A história foi travada no momento em que a passageira, a Senhora M... havia nos avisado que seu voo para Roma estava prestes a decolar. Desesperada, a Senhora M... reclamava, e de tanto reclamar comoveu-nos até que ligamos para a empresa responsável para que uma ajuda fosse enviada por algum deus. Depois da Senhora M... conversar com a agência de viagens, ficamos atrás daquele ônibus a conversar. Eis então, como fizera Cervantes na obra mais lida no mundo, contarei a novela contada por nossa CURIOSA IMPERTINENTE.
Eis a história que ela nós contou:
" Certo dia, quando recém estava me formando, e por coincidência estava pronta para me casar com um homem que havia sonhado determinei que queria morar na Itália. Por anos, eu o amava, e ele a mim, como é bom ter esse sentimento de reciprocidade, porém esse sentimento de reciprocidade foi acabando assim que me formei. (Gostaria de ressaltar ao leitor, que me persegue que a Senhora M... era de Belo Horizonte). E morando na Itália gostaria de me relacionar com um italiano ou um sueco maravilhoso. Nada mais simpático do que quer algo e os anjos disserem amém. Meses antes de meu casamento conheci um sueco e paralelamente a isso ganhei uma pobre bolsa para pesquisar sociologia na Itália. Com o ganhar da bolsa, fugi. Deixei o noivo e levei o sueco comigo para a Itália. Vivemos alguns meses juntos até o momento em que um italiano cruzou o meu caminho. Nada mais fácil que querer um italiano estando na Itália. Mantive um caso clandestino com o italiano, mas esquentando o edredon do sueco nas noites frias do inverno. Certo dia, fazendo minhas pesquisas, em Veneza, tive a oportunidade de estar cara a cara com um premier conhecidíssimo por seus comportamentos dignos de uma obra de Marquês de Sade. Cara a cara é uma metáfora das cenas libertinas que tivemos na aguada Veneza. Ele nem se importava, pois a mulher dequele conhecidíssimo premier italiano estava nos braços do prefeito de Veneza, cuja mulher deste estava viajando a negócios. (Eu vibrava com a história dessa Senhora M...)"
O telefone tocou. Era a companhia aerea Ibéria que telefonava para Senhora M... para dizer-lha que o voo se atrasaria, logo que nao se preocupasse com o horário, pois conseguiria fazer o check-in em tempo hábil. Radiante de felicidade, continuou a contar sua narrativa pitoresca.
" Como brasileira abordava em minhas pesquisas o preconceito contra os brasileiros em aeroportos na Europa. Certa vez fui barrada, por ser brasileira, e comparada com uma prostituta. Impediam-me de entrar na Inglaterra. Deixei que eles fizessem todos os tipos de humilhações. Permiti até onde pude. Então, abri minha bolsa e peguei meu passaporte vermelho, passaporte italiano e joguei na cara daquele inglês sem vergonha. Logo, entrei na Inglaterra e fiz minhas pesquisas. (Perguntei para ela dos homens com quem mantinha relação. Ela contou-me:) Sabe, homem é um bicho muito fácil de se manipular. O sueco desconfiava de mim, eu dava uma dura nele, fazia-me de coitada, de injustiçada, até que ele deixava o assunto de lado. Mas hoje vivo somente com o italiano, sem muito dinheiro. Mas eu gosto mesmo é do sueco, mas ele quer que eu mude, quer que eu seja só dele. Ele não sabe, não compreende que tenho mais coisas a fazer..."
CHEGAMOS AO AEROPORTO FRANCISCO DE SÁ CARNEIRO. Placas gigantescas de cor amarela dizia que haviamos chegado a nosso destino. Vidros verdes cobriam todo aquele terminal.

A Senhora M... foi a primeira a sair do ônibus. Todos a abanavam. Certamente conseguiu pegar o seu voo.
Corremos, meus companehiros de viagem e eu, até a fila do check-in. Havia uma fila imensa. Nem um minuto depois uma das companheiras percebeu que estávamos na fila com destino a Basel. Meu Deus, Basel! Paris era no lado. Não havia fila ali. Fizemos nosso check-in sem problemas, mas com uma peripécia. Os voos da Easy Jet não marcam lugares. Os lugares são conquistados por ordem de chegada na nave. Passamos pela imigração e fomos ao portão de embarque. Lá havia mais de 200 pessoas. Éramos os últimos da fila, os últimos a entrar para o voo para Paris.
Fomos andando até a aeronave. Tiramos fotos e conquistamos lugares aprazíveis. A comissária de bordo, uma francesa, foi até mim e disse falando algo em francês. Coube a mim dizer: "Je ne parle pas français" Ela me disse: "Eu não falo Português!" Então um casal de portugueses, bem idosos, sofridos como um fado, conversaram com a comissária. Os idosos me informaram que a aeromoça me mandou dizer que, caso a avião caísse eu seria o responsável por puxar a alavanca de emergência, pois eu estava no centro da aeronave. "Não se preocupe, não será necessário, se Deus quiser" disse me o senhor. Não tirava os olhos da alavanca. O único fato que tirou minha atenção da alavanca foi a voz do comissário de bordo, que disse: " Atenção senhores passageiros, meu nome é Robbie, servirei como comissário de bordo deste voo, e estamos nos dirigindo a Paris, ao aeroporto Charles de Gaulle. Neste momento faz 5ºC em Paris e está nevando. A cidade está linda e encantando a todos. Mas infelizmente, devido a neve que corta a pista do aeroporto, iremos aguardar por aqui, até que o tempo na cidade luz esteja esteja estável para pousos e decolagens"
Mais tarde, nos céus, ou da Espanha ou da França, Robbie passou a vender, como na Voluntários da Pátria de Porto Alegre, produtos de grife. Passava por todos e contava uma histórinha. Ia conversando com os passageiros até que estes falassem alguma palavra pessoal e dai, Robbie, com seu ar efeminado, fazia um escândalo teatral até que o cliente comprasse. "Vamos lá, pessoal, aproveitem que a Libra está em baixa" Até que ele passou por nós e uma amiga, muito amiga, a senhorita L... disse para ele: "O, Robbie, tu deve ganhar comissão pra vender desse jeito". Ele não respondeu, enrolou e continuou vendendo para a senhorita L... Quando ele passou para trás da aeronave, a senhorita L... percebeu que Robbie não usava cueca. Eu perguntei:"Ele está sem cueca?" "Não, amore, ele está usando calcinha, olha lá" Pude observar, com um certo desconforto a calcinha, bem à brasileira, colada as nádegas protuberantes do comissário Robbie.
Chegamos a nosso destino. "Atenção, senhores passageiros, dentro de dez minutos estaremos aterrissando no aeroporto internacional Charles de Gaulle, esta nevando em Paris e a cidade está linda." Na medida que o avião ia vagarosamente decendo, já pude ver pela janela a neve que cobria o campo. Chorava de emoção. Meu Deus, cheguei a Paris! Eu consegui! Mesmo chorando olhava para o lado e testemunhei o casal de idosos orando para que o pouso fosse um sucesso. Assim que o avião parou em solo, levantamo-nos. Quando sai do avião percebi a umidade, o frio e a neve que conquistavam a alma dos amigos brasileiros, que pela primeira vez chegavam a capital francesa. Minha mala foi a segunda a aparecer. Quando a peguei lembrei-me da Senhora M..., que certamente estava chegando a Roma e sendo recebida por seu amante italiano.