quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

DISCURSO DO PROFESSOR PARANINFO AOS ALUNOS DA TURMA 83/2011


,uma vírgula, este pequeno símbolo de pontuação iniciou a nossa relação. Conforme disse o cineasta francês Jean-Luc Godard “a história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem”. É justamente inspirada nessa epigrafe que a metáfora da vida constituiu minha história com a turma 83, logo, a nossa história. Conhecemo-nos no meio da trajetória, mas, que pena, no final dela. Mas foi dessa forma, no meio do fim, que a vida combinou o nosso encontro. Nossa relação começou com a nebulosa sombra chamada orações subordinadas. Com a minha chegada, senti no olhar destes alunos que a sombra da gramática estava desaparecendo e uma luz de conhecimento, conhecimento este que tanto desejavam e que pude enxergar nos olhares que pediam: “Por favor, escuta-nos”. Foi um sonho que estava se realizando.
Clarice Lispector inicia o romance Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres da mesma forma como foi a nossa história, com uma vírgula. A sincronicidade dos fatos não é tão misteriosa. Observem novamente o título da obra Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Estes formandos, a cada aula de Língua Portuguesa, demonstravam a aprendizagem e o prazer de ter uma aula ministrada por mim. Não houve aula em que não era dito: “Sor, eu te amo”, ou “Sor, o senhor é o melhor professor que eu já tive”. Em nossas aulas, recheadas de aprendizagem e prazer, não discutíamos somente a Língua Portuguesa. Conversamos muito sobre Literatura e, quando conversamos sobre Literatura, os assuntos se multiplicam: falávamos sobre Psicanálise, amor, personalidade, viajávamos para outros continentes, onde conhecemos uma sala de aula de 8ª série em Angola, descobrimos culturas em Moçambique, velejamos pelas ruas do Afeganistão. Conhecemos Eugênio, Olívia, Rami, Tony, Amir, Hassan, Gregor, Mersault, Cândido, Eugênia, Naná, Claude, Jacques, Chaval, Etienne Lantier e outros tantos personagens, antes desconhecidos de vocês, que marcaram o ano. Com os autores, viajamos o mundo sem sair de casa. Erico Verissimo, Paulina Chiziane, Khaled Hosseini, Kafka, Zola, Camus. Viajamos o mundo. Alguns até pensavam que se tratava de aulas de Geografia, quando o professor de Português levava mapas para a sala de aula, ou mesmo de História, quando discutíamos os comportamentos políticos das personagens. Eis a sedução em dar aulas de Língua Portuguesa. Posso dizer que ministrar esta disciplina é dar aula sobre a arte de viver.
Viver, estes alunos sabem fazê-lo. Ainda hei de encontrar uma turma tão emotiva como esta. Não há nesta escola, certamente, turma tão emocionante quanto a 83. Estes formandos compõem uma seleta escolha divina de amor. Não houve dias em que não houve um sorriso, um abraço, um acalento. Para mim eles disseram: “Sor, me ajuda”. E ali estava eu, no meio do pátio ouvindo, agachado tocando o ombro de cada um deles. Vejo neles uma força indestrutível, uma força de campeões, alunos que batalham, alunos sinceros, alunos protagonistas de sua história. Em todos os capítulos houve uma grande emoção em que a turma 83 estava protagonizando.  Os integrantes são movidos pelo combustível humano chamado Paixão. Mergulham nas águas do agora, não deixam nada para depois. Amo, amo agora. Nossos encontros eram ricos, riquíssimos, pois, como dizia nosso conhecido amigo Voltaire “Devemos julgar um homem mais por suas perguntas do que por suas respostas”. Estes estudantes, que neste momento passam pela imensa ponte entre o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, não apenas responderam certeiramente os questionamentos do professor, mas também contribuíram com questões que mostravam a força de suas personalidades. Tanto que nesta turma há poetas, lutadores, dançarinas, sentinelas e deuses. Sim, há alunos deuses. Deus o livre!
Por isso digo, jamais permitam que diminuam o caráter de vocês. Quando alguém diminui-los, mostre para este alguém, em ação, em comportamento respeitável entre os homens, que vocês são capazes de ser, e isso sei que são, de provar a grandeza que há dentro de cada um.
Apego-me ao texto do autor norte-americano Walt Whitman para simbolizar o momento em que vivemos. O nome deste texto é “Oh Capitão! Meu Capitão!”. Imagino vocês a me dizer:
“Oh capitão! Meu capitão! Nossa viagem medonha terminou; o barco venceu todas as tormentas, o prêmio que perseguimos foi ganho; o porto está próximo, ouço os sinos, o povo todo exulta, enquanto seguem com o olhar a quilha firme, o barco raivoso e audaz:
O restante do poema conta a morte do capitão e seus marinheiros tentando reavivá-lo. O povo no porto aclama ansioso pela chegada triunfal. Os heróis haviam conseguido depois de uma dura viagem, uma viagem guiada, claro, pelo Capitão. Agora, como nos momentos imperfeitos, o sucesso não era integral. A felicidade ocorreu sem a vida do líder, que os guiou nas ondas.
Sim, meus alunos, é assim que me sinto a partir de agora. Uma parte de mim irá com vocês assim que vocês passarem pela imigração para o Ensino Médio. O carimbo selará nossa separação, logo nossa despedida. Resultamos de um trabalho que constituiu de força, de determinação, de união e de perseverança. Estendo minha mão uma última vez, pois o capitão se despede, sem jamais esquecê-los, pois esta tripulação viajou na mesma onda, a mesma onda que pulamos, quando corremos para oceano no Balneário. Fomos e estamos no topo da montanha. No ponto máximo. Cheios de medo da altura, naturalmente. Do alto da montanha enxergam o mar, verde, sereno, e lembrem que um dia estávamos lá em baixo, surfando na mesma onda, fazendo com que os todos estivessem em sintonia. Já que agora estão no topo, desafios condizentes com vossas habilidades serão atribuídos a vocês. Agora o desafio não é o mar. O desafio agora são os ventos. E sei que conseguirão vencê-los.
Assim termino meu discurso, salientando e retribuindo os vários “eu te amo” que recebi. Digo: eu vos amo, 83. Vesti a camisa desta turma e sempre vestirei enquanto formem homens de bem, de valor e de respeito. Uma das coisas que menos sei lidar é com a despedida. E como disse o escritor francês Alexandre Dumas: “Em amor, não há último adeus, senão aquele que se não diz.” Inspirado nesta fala, saliento que terminarei minhas palavras da mesma forma que comecei, pois nossa história, por mais que separados, não acaba aqui. Lembraremos de nosso encontro marcado pela vida, da aula em que todos choramos por não querer o rompimento e por sonhar com a união. Nossa história é um romance ou uma poesia que ficará em nossas memórias enquanto houver paixão, enquanto houver vida, enquanto houver a nossa onda. É por isso que não ponho um ponto final. TODOS, juntos, unidos no mesmo propósito, somos uma oração subordinada adjetiva explicativa, todos juntos, eu e vocês, juntos para sempre, entre vírgulas,


Prof. Alex Valério - 28/12/2011

domingo, 9 de setembro de 2012

MAIS FÁCIL JULGAR DO QUE TER QUE OLHAR PRAS PRÓPRIAS MENTIRAS

O que mais me irrita nos seres humanos é: quase todos adoram criticar, citar o que os outros devem melhorar, mas não observam, cegos, que as palavras que tanto apregoam são as mesmas - dificuldades - as quais devem atribuir a suas vidas.

Desde que nasci, sempre gostei de criticar as pessoas. Dizer o que elas deveriam fazer. Com o passar do tempo, fui percebendo que as pessoas não reconheciam o bem que fazia a elas. Claro! Não era o que elas desejavam. E outra! A forma como eu passava "a verdade" era a mais inadequada possível. Eu gritava, querendo que o mundo me ouvisse. A mudança de conduta chegou no dia em que percebi que a audição do outro não está no grito, mas sim no baixo som. Está na voz serena, quase na voz aveludada.

Uma vez aprendido a lição, parei (o que foi muito difícil) de tentar mudar a vida das pessoas. Dedico a ajudar apenas às pessoas que me pedem ajuda. Cansei de ser "desvalorizado" pelas pessoas que não me valorizaram. Mas também, caro leitor, como iam me valorizar, me respeitar se eu mesmo não fazia isso por mim.

Hoje, adulto, sou valorizado e respeitado pelas pessoas ao meu redor. Às vezes paro para pensar e agradecer a Deus por tanta sorte em minha vida. Mas não se trata de sorte, mas sim de respeito e valorização próprios. Antes as pessoas me criticavam e eu ficava quieto. E por ficar quieto, elas se davam o direto de criticarem mais e mais. Com o passar do tempo, percebi que deveria agir de outra forma. Deu-se da seguinte forma: li tantos livros, assisti a tantos filme, viajei para tantos lugares. Observei o comportamento humano e de tanto observar os demais passei a me observar também. Detectei o maior mal do ser humano: o egoísmo. Mas o egoísmo negativo, pois o egoísmo positivo é aquele que nos impulsona de tal forma que tudo o que adquirimos de certa forma acaba sendo das pessoas de nossa relação. O egoísmo, negativo, nos cega a ponto de não olharmos para nós, fugindo de quem somos, e de tanto fugir, acabamos encontrando nos outros nossos maiores vilões. O egoísmo acontece quando nos achamos o dono da verdade. Eu propriamente penso que eu seja o dono da verdade. Sou do tipo humano que fala as coisas e essas coisas acontecem. Na juventude adolescente, eu dizia tudo e tudo se concretizava. Mas ninguém acredita. Claro! Como iam acreditar em alguém mal formado emocionalmente, em alguém cujas emoções ainda estavam se desenvolvendo. Uma vez adulto e espiritualizado, constatei que não criticaria mais as pessoas, nem diria mais as minhas tais "verdades" (que eram e pelo visto sempre serão verdadeiras - o que me mostra uma pessoa coerente). Hoje (de certo modo) faço o mesmo. Procuro não me defender muito. Sei que a pessoa que me critica passa pelo mesmo mal, mas ela, cega, não vê, não quer enxergar. Está infeliz com ela própria. Está gritando para o mundo ouvir o quanto está insatisfeita com ela própria. Para mim, demoniacamente, este é o maior mal que eu pensar sobre a pessoa: "ELA SOFRE DO MESMO MAL DE QUE TANTO FALA PARA MIM". Maleficamente, me sinto menos agredido com isso. Eu procuro não criticar mais (e isso é tão difícil para uma pessoa crítica como eu), pois tudo o que penso do outro, eu procuro pensar o que daquilo está enraizado em mim. E procuro trabalhar.

O que importa é cada um cuidar da sua vida. Depois de tantas quedas, aprenderás com as dores. A vida contribui para todas as soluções. Mas as pessoas cegas não querem cheirar a flor na sua frente, terá que enxergá-la depois com os olhos da dor.

Portanto, não venha me dizer como devo me comportar se és tão imperfeito como eu, humano. Não dizes que sou covarde, se tens tanto medo para resolver teus problemas. Não me ponha para baixo, eu sei o que é estar lá, e sei que estás lá. Agradeço o convite! Não me diga mais nada. Não diga, leitor, mais nada para ninguém. Vá tratar de teus problemas. Para ajudar os outros é necessário estar bem. Para dar amor é necessário ter amor-próprio. Para dar uma moeda a alguém não é necessário ter uma moeda? Então cobre dos outros o que os outros têm. Mas não cobre dos outros o que gostarias de ter, leitor-crítico.

Para isso, delicia-te com essa canção: http://www.youtube.com/watch?v=C1Tnfbvllak

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O discurso da Onda!

Abaixo, discurso de formatura da turma 83 - em 2011 - turma da qual fui paraninfo.



''Boa noite, pais, professores e demais funcionários do colégio e especialmente aos formandos aqui presentes. 
É já estamos em férias, a saudade bate e sentimos falta de tudo, das risadas das bagunças e de tudo que vivemos ao longo desses 8 anos juntos. 


Adorávamos interromper as aulas com assuntos bestas que logo se tornavam serias discussões e nós proporcionavam ótimas risadas. A turma que ma
is aprontava, para nós é a melhor. Nunca esquecerei dos passeios com vocês e em especial o do Beto Carrero. É realmente a saudade vai ser imensa, até porque, grandes amigos não estarão aqui, ano que vem, amigos que nunca iremos esquecer, sentiremos muita a falta de vocês.

Fazer rodinhas de bate papo na sala, onde ficávamos cantando, conversando e as vezes até jogando era umas das melhores coisas. A alegria dessa escola são vocês, formandos, colegas, amigos, irmãos. Sinto falta das tardes maravilhosas que passamos juntos.
Por mais que na metade do ano estávamos todos loucos por férias, não podemos negar, daríamos tudo para viver esse ano outra vez. 
Pois sentimos falta de tudo e de todos. Pois é, e aquela aluna quietinha, comportada e que estuda com nós desda primeira série, que quando estamos loucos querendo saber o que irá cair na prova que será no próximo período, ela sempre sabe de tudo, né Alana¿ E o Dionata reclamando que só pegam no pé dele¿ haha

A amizade vale ouro e algumas muito mais do que isso. As Nathalias e o Matheus, Naquiele e Brena, Thabata e Vitória, Nathi, Daniele e Ariadne, Alana Nicole e Larissa, e nós dois é claro. São as provas que existe sim, amizade verdade. 



Realmente são vários momentos e amizades que ficaram marcados pra sempre. 
Poderíamos chegar aqui e falar tantas outras coisas sobre nossa turma, mas não, preferimos falar das amizades, essas sim vão ficar pra sempre na memória de cada um que teve a sorte de fazer parte da nossa turma. Mesmo os alunos que chegaram depois, o Leonardo a Vani, a Ana e Christian, muito obrigada por fazerem parte dessa turma.

A Frase do convite já diz por si própria, ‘’nós de a missão e realizaremos...’’ Sempre que era preciso estávamos unidos e quando ninguém mais acreditava chegávamos lá¿ E não conseguimos isso sozinhos, queríamos agradecer a todos os pais, por oportunizar a nós uma escola de qualidade, por quererem sempre o melhor pra nós, amamos vocês.

E como não falar dos professores ¿ Foram vários, até perdemos a conta. Foram grandes professores e amigos muitas vezes. Vocês lembram das aulas de natação¿ Nossa, tia Lú que saudades que temos da nossa infância com a senhora. 
Não tivemos a sorte de manter todos eles desde a 5ª série, mas todos serão lembrados pra sempre. Todos ficarão na história, entre eles, 2 grandes professores:

Professor Douglas, nosso homenageado, o único que ficou e aguentou a gente, é não sabemos como, desda 5ª série, viu a gente crescer e contribuiu muito em nossas vidas. Nós ensinou muito nesses 4 anos, nunca iremos esquecer do ‘’ Ó DO BOROGODÓ’’. Muito Obrigada por ser esse professor maravilhoso que você é.

Professor Alex, provou para nós em pouco tempo o grande professor e amigo que você é, conseguimos muito esse ano por conta de você. A 83 mudou, é mudou pra melhor e todos vemos isso. Vimos o quanto um professor tem poder sobre uma turma. Professores igual o senhor não, é fácil de se encontrar, ensinou para nós tanta coisas, com suas viagem e livros. Despertou em nós o desejo da leitura, contando as histórias dos livros como algo mágico algo além de simples palavras e parágrafos, um mundo da leitura que ainda não tínhamos o prazer de ter conhecido e o senhor trouxe até nós. E hoje sabemos muito bem com quem estamos falando, Alex Valério. Queríamos agradecer por sermos seus alunos. Muito Obrigada por tudo.

Não podemos esquecer de alguém que marcou muito nossas vidas e que infelizmente não ficou com nós até o fim do ano. Professora Caroline, você fez da matemática algo mais simples e conseguiu fazer com que a aula fosse mais divertida e também com que todos os preguiçosos estudassem.

Pessoas grandes são aquelas que lutam, por idéias e hoje nesta formatura vocês provam ser parte dessas pessoas.

É chegamos até aqui é porque nós apoiamos em gigantes. Muito obrigada a todos que nós ajudaram a chegar aqui.

Boa noite, um feliz ano novo e que no ano que vem mais sonhos se realizem. Boa noite e próspero ano novo para todos.''



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O DIA DA INDEPENDÊNCIA BRASILEIRA


Comparados aos demais países, somos ainda jovens, procurando o crescimento, a estabilidade, a cultura. Há 512 anos fomos descobertos. E conquistamos a independência há 190, naquele sete de setembro de 1822, quando, no mesmo ano, fora cantada a primeira versão do Hino que ecoaremos em uma só voz.
Parafraseando o poeta, as aves que aqui gorjeiam, gorjeiam mais belas, livres, iluminadas por raios vívidos. Sim, nossa terra tem palmeiras, onde canta o sábia. Nosso céu, que é de um azul límpido, tem mais estrelas. Nossas várzeas têm mais flores e o Brasil é uma grande flor, um florão da América. Nossos bosques têm mais vida. Nossas vidas, amores.
Buscamos, cordiais e pacíficos, o crescimento das 27 estrelas da bandeira que hastearemos; buscamos identidade, patriotismo, saber. Cultivamos o Brasil como a terra da natureza, do verde, do samba, do mar aquecido. O mar, como as pessoas, com quentes corações solidários; o samba, como as pessoas, felizes sorridentes; o verde, símbolo da esperança; a natureza, terra de bons frutos. Pero Vaz de Caminha narrou, lá na descoberta, na sua carta: “aqui nessa terra tudo se planta, nasce e cresce”. Plantemos então a coragem, a luta, a busca de um ideal, a busca de nossos sonhos, a busca de nossa realização. Busquemos tudo isso com verdade, com força, com emoção para que o Brasil tenha orgulho dos cidadãos e os cidadãos tenham orgulho de serem brasileiros.
Vê, Brasil. Não estamos fugindo à luta. Com livros na mão, procuramos o desenvolvimento. Somos teu brado retumbante, ostentando teu lábaro nesse dia de comemoração.
       E para terminar te digo emocionado: “Sou jovem como tu, Brasil. E como jovem, procuro no teu seio a liberdade!”

sábado, 18 de agosto de 2012

PENSA NO NECESSÁRIO, CARO HUMANO. SÊ TU E PARA DE MUDAR DE IDEIA.

Sou mudo. Sou mudança. Por ser mudo, controlo o mundo com minhas palavras. E por controlar o mundo quero mudar.

Tenho passado por inúmeras mutações no decorrer de minha vida e neste ano, tenho observado, e sentido, e como tenho sentido, que 2012 foi e está sendo o ano de maior mutação. Tudo se transformou, a morte bateu à porta, a distância esticou a corda da existência e ao mesmo tempo encurtou outras. A realidade agora é outra e me questiono sobre mim e sobre as pessoas a minha volta.

Desde criança me considerava o que hoje sei como um existencialista. Mal sabia que era um pensador, um filósofo como Sartre (que pretensão a minha). Passei minha jornada com a náusea e não sabia. O pior de tanta filosofia é perceber o quanto as pessoas não se davam e ainda não se dão conta do que fazem.

Quinze anos atrás, os jovens queriam realizar seus sonhos. Hoje também, mas o método é outro. A maioria deles não se preocupa com isso. Apenas sonha e vive (mas vive uma dor semi-anestesiada, uma dor paralisada). Os mais velhos cobram dos jovens. Os jovens, sobremaneira, cobram dos mais velhos. A diferença de gerações sempre será gritante, tanto quanto era em Ilíada, quando Heitor saiu para a grande e derradeira luta contra Aquiles, deixando seu pai perplexo. Perguntamo-nos: o que é o certo?

Sempre busquei uma análise impessoal do ser Humano. Na religião, na Literatura, na Sociedade, na História. Todos estamos em evolução, logo, imperfeitos. Adoramos criticar (e farei daqui a pouco).

Desde criança, continuando, eu era, quiça o único, que assumia com minhas palavras, com minhas combinações. Aprendi, ou nasci assim, que devemos ser leais com nossas palavras, com nossos compromissos. Sempre fui um maluco que questionava o porquê das pessoas mudarem de ideias a cada instante. Se marquei contigo naquela tarde, naquela tarde estarei lá. Se disse que te viria na Europa em 2024, lá estarei, conta com isso. Anormal? Na visão dos outros. E na minha também. Sinto-me um estranho no Brasil, na América Latina, na Europa. Sinto-me um estranho no mundo, cujos habitantes, por não saberem o que desejam (desde uma simples pasta de dente, ou até mesmo por viver um romance). Sou daqueles que entra numa loja sabendo o que comprar. Não sou muito de sofrer com a indecisão se prefiro uma calça ou um sapato adequados. Olhei, me apaixonei e comprei. Certa vez, na Europa, com um grupo de pessoas pouco conhecida, fiquei "fulo da vida" quando tínhamos combinado que ao chegar ao hotel, largaríamos as malas e passearíamos de barco pelo Sena. Assim que chegamos, uma pessoa disse que estava cansada. E as outras 15 (dentre elas eu) tivemos que ir a uma Pizza Hut ali perto. Enlouqueci (de maneira muito controlada). Pensei: "Estou em Paris e vou comer Pizza Hut? Isso eu como em Porto Alegre". Pedi licença e fui ao meu destino. Comi um crepe tipicamente francês, em Notre-Dame, e tomando uma coca-cola sai andando à beira do Sena imaginando uma vida francesa. Sou intenso, muito intenso. E por essa intensidade, sofro. Questiono os relacionamentos humanos tão deteriorados. 

Sou leal às minhas palavras. Elas são a minha força, o meu dom. Fico tão grato quando sou testemunha de um duradouro romance. Acredito, infelizmente, no finito. Tudo acaba, tudo é passageiro. Inclusive nossas ideias.Desejo pessoas decididas, apaixonadas, apaixonantes, intensas. 

Certa vez li num livro de Cury, que, quanto mais pensamos, mais sofremos. O pensar em excesso é uma doença. Devemos acalmar. Parar de pensar, pois o pensar é mudar de ideia (dentre elas coisas simples: como mudar de roupa, ou mudar o que combinamos dias atrás).

Se eu disse que iria a determinado evento, mas depois descubro que nesse evento haverá o expurgo da pseudo-intelectualidade do porto dos casais, mesmo assim, mesmo contra a minha vontade, lá estarei.

Sou leal, digo novamente, leal às minhas palavras. Se digo não, é não. Se digo que amo (não questione se é amor, pois se o disse é porque é). Se digo que estarei, lá estarei.

Desejaria pessoas mais leais às suas palavras. Pessoas mais leais a seus sentimentos. Pessoas mais respeitosas a suas crenças. Pessoas mais leais a elas próprias.

Sou professor. E digo que o sucesso de minhas empreitadas pedagógicas se deu devido ao cumprimento de minhas palavras. Digo que punirei. E puno. Digo que exaltarei. Exalto. Digo que não mais permitirei. Não permitirei. E digo que terão o que merecem. Terão. E digo principalmente que terão um amigo. E terão um amigo. Mais que isso, um companheiro. Um companheiro mudo, com sede de mudança.


                

domingo, 5 de agosto de 2012

Turma encantadora!

Isto ocorreu ontem. Estava aguardando o sinal das sereias tocar para que eu pudesse em vida dar mais uma aula para a turma 73. Quero prestar uma homenagem à essa turma. Lembro quando nos vimos pela primeira vez. Foi há um ano, quando a antiga professora ficara doente e fui convidado para dar uma aula para eles. Era a movimentada e turbulenta 63. Cheguei para dar a aula e, ao iniciar o conteúdo, passei a contar uma história criada por Edgar Allan Poe, O Gato Preto. Eles ficaram congelados ouvindo, inclusive meus batimentos cardíacos. E ali disseram: "Queremos que seja nosso professor". Dois meses depois, a professora que tinha ficado doente naquele dia anuncia que fora classificada no concurso da prefeitura, onde passaria a lecionar; logo, deixaria a escola. Fui convidado a assumir as turmas da professora. Conforme disse, a turma era muito movimentada e turbulenta. Todos gritavam, riam sem motivo que valesse, tentavam atormentar a vida do professor. E eu, Alex Valério, "toquei o terror" até que eles entendessem quem era a autoridade na sala de aula. Lembro do dia que dei o maior sermão, já que vinte alunos não leram o livro recomendado. Briguei tanto naquele dia que, assim que soou o sinal para a troca de período, eles permaneceram sentados. No último mês de aula, eles passaram a mostrar a que vieram: a movimentação e a turbulência passaram a ser vistas por mim como criatividade. Os sorrisos vindo deles agora eram com brilho e o olhar vinha cheio de vibração. Elogiei-os. E eles disseram quase em coro: "Pelo menos um professor nos elogiou". O ano letivo acabou cheio de lágrimas ansiosas para passar na disciplina. Dois meses depois, de 63 para 73, algo havia mudado. Eles passaram a usar a criatividade para a produção do conhecimento. Passaram a disputar entre si quem mais acertava as respostas da disciplina. E meus olhos brilhando. A grande revelação se deu no dia em que anunciei o primeiro trabalho do ano: eles tinham que trazer, divididos em grupos, o retrato dos autores que trabalharíamos no decorrer do ano. Anunciei cheio de receio, já que eu sabia que o que menos eles tinham interesse eram na leitura, logo na Literatura. Eu informei que levaria papel-cartaz para que eles pudessem colar os retratos. Um deles disse que poderia pedir para o pai fazer dez porta-retratos. De todas as turmas que leciono, a única que usou a criatividade de modo mais acentuado foi a 73. Depois nas avaliações, encantaram-me com o engajamento e com os resultados. Na sala de aula, passaram a conversar sobre a obra de Voltaire. Quando que eu tinha imaginado que alunos de 12 e 13 anos estariam conversando sobre Cunegunda, Cândido e Pangloss? E ainda os alunos daquela 63 que não lia nada? Quando que Voltaire, sepultado no Panteão em Paris, mexendo-se, pensaria que na cidade da natureza exuberante, Viamão, pré-adolescentes leriam sua obra iluminista? Nessa mesma linha de surpresas, pedi para eles conjugarem os verbos no futuro do presente e do pretérito usando os pronomes oblíquos no modo mesoclítico, conforme a regra. Quase que em coro pediam para que eu desse mais verbos. Lanço desafios com prêmios. Eles enlouquecem na sala de aula. Mas também o que me motivou a fazer essa homenagem foi o que eles fizeram de novo. O sinal soou e os levei para a sala de multimídia, onde assistiríamos a dois documentários: um sobre Zeus e outro sobre Hades. Solicitei que eles anotassem tudo o que achavam importante para que pudéssemos discutir mais tarde. Soltei o play. Quinze minutos depois, observei-os. Anotavam tudo o que era dito. Quando o episódio sobre Zeus terminou, elogiei o comportamento maduro. Disse para eles que tiveram uma postura de alunos de faculdade. Disseram-me que escreveram duas páginas e meia de resumo. Tenho muito orgulho deles. Em seguida, iniciamos o documentário sobre o deus dos infernos, na mitologia. Olhavam interessados.

Parabéns pela energia! Pelo alto-astral! Pela dedicação!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Se o Senhor Grandet fosse à Argentina, enlouqueceria! Mas eu não, apaixonar-me-ia!


Lá estava eu mais uma vez decidido a fazer uma viagem. Já que as férias de julho estavam chegando, fiquei a pensar com minha dupla de canetas Crown: para onde vou? Mais que numa riscada da tinta, entrei em contato com minha superamiga Thais Deamici, uma brasileira-portenha, que há muito aguardava minha visita.

As passagens aéreas para Buenos Aires estavam pela hora da morte. Claro! Comprar a ticket um mês antes da viagem... poderia esperar por quê? E havia um outro agravante que mais me chocava. Eu teria que praticamente fazer uma escala em Pequim, cruzar toda a muralha da China, chegar na Mongólia, para enfim chegar ao suntuoso Retiro portenho. Jamais, na minha leiga vida, farei novamente uma escala em Guarulhos. Só de lembrar estou indo à farmácia comprar uma dose de Plasil.

Quando me vi estava dentro de um ônibus. Indo para Baires! Sim, caros leitores. Para chegar à Europa leva-se onze horas, mas para chegar à terra de Evita, de ônibus, partindo de Porto Alegre, leva suas auroras dezoito horas.

Como se tratou de uma viagem noturna, não senti o tempo passar. Fui me distraindo com o malefício do facebook, dando umas twitadas e, claro, lendo um livro (cujas páginas foram devoradas ao número de cem). Fabuloso!

Doze horas depois deparei-me com o restaurante argentino, de beira de autopista, El Tungo, ou qualquer outro nome. Fiquei mais passado que uma parrilla do Palermo quando meus olhos e meu bolso descobriu o preço de um café. Com o Eno na mão, digito estas palavras que só de lembrar me causa um refluxo gastro-esofágico: O CAFÉ CUSTOU... CAROS LEITORES... SOMENTE O CAFÉ... UMA ÁGUA SUJA DE BEIRA DE AUTOPISTA A QUANTIA BILIONÁRIA DE 14 PESOS. Com 14 reais eu faço a festa no café da livraria Cultura e ainda compro um livro de bolso de troco.

Assim que cheguei a Buenos Aires, na Rodoviária do Retiro, corri para a estação mais próxima do Subte. Entrei e pedi na boleteria: "Un Viaje". Paguei os dois pesos e cinquenta (o que achei caro, pois  quatro anos atrás, a viagem custava um peso e dez), cruzei a roleta e ingressei no comboio.

Depois de algumas estações pela linha A, fiz correspondência com a linha D, cuja linha trafegava rumo à zona do Palermo. Na estação Plaza Itália, desci. Deixei as malas em casa de minha amiga e fui para o centro, onde almocei num Mc Donalds. Paguei 40 pesos por um sanduíche. É assim que estavam os preços na Argentina, todos los ojos de la cara. Flanando pela Calle Florida, a Andradas dos porto-alegrenses, percebi que não era somente no gênero alimentício que tudo estava pela hora de la muerte. Por Martin Fierro! Fico a espirar, sim, espiar pelas vitrines o preço dos belos casacos de inverno. Como riem os castelhanos: jajajajajajajajajaja. O casaco custava o mesmo preço que uma passagem para a Colômbia: 1400 Pesos. Em seguida, depois de andar pela Plaza de Mayo, Corrientes, Córdoba, Florida, decidi ir para casa. Passei em frente à Catedral Metropolitana e desci aos subsolos para pegar o metrô e voltar para casa. 

Lá fiquei a esperar minha amiga, que ainda não chegara do trabalho. Quando ela chegou, pus-me a espiar na porta e apertamo-nos num suntuoso e opulento abraço. Contamos as novidades e corremos a bailar pelas redondezas da Plaza Serrano, no Palermo. O clima era um misto de Padre Chagas (de Porto Alegre), Saint Germain-des-Près, Quartier Latin e Piccadilly Circus. Sentamo-nos e pedimos uma pizza e um vinho. Depois de duas taças, a tontura se abateu sobre mim e as besteiras passaram a rolar soltas por minha glote.

Nem vou falar quanto nos custou o jantar para que não fiquem pensando que sou um avarento. Longe disso, dinheiro na minha mão é um vendaval. Mas na Argentina foi um tsunami.

Thais e eu passeamos pela Floralis, pela Recoleta. Depois paramos para um café na livraria El Ateneo, um portentoso teatro que fora transformado em livraria. Ficamos a bater um bom papo e a saborear um dos melhores cafés intelectuais bebericados por mim.

Depois de comprar a obra Que el mundo me conozca, de Alfred Hayes, saímos rumo ao supermercado mais próximo, pois o Strogonoff de Alex Valéry atacaria por terras portenhas. Compramos os ingredientes e saboreamos em casa o melhor de todos os Strogonoffs que já preparei. EL MEJOR!

No dia seguinte, fomos aos Bosques de Palermo, ao Puerto Madero, a San Telmo. Ali entramos no El Continental para saborearmos algumas empanadas. Depois me despedi da viagem a Buenos Aires com uma passadinha no Obelisco.

Fora uma das viagens mais calmas que fiz em minha vida. A companhia de minha amiga Thais Deamici fora cálida e ébria, nada lívida. Pude descansar com o nada plúmbeo céu de Baires, com as belas pessoas e pessoas belas. Ver pessoas do mundo inteiro por ali, inclusive um ingênuo rapaz de pele alva e rosto mais rosa que as rosas da Recoleta que corria saltitante pela Plaza de Mayo a abanar para os amigos. Tão deslumbrado que estava quase caiu dentro do chafariz. Ficamos a prestar atenção nele (visto que trata-se de uma típica personagem de minhas ficções). Mais parecia um extravagante polonês. O destino quis que ele e seus amigos cruzassem nossos caminhos por aquela praça. Assim pudemos observá-los. Falavam francês. Mon Dieu! Vivre la France!  Marcou-me também essa viagem o labrador que ficou a me fitar, e eu a fitá-lo. E de tanta fita ele quase pulou em cima de mim. E os peruanos dançando suas danças típicas até o chão? Mais do que nunca foi uma viagem de observação, de encantamento, de sentir o cheiro e tentar traduzir o que estava querendo ser dito.

Buenos Aires foi bela e sempre será minha querida cidade do coração. Foi, para mim, a porta para o mundo. Depois dela, como no livro que minha amiga comprara, o mundo me conheceu e eu a ele. Que minha ida a Baires tenha me dado mais força para conhecer e cruzar todas as fronteiras, seja as do pensamento, do sentimento ou mesmo as das nações.

terça-feira, 24 de julho de 2012

TUDO O QUE EU QUERIA ERA CHEGAR A VIAMÃO.

Naquela cinzenta manhã cujo crepúsculo não havia batido à porta da visita, acordei. Sobressaltado, como sempre, como um mágico ou como um ilusionista, atraí com o poder da mente o jeans que estava no guarda-roupa. O perfume aspergiu-se sozinho, os dentes escovaram-se, o cabelo autoalinhou. As pernas, como o The Flash (com duração de poucos segundos) durou até a chegada à parada DE ÔNIBUS. Creio que, aqui, já devo ter declarado minha repulsa à vida absurda das pessoas paradas num lugar em que o ônibus deveriam parar. Porém, como parece a vida a nós, que evoluímos exponencialmente como num cálculo de PA e PG, chegava faceiro à tal parada de pessoas que esperam o coletivo, quando, a 200m, a placa MONTE ALEGRE passava alegremente fora de seu horário. Pensei:"Acabou de passar o ônibus que me deixa no trabalho 5 minutos antes do início das aulas".

Fui atrás de um táxi. Assim que ingressei num deles, o motorista estava dormindo e teve que ser acionado por seu colega, um homem de cabelos desgrenhados, compridos e mal pintados com a loção Grecin 2000.

Quando eu disse para ele (o motorista sonolento), com toda a educação inglesa: "Por gentileza, na parada 32 em Viamão", ele, meio que ainda agindo pelo impulso, teclou o taxímetro e começamos a viajar. Quando a sinaleira fechou, como que uma luz vermelha em sua mente, ele sussurra desligando o taxímetro: "Pra ti eu faço por sessenta reais". E eu, com cara de brasileiro cordial-pacífico-atlântico-índico-passivo, disse: "QUÊ???? Eu pago pelo mesmo trajeto vinte reais. Por que me cobras sessenta reais?" O pusilânime olhou-me pelo retrovisor e anunciou: "Ora, esse é o preço". E eu, como um professor com a pasta de ocorrência na mão, disse: "Então me leva até onde eu quero e torna a ligar o taxímetro pra ver se dá sessenta reais." "É outra cidade, meu caro, é outra tabela". Abri a porta do carro e lhe desejei boa noite.


Corri a próxima estação de ônibus. Lá vinha mais um Viamão. Esperava sentar na janela. Como um francês (indo para a terra da natureza exuberante), ataquei o coletivo.
  
O bicho, fora do comum, foi vagarosamente. Depois de quinze minutos (já um minuto atrasado para a minha aula) desci na parada numérica de Viamão. Atravessei a RS-040. Imediatamente surgiu um ônibus chamado APARECIDA-SÃO TOMÉ (ou algo parecido com isso). Embarquei sem titubear. Perguntei ao cobrador se aquele transporte passava na escola onde trabalhava. O trabalhador disse que aquele ônibus faria toda a volta no bairro para depois passar lá. SOCOOOOOOORROOOOOOOOOOOOOO! DESCE!

Liguei para a escola para informar que estava chegando, que eu já estava na avenida, porém que a pé levaria uns quinze minutos.

Fui andando. E duas paradas depois surge (novamente surge) um ônibus. IGUATEMI-SANTA ISABEL. E lá fui eu.

Mal consegui passar na roleta quando o ônibus já passava pela parada onde deveria desembarcar. Puxei a campainha como um invasor visigodo, passei o cartão com o cobrador e pedi para descer pela mesma porta de embarque (visto que o carro estava lotado).

...

Entrei esbaforido na sala de aula depois de subir quatro lances de dois em dois degraus.

Uma aluna chegou depois de mim e eu, sarcástico, disse a ela: "COMO OUSASTE CHEGAR ATRASADA".

E tudo isso aconteceu em trinta minutos de minha longa vida, cujo único objetivo, naquele tempo dos ponteiros medianos do relógio, era chegar a doce e fervorosa Viamão, a cidade em que tudo acontece!

sábado, 23 de junho de 2012

Palavras de saudade do professor

Agora há pouco, na rede social facebook, uma ex-aluna, que hoje está em outra escola e cursando o Ensino Médio, acabou de publicar uma foto do dia de colação de grau. Junto da fotografia estava um pequeno texto que expressarei aqui:  

"
Não há como descrever ... Meu professor , meu amigo , meu conselheiro . Eu não estaria onde estou hoje se não fosse por ti , obrigada por tudo . O meu melhor professor . Tudo o que aprendi contigo , jamais esquecerei . s2
".

Professor, homem, amigo, pessoa apaixonada e sensível que sou, é claro que as lágrimas brotaram e uma nuvem de lembranças, recentemente vividas bateram a minha porta.

Os alunos, que passaram por mim, e hoje estão com num nível maior, sempre me dizem o quanto sentem a minha falta. Cabe sempre a mim abraçá-los e dizer o quanto também foram especiais em minha jornada, mas que o destino quis que tivéssemos apenas aquele período de troca de experiências. Tudo dói muito quando falo para eles, visto que devem aceitar o processo evolutivo. Mas hoje, após ler esse texto de minha ALUNA, já que ex nunca será, nem os outros, devo dizer a todos o quanto a saudade bate. Vejo-os diariamente indo para o outro lado e a me olhar com um certo pesar: "Como eu gostaria de estar lá, ou mesmo que ele estivesse aqui". O momento passou, a vida virou e a realidade agora é essa. Algo temos que aprender juntos com essa separação. Mas a lembrança que ficou foi muito boa e intensa. Sempre busquei fazer com que as pessoas permanecessem em minha vida. Jamais consegui. Nesse quesito a dor parece menor. Mas os jovens ainda estão a aprender o quanto é complicado se separar de alguém, ainda mais quando esse alguém está sempre por perto, mandando energias boas e de sucesso para todos.

A separação é física, mas o que nos une é o companheirismo, o espírito de união, a amizade e a parceria, tanto que no dia de meu aniversário, uma turma, se bem me lembro quase inteira, foi até a sala dos professores homenagear o antigo (e sempre) professor de Português.

Quero dizer com este post que tudo o que vivi em 2011 foi muito intenso, mas tão intenso que pareceu mágico. Tenho saudades daquele tempo em que as coisas pareciam estar no devido lugar. Na verdade, as coisas estão no seu devido lugar, pois é assim que devemos aceitar. Mas no campo pessoal, a vida também mudou. E, quando digo que as coisas eram boas é porque eram boas mesmo. Pessoalmente, o ano 2012 está sendo um grande teste de evolução para todas as pessoas com quem me relaciono (e claro para mim). O mundo não acabará, é claro, jamais acreditei nisso. Sejamos positivos, atraindo a alegria, o altoastral, a garra necessários para ultrapassarmos esses  desafios evolutivos. Aprendi muito com os amigos (todos) do ano passado. Continuo a aprender muito com os amigos (todos) de 2012.

Obrigado pelas saudades, pelo reconhecimento, pelos sorrisos e acima de tudo pela honestidade em todos os momentos. Não há duvida de que serão grandes pessoas na sociedade.

Era isso. Fomos felizes e sabíamos disso.

Os que não foram, que pena, não aproveitaram!!!!!!!!!!!!!

Eu também faço literatura

Depois de criar uma das personagens mais deslumbrantes e deslumbradas da minha literatura, uma outra, que há anos trafega por minha mente bilionária, voltou a bater à minha soleira.

Como disse no post anterior, eu contara a meus alunos as aventuras de algumas personagens de um romance escrito por mim. Neste obra (em letra minúscula ainda) há a heroica-vilã de nossas vidas Laurinha Fontana, muito conhecida de meus amigos intelectualizados. Trata-se de uma socialite maluca de amarrar em poste. Tão maluca quanto seu criador. Era uma obcecada pelo filho, por florais de bach e por echarpes. A tira-colo, tinha seu secretário exclusivo, uma espécie de Sancho Pança, que a acompanhava na doidivana aventura rumo à família perfeita.

Meus amigos vibram e gargalham com as loucuras de Laurinha Fontana. Os motivos para isso somente eles sabem, pois aqui jamais contarei. A menos que eu publique esta obra.

Nessa mesma linha de personagens, que infelizmente não me abandonam, estou a dar vida a mais uma louca para o hall da literatura de gaveta: Emilinha Dummont.

O leitor deve notar a sintonia dos nomes e concluir a falta de criatividade do escritor. Isso é mais forte que eu. Imagino uma senhora de cabelos desgrenhados, totalmente desequilibrada e com um humor negro-depressivo que muito nos divertiria. Emilinha, a coitadinha. Emilinha, a bonequinha. Emilinha diferente de Laurinha.

Laurinha queria o filho somente para ela. Emilinha nem filhos têm. Na verdade os pariu, mas os pariu para a vida (diferentemente da outra). Os filhos dela estão a viver na Europa felizes da vida por não ter a mãe por perto. O que Emilinha mais deseja, então? Eu sei, mas ainda não revelarei. É muito confusa a mente criadora de um deus-das-palavras. Personagens nascem de nossas mentes esquizofrênicas e num instante mudam seus destinos, destinos estes não pensados por nós.

Jamais me esquecerei do dia em que Lúcio Fontana, filho de Laurinha, saiu de casa para ir trabalhar e na cena seguinte estava no aeroporto comprando um ticket para Buenos Aires, onde viveu, junto aos protagonistas, momentos que não tinham sido pensados na sinopse. O mesmo acontecera com Raquel que morreria no capítulo 15 do mesmo romance. Os leitores-amigos leram as primeiras páginas e ficaram muito intrigados com a trama da personagem, que na minha mente era a mais simples de todas. Quando disse para eles que Raquel morreria nos próximos episódios, o semblante de chateação afundou-lhes a emocional de modo coletivo. Mais que rapidamente tive que mudar o rumo da personagem. Ela desaparecera, sequestrada, jogada num helicóptero. Cinquenta capítulos depois, reaparecera andando, misteriosamente, pelas ruas de Buenos Aires, onde o destino colocou o filho de Laurinha a frente do dela. Isso fez com que Raquel voltasse com tudo para a trama, o que deixara os leitores surpreendidos e apegados mais ainda ao enredo. Nada disso fora previsto quando criei as histórias. Buenos Aires não estava nos meus planos. Quando me vi, de olhos fechados, sete personagens foram teletransportados para lá.

Minha vida também é assim: cheia de destinos, teletransportes, encontros com pessoas e subencontros. Uma loucura do cotidiano que, para as pessoas a quem conto, ficam boquiabertas depois de um Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! deve ser por isso que minhas histórias, replicadas em páginas do word, sejam tão malucas quanto as do autor. Isso explica a presença de socialites malucas, intelectuais, pseudo-intelectuais, mocinhos patéticos, personagens cuja vitória seja uma questão de honra, mas que fracassos não sejam motivos de desistir. Crio personas cheias de garra, deteminação e teimosia. Personagens sonhadoras que choram e riem do drama que vivenciam. Crio uma especialidade: vilões bonzinhos e  bonzinhos vilões. Tudo é maravilhoso e possível na literatura. E isso que nos reconforta.

Que venha a primeira de uma lista: Emilinha Dummont.

sábado, 9 de junho de 2012

A EMOÇÃO DOS LIVROS

Nesta semana ocorreu um fato inusitado e permitido por mim. Sim, eu me deixei permitir. Como numa força ciclópica, coloquei minha cara ao tapa e contei a duas turmas o romance mais valioso que escrevi. Entrei numa turma de 7ª série e comecei a explicar a diferença entre autor e narrador. Salientei ainda exemplos de clássicos da literatura, como Machado de Assis em Dom Casmurro (o que eles amaram - esperam que acabem por gostar também da futura leitura). Em seguida, eu disse aos 40 GÊNIOS INDOMÁVEIS: "Agora vou lhes contar um exemplo de narrador em terceira pessoa". "De quê autor, sor?" perguntou um aluno. E eu respondi (morrendo de medo): "Um obra escrita por mim". Fechei os olhos para esperar o desprezo deles. Mas não. Vibraram muito! Motivado passei a contar os primeiros detalhes da história. Como há muitos personagens e tramas paralelas, a princípio ficaram muito confusos, mas com o passar da narração, foram fazendo os links e o espanto no rosto de cada um deixava-me arrepiado. Dos quarenta alunos, trinta e oito olhavam sorrindo querendo saber uma nova surpresa. Questionavam-me mais e mais. Queriam descobrir os segredos da história, da vida das personagens, se era a minha vida a do protagonista (visto que eles encontraram algumas coincidências que eu mesmo encontrara anos depois de ter escrito). Foi muito bom para mim, um escritor de gaveta ver seus alunos batendo os livros na mesa e gritando: "CONTA. CONTA. CONTA". Arrepiava-me mais e mais. E ainda tinha que continuar o conteúdo daquele dia. Acalmá-los não seria uma tarefa fácil, já que eles são os meus gênios indomáveis (turma por que tanto aprendi a ter orgulho). Tentando ressaltar os outros tipos de narrador, eles não permitiam que eu avançasse, pois queriam, como gladiadores, saber o desfecho e o título da obra que eu contei para eles. A quebra de expectativa maior não foi não ter contado como acabara a história, mas sim do livro ainda não ter sido publicado, o que para eles era o fim de suas esperanças. Sai daquela sala com algo diferente, com um projeto para publicar meus livros, meus escritos, minhas palavras que de vez em quando jogo ao vento para preencher o tempo seco de alguém. Na tarde do mesmo dia, uma trama absurda, bem maluca passou pela minha cabeça e seria uma boa ideia para um livro infanto-juvenil. Com certeza, por causa das histórias de Álvaro, Raquel, Maira, Lúcio, Laurinha Fontana e Moldávia, uma força, uma coragem dominadora me deixou destemido para que os críticos literários possam me devorar e dizer para o mundo: "Péssimo autor". Sim, caro leitor, será que serei um  Vargas Llhosa, ou um Saramago, que ganharam os louros das letras ainda em vida? Na minha baixaestima autoral, eu desperdiçado digo que não. Mas vamos lá. Jogar-me-ei aos corvos, aos abutres, para que depois, como um condor, voar pela América Latina e pela Europa num sonho de uma noite de inverno. "Vejo um talento desperdiçado", disse um aluno de 8ª serie. Para mim, os jovens sempre têm a razão. Por mais que não pareça.

domingo, 3 de junho de 2012

Pretérito menos que perfeito, Presente e Futuro do subjuntivo(indicativo)

Algo toca o meu teto e por isso tenho a necessidade de escrever. A casa, misteriosamente em silêncio, grita para mim: "Escreve, anda, escreve, seu imprestável". Mas escrever o quê? - perguntou eu a casa. Ela, mais do que acolhedora, uma pensante, diz: "Porque tua vida é escrever e será por um bom tempo". Pasmo, desco as escadas estreitas, de degraus diminutivos, e paro na cozinha. Silêncio nebuloso. Nada a contar. Na sala, um vulto quieto, sentado à cadeira. Volto à minha amiga cama e a casa, que choram nela, me diz: "Então, vais escrever o quê?". Tu sabes que eu tento, casa. Tenho buscado personagens, mas eles não vêm. Tenho buscado enredo, o que não tenho dificuldade nenhuma, visto que histórias é o que mais tenho. Não porque são minhas, mas sim as que poderiam ser. Argumentos é o que mais tenho. Opa! Desculpa casa, utilizei da repetição para dizer dois argumentos. Opa! Repeti a palavra argumento! Deixa eu parar, respirar fundo e não ouvir nada. Pronto parei. Depois de alguns segundos de silêncio, silêncio dos teclados vibrantes, voltei a ouvir o chorar do meu teto. Meu teto? Não seria o teu teto, casa? Desculpa-me, casa. Tu, como uma personagens personificada nessa miscelênia de palavras incongruentes e oblíquas, deves ter uma digna letra maiúscula: Casa. Isso Casa, ordena-me, manda-me escrever mais e mais. Força-me a digitar e escrever minhas besteiras, meus dramas de rimas pobres, minhas inversões assindéticas, minhas palavras sem nome. Quero escrever para Ti, que me deixa com sono, que me põe em preguiça. Nada fiz hoje, fiquei apenas a te contemplar. Para quê? Para esperar o dia passar. E para que escrevo agora? Para esperar a noite acabar e observar o não-brilho das estrelas. Não perca as esperanças em mim Casa, dita a ordem. "Progrida, menino" E eu: "Não sou mais um menino" E ela:"És sim" "Então argumente" "Por que ainda buscas o sonho de menino?" "Por que tenho medo" "Isso é afirmação?" "Não, uma pergunta" "E por que não botaste porto de interrogação se era uma pergunta?" "porque o porque está separado" "Não estraga a conversa, menino" "Lá vem Tu de novo com essa história de menino" "E por acaso não te convenceste de que és" "Eu sei que sou um menino" "Teu orgulho não permite que tu crescas" "Meu orgulho?" "Sim, tu vaidade não permite que te assumas como um menino" "Mas eu me assumi" "Depois de eu argumentar, menino" "está bem, o que queres agora" "Que deixes de ser menino" "Difícil" "Eu sei o quanto é difícil crescer. Quando nasci eu era uma casa pequena, praticamente uma garagem, num fundo de quintal. Hoje sou essa casa frondosa que te protege. Tive que crescer para te abrigar" "Eu sei" "E quando tu vais crescer" "Já é hora?" "Tu sabes que sim" "Eu sei" "De novo eu sei" "Isso foi uma pergunta?" "Não uma afirmação. Não viste o ponto final?" "Vi. Foi eu quem escreveu" "Então! Não me enrola" Não enrola o quê?" "Não enrola para crescer. Tu, meu menino, és uma árvore frondosa, difícil de cair. Não tenha medo. Progrida. Produze galhos belos" "Galhos? Minha árvore não se perpetuará" "Vai sim, meu menino, não da maneira natural, mas vai se perpetuar, tu sabes" "Não sei" "Sabe sim, porque tu já imaginas" "Imagino e penso que é imaginação" "Sim, se que és fértil nesse campo, mas tuas imaginações muitas delas são verdadeiras" "Mas as verdadeiras que eu duvido serem verdades" "Quando duvidas, duvidas de ti" "Não, duvido das verdades" "Mas as verdades imaginadas não vieram de ti?" "Sim, vieram" "Então! Então é porque duvidas de ti" "..." "Ficaste sem palavras, meu menino" "Não" "Como não? Mais uma vez a vaidade te pegando na carne?" "É difícil" "Que isso? Nunca falaste tanto em dificuldade. Nada foi fácil para ti, sei bem, mas nunca reclamaste da falta de facilidade, muito contrário, olhaste para onde ela estava e correste a favor" "Sim" "Sim o quê?" "Corri atrás" "Então não reclamas" "Mas não estou reclamando" "Então o que é difícil?" "Nada. Difícil é a minha antítese. Difícil é a minha verdade" "Tu és o dono dela, menino" "Por que eu tenho que ser o dono da verdade?" "Porque tu sempre quiseste ser o dono." "Sim" "Oh, alguém assumindo" "Mas sempre fui assim mesmo" "Hum, que maravilha" "Já assumi há muito tempo..." "Ser o dono da verdade" "Sim" "Então te apega a essa verdade e vai escrever um romance. Tu vais ser um cometa que girará todo o mundo" "Isso não é meio infantil" "Ué! E tu não és um menino?" "Não" "Pensei que já tinhas te convencido" "Está bem, ainda sou aquele menino que sonha" "E continuará sendo. Mas sendo um menino com responsabilidades. Tu tens uma missão, criança!" "Tenho" "E estás cumprindo belamente" "É?" "Não duvides disso" "Sinto que sou mau" "Não és não. Quando somos jovens, não temos paciência com os gritos" "Sei disso" "Tu és maravilhoso dentro de teus poderes e aprendeste a ser humilde, mesmo ainda sendo um tanto vaidoso. Agora deves escrever e não emocionar apenas a vida de teus pequenos com tuas caras e bocas, meu menino. Eles te amam. Só pensam em ti. Querem te agradar. Querem mostrar que são capazes e querem mostrar para ti isso. As glórias são todas tuas. Deves escrever a tua obra, como eu ia dizendo, para não somente agradar os teus pequenos, mas sim os pequenos e os grandes. Não emocionar no teu pequeno condado com nome de santa, mas sim num reino inteiro. E vais conseguir. As palavras são tuas" "..." "Não me falas nada?" "Tenho medo" "Não tenha. Já está tudo combinado. Tudo acertado" "Tenho medo. Sozinho acho que não tenho forças" "Mas quem disse que estarás sozinho?" "Não sei" "A partir de agora não estarás nunca mais sozinho" "Em que sentido?" "O amor e a paixão te acompanharão" "Não acredito mais nisso" "Nisso o quê" "Numa história de amor" "Mas não falo somente nisso, meu menino" "Falas em quê?" "Nas pessoas que amas e por quem és apaixonado e das pessoas que te amam e daquelas que são apaixonadas por ti... Chegará o dia em que deixarás de ser cético com o amor e deixará de ser essa figura independente" "Não estou interessado em sofrer, obrigado" "Meu menino, viu como és ainda um menino? Se sofreste éporque nunca amaste. Agora te digo de antemão: vem ai alguém chamado Amor" "Não me lanças essa intriga, Afrodite" "Fica calmo" "Se me conheces tanto, tu sabes que não vou me acalmar" "É verdade. Providenciarei o encontro para o mais breve possível" "Para quando?" "Hum, temos um interessado" "Não brinca" "Sei, menino que foste sempre sozinho. tudo na hora certa. Receberás o sorriso que sempre esperaste. O abraço que sempre agurdaste. O olhar de afeto que sempre sonhaste" "Por que agora?" "Porque essa era a hora.Tu já aprendeste isso" "Sim já aprendi, mas parece que não aceitei a teoria de todo" "É. Mas a hora está chegando ao fim e receberás o preenchimento da solidão. Viverás teus sonhos: viajarás o mundo com teus livros e com teu amor e terá um grande galho em tua árvore." "..." "Terás uma linda história pela frente. Todos vão saber quem tu és" "Tenho medo disso" "Não tenhas. Tu saberás reagir muito bem. E teus amores estarão a teu lado: a semente e o fruto" "Não me deixe ansioso. Estou a pensar mil coisas" "E essas mil coisas estão certas.Isso mesmo o que pensas é o que acontecerá" "Será que sou capaz?" "És capaz de tudo o que há de bom e belo" "Se dizes isso eu acredito, mesmo sem acreditar" "Eu sei,é difícil seres tu, meu menino, mas tu alcançarás a plenitude. Agora vou indo apagar as luzes. Tenho que descansar enquanto as estrelas brilham." "Muito boa a nossa conversa" "Foi meio piegas, meio absurda, mas foi muito boa. Aguarde! Boa noite, meu menino. E vai escrever". "Está bem". Um silêncio absoluto. O teto não chora mais. O sono se aproxima. Espero que tudo isso não tenha sido um sonho. Mas sei que foi minha imaginação. Espero que minha imaginação, conforme disse a Casa, seja fruto da verdade. O meu íntimo diz que é. Agora vou apagar as luzes e ir dormir, pois meu momento Lispector acaba aqui.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Réveillon em Londres

TOME UM CAFÉ... ESSA POSTAGEM SERÁ GRANDE, uma das maiores — para compensar o atraso.


Assim que adentrei aquela casa, mal sabia eu que algo mudaria drasticamente o meu pensamento por um bom espaço de tempo. Cabe ressaltar que faz um mês que cruzei os portais daquela residência — e nesses trinta dias muitas reflexões sobre os meus comportamentos ocorreram.

À soleira, estava Fernanda Porter, uma moça de seus não-sei-quantos-anos-pois-nunca-ousei-perguntar que, muito solícita, simplesmente me perguntou: Você é o rapaz que perdeu o voo? Eu poderia dizer apenas um Sim, mas como um bom professor, e pelo visto de Língua, e a minha é das grandes, um Sim seria pouco demais para uma pergunta ligeiramente complexa. Contei à ela toda a desventura vivida em Paris. Ela ouviu aparentemente paciente os ensejos dignatários de um novo londrino. Conclui com o meu desabafo inumano que um dia poderia contar esta história: que um dia, lá na década de 10, o amigo de seu avô (sim, amigo de seu avô, pois filhos não os tenho, nem os terei, por isso contarei aos netos de meus amigos) que ao tentar passar o réveillon em Londres, por perder o voo, acabei vivenciando desventuras em série em Paris.


A solícita Fernanda Porter, que muito diferente de mim não era, abriu um papiro em minha frente e relatou toda a sua folha-corrida. Num piscar de olhos, percebi que desejaria passar a virada de ano em companhia dela. Na conversa, descobri que ela havia chegado recentemente à casa dos estudantes. E por motivos mais que pessoais, ela estaria se retirando em alguns dias. O que seria uma pena, pois eu, amante fervoroso dos amigos, e destes apaixonado à primeira vista, já queria abrir bandeiras vitorianas para impedir a ida de Fernanda para a outra casa.


Em seguida, bati à porta da casa dos estudantes Amanda Faccioni, minha ex-colega de trabalho, alguém também muito especial em minha vida. Como era bom quando saíamos do trabalho, reuníamos os mais chegados (os menos invejosos e despeitados, é claro) para irmos a cinemas, Mc Donald’s e principalmente à Cidade Baixa, na Lima e Silva, em Porto Alegre, no tradicional Cavanhas. As saídas não eram nada sazonais: minimamente duas vezes na semana. Não era regra, passou a ser uma necessidade. O bom é que comíamos a gordura e não engordávamos. Foi por meio dela (não da gordura, mas de Amanda) que cheguei ao Reino Unido. Eis a história.


Eu e uma conhecida iríamos passar o réveillon em Paris. Comprei a passagem superempolgado. Duas semanas depois a Conhecida disse que não poderia mais viajar (por motivos pessoais). Eu cá pensei com minhas canetas-tinteiro Crown: EU JAMAIS VOU DEIXAR DE IR À EUROPA PORQUE ESTOU SOZINHO. Vou passar meu réveillon lá fora, sim. O meu desafio era: não tinha personalidade para passar o réveillon debaixo da Torre Eiffel, com uma garrafa de champagne, e acima de tudo sozinho. Jamais — como dizem meus amigos. Tinha que vir uma solução. Alguns dias depois, mais que a galope, Amanda Faccioni, lépida e friorenta, publicou em um site de relacionamento: COMO ESTÁ FRIO HOJE. Franzi o senho, olhei para o lado desconfiado, acendi a luz e a ideia pariu. Imediatamente perguntei a ela onde estava. Até o leitor com déficit de atenção acentuado chegou à conclusão onde ela estava. Rastejante, como uma serpente incitando o outro a provar da maçã, perguntei melado se ela não gostaria de passar o réveillon em Paris. Ah! Peripécia! O leitor nefando deve ter pensado que eu cairia de bocarra em casa de Amanda, não é mesmo? Desejoso de um sofá na sala, leitor duas vezes nefando? Hahahahahahahaha. E tinhas toda a razão, fiz isso depois que ela disse que passaria o passar das doze badaladas em Londres. Ela disse que não haveria problemas e contactaria a responsável da casa, pois ela morava com mais 14 cabeças. A opereta não foi tão trágica quanto a de Alfredo. Dias depois já estava em minha caixa de e-mail a carta-convite para que eu apresentasse na imigração. E mais algumas semanas depois eu abri a porta e Amanda entrou.


Revemo-nos.


E apresentei a ela Fernanda Porter, amiga de longa data (30 minutos) que possivelmente se transferiria para a mesma casa de Amanda. Sim, leitor atento, eu, por motivos de demanda, não fiquei habitando a mesma casa de Amanda.

Cinco minutinhos depois saímos para ir fazer as comprinhas de réveillon no melhor supermercado do mundo: o Sansbury’s. Lá aproveitei o momento e fiz um rancho. Compramos também taças e um champagne.

Pouco tempo depois estávamos pegando o metro em Willesden Green Station indo em direção a Westminster. Chegamos lá às 19 horas. Parecia que todos os habitantes de Londres e seus imigrantes estavam chegando naquele local ao mesmo tempo. Maldição! Eu ainda tinha pensado que minha ideia de passar a virada do ano na London Eye seria, no mínimo, exótica. Aquilo muito me lembrou uma partida de futebol. Mas não. Fomos andando rumo à entrada. Percebemos que a polícia estava revistando a bolsa das mulheres. Como eu estava acompanhado de Amanda Faccioni e outras duas moças que tive a oportunidade de rapidamente conhecer que faziam companhia a ela, as ladies tiveram que proteger suas bebidas, pois parecia que a regra era clara: NO DRINKS. Rebolando, no jeitinho brazuca de ser, ouvindo o Ipiranga às margens do Tâmisa plácido, as ladies mocozaram (é assim que se escreve essa erudita palavra?), sim, mocozaram o bálsamo precioso de Dom Quixote nas profundezas misteriosas da bolsa. Sim, porque é um mistério a bolsa de uma mulher. Esses dias alguém precisava de um remédio e uma mulher tirou uma drogaria do acessório. Certo dia na Faculdade, quando ia me aventurando dentro do saudoso Mario Quintana 497, a mulher levava um frango — vivíssimo — adornado de uma suntuosa crina, dentro do acessório feminino.


Quer saber o fim da história? Caso sim, contarei. Mas o leitor acha que será agora? Não? Hahahahahahahaha. Estás enganado. Tome um fôlego e continue a leitura.


As ladies passaram triunfantes pela imigração. O Big Ben, a cada sessenta segundos, incansável, trabalhava o rodar dos minutos. Em seguida, os olhos fitavam a London Eye. O difícil foi escolher o melhor lugar. O que tínhamos escolhido parecia intransponível: entre duas árvores, onde poderíamos ver sem problemas o monumento pirotécnico. Os chineses, ou coreanos, ou japoneses, ou malasianos não ajudavam muito, pois haviam marcado território.


Sentavam-se no chão, em rodinhas, onde jantavam, divertiam-se com jogos e o resto do mundo esfomeado e expelindo a rotina do passar das horas. Uma inveja brilhava nos olhos dos ocidentais despreparados para as adversidades.

Ao expressar as adversidades, choveu. E dessa vez, depois de uma discussão entre as ladies e o povo do China in Box (sem ofensa alguma — pois eles comiam nas caixinhas à medida que estavam sentados no chão). Sim, senhor leitor comportado, uma das moças orientais era adepta do barraquismo. Por tudo a moça brigava e parecia fazer questão para isso. Depois de uma série de palavras mal escutadas: IACA TUCA UCA TUTAAAAAAAAA, uma chuva oriental pareceu estragar o réveillon. As ladies abriram a bolsa (mais uma vez a bolsa) e de lá tiraram o guarda-chuva. As ladies, tão finas que eram, faziam questão de molhar a gurizada da terra do nascer do sol. Sim, faziam questão, visto que eles tinham todos os equipamentos bélicos para esperar o show de fogos, mas não tinham a proteção do elemento água. Elegantíssimas, as inglesas made in Brazil, levantavam o ombro, o queixo, olhavam para o outro lado como se estivessem a ver O Almoço na Relva no Musée d’Orsay.


Nessa onda pluviométrica, junto a nós, estava um casal de idosos — daquele tipo COISA MAIS AMOR. Porém, como uma boa antítese, atrás de mim estava uma família Horrenda, cujas filhas, Horrendas ao quadrado, tentavam empurrar-me para ganhar espaço. Eu, inspirado em João Cabral de Melo Neto, pensava: aquela era a parte que cabia a elas no latifúndio. Quanto mais elas tentavam me empurrar, mais eu ficava como a estátua de Lincon da Parliament Square. Certa hora, indignado, já me sentindo desrespeitado, o espírito de professor apossou-se de mim: franzi o cenho, olhei de canto, carrancudo para uma das moças. A dita cuja olhou-me apavorada.


Assim, nesse clima de paz entre os homens, ficamos esperando as horas passarem. Foram cinco horas intermináveis. A London Eye passou, por volta das dez horas, a fazer um show de luzes. Nessa hora uma chuva, mais que pluviométrica, sísmica, assustou o povaréu. Mas aquelas labaredas aquáticas não caíram por muito tempo.


Muito tempo depois: um minuto para a meia-noite. Num dos prédios a contagem se fazia regressiva. Eu não sabia para onde olhar: se para a London Eye ou para o Big Ben. Assim que os 15 segundos suspiraram, o relógio passou a cantarolar, preparando para a chegada da hora mais esperada das últimas cinco giradas do tempo. CINCO SEGUNDOS. Olhar para onde? E agora? UM SEGUNDO.


Os primeiros fireworks iluminaram o céu, o sino do Big Ben estourou e fogos passaram a arrebentar por todos os lados no monumento. Sincronicamente, a cada badalada do sino, os estouros presenteavam o início de 2012. E eu lá embaixo, a uns 300m, pequeno, pequenininho; e ele, lá em cima, imponente, dizia a todos: “comemorem, vocês incendiaram por onde passaram, fizeram com que as coisas acontecessem em 2011 e agora merecem o prêmio. O tempo salva e recompensa e este é o vosso prêmio: a beleza em seus olhos. Chorem, dizia o relógio, agradeçam, não percam tempo pedindo ou exigindo. Vocês voaram de inúmeros continentes para me ver e agora as luzes de seus trabalhos anunciam que tudo valeu a pena. E tu não acreditas, eu estouro mais uma vez.” MAIS UMA BADALADA, MAIS FOGOS DE LUZES. “Não acreditam? Então olhem de novo?. MAIS UMA BADALADA, MAIS FOGOS. E ele estourava mais. Disse: “Continuem a jornada, acreditem em seus sonhos, façam as pessoas a seu lado mais felizes, abrace quando necessário, façam piadas para o mundo rir. PARA O MUNDO RIR.” E o registrador do tempo estourou e badalou tudo o que pode até desaparecer nas névoas.


Com o fim dos fogos do Big Ben, a London Eye se iluminava mais e mais. A grande energia de luzes nos envolvia por todos os lados. Elas iam ao céu e desciam candidamente parecendo que nos abrigaria. As músicas tocavam e os fogos dançavam conforme a melodia. Um grande espetáculo. Lágrimas veementes transbordaram como nunca. E cabia a mim olhar para o funesto 2011 e agradecer por tudo o que vivi, pois fui feliz e sabia que o era.


Com o fim das chamas, estouramos a rolha do Champagne e brindamos. Duas taças depois, eu, o autor deste blog alucinógeno, estava tonto e falando besteiras pelas ruas de Londres. Passeávamos pelo Green Park à noite. Desejei Happy New Year a pessoas que nem conhecia. Procurávamos estação de metro em frente ao palácio da Queen. E eu, cambaleando, como nunca na vida, e falando mais ainda. Andamos, andamos e andamos. A fome já tinha batido na nossa porta desde que vimos a santa ceia dos asiáticos. Em Victoria Station, cheguei a torcer o pé e um cara foi me ajudar. Eu olhei para ele e disse: “Thanks, Guy. I’m good, good, good. Happy New Year”. Continuei minha caminhada nordestina e avistei o M, o M mais famoso do mundo. “Lá!”, apontei. Adentramos a loja do Mc Donald’s e fizemos a primeira refeição de 2012.


Mais tarde, as duas da manhã, adentrávamos na EGG, numa balada. Depois de dez minutos, ao observar a energia estranha do lugar, decretei às Ladies: Vou para casa. Ganhei as ruas novamente, sentei-me numa parada de ônibus, uma inglesa apaixonada pelo Brasil (e que falava português) puxou papo comigo. E eu tonto ainda. A mulher era apaixonada pelas escolas de samba. Quando eu disse que era de Porto Alegre, a mulher ainda falou nos Imperadores do Samba. E eu zonzo: “Han?”. Depois de mais algumas palavras decidi caminhar até Kings Cross. Estonteado fui andando pelas ruas desertas de um bairro nebuloso. Pessoas estranhas, numa Londres estranha.


Em Kings Cross passei pela estação de metro ficctícia do Harry Potter.


Na plataforma da Piccadilly Line, esperei o comboio por um minuto. Assim que ele chegou, entrei, sentei e dormi. Dormi, sem destino. Onde parei? Eu conto depois...


MIND THE GAP