terça-feira, 24 de julho de 2012

TUDO O QUE EU QUERIA ERA CHEGAR A VIAMÃO.

Naquela cinzenta manhã cujo crepúsculo não havia batido à porta da visita, acordei. Sobressaltado, como sempre, como um mágico ou como um ilusionista, atraí com o poder da mente o jeans que estava no guarda-roupa. O perfume aspergiu-se sozinho, os dentes escovaram-se, o cabelo autoalinhou. As pernas, como o The Flash (com duração de poucos segundos) durou até a chegada à parada DE ÔNIBUS. Creio que, aqui, já devo ter declarado minha repulsa à vida absurda das pessoas paradas num lugar em que o ônibus deveriam parar. Porém, como parece a vida a nós, que evoluímos exponencialmente como num cálculo de PA e PG, chegava faceiro à tal parada de pessoas que esperam o coletivo, quando, a 200m, a placa MONTE ALEGRE passava alegremente fora de seu horário. Pensei:"Acabou de passar o ônibus que me deixa no trabalho 5 minutos antes do início das aulas".

Fui atrás de um táxi. Assim que ingressei num deles, o motorista estava dormindo e teve que ser acionado por seu colega, um homem de cabelos desgrenhados, compridos e mal pintados com a loção Grecin 2000.

Quando eu disse para ele (o motorista sonolento), com toda a educação inglesa: "Por gentileza, na parada 32 em Viamão", ele, meio que ainda agindo pelo impulso, teclou o taxímetro e começamos a viajar. Quando a sinaleira fechou, como que uma luz vermelha em sua mente, ele sussurra desligando o taxímetro: "Pra ti eu faço por sessenta reais". E eu, com cara de brasileiro cordial-pacífico-atlântico-índico-passivo, disse: "QUÊ???? Eu pago pelo mesmo trajeto vinte reais. Por que me cobras sessenta reais?" O pusilânime olhou-me pelo retrovisor e anunciou: "Ora, esse é o preço". E eu, como um professor com a pasta de ocorrência na mão, disse: "Então me leva até onde eu quero e torna a ligar o taxímetro pra ver se dá sessenta reais." "É outra cidade, meu caro, é outra tabela". Abri a porta do carro e lhe desejei boa noite.


Corri a próxima estação de ônibus. Lá vinha mais um Viamão. Esperava sentar na janela. Como um francês (indo para a terra da natureza exuberante), ataquei o coletivo.
  
O bicho, fora do comum, foi vagarosamente. Depois de quinze minutos (já um minuto atrasado para a minha aula) desci na parada numérica de Viamão. Atravessei a RS-040. Imediatamente surgiu um ônibus chamado APARECIDA-SÃO TOMÉ (ou algo parecido com isso). Embarquei sem titubear. Perguntei ao cobrador se aquele transporte passava na escola onde trabalhava. O trabalhador disse que aquele ônibus faria toda a volta no bairro para depois passar lá. SOCOOOOOOORROOOOOOOOOOOOOO! DESCE!

Liguei para a escola para informar que estava chegando, que eu já estava na avenida, porém que a pé levaria uns quinze minutos.

Fui andando. E duas paradas depois surge (novamente surge) um ônibus. IGUATEMI-SANTA ISABEL. E lá fui eu.

Mal consegui passar na roleta quando o ônibus já passava pela parada onde deveria desembarcar. Puxei a campainha como um invasor visigodo, passei o cartão com o cobrador e pedi para descer pela mesma porta de embarque (visto que o carro estava lotado).

...

Entrei esbaforido na sala de aula depois de subir quatro lances de dois em dois degraus.

Uma aluna chegou depois de mim e eu, sarcástico, disse a ela: "COMO OUSASTE CHEGAR ATRASADA".

E tudo isso aconteceu em trinta minutos de minha longa vida, cujo único objetivo, naquele tempo dos ponteiros medianos do relógio, era chegar a doce e fervorosa Viamão, a cidade em que tudo acontece!

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