domingo, 5 de agosto de 2012

Turma encantadora!

Isto ocorreu ontem. Estava aguardando o sinal das sereias tocar para que eu pudesse em vida dar mais uma aula para a turma 73. Quero prestar uma homenagem à essa turma. Lembro quando nos vimos pela primeira vez. Foi há um ano, quando a antiga professora ficara doente e fui convidado para dar uma aula para eles. Era a movimentada e turbulenta 63. Cheguei para dar a aula e, ao iniciar o conteúdo, passei a contar uma história criada por Edgar Allan Poe, O Gato Preto. Eles ficaram congelados ouvindo, inclusive meus batimentos cardíacos. E ali disseram: "Queremos que seja nosso professor". Dois meses depois, a professora que tinha ficado doente naquele dia anuncia que fora classificada no concurso da prefeitura, onde passaria a lecionar; logo, deixaria a escola. Fui convidado a assumir as turmas da professora. Conforme disse, a turma era muito movimentada e turbulenta. Todos gritavam, riam sem motivo que valesse, tentavam atormentar a vida do professor. E eu, Alex Valério, "toquei o terror" até que eles entendessem quem era a autoridade na sala de aula. Lembro do dia que dei o maior sermão, já que vinte alunos não leram o livro recomendado. Briguei tanto naquele dia que, assim que soou o sinal para a troca de período, eles permaneceram sentados. No último mês de aula, eles passaram a mostrar a que vieram: a movimentação e a turbulência passaram a ser vistas por mim como criatividade. Os sorrisos vindo deles agora eram com brilho e o olhar vinha cheio de vibração. Elogiei-os. E eles disseram quase em coro: "Pelo menos um professor nos elogiou". O ano letivo acabou cheio de lágrimas ansiosas para passar na disciplina. Dois meses depois, de 63 para 73, algo havia mudado. Eles passaram a usar a criatividade para a produção do conhecimento. Passaram a disputar entre si quem mais acertava as respostas da disciplina. E meus olhos brilhando. A grande revelação se deu no dia em que anunciei o primeiro trabalho do ano: eles tinham que trazer, divididos em grupos, o retrato dos autores que trabalharíamos no decorrer do ano. Anunciei cheio de receio, já que eu sabia que o que menos eles tinham interesse eram na leitura, logo na Literatura. Eu informei que levaria papel-cartaz para que eles pudessem colar os retratos. Um deles disse que poderia pedir para o pai fazer dez porta-retratos. De todas as turmas que leciono, a única que usou a criatividade de modo mais acentuado foi a 73. Depois nas avaliações, encantaram-me com o engajamento e com os resultados. Na sala de aula, passaram a conversar sobre a obra de Voltaire. Quando que eu tinha imaginado que alunos de 12 e 13 anos estariam conversando sobre Cunegunda, Cândido e Pangloss? E ainda os alunos daquela 63 que não lia nada? Quando que Voltaire, sepultado no Panteão em Paris, mexendo-se, pensaria que na cidade da natureza exuberante, Viamão, pré-adolescentes leriam sua obra iluminista? Nessa mesma linha de surpresas, pedi para eles conjugarem os verbos no futuro do presente e do pretérito usando os pronomes oblíquos no modo mesoclítico, conforme a regra. Quase que em coro pediam para que eu desse mais verbos. Lanço desafios com prêmios. Eles enlouquecem na sala de aula. Mas também o que me motivou a fazer essa homenagem foi o que eles fizeram de novo. O sinal soou e os levei para a sala de multimídia, onde assistiríamos a dois documentários: um sobre Zeus e outro sobre Hades. Solicitei que eles anotassem tudo o que achavam importante para que pudéssemos discutir mais tarde. Soltei o play. Quinze minutos depois, observei-os. Anotavam tudo o que era dito. Quando o episódio sobre Zeus terminou, elogiei o comportamento maduro. Disse para eles que tiveram uma postura de alunos de faculdade. Disseram-me que escreveram duas páginas e meia de resumo. Tenho muito orgulho deles. Em seguida, iniciamos o documentário sobre o deus dos infernos, na mitologia. Olhavam interessados.

Parabéns pela energia! Pelo alto-astral! Pela dedicação!

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