segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Hoje escreverei para ti, minha amiga. Não sei que motivos fazem com que tu gostes de mim. Certamente gostas de mim não tanto quanto gostaste no primeiro dia. Mas sei que no segundo gostastes um poucos mais. E no terceiro um pouco mais do que no segundo. E isso ocorreu até o dia em que não poderia mais proporcionar novidades, pois já me conhecera de todo. Desde os pequenos gestos, entre eles a olhada de esguelha, ou quando estou andando para lá e para cá, ou quando mordo os dedos, ou o pior de todos, quando estou quieto. Mal nos conhecemos e já me revelaste que tinhas admiração por minha pessoa. Por eu fazer parte de um grupo de pessoas, ou por representar um status cultural que, na verdade, está na média daqueles com quem freqüento, tanto quanto tu. Mas que perante o conhecimento da ciência, pouco, e cheio de certeza, sei que pouco sei. Estava aqui no meu gabinete, sem nada para pensar, e acabei vendo nossas fotos, e nas fotos nossa história de amizade. A festa que freqüentamos. As viagens que fizemos. As conversar no telefone. As ajudas emocionais desconstrutivas. A motivação infundada. O quer bem sem limites. O respeito mutuo obrigatório. Muito aprendi neste ano, neste aprendi muito porque estiveste comigo, aquele ser que estava tão alto, mas tão alto, que um dia, lá pelo vigésimo dia percebera que eu era mais um marciano, um sísifo como qualquer outro. Sim, sou absurdo, sou até mau, mau-bonzinho, mau que chora, mau que ajuda, mau que se sacrifica. Disso já estas cansada de saber, sabes que muito faço por todos, e por mim, como um Alex Valério Poulain, tive uma ajuda: tu, minha amiga. Certamente se não fosses tu, neste ano, não seria tão feliz com teus elogios incontáveis. No furor do desespero que sofria, tu vinhas e dizia que eu era o máximo. Às vezes quando repetias pela enésima vez que eu sempre tinha a razão, ou tudo o que eu fazia era perfeito, eu chegava a desconfiar. Lembras quando indaguei sobre isso? E tu ainda disseste: mas é verdade o que te digo; tu não acreditas? — dizia-me tu. E eu ainda, na honestidade quase infantil, dizia, às vezes duvido. Viajamos, rimos, rimos de nós, rimos de ti, rimos dos palitos, da batata, do carrinho, do ballet no limo, do Pluto, rimos até dos choros aos pés do Ipiranga, rimos dos mapas que queriam ir para o hotel, dos pés cansados a procura de um restaurante, rimos de uma amiga perdida, que desejava simplesmente achar Esteio (só nós entendemos isso). Um texto imenso somente para dizer o quanto sou feliz a seu lado — até o dia em que não me agüentares mais. Mas não esqueças que te admiro muito, mas um muito com muita intensidade, pois foste uma guerreira, uma heroína na minha vida, tanto quanto foste na sua este ano, minha amiga Lindyssima.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Confuso porém legítimo, normal como todo sentimento.
Estou aqui sozinho em meu gabinete. Estou aqui em meu gabinete pensando em ti. É hora do almoço, já comi meu tchê dog da 7 de setembro. Não fora tão bom quanto ontem; mas isso deve ao fato de termos dialogado ontem. Diálogos como sempre imperfeitos, limitados, limitados pelo tempo, pelo espaço, pela cidade, por nós. Pensando nisso lembro-me de Safo, a poeta que tinha ciúmes de uma mulher com outro homem. Ah, lembro-me quando o eu-lírico evocava a tecelã de intrigas, minha amiga Afrodite, que gosta tanto de uma batalha. Sim, diz-me ela, Safo, o amor é uma batalha. É uma guerra a ser travada dia a dia para que possamos conquistá-lo. Meus maiores inimigos são as barricadas que o tempo, o calendário, o maldito calendário, me impõem para te ver. Mas nos milésimos de segundo que posso te ter e acercar a respeito de teus olhares, para mim são torrentes de pequenas felicidades que coleciono toda a semana. Algumas mais solitárias outras mais sorridentes, outras aparentando uma indiferença. Os jogos que nos oprimem. Os defeitos que nos intranformam. Os erros de português que são propositais para que possamos criar uma linguagem mística, misteriosa, envolvente, sedutora. Ou um oi que poderia ser um simples oi, ou um oi que poderia ser um oi poético. Um sim, que pode ser um breve sim, ou um sim que pode ser duradouro, ou o sim, o mais terrível para mim, o sim que diz não. Mas esse não é necessário. Para que dizer não, se se pode dizer aceito. Sim, aceito. Convido-te e me aceites. Sim, aceitaste. Isso já fato. Demos um passo, um selar para o fim desta batalha que a deusa, aquela minha amiga, de inúmeras batathas, nos oferece. Que seja o fim de nossos mistérios, de nossas palavras reprimidas, de nossos medos cansados, de nossos pequenos-gozos.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
O segundo dia em Valência e medos do estranho
Intrigado leitor. Vou agora contar o que eu e minha amiga Felícia encontramos no facebook do amigo hospedeiro. Mas também aqui contarei, neste episódio, nosso segundo dia em Valência e um momento surpreendente entre mim e o meu colega de quarto, o romeno.
Lá estavam as fotos. Fora comprovado por meios técnicos que o hospedeiro gostava de tocar uma panela. O hospedeiro era gay. Mas não um gay afetado, mas um gay três eurinhos. Três eurinhos e discreto. A foto mais insinuadora foi aquela em que um pseudoamigo lhe tocava o ombro, e o hospedeiro, delicado com a tamanha intimidade, tocava-lhe a mão que afagava o peito. Mas isso, quem sabe não é nada. Quem sabe seja uma postura aceitável no velho mundo. (???)
Felícia, minha amiga, mais rápida que a luz, lançou-lhe um recado na face do livro do nosso cozinheiro. Foram palavras simples, sem nenhuma indiscrição, muito pelo contrário; dizia ali que fora um dos melhores voos até então navegado.
Mal sabíamos nos que o hospedeiro gay estaria em Barcelona, na mesma cidade de nossa parada turística.
********
Mas continuando o fado, triste leitor, quero contar as peripécias aristotélicas que ocorrerem no segundo dia em Valência.
Despertei, tomei, mais uma vez, aquele café da manhã fabuloso que nos foi apresentado no Colégio Mayor.
Saímos rumo a Faculdade.
Sim, era o dia de apresentações de trabalhos científicos. Minha amiga, Lindy, estava no aguardo da professora, pois apresentariam juntas as pesquisas. Professora esta que não encontramos ainda, desde a nossa chegada ao paraíso achado.
Por um encontro do destino, entre os corredores da faculdade, acabei topando com a professora e a legião de amigas perdidas e desgarradas. Abraçamo-nos e estava tudo resolvido. Elas contaram-me que o hotel em que estavam hospedadas não ficava em Valência, mas sim em Gandhia, uma cidade há 50 minutos de trem. Narraram-me que após a nossa despedida no aeroporto, elas tiveram que pegar um taxi, três taxis para ser mais coeso, rumo ao endereço que demarcava no voucher da companhia turística. Os táxis percorreram nada mais do que duas horas, segundo a narração das moças de Gandhia, e quando o taxi trafega, o taxímetro dança, e a maquininha rebolou, mas rebolou tanto que cansou quando chegou a marca de noventa euros, meu leitor. Sim, noventa euros. Jamais poderíamos imitar o nosso hospedeiro Ryanair e dizer: — Noventa eurinhos. E para finalizar as aventuras, perceberam que não ficava em Valência o hotel. Logo, tinham que pegar o trem, pagando sete eurinhos e dez centavinhos para chegar a Valência, mais precisamente na estação do Nord.
Por essa razão não nos encontramos ontem.
As apresentações de trabalho foram bem sucedidas. Ao meio-dia iniciou o intervalo. Fugimos para a cidade. Felícia, Lindy e eu nos colocamos a disposição a levá-las a locais que não puderam conhecer.
Quero aqui contar um evento que vinha no meu intimo. Como sabes fui contemplado com uma bolsa para participar do congresso. E para que tudo desse certo eu tinha que me comunicar com duas pessoas de nome catalão: um deles, o organizador do congresso, Maria Luci, opa, errei o nome, é um homem, o nome dele é Cesário Calvo Rigual. Muito quis conhecê-lo e agradecer a bolsa concedida a mim. Mas também houve uma outra personalidade, a Senhora Inmaculada Carrasquer, aquela que me inscreveu e aceitou a minha beca.
Felícia e eu, nos corredores da faculdade de filologia e comunicação, decidimos procurar Inmaculada Carrasquer. Desejava saber como eram as feições desta senhora de alcunha tão Carrasquer. Fomos a mesa de organização para importuná-los. Questionamos sobre a procurada.
— Inmaculada deu una subidinha. Ela foi pelas escaleras... mas ela já regressa.
— Nós ganhamos una beca para participar del congress. Somos brasileños. E queremos sacar uma foto.
— Só um instante — disse a mulher se virando para um homem calvo. Ela gritou — Cesário (Felícia e eu nos viramos imediatamente), Inmaculada já descerá?
— Si, ela subiu e já volta.
— Cesário — disse Felícia — somos do Brasil e queremos sacar uma foto com usted.
Ele deu uma risada e uma explosão de flash marcou o momento.
Mas a aventura continuaria, pois queríamos saber quem era Inmaculada Carrasquer.
Aguarde leitor, ainda neste episódio saberás.
O aguardo acabou. Vou contar agora.
No inicio do intervalo procuramos a procurada. A primeira mulher que nos atendeu nos viu e abordou-nos e disse que Inmaculada Carrasquer estava presente.
— Inmaculada, eles ganharam uma beca e querem uma foto.
Sim, era ela. Inmaculada. A mulher que visualizei por semanas. “Ela é a carrasquer?”, pensei. Inmaculada era uma mulher ... Ah, veja na própria foto sacada.
Depois dos projetos realizados ganhamos a cidade.
Pegamos o metro na estação Facultats em direção a Benimaclet. Ali fizemos uma conexão com a linha 4. Acabamos descendo na frente do Colégio Mayor, na estação Tarongers. Ali, minha amiga Cândida contou-nos que esteve aqui nos procurando no dia anterior. De tanto que perguntava nas ruas de Valência onde ficava o Colégio Mayor, ela tinha conseguido chegar. Achei aquilo de uma delicadeza e uma prova de amizade. Ali, conheci melhor quem era a minha amiga Cândida. Mal sabia eu o que ela faria por mim, numa das maiores aventuras de sua vida. Aguarde os próximos episódios, curioso leitor. Esqueci de contar o porque de termos parado na Tarongers. O elétrico, quando o pegamos, anunciava que a ultima parada era em frente a minha casa. Ficamos ali esperando a próxima linha passar.
Fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Um lugar em que a arquitetura é a obra das mãos homem por meio de uma criação maior. A beleza que somente os belos têm acesso. A grandiosidade que somente os gigantes podem pisar. Quem for a Valência tem que ir a esse lugar. Por falta de tempo, devido as apresentações, tivemos que optar de ir a apenas um dos monumentos arquitetônicos: OCEANOGRÀFIC, o maior da Europa. Lá tirei foto com todas as espécies marinhas, inclusive com ele, o leão dos mares, o vilão dos marinheiros de Spielberg. Tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan. TUBARÃO. Para vê-los paga-se a quantia módica de 23 eurinhos, como diria nosso Hospedeiro. Um lugar para passar a tarde inteira.
Mas ficamos ali uma ou duas horas. Havia comunicações das minhas companheiras de jornada. E por estratégia de grupo, decidimos nos eliminar para que pudéssemos comprar a passagem de trem para Barcelona. Os eliminados do paredão foram Felícia, Cleíssima e eu.
Dirigimos-nos, os três, a estação do norte. Lá fomos atendidos por um catalão com más intenções.
— Mas para onde vai essa família?
— Minha madrecita (Cleia), minha irmacita (Felícia) e eucito iremos para Barcelona — respondi.
— Bela mare.
— Quê?
— Bela madre, em catalão.
— Minha madrecita está solteira. Quer namorar, a coitadita.
Cléia queria ter uma sincope.
— De onde vocês são? — perguntou o senhor do guichet.
— Brasil.
— Por isso são guapas.
— E por serem guapas, tem desconto — perguntei eu, o proxeneta.
— Só se voltarem para Valência.
— Não, não voltaremos desta vez — respondeu Felícia, minha irmacita.
Compramos três passagens para as 6h40min do dia 09/09 com destino a Barcelona. E outras OITO viajes para as 10h para o mesmo destino: BARCELONA-SANTS.
Depois disso fomos para a faculdade. As apresentações se encerraram. Os grupos se separaram: uns foram fazem compras no El Corte Inglês; enquanto outro foi descobrir a história de Valência no MUSEU DA HISTÓRIA DE VALÊNCIA. Tivemos uma dificuldade de chegar ao museu. As setas indicavam, mas parecia que as ruas sinuosas não auxiliavam o melhor caminho. Assim que descemos da estação de metrô perguntamos a um passante, que além de nos explanar o trajeto a tomar, ainda nos deu uma aula sobre um prédio histórico por onde passávamos. Mais uma vez ficamos encantados com a educação e sensibilidade dos valencianos. Conseguimos chegar ao museo. Ali viajamos no tempo para 138 a.C. Deparamo-nos com as invasões visigodas, com o comércio da Catalunha, com as laranjas valencianas, com o arroz valenciano, com a cultura da cidade que foi capital da Espanha, com a cidade que foi e é uma porta do Mediterrâneo, com a cidade que criou a paella. E para finalizar esse passeio histórico, quando chegamos numa das salas labirínticas, uma película iniciou. Assistimos ao filme, que contava os bombardeios culturais e bélicos que a cidade sofreu no decorrer de sua história. Foi muito bom.
Fomos para casa. Tomei um banho e desci para jantarmos. Depois do jantar fui para o quarto de Felícia, onde ficamos conversando com a italiana, sua companheira de quarto. Falamos sobre a imagem do Brasil no mundo, sobre cultura e algumas experiências.
Quando cheguei no meu quarto, deparei-me com o romeno. Começamos mais uma vez nosso bilinguismo. Falei para ele sobre o encontro com Cesário Calvo e Inmaculada Carrasquer, sobre os passeios na cidade, sobre os eventos do congresso. Ele contou-me, cheio de titubeios, pois não conseguia encontrar as palavras em castelhano, sobre sua apresentação. O titubeio foi tamanho que ele reduziu todas as impressões em:
— Foi tudo bem. Bem.
Continuamos uma conversa dinâmica, como sempre. Acabei falando sobre a praia de Malvarrosa, seu público e os fenômenos que lá ocorrem. O romeno fez-me uma pergunta que gelou minha espinha e paralisou minha arte de pensar. Perguntou com olhos esbugalhados de cigano, com um sorrisinho locupletável e com dentes de vampiro de Bucareste
— Tem muchos hombres na praya?
Só uma palavra pode descrever o que sentia:
MEDO .
“Ih, não sei não, vai ter sacanagem” — dizia uma feiticeira.
“Isso ai tá estranho, tá estranho, hein” — dizia uma aluna intrigada.
MEDO.
Lá estavam as fotos. Fora comprovado por meios técnicos que o hospedeiro gostava de tocar uma panela. O hospedeiro era gay. Mas não um gay afetado, mas um gay três eurinhos. Três eurinhos e discreto. A foto mais insinuadora foi aquela em que um pseudoamigo lhe tocava o ombro, e o hospedeiro, delicado com a tamanha intimidade, tocava-lhe a mão que afagava o peito. Mas isso, quem sabe não é nada. Quem sabe seja uma postura aceitável no velho mundo. (???)
Felícia, minha amiga, mais rápida que a luz, lançou-lhe um recado na face do livro do nosso cozinheiro. Foram palavras simples, sem nenhuma indiscrição, muito pelo contrário; dizia ali que fora um dos melhores voos até então navegado.
Mal sabíamos nos que o hospedeiro gay estaria em Barcelona, na mesma cidade de nossa parada turística.
********
Mas continuando o fado, triste leitor, quero contar as peripécias aristotélicas que ocorrerem no segundo dia em Valência.
Despertei, tomei, mais uma vez, aquele café da manhã fabuloso que nos foi apresentado no Colégio Mayor.
Saímos rumo a Faculdade.
Sim, era o dia de apresentações de trabalhos científicos. Minha amiga, Lindy, estava no aguardo da professora, pois apresentariam juntas as pesquisas. Professora esta que não encontramos ainda, desde a nossa chegada ao paraíso achado.
Por um encontro do destino, entre os corredores da faculdade, acabei topando com a professora e a legião de amigas perdidas e desgarradas. Abraçamo-nos e estava tudo resolvido. Elas contaram-me que o hotel em que estavam hospedadas não ficava em Valência, mas sim em Gandhia, uma cidade há 50 minutos de trem. Narraram-me que após a nossa despedida no aeroporto, elas tiveram que pegar um taxi, três taxis para ser mais coeso, rumo ao endereço que demarcava no voucher da companhia turística. Os táxis percorreram nada mais do que duas horas, segundo a narração das moças de Gandhia, e quando o taxi trafega, o taxímetro dança, e a maquininha rebolou, mas rebolou tanto que cansou quando chegou a marca de noventa euros, meu leitor. Sim, noventa euros. Jamais poderíamos imitar o nosso hospedeiro Ryanair e dizer: — Noventa eurinhos. E para finalizar as aventuras, perceberam que não ficava em Valência o hotel. Logo, tinham que pegar o trem, pagando sete eurinhos e dez centavinhos para chegar a Valência, mais precisamente na estação do Nord.
Por essa razão não nos encontramos ontem.
As apresentações de trabalho foram bem sucedidas. Ao meio-dia iniciou o intervalo. Fugimos para a cidade. Felícia, Lindy e eu nos colocamos a disposição a levá-las a locais que não puderam conhecer.
Quero aqui contar um evento que vinha no meu intimo. Como sabes fui contemplado com uma bolsa para participar do congresso. E para que tudo desse certo eu tinha que me comunicar com duas pessoas de nome catalão: um deles, o organizador do congresso, Maria Luci, opa, errei o nome, é um homem, o nome dele é Cesário Calvo Rigual. Muito quis conhecê-lo e agradecer a bolsa concedida a mim. Mas também houve uma outra personalidade, a Senhora Inmaculada Carrasquer, aquela que me inscreveu e aceitou a minha beca.
Felícia e eu, nos corredores da faculdade de filologia e comunicação, decidimos procurar Inmaculada Carrasquer. Desejava saber como eram as feições desta senhora de alcunha tão Carrasquer. Fomos a mesa de organização para importuná-los. Questionamos sobre a procurada.
— Inmaculada deu una subidinha. Ela foi pelas escaleras... mas ela já regressa.
— Nós ganhamos una beca para participar del congress. Somos brasileños. E queremos sacar uma foto.
— Só um instante — disse a mulher se virando para um homem calvo. Ela gritou — Cesário (Felícia e eu nos viramos imediatamente), Inmaculada já descerá?
— Si, ela subiu e já volta.
— Cesário — disse Felícia — somos do Brasil e queremos sacar uma foto com usted.
Ele deu uma risada e uma explosão de flash marcou o momento.
Mas a aventura continuaria, pois queríamos saber quem era Inmaculada Carrasquer.
Aguarde leitor, ainda neste episódio saberás.
O aguardo acabou. Vou contar agora.
No inicio do intervalo procuramos a procurada. A primeira mulher que nos atendeu nos viu e abordou-nos e disse que Inmaculada Carrasquer estava presente.
— Inmaculada, eles ganharam uma beca e querem uma foto.
Sim, era ela. Inmaculada. A mulher que visualizei por semanas. “Ela é a carrasquer?”, pensei. Inmaculada era uma mulher ... Ah, veja na própria foto sacada.
Depois dos projetos realizados ganhamos a cidade.
Pegamos o metro na estação Facultats em direção a Benimaclet. Ali fizemos uma conexão com a linha 4. Acabamos descendo na frente do Colégio Mayor, na estação Tarongers. Ali, minha amiga Cândida contou-nos que esteve aqui nos procurando no dia anterior. De tanto que perguntava nas ruas de Valência onde ficava o Colégio Mayor, ela tinha conseguido chegar. Achei aquilo de uma delicadeza e uma prova de amizade. Ali, conheci melhor quem era a minha amiga Cândida. Mal sabia eu o que ela faria por mim, numa das maiores aventuras de sua vida. Aguarde os próximos episódios, curioso leitor. Esqueci de contar o porque de termos parado na Tarongers. O elétrico, quando o pegamos, anunciava que a ultima parada era em frente a minha casa. Ficamos ali esperando a próxima linha passar.
Fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Um lugar em que a arquitetura é a obra das mãos homem por meio de uma criação maior. A beleza que somente os belos têm acesso. A grandiosidade que somente os gigantes podem pisar. Quem for a Valência tem que ir a esse lugar. Por falta de tempo, devido as apresentações, tivemos que optar de ir a apenas um dos monumentos arquitetônicos: OCEANOGRÀFIC, o maior da Europa. Lá tirei foto com todas as espécies marinhas, inclusive com ele, o leão dos mares, o vilão dos marinheiros de Spielberg. Tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan. TUBARÃO. Para vê-los paga-se a quantia módica de 23 eurinhos, como diria nosso Hospedeiro. Um lugar para passar a tarde inteira.
Mas ficamos ali uma ou duas horas. Havia comunicações das minhas companheiras de jornada. E por estratégia de grupo, decidimos nos eliminar para que pudéssemos comprar a passagem de trem para Barcelona. Os eliminados do paredão foram Felícia, Cleíssima e eu.
Dirigimos-nos, os três, a estação do norte. Lá fomos atendidos por um catalão com más intenções.
— Mas para onde vai essa família?
— Minha madrecita (Cleia), minha irmacita (Felícia) e eucito iremos para Barcelona — respondi.
— Bela mare.
— Quê?
— Bela madre, em catalão.
— Minha madrecita está solteira. Quer namorar, a coitadita.
Cléia queria ter uma sincope.
— De onde vocês são? — perguntou o senhor do guichet.
— Brasil.
— Por isso são guapas.
— E por serem guapas, tem desconto — perguntei eu, o proxeneta.
— Só se voltarem para Valência.
— Não, não voltaremos desta vez — respondeu Felícia, minha irmacita.
Compramos três passagens para as 6h40min do dia 09/09 com destino a Barcelona. E outras OITO viajes para as 10h para o mesmo destino: BARCELONA-SANTS.
Depois disso fomos para a faculdade. As apresentações se encerraram. Os grupos se separaram: uns foram fazem compras no El Corte Inglês; enquanto outro foi descobrir a história de Valência no MUSEU DA HISTÓRIA DE VALÊNCIA. Tivemos uma dificuldade de chegar ao museu. As setas indicavam, mas parecia que as ruas sinuosas não auxiliavam o melhor caminho. Assim que descemos da estação de metrô perguntamos a um passante, que além de nos explanar o trajeto a tomar, ainda nos deu uma aula sobre um prédio histórico por onde passávamos. Mais uma vez ficamos encantados com a educação e sensibilidade dos valencianos. Conseguimos chegar ao museo. Ali viajamos no tempo para 138 a.C. Deparamo-nos com as invasões visigodas, com o comércio da Catalunha, com as laranjas valencianas, com o arroz valenciano, com a cultura da cidade que foi capital da Espanha, com a cidade que foi e é uma porta do Mediterrâneo, com a cidade que criou a paella. E para finalizar esse passeio histórico, quando chegamos numa das salas labirínticas, uma película iniciou. Assistimos ao filme, que contava os bombardeios culturais e bélicos que a cidade sofreu no decorrer de sua história. Foi muito bom.
Fomos para casa. Tomei um banho e desci para jantarmos. Depois do jantar fui para o quarto de Felícia, onde ficamos conversando com a italiana, sua companheira de quarto. Falamos sobre a imagem do Brasil no mundo, sobre cultura e algumas experiências.
Quando cheguei no meu quarto, deparei-me com o romeno. Começamos mais uma vez nosso bilinguismo. Falei para ele sobre o encontro com Cesário Calvo e Inmaculada Carrasquer, sobre os passeios na cidade, sobre os eventos do congresso. Ele contou-me, cheio de titubeios, pois não conseguia encontrar as palavras em castelhano, sobre sua apresentação. O titubeio foi tamanho que ele reduziu todas as impressões em:
— Foi tudo bem. Bem.
Continuamos uma conversa dinâmica, como sempre. Acabei falando sobre a praia de Malvarrosa, seu público e os fenômenos que lá ocorrem. O romeno fez-me uma pergunta que gelou minha espinha e paralisou minha arte de pensar. Perguntou com olhos esbugalhados de cigano, com um sorrisinho locupletável e com dentes de vampiro de Bucareste
— Tem muchos hombres na praya?
Só uma palavra pode descrever o que sentia:
MEDO .
“Ih, não sei não, vai ter sacanagem” — dizia uma feiticeira.
“Isso ai tá estranho, tá estranho, hein” — dizia uma aluna intrigada.
MEDO.
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PERIPÉCIAS ARISTOTÉLICAS PELO MUNDO
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Ai rua da praia cheia de livros
Antes de ontem foi um dia mui interessante. Não que os outros não tenham sido. Bem, o que quero dizer com a intensidade da interessância é que hoje fui pela primeira vez, neste ano, à feira. Lá encontrei maças, aboboras e inúmeras tendinhas de que muito me apeteceram. Como ocorre com a feira do livro de Porto Alegre. É a época de nadar nas aventuras que somente a leitura pode proporcionar aos sonhadores solitários. Maças porque são tentações; abóboras devido a uma banca cujo nome era leituras e gostosuras.
Mas não estive sozinho nessa empreitada. Lá estava comigo Taís Deamici, companheira (de Lula) de aventuras imaginadas no mundo de Boby. Ela, uma das personagens que conheci neste ano inconcebível pela intelectualidade. Viva Xavier de Maistre! A companheira de Lula, que tem no seu celular a música de Dilma, e eu estávamos na feira das variedades. Furunfávamos todas as traças do conhecimento; carcomíamos os próprios olhos e pés.
Enquanto peregrinávamos, Taís disse-me que tínhamos que ir até uma casa de xérox para que ela fotocopiasse as provas dos aluninhos engravatenses. Encaminhamo-nos até o local. Fica ali na Rua dos Andradas, a rua da praia sem praia. Subimos uma escada mortuária e assim que chegamos ao cume não colocamos uma bandeira literária. No máximo depositaríamos uma pedra de crack que possuíamos no bolso. ( Quero salientar que crack neste texto é tão somente uma figura de linguagem, a metonímia. Opa, desculpe, não é essa a figura, mas sim a metáfora. Quem um dia não ficou dependente, logo no primeiro uso, das gotinhas malévolas do Sorinan?). Enquanto fazia essas digressões, que para nada serviram, minha companheira fez as cópias de que necessitava. Mas antes da descida do monte Everest, a confrade anunciou que desejava saber onde era a casa de baño. O proprietário do estabelecimento xerocador anunciou, por sua vez, que a casa de baño ficava na próxima porta a esquerda. Quando olhei para o que se tratava o devido estabelecimento patêntico pus-me a sentar sofregamente. A amiga mesmo assim foi. Eu disse para ela:
— Se tu não aparecer em dez minutos eu chamo a polícia.
O banheiro era escuro... han... han... como posso descrevê-lo? Sujo não era, mas tinha todo um encantamento nebuloso da miséria. O terror de alastrou quando ouvi, do lado de fora, ainda decaído no banco, uma porta rangendo. Meus olhos esbugalharam. Eles esperavam enxergar a figura de minha amiga. Com um piscar de olhos ela apareceu.
Como para baixo todo o santo ajuda, descemos sem pressa.
Decidimos ir ao Mc Café da mesma rua sem praia. Lá ficamos conversando sobre três assuntos: Literatura; A influencia da intertextualidade na literatura; e, A função que a literatura tem na vida da literatura. Logo, falamos de nós. Mas também, para variar, pegamos um voo nada rasante e nos aconchegamos nos planos futuristas de um vale encantado que encontraremos quando sairmos da faculdade: um abismo de possibilidades. Depois de um bom tempo lá dentro, preferimos ir para um lugar que tinha ar condicionado, na rua. O aquecimento global dentro de um Mc Donalds é maior que a taxa do PIB em governo tucano.
Na rua, protegidos do aquecimento global e do governo tucano, continuamos nossos papos de literatura como signo a frente do admirador. Exemplificamos sobre alguns casos de literatura de massa versus a literatura entendível de Guimarães Rosa e da tia Clarice Lispec (olha a intimidade do leitor de alma já formada!). Depois, ainda na rua sem fim e cheia de praia, nos deparamos a falar, parados numa esquina não dada a prostituição, sobre os mesmos assuntos. Queríamos ficar ali mais tempo, naquela Andradas que poucos, como eu, conhecem a noite, toda iluminada falada sobre Literatura, de ponta a ponta. E por ali anda passavam pessoas que não tinham a usança de ter como companhia um bom livro. Somente nos dois – mas que arrogância despretenciosa.
Mas não estive sozinho nessa empreitada. Lá estava comigo Taís Deamici, companheira (de Lula) de aventuras imaginadas no mundo de Boby. Ela, uma das personagens que conheci neste ano inconcebível pela intelectualidade. Viva Xavier de Maistre! A companheira de Lula, que tem no seu celular a música de Dilma, e eu estávamos na feira das variedades. Furunfávamos todas as traças do conhecimento; carcomíamos os próprios olhos e pés.
Enquanto peregrinávamos, Taís disse-me que tínhamos que ir até uma casa de xérox para que ela fotocopiasse as provas dos aluninhos engravatenses. Encaminhamo-nos até o local. Fica ali na Rua dos Andradas, a rua da praia sem praia. Subimos uma escada mortuária e assim que chegamos ao cume não colocamos uma bandeira literária. No máximo depositaríamos uma pedra de crack que possuíamos no bolso. ( Quero salientar que crack neste texto é tão somente uma figura de linguagem, a metonímia. Opa, desculpe, não é essa a figura, mas sim a metáfora. Quem um dia não ficou dependente, logo no primeiro uso, das gotinhas malévolas do Sorinan?). Enquanto fazia essas digressões, que para nada serviram, minha companheira fez as cópias de que necessitava. Mas antes da descida do monte Everest, a confrade anunciou que desejava saber onde era a casa de baño. O proprietário do estabelecimento xerocador anunciou, por sua vez, que a casa de baño ficava na próxima porta a esquerda. Quando olhei para o que se tratava o devido estabelecimento patêntico pus-me a sentar sofregamente. A amiga mesmo assim foi. Eu disse para ela:
— Se tu não aparecer em dez minutos eu chamo a polícia.
O banheiro era escuro... han... han... como posso descrevê-lo? Sujo não era, mas tinha todo um encantamento nebuloso da miséria. O terror de alastrou quando ouvi, do lado de fora, ainda decaído no banco, uma porta rangendo. Meus olhos esbugalharam. Eles esperavam enxergar a figura de minha amiga. Com um piscar de olhos ela apareceu.
Como para baixo todo o santo ajuda, descemos sem pressa.
Decidimos ir ao Mc Café da mesma rua sem praia. Lá ficamos conversando sobre três assuntos: Literatura; A influencia da intertextualidade na literatura; e, A função que a literatura tem na vida da literatura. Logo, falamos de nós. Mas também, para variar, pegamos um voo nada rasante e nos aconchegamos nos planos futuristas de um vale encantado que encontraremos quando sairmos da faculdade: um abismo de possibilidades. Depois de um bom tempo lá dentro, preferimos ir para um lugar que tinha ar condicionado, na rua. O aquecimento global dentro de um Mc Donalds é maior que a taxa do PIB em governo tucano.
Na rua, protegidos do aquecimento global e do governo tucano, continuamos nossos papos de literatura como signo a frente do admirador. Exemplificamos sobre alguns casos de literatura de massa versus a literatura entendível de Guimarães Rosa e da tia Clarice Lispec (olha a intimidade do leitor de alma já formada!). Depois, ainda na rua sem fim e cheia de praia, nos deparamos a falar, parados numa esquina não dada a prostituição, sobre os mesmos assuntos. Queríamos ficar ali mais tempo, naquela Andradas que poucos, como eu, conhecem a noite, toda iluminada falada sobre Literatura, de ponta a ponta. E por ali anda passavam pessoas que não tinham a usança de ter como companhia um bom livro. Somente nos dois – mas que arrogância despretenciosa.
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