DISCURSO DE FORMATURA ESCRITO POR RAFAEL SCHAWARTZHANPT, aluno recém formado na 8ª série.
Não vou começar com aquele clichê de timidamente cumprimentar a todos os presentes e fazer agradecimentos, porque essa turma que eu represento, não é clichê. Não é clichê, e no ano da formatura dessa, na qual se inspirou o primeiro patriarca lusófono para a criação da palavra VANGUARDA, nada mais justo do que me portar de acordo com o perfil desses malucos.
Vou começar do meio, talvez atropelar algumas palavras. Que me desculpem os amigos formandos, se em algum momento eu chegar a gaguejar. Preciso dizer que muito sobrenaturalmente eu me seguro pra não cair em prantos, vendo toda essa galera alinhada de gel e de disciplina. Pelo menos hoje! Muito me alegra ver todos os olhos bem-pintados e as barbas devidamente aparadas, sentindo no ar essa miscelânea de perfumes do boticário e desodorantes rexona, pensando que finalmente nos será entregue o canudo, símbolo do crescimento!
Crescemos, 81, é isso aí! Rimos, brigamos, brincamos e brigamos mais um pouquinho. Todos fomos um. Amei todos vocês, do amor mais puro vertente de um coração maltrapilho, e também os odiei, do ódio mais negro de um cérebro psico-bipolar, jóia. Joia sem acento, é uma paroxítona em ditongo aberto. Quem aí lembra disso? Quem aí vai lembrar de mim? Eu sou a 81, que canta e apoia sem parar. A 81 que faz poesia enrodilhada nos tijolos envernizados da sala 14, sem nem mesmo tentar! A 81 da taça de 2010, e do salto alto de 2012. A 81, que tem mais rostos do que Black and White, do Michael Jackson.
Se não todos, a maioria de vocês eu conheço desde pequenos pingos de gente, esvoaçando os cabelos ainda tratados de johnson's baby pelo pátio dessa escola. Lembro-me, do primeiro dia, a primeira experiência fora dos braços de mamãe, para um mundo que podia me ser o algoz, ou que me podia ser um porto seguro. Podia esse mundo também, no imensurável leque de opções boas e ruins que tem, me ser os dois ao mesmo tempo. Senti medo. Senti ansiedade, excitação, coração pulsando mais do que o normal. Vontade de chorar, e de sorrir. Senti vontade de ir ao banheiro, e então corri para o feminino. Não soube, ou tive tempo para dissernir, e ao voltar para o pátio, encontrei meia dúzia de aluninhos rindo da minha cara, que corou na mesma hora. Foi o primeiro baque.
Com isso meus amigos, quero dizer que essa vida é matreira, e ainda vai armar muitas mazelas para vocês. Estão saindo hoje, das garras do nosso querido algoz Rubens, para as do mundo, que lhes serão muito piores. Digo com a certeza de que a raiz quadrada de nove é três, que muitos desses baques vão sofrer. Baques grandes. Tanto no amor, quanto no trabalho, na vida social, e em toda essa parafernalha que somos obrigados a viver. Quero pedir a vocês, que em cada dificuldade, lembrem desse momento aqui, ou de qualquer outro momento bom de suas vidas, porque hoje, conversando sobre meu episódio com o banheiro feminino, eu gargalho. Tirem por conclusão, de que todas as dificuldades viram comédia no futuro.
Se me permitem aconselhar, mantenham-se sempre fortes. Cultivem amizades. Cultivem amizades fortes, como as que temos e não temos por aqui. Apoiem-se nelas, ninguém faz sucesso sozinho Sonhem, meus amigos. Queiram sempre mais, sejam ambiciosos. Usem protetor solar. Coloquem um casaquinho pra sair no vento, e o mais importante, não fujam dos problemas.
Uma sombra se vai oca pelos confins de um beco lúgubre, espreitando um qualquer preocupado. Quanto mais ele expira medo, mais acresce a sombra. Um golpe surdo, um abraço escuro, e pronto. A sombra levou o coitado. Levou o coitado, e o outro que andava assoviando quase ao lado, saiu ileso.
(Se enrolar em palavras é comigo mesmo...)
E parafraseando o amigo Mário Quintana: "E que fique muito mal-explicado, não faço força pra ser entendido, quem faz sentido é soldado."
Citações à parte, cá estamos. Agora sim, boa noite meus amigos professores, funcionários, pais e convidados. Sei da importância de cada um para a formação desses que estão em fila aqui na minha frente, portanto em nome de todos eles, e em meu nome também, agradeço à vocês pelo dia de hoje.
Um agradecimento especial, à nossa paraninfa, professora Roseane Mota, que durante os principais anos desse caminho de espinhos quase sem rosas, que é popularmente denominado ensino fundamental, nos foi nada menos do que uma mãe. Mãe que, tão simples quanto uma equação de pitágoras dentro de outra em bháskara, nos trouxe remédio e sobremesa. Ainda haverá muitos professores de matemática em nosso caminho, mas tu, Roseane, serás sempre infungível. Em todas as minhas tenras memórias dessa gente, vai se ouvir ao fundo ecoar um brado teu, puxando a orelha dessa velha 81: TEMOS SÓ UM PERÍODO!
Agradecemos também, o nosso homenageado, o professor Alex Valério, que muito além das barreiras gramáticas, deu em suas aulas lições de vida. Não é à toa que foi escolhido paraninfo das duas outras turmas que hoje dividem com a gente, a emoção do rito de passagem, é um grande homem e merece toda a admiração que tem.
Aos demais professores, deixo a humilde mensagem de que, se lecionarem e agirem sempre do jeito que o fazem, daqui vinte anos, teremos grandes, grandes mentes trabalhando à serviço dessa nossa sociedade, atualmente tão ignorantemente pútrida.
E então, aos meus colegas, aos queridos, e aos nem tanto, se permitam! Se permitam sonhar, planejar, fazer, concretizar. Se permitam um banho de chuva, pelo menos uma vez por ano: dancem na chuva, pulem em cima das poças d'água, e aceitem de bom-grado o possível resfriado que vem logo a seguir.Aumentem-se, reconheçam suas qualidades. Façam ligações de desculpas, abracem um desconhecido! Permitam-se chorar. Permitam-se sempre se permitir, e em troca, tudo lhes será permitido também. Vivam os pequenos prazeres da vida, antes que estes vivam-se sozinhos sem que seja percebido, e o tempo tenha se esgotado.
Para não me estender demais, quero fazer um pedido aos meus formandos. O último, como aluno da 81. 81, entoemos em uma só voz, aquela, aquela composição de nosso Ruan, que nos fez unidos, pela última vez. Obrigado pela atenção às nossas tortas considerações.
(Grito de guerra)