, que mal se vê no passaporte.
Por ter sido o primeiro a passar pela imigração, fiquei esperando minhas amigas de aventuras lisboetas. Estas amigas seriam algumas, pois em duas horas um voo levaria três companheiras separadamente para Barcelona. A senhora T... e Felícia ficaram fazendo companhia uma a outra no aeroporto; outra companheira de viagem, a senhorita F..., recebeu uma amiga que morava na terrinha; outras três foram para Barcelona; e o resto correu para desbravar Lisboa. Tínhamos cinco horas. Corremos.
Quero salientar ao leitor esquecido a frase que minha mamãe-profética dissera em Porto Alegre, naquela cidade meridional do mundo terceiro: NÃO SAIAM DO AEROPORTO, PODEM PERDER O VOO”
Naquela corrida, ainda no aeroporto de Lisboa, que era mais aeroporto, procuramos o serviço de informações. Queria comprar o cartão VIVA!, para podermos passear nos autocarros, metros, eléctricos. O puto, como dizem em boa variação diatópica, explicou-nos que existia o cartão para um dia. Naquele cartão poderíamos utilizar em todos os transportes, excepto em metros. Tudo isso por € 3,50. Caímos de boca. Pegamos o primeiro aerobus.
Fomos passeando pelos pontos turísticos. Trafeguei novamente, de aerobus, na avenida da Liberdade, ponto lisboeta em que me perdi da outra vez em que ali estive. Naquele incidente, cigarros similares me foram indicados, indicados pelos traficantes dignos da da novela Passione. (Falando nisso, cadê o Danilo?, fecha parênteses). Descemos em frente ao Teatro Maria I. Subimos até o Castelo de São Jorge. Para chegar lá, subimos o bairro inteiro de bondinho. Adentramos no castelo. Estar ali novamente era a concretização da minha primeira viagem. Agora sim eu acredito em meus sonhos: um dia eu tinha passeado na Europa. Pois, quem vai a Europa uma vez, volta aqui para baixo e não acredita que lá esteve. Agora, que fui pela segunda vez, acredito e se acredito, não sofro. Depois do castelo de São Jorge, andando no bondinho da carreira 28, levei minhas companheiras de jornada até o monumento de Fernando Pessoa, na praça Camões. Depois fomos descendo uma rua, de cujo nome não lembro, mas lá estava Eça de Queirós abraçado a uma mulher nua. Bárbaro, nada como Eça de Queirós. Um escândalo na sociedade portuguesa. Nessa mesma rua, uma das integrantes quase morrera atropelada por um autocarro, que descia a rua uma velocidade que parecia de um filme com Keanu Reeves como o tira-herói. Mas todos foram salvos. Dirigimo-nos até a praça do comércio. Lá, depois de uma seção de fotos para a Moda Brasil (da novela TITITI), pegamos um bondinho moderno rumo à torre de Belém. Lá, como se fosse o parque da Redenção ou o Parcão aos domingos, estava apinhado de gente o lugar. Ficamos a caminhar pela beira do rio Tejo, observando o corcovado, a ponte 25 de abril, o padrão dos descobrimentos. Tudo um dejavu. Discorda-se de dejavu quando se refere a clima. Da outra vez, inverno; agora, forno. Que vontade eu tive de adentrar ao chafariz que fica em frente aos Mosteiros do Jerónimo, onde fica o túmulo de Luis de Camões, Vasco da Gama, Fernando Pessoa. Ao lado, na esquina, estava o glorioso, o fenomenal, o misterioso pasteizinho de Belém. Eu estava com fome, mas com aquele calor, que arrebatava a Lisboa nunca Dante caminhada naquela temperatura, fazia com que eu não tivesse a paciência divina para encarar uma fila de turistas que queriam a fórmula secreta do acepipe. Exaustos, de termos feito chover no nordeste, pegamos o primeiro autocarro em direção ao Cais Sodré. Ali embarcamos no autobus com destino ao aeroporto. Como eu queria ter conhecido o Parque das Nações! Mas deixa para a próxima.
Chegamos ao aeroporto de Lisboa e ficamos esperando por duas horas, até que o VOO TAP PORTUGAL nos levasse até o terceiro estouro da pipoca, Barcelona, onde esquentaríamos a panela para o quarto e derradeiro estouro, Valência, o destino de nosso congresso. Mal sabiam os aventureiros o que Valência preparava além do arroz, das laranjas e da paella original.
O VOO TAP Portugal descolou e deixou Lisboa lá em baixo, e eu lá em cima com uma alergia ao calor. Meus olhos choravam de tanto calor. Mal sabia eu, mas era a conjuntivite em ação. O voo durou uma hora e algumas pequenas frações de hora quando chegamos a Barcelona. Agora era aguardar mais um pouco, o voo da Ryanair, voo que daria para a história aos aventureiros os momentos mais intrigantes e misteriosos da viagem.
Mas isso se dará brevemente, creio que na semana que vem, quando contarei a vós, que me perseguem, a história do turbulento e sexual voo da Ryanair. Plauto daria muitas risadas com os quiproquós.
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