quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Se o Senhor Grandet fosse à Argentina, enlouqueceria! Mas eu não, apaixonar-me-ia!


Lá estava eu mais uma vez decidido a fazer uma viagem. Já que as férias de julho estavam chegando, fiquei a pensar com minha dupla de canetas Crown: para onde vou? Mais que numa riscada da tinta, entrei em contato com minha superamiga Thais Deamici, uma brasileira-portenha, que há muito aguardava minha visita.

As passagens aéreas para Buenos Aires estavam pela hora da morte. Claro! Comprar a ticket um mês antes da viagem... poderia esperar por quê? E havia um outro agravante que mais me chocava. Eu teria que praticamente fazer uma escala em Pequim, cruzar toda a muralha da China, chegar na Mongólia, para enfim chegar ao suntuoso Retiro portenho. Jamais, na minha leiga vida, farei novamente uma escala em Guarulhos. Só de lembrar estou indo à farmácia comprar uma dose de Plasil.

Quando me vi estava dentro de um ônibus. Indo para Baires! Sim, caros leitores. Para chegar à Europa leva-se onze horas, mas para chegar à terra de Evita, de ônibus, partindo de Porto Alegre, leva suas auroras dezoito horas.

Como se tratou de uma viagem noturna, não senti o tempo passar. Fui me distraindo com o malefício do facebook, dando umas twitadas e, claro, lendo um livro (cujas páginas foram devoradas ao número de cem). Fabuloso!

Doze horas depois deparei-me com o restaurante argentino, de beira de autopista, El Tungo, ou qualquer outro nome. Fiquei mais passado que uma parrilla do Palermo quando meus olhos e meu bolso descobriu o preço de um café. Com o Eno na mão, digito estas palavras que só de lembrar me causa um refluxo gastro-esofágico: O CAFÉ CUSTOU... CAROS LEITORES... SOMENTE O CAFÉ... UMA ÁGUA SUJA DE BEIRA DE AUTOPISTA A QUANTIA BILIONÁRIA DE 14 PESOS. Com 14 reais eu faço a festa no café da livraria Cultura e ainda compro um livro de bolso de troco.

Assim que cheguei a Buenos Aires, na Rodoviária do Retiro, corri para a estação mais próxima do Subte. Entrei e pedi na boleteria: "Un Viaje". Paguei os dois pesos e cinquenta (o que achei caro, pois  quatro anos atrás, a viagem custava um peso e dez), cruzei a roleta e ingressei no comboio.

Depois de algumas estações pela linha A, fiz correspondência com a linha D, cuja linha trafegava rumo à zona do Palermo. Na estação Plaza Itália, desci. Deixei as malas em casa de minha amiga e fui para o centro, onde almocei num Mc Donalds. Paguei 40 pesos por um sanduíche. É assim que estavam os preços na Argentina, todos los ojos de la cara. Flanando pela Calle Florida, a Andradas dos porto-alegrenses, percebi que não era somente no gênero alimentício que tudo estava pela hora de la muerte. Por Martin Fierro! Fico a espirar, sim, espiar pelas vitrines o preço dos belos casacos de inverno. Como riem os castelhanos: jajajajajajajajajaja. O casaco custava o mesmo preço que uma passagem para a Colômbia: 1400 Pesos. Em seguida, depois de andar pela Plaza de Mayo, Corrientes, Córdoba, Florida, decidi ir para casa. Passei em frente à Catedral Metropolitana e desci aos subsolos para pegar o metrô e voltar para casa. 

Lá fiquei a esperar minha amiga, que ainda não chegara do trabalho. Quando ela chegou, pus-me a espiar na porta e apertamo-nos num suntuoso e opulento abraço. Contamos as novidades e corremos a bailar pelas redondezas da Plaza Serrano, no Palermo. O clima era um misto de Padre Chagas (de Porto Alegre), Saint Germain-des-Près, Quartier Latin e Piccadilly Circus. Sentamo-nos e pedimos uma pizza e um vinho. Depois de duas taças, a tontura se abateu sobre mim e as besteiras passaram a rolar soltas por minha glote.

Nem vou falar quanto nos custou o jantar para que não fiquem pensando que sou um avarento. Longe disso, dinheiro na minha mão é um vendaval. Mas na Argentina foi um tsunami.

Thais e eu passeamos pela Floralis, pela Recoleta. Depois paramos para um café na livraria El Ateneo, um portentoso teatro que fora transformado em livraria. Ficamos a bater um bom papo e a saborear um dos melhores cafés intelectuais bebericados por mim.

Depois de comprar a obra Que el mundo me conozca, de Alfred Hayes, saímos rumo ao supermercado mais próximo, pois o Strogonoff de Alex Valéry atacaria por terras portenhas. Compramos os ingredientes e saboreamos em casa o melhor de todos os Strogonoffs que já preparei. EL MEJOR!

No dia seguinte, fomos aos Bosques de Palermo, ao Puerto Madero, a San Telmo. Ali entramos no El Continental para saborearmos algumas empanadas. Depois me despedi da viagem a Buenos Aires com uma passadinha no Obelisco.

Fora uma das viagens mais calmas que fiz em minha vida. A companhia de minha amiga Thais Deamici fora cálida e ébria, nada lívida. Pude descansar com o nada plúmbeo céu de Baires, com as belas pessoas e pessoas belas. Ver pessoas do mundo inteiro por ali, inclusive um ingênuo rapaz de pele alva e rosto mais rosa que as rosas da Recoleta que corria saltitante pela Plaza de Mayo a abanar para os amigos. Tão deslumbrado que estava quase caiu dentro do chafariz. Ficamos a prestar atenção nele (visto que trata-se de uma típica personagem de minhas ficções). Mais parecia um extravagante polonês. O destino quis que ele e seus amigos cruzassem nossos caminhos por aquela praça. Assim pudemos observá-los. Falavam francês. Mon Dieu! Vivre la France!  Marcou-me também essa viagem o labrador que ficou a me fitar, e eu a fitá-lo. E de tanta fita ele quase pulou em cima de mim. E os peruanos dançando suas danças típicas até o chão? Mais do que nunca foi uma viagem de observação, de encantamento, de sentir o cheiro e tentar traduzir o que estava querendo ser dito.

Buenos Aires foi bela e sempre será minha querida cidade do coração. Foi, para mim, a porta para o mundo. Depois dela, como no livro que minha amiga comprara, o mundo me conheceu e eu a ele. Que minha ida a Baires tenha me dado mais força para conhecer e cruzar todas as fronteiras, seja as do pensamento, do sentimento ou mesmo as das nações.

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