Certamente devo ter deixado o leitor que me persegue mais intrigado que nunca depois da prolepse que joguei no final do episódio anterior. Espero que tua ansiedade não tenha feito com que as substâncias da criatividade tivessem entrado em ação e inúmeras ideias mirabolantes passassem por tua cabeça. Mas não o culpo, leitor, pois, quando falamos sobre sexo e ainda mais quando falamos de sexo envolvendo um voo, e ainda por cima num continente que expressa um símbolo um tanto libertino, isso faz com que qualquer individuo com comportamento normal ou na média tivesse, pelo menos, curiosidade pela história. É por isso que a dúvida será decapitada nas linhas que se seguem. Ei-las.
Naquela noite de 05 de setembro os aventureiros do paraíso estavam prontos para voar de Barcelona para Valência. Ficaram algumas horas no aeroporto da cidade catalã. Sem sombra de erro, o voo saiu em seu horário. Lá estava eu com meu olho vermelho, pobrezinho, provocava coceiras de tanto calor que sofrerá naquele calor lisboeta. Sentei-me na janela, fechei os olhos e passei a me concentrar para que aquele problema acabasse. Então uma epifania aconteceu: uma ideia clareou em minha mente! Quando eu tomasse um banho com água abundante em meus olhos,o tormento chegaria ao fim na manhã seguinte.
Ao olhar para o lado, observei duas moças e uma senhora. Era nítido que uma delas estava com medo de avião, e a outra aparentemente cândida, para mostrar sensibilidade a amiga, deu-lhe as mãos. Uma terceira mulher olhava para elas com uma cara horrorizada. Para piorar o quadro a moça cândida, não a apavorada, pegou um objeto na bagagem de mão, uma mantinha rosa adornada de enfeites. Com aquele miniedredon a mulher cândida protegeu-as. A terceira mulher olhava apoplética às lésbicas que calçavam 34. Não obstante, além de se protegeram do frio com a mantinha rosa, voltaram a se darem as mãos. Meu Deus, meus ojos vermelhos de tão inchados não acreditavam na cena hilária que se mostrava naquele palco. Enquanto eu olhava para a terceira mulher, eu ia limpando meu globo ocular com lenços umedecidos. Essa mulher já até coçava seus olhos com tamanha cena.
Um instante depois, assim que o voo Ryanair já sobrevoava a Catalunha, pode-se ver a mulher, a terceira, perguntando a moça que agonizava de medo: “ Tu tens medo de avião” NOSSA, ERA EM PORTUGUÊS. A moça agonizante disse retirando os tampões do ouvido: “Oi, a senhora falou alguma coisa?” ... “ Sim, tenho muito medo de avião, poderia ser de trem a nossa viagem”. “Mas fique bem, não vai ser da nossa vez que uma tragédia ocorrerá”
Além dessas aventuras mais que imperfeitas testemunhadas por mim, no auge de uma conjuntivite, ainda dentro deste voo pude observar outra mais escandalosa. Porém, esta teria continuações mesmo depois da viagem de volta para casa.
Lá estava eu, na minha mais transoceânica coceira, quando o hospedeiro do voo passava com suas promoções. Em nossa viagem havia uma grande personalidade, cuja alcunha foi geral, e aqui não será diferente. Essa grande pessoa chamava-se Tia, a tia da Sobrinha. Ingênua, Tia aceitou uma taça de vinho do hospedeiro. Mal sabia ela que deveria pagar pela bebida. Em outro caso, creio que a Sobrinha, pedira uma Coca-Cola, teve que arcar com as consequências. Nos voos low cost tudo que se consome, se paga.
Falando em pagar o que se consome, uma de minhas amigas, interessou-se pelo hospedeiro. Ficaram a conversar com o gajo, que era português. E o hospedeiro, esperto que só ele, ia dando todo o tipo de atenção às brasileirinhas. Ele versava sobre as nordestinas. Para ele o Brasil varonil era apenas o nordeste. Ó paí, ó! Só porque o primo dele, Cabral, chegou na Bahia, isso não quer dizer que... ah, enfim. Palavras ao vento. Hospedeiro, vá ler Hans Staden. Mais adiante, no prosseguimento do caso, o hospedeiro veio todo bobo para cima desta amiga, que questionava o preço de algum produto.
— Isso custa-lhe três eurinhos.
Quando aquele gajo falou TRÊS EURINHOS, pensei. Esse homem gosta de bater numa panela (em Portugal que bate na panela é paneleiro, e paneleiro em Portugal é um homossexual), ele paneleiro gosta de um tupinambá. Esse hospedeiro é parasita. Temos aí o hospedeiro gay.
E ele ficava todo dengoso para cima de minha amiga. Pronto, eram melhores amigas agora. Há algo de podre no reino da Dinamarca. Como dizia meu amigo Hamlet: Ser ou não ser, eis a questão.
O voo chegara em Valência. Assim que uma fila foi se dirigindo para o fundo da aeronave, fui me dirigindo também. Na saída, enquanto o hospedeiro se despedia a cumprimentar a todos os passageiros, minha amiga preparava o bote: ela pegara o seu cartão de visitas e na saída entregou para o chefe de cozinha.
Tchau! Boa noite!
Ainda nas escadas da ave-pássara, disse para minha amiga que achava que aquele hospedeiro era gay. A amiga também achou. Mas vá saber, tudo é possível. Mal sabíamos que o hospedeiro gay entraria em contato já no dia seguinte.
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Os quatro bolsistas do congresso se dirigiram à linha do metro. Tínhamos que pagar a linha 3 em direção a Rafelbunyol e descer na estação Benimaclet. Na venda de passagens encontramos um homem totalmente perdido. Este portava uma bolsa, um óculos redondo (creio que ele era fã de Harry Potter) e fisicamente tinha um olhar perdido. Certamente era por isso que tinha esse olhar, pois estava perdido mesmo. Pedia ajuda para saber como chegar a uma instituição: El Colégio Mayor Galileu Galilei. Entrei em surto, pois o homem estava indo para o mesmo lugar que nós. Mas que língua ele falava?: não sabia castelhano, catalão, aragonês, leonês, basco, galego, langue d’oil, langue d’oc, rético, sardo. Ele falava alemão, só isso. E um inglês que a tia Beth, a Rainha, não aceitaria de bom grado.
Lá íamos nós, dentro do vagão do metro, do metro mais limpo onde já andei. Em primeiro lugar, Valência; em segundo, Madrid... As estações iam passando. Quando chegamos na parada Quart de Poblet, o homem perdido ia olhando para o mapa, para a bolsa dele, para os lados. Meu Deus, ele é um terrorrista do Osama. Ele vai nos matar. Quem ele vai matar primeiro? Veja a lista abaixo. Quem será a primeira vítima?
Passamos pelas estações Xàtiva, Alameda, Cólon, Facultats e enfim a Benimaclet. Nesta desembarcamos e pegamos conexão coma linha 4, o bondinho. Algumas estações depois estávamos na estação Tarongers, em frente ao Colégio Mayor Galileu Galilei. E nisso o homem vinha atrás de nós, sempre perdido, desamparado. De tantoque pensava naquele homem, me vi perdido. Não achava onde era a entrada da “república dos estudantes” típica da Europa. Quando ia pedir ajuda, uma estudante, moradora do colégio mayor, indicou-nos o caminho. Na recepção fomos muito bem atendidos. Ganhamos nossas chaves, porém não dividiria quando com nenhuma de minhas duas amigas, nem com a outra conhecida. Mas sim com alguém que nunca vira na vida. Quem era aquela criatura, como ele era. Recebi a chave do quarto: 158.
Lá estava eu indo para uma grande aventura, uma grande experiência de minha vida. Isso pode ser até piegas, até romântico, mas o fato de um brasileiro que vivia enfurnado em seu casulo, o seu quarto, com seus livros, sua literatura, suas músicas e seus sonhos sair de lá e se aventurar num quarto de uma república de estudantes, dividir o quarto com alguém que nunca na vida tinha visto antes é muita expectativa. Tanto para mim, quanto para ele que me esperava ansioso. Seja bem-vindo a realidade Alex, ela é melhor que os sonhos, ela é a realização dos sonhos. E para realizar esses sonhos, abri aquela porta azul e na porta, o número 158 desenhado em cinza. Era ali que conheceria um novo episódio na minha vida Amelie Poulain.
Como ele era? De onde vinha? Da Argentina, do Peru, da Colômbia (céus!)? Da Espanha mesmo? Não, impossível, as bolsas são destinadas a integrantes da comunidade europeia. Abri a porta. A porta rangeu. Uma escuridão no recinto. Um corredor. Acendi a luz. Larguei a porta. Um estrondo. E após o estrondo lá estava um rapaz deitado numa das camas.
Com licença leitor, vou dormir. Meia-noite e quarenta e quatro. Até mais. Depois conto o final. Au revoir.
Dois detalhes não mencionados:
ResponderExcluir1. Os lenços umedecidos curandeiros foram cedidos por tua amissísima Felícia.
2. A frase dita pela moça ao desembarcar e entregar o cartão foi:
"In case you need any translation work or any other kind of business..."
E pra encerrar...que saudade da Benimaclet!