quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Se até a globo tem as SUAS retrospectivas, EU também posso ter a minha

Minhas reminiscências de 2010 acercam histórias que são inusitadas (para mim que sempre teve tudo muito bem projetado e realizado na vida). Mas para os outros, quem sabe tu que me lês, não tenha a impressão do inusitado. Quem sabe isso que aqui relatarei nas lembranças 2010 sejam historietas triviais, sofridas e conquistadas entre os demais mutantes da terra.

Para mim, 2010 foi um ano de mudanças, muitas delas radicais. Conheci, no quarto dia do ano, por meio da internet, uma parceria sexual intensa, e tão intensa que durara um dia – graças a Deus; não me lembrava mais como era o nosso litoral: arrepiei-me quando vi a cor das águas tramandaienses; fui a uma casa da praia de uns amigos e lá estavam mais de 30 pessoas; discussões deselegantes por mensagens de texto; afastei-me de pessoas; dispus-me a conhecer outras; fechei-me para o amor; e quando estava fechado para o amor, uma colega de faculdade decidiu fazer o papel de Eros: uma festa, somado a encontros em esquinas que não foram marcados (destino puro) e tudo isso diluído em loucuras do coração humano fez com que eu me resguardasse mais uma vez; mas quando pensei que estaria em paz em relação ao amor, um olhar, somente um olhar e uma gargalhada novos me ludibriaram para o caldeirão da ansiedade; tudo isso ocorreu no ano em que passei 11/12 desempregado, desempregado numa vida cor de rosa; li mais livros tinha em expectativa; conheci autores; fui em casa de Luis Fernando Verissimo e conheci o local onde Erico Verissimo escreveu romances que marcaram a minha vida de leitor; participei de uma oficina de Crônicas com Moacyr Scliar (ele disse que eu escrevo bem); apresentei trabalhos em seminários e congressos; ganhei uma bolsa para participar de um encontro acadêmico na Espanha; ganhei caronas de grandes mulheres-acadêmicas que me deixaram na porta de casa; tive o prazer de conhecer grandes mulheres: Lindy, Cândida, Thais, Cléia, Felicia, Dieniffer, Tia Cida, Aníssima, Barbaríssima, Landinha, Lorena, Martha; viajar: peguei oito voos, cruzei o oceano duas vezes, atravessei a Espanha de trem, revi Lisboa e Paris, conheci a Catalunha e desbravei as cidades camaleoas do mediterrâneo – Valência e Barcelona, embarquei em um ônibus para o litoral (ida e volta), pus mala no carro e fui com uma colega para o centro do estado; festas: não houveram muitas, mas as que houveram provocaram emoções fortes; bebidas: pouco, muito pouco, mas de três semanas para cá, compensou a de uma encarnação (motivo, amores insones); desilusões amorosas: 2; histórias mal contadas: 3; pessoas que afastei de mim: 5; mas as que se aproximaram de mim: creio que umas 15; empregos: 1, engraçadíssimo, ocioso, sexual, divertido, trabalhoso, intrigante, celestial. Entrei em atividade total com a minha profissão: visitei escolas, conheci pessoas importantes da área da educação, corrigi mais de 3000 redações, assisti a aulas motivadoras.

O que mais me marcou em 2010 foram os meus alunos, alunos que conquistei no período de estágio. Eram 19 crianças que tinham desespero pelo conhecimento. Odiavam a escola como qualquer adolescente. Mas gostavam das aulas engraçadas e divertidas de Língua Portuguesa que eu lhes proporcionava. Eles foram mais um motivo de minha ansiedade e depressão, que por motivos não identificados, me visitaram muito neste ano. 2010 foi o ano em que mais chorei. Dormia, chorando. Acordava, assustado. A preguiça me acompanhava em todo o lugar. O descaso emocional dominava meus sentidos; a insatisfação guiava minha conduta. Mas isso se curou com uma viagem. Quem sabe tudo isso se deu devido à ansiedade que tive para prepará-la e para esperá-la. Sei que depois de viajar algo mudou mais um pouco dentro de mim. A depressão de quem volta da Espanha é normal, mas trata-se de uma depressão sócio-cultural – que deve ocorrer com qualquer habitante do terceiro mundo.

Perdi meus alunos; perdi meus amores; perdi algumas pessoas;

Mas em 2011 reconquistarei tudo.

A RECONQUISTA

Reconquistarei meus alunos, porque sou um bom professor; reconquistarei meus amores, por que sou um amante compreensivo; reconquistarei novos amigos — os que se foram não eram amigos. Isso não acabe aos alunos, porque eles sempre o serão; os amores, sempre o serão.

Só sei que quanto mais tenho esperança, mais espero. Quanto mais espero, mais estarei preparado para correr atrás. Quanto mais corro, mais posso cansar. Mas como espero, não cansarei na corrida esperançosa dos sonhos perdidos, porque reconquistá-los-ei em 2011, da mesma forma que os perdi em 2010.

RECONQUISTA é a palavra-chave.

Reconquistar-me-ei.

Conquistar (segundo o dicionário de sinônimos do Word): alastrar-se, difundir-se, invadir, apoderar-se, apossar-se, apropriar-se, usurpar, cobrar, tomar, absorver, adquirir, atrair, captar, colonizar; sucesso, vitória.

Se o prefixo latino –re significa movimento para trás, repetição, algumas fatos repetir-se-ão para aprendizado e vitória. Espero não me debulhar em lágrimas. Mas visto que conquista significa sucesso, reconquistar, é reter o que já tínhamos ganhado.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Estação, Barcelona

Caríssimo leitor, prepare-se para as próximas leituras dessas peripécias turísticas. As emoções, a que os aventureiros do mundo achado sobreviveram, perdurarão nas linhas do tempo – como as emoções de qualquer outro turista – mas usamos aqui para dar mais emoção a cerca da emoção. Certamente o leitor aguardará as últimas quatro ou cinco postagens a respeito da viagem que os amigos fizeram a repastada Europa.


Era nove e quarenta da manhã quando minhas duas amigas e eu desembarcamos em Barcelona, mais precisamente na estação Barcelona-Sants. Fomos pedir ajuda no balcão de informações para saber como chegaríamos a nosso hotel, visto que não conseguíamos achar no mapa que possuíamos, nem mesmo no Google Map, a rua onde ficava o hotel onde nos hospedaríamos. Ali, nas informações, ao sermos atendidos com muita simpatia, fomos informados que nosso hotel não era em Barcelona, mas sim numa cidade metropolitana chamada Saint Joan Despi – o que poderíamos mencionar a distância proporcional entre Porto Alegre e Esteio. Que maravilha ir com uma empresa conhecida e confiável!

Pegamos a linha 157 algumas quadras depois de Barcelona-Sants. Leitor-seguidor, observe na entrelinha que a linha 157 fica próximo da estação de trem. Isso será útil para futuros esclarecimentos no segundo episódio das aventuras barcelonescas.

No final da linha, às 11 horas da manhã, fomos recepcionados no hotel. Deixamos nossas malas em nossos respectivos quartos e voltamos para Barcelona. Descobrimos um eléctrico que nos deixa em Barcelona-Sants, para onde voltamos, para receber as meninas que chegariam as 13 horas.

Antes disso, almoçamos num badaladíssimo restaurante, o Mc Donalds. Uma vez locupletados, percebemos, alguns passos afora do fastfood, que havia guarda-valise no terminal. Então tive a ideia de, ao invés das meninas, que já estavam em trânsito, irem a Saint Joan Despi somente para guardar as malas... Do resto, o leitor-inteligente pode chegar a conclusões sábias.

Atrasado, o Renfe chegou por volta das 13h30min. Escrevemos Família Tobias num papel e esperamos as belas brasileiras. Assim que elas nos viram com aquela placa familiar, puseram-se todas a rirem e abraçarem os parentes saudosos. Depois disso, guardamos suas leves malas e partimos para a terra de Gaudí.

Pegamos a linha 5 do metro. Salve-se quem puder numa estação de metro durante o verão. Cinco paradas depois descíamos na estação Sagrada Família. Era somente seguir as setas turísticas, subir as escadas, ver (no meu caso e do grupo) pela primeira vez como era Barcelona, andar alguns passos à esquerda e ficar boquiaberto com a suntuosidade do monumento. A quantidade de pessoas era absurda. Filas homéricas que pareciam uma corrente oracional pela fé que girava o quarteirão. Conseguimos entrada GRUPO e adentramos, primeiramente, no museo de la sagrada família, que fica no subsolo da basílica. Ali encontramos toda a suntuosidade da arquitetura do catalão Antoní Gaudí, além de observar todos os projetos que idealizaram o intento onde estávamos conhecendo. Sabe-se que uma Igreja é um local para recolhimento e conversas (por vezes decoradas em orações) com Deus. Mas como a casa do Pai estava, e parece que sempre esteve em obras, e creio que continuará estando, o último lugar para o recolhimento e conversas com o criador é a Sagrada Família, pois os sons furibundos que as máquinas oferecem e a presença acalorada dos curiosos turistas ampliam aos fieis sagrados a impropriedade da composição de uma Ave-Maria, por exemplo. Paz!, pedem os acreditados.

A fila para subir as colunas da basílica era imensa. Duraria cerca de quarenta e cinco minutos para conseguirmos acessar uma das torres. Ficaria para uma próxima vez.

Embarcamos na mesma linha de metro e nos dirigimos em direção a Cornellà Center para que pudéssemos descer na estação Diagonal, onde, ali perto, fica La Pedrera, a casa do arquiteto Gaudí. Trafegamos a pé pelo quadrilátero mais rico e elegante da capital catalã: Passeig de Gràcia. As grifes, os banquinhos no meio da avenida, os cafés que esbanjam boa-educação, logo bom-gosto. Não era necessário muito caminhar, pois logo chegamos a uma muvuca. “Deve ser ali”, eu disse. Assim que ali chegamos, percebi que algumas amigas não desejavam entrar. Fomos então, Felícia, Tais, Marcilene, Lúcia e eu. Com o cartão internacional do estudante ISIC paga-se sete euros para se aventurar na casa do arquiteto. Assim que adentramos no prédio, encantamo-nos com as curvas e o colorido que Gaudí esboçou. Embarcamos num elevador que nos deixava exclusivamente no andar que antecipava os castelos de areia, o terraço do prédio. Subindo as escadas ovais (é claro), desbravamos a obra. Dali, poderíamos enxergar boa parte da cidade, desde o mediterrâneo, azul-espelho do céu, até a basílica.
Certamente deste terraço Gaudí idealizava a Sagrada Família, a alguns quarteirões dali. Do outro lado, víamos a Torre Agbar, imenso torre fálica que colore Barcelona em suas quentes noites. O piso do terraço, de uma amarelo-areia, o sobe e desce de escadinhas, o cercado oval, o medo de cair de lá.
Em seguida, fomos navegando pela casa do arquiteto: tudo como no século XIX. O escritório com sua foto e seus livros, o quarto da empregada, o quarto de Gaudí, a cozinha com a mesa adornada de frutas, o frio banheiro social. Ainda tivemos tempo para a lojinha de souvenirs, que fica num dos aposentos. Para descer, aventurávamos pelas escadas, conhecendo os corredores daquele célebre edifício. Nas portas, os nomes dos antigos proprietários dos abandonados imóveis.

Assim que ganhamos a rua, encontramos as amigas que tinham desejado fazer um lanche. Contaram-nos, horrorizadas, que tiveram que pagar um euro para se sentarem numa das dispostas mesas dos cafés da calçada da fama.

Os aventureiros da casa de Gaudí, por moléstia e cansaço, jogaram-se num daqueles soberbos bancos. Na verdade, não eram tão soberbos, tornavam-se assim porque eram bancos da Avinguda Passeig de Gràcia. Averiguamos o roteiro de viagem, olhamos nossa posição no mapa, e decidimos que iríamos a outra obra de Gaudí (para dar uma variada). Park Güell.

Deixamos nos levar pela linha 3, em direção a Canyelles, onde desceríamos, antes, em Lesseps. Fomos andando por aquelas ruazinhas boêmias de Barcelona. Olhava para cima e disse para Lúcia que gosto de bairros altos, pois quanto mais alto, mais podemos apreciar a vista da cidade. Como num passe de mágica, uma placa de mostrou e anunciou que para chegar ao Park Güell tínhamos que entrar na próxima rua. Uma vez nesta, várias camadas de escadas rolantes se mostravam e nos dirigiam ao cume de um bairro. Estávamos encantados com aquela praticidade. Quando ao topo chegamos, pudemos ver a beleza da arquitetura, que muito identificou a cultura espanhola e catalã. Ao fundo, o mar mediterrâneo. Tivemos ainda oportunidade, entre risadas e gargalhadas (que não convém aqui relatar – pois são histórias de bastidores) subir a outro cume, a uma cruz, um símbolo, cujo significado ainda não pesquisei, e não sei porque estava lá. Mas nos aventuramos e juntos tiramos uma foto naquele pequena montanha (acima de outra montanha), pequena montanha esta desprotegida de qualquer deslize.



Continuando a aventura turística, permanecemos o trajeto daquele imenso parque. Certo momento, naquela mata, encontramos a obra propriamente dita de Gaudí. As pessoas descansavam, desfrutavam da liberdade, crianças corriam, turistas regozijavam. Tratava-se de um lugar amparado por linhas curvilíneas que subsistiam devido a cem colunas situadas num nível inferior. As passagens, as colunas, a LAGARTA, o museu.

Já estava anoitecendo, quando decidimos voltar a Barcelona-Sants, resgatar as malas e ir para o hotel, em Saint-Joan Despi. Para isso não pegamos o ônibus 157. Fomos de metro. Pegamos na linha 3, em direção a estação Zona Universitária, e desceríamos na estação de mesmo nome. De lá pegamos um elétrico.

Cheias de bolhas nos pés, as aventureiros iam puxando suas malas pelas ruas de Sanint-Joan Despi. Angustiadas, perguntavam-se onde deveria estar o hotel. Uma vez lá e devidamente acomodados, alguns foram jantar no restaurante do hotel. Outros, como Lindy, Cândida e eu, fomos ao supermercado e compramos sanduíches e bebidas não-alcoólicas.

Uma vez de banhozinhos tomados e alimentados, depositamo-nos em nossas alcovas e sonhamos com qual obra de Gaudí veríamos no dia seguinte.

Mal sabiam alguns dos integrantes da viagem, que passariam por momentos emocionalmente-trágicos no segundo dia da viagem à Barcelona.

Mas por enquanto eles dormiam, sonhando com a realidade recém-conhecida, Gaudí.

Fortes emoções barcelonescas na próxima postagem.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Comemorando demoniacamente o Natal

Havia algo de estranho nesse natal. As cenas não eram típicas. Sei apenas que minha mãe e eu pegamos um táxi em direção a casa de minha madrasta, na Cidade Baixa. Quando chegamos a meu bairro preferido, percebi que havia algo de podre no reino da Dinamarca. O Olaria estava às escuras, O Olaria-morto que enxergava de numa janela de nono andar. O Zaffari fechado. Certamente os funcionários-bourbons tinham, deveras, direito a Santa Ceia. A Lima e Silva sitiada. Bares e pubs fechados. Não estava crendo naquilo, crendo no fantasma que se tornou a personagem personificada por mim. As estranhezas ocorreram quando lá cheguei, no apartamento da comemoração do nascimento do enviado. A primeira tela que vi foi de uma mãe que dava de mamar a sua filha recém-nascida. Aquilo me lembrou o seio da República alimentando o povo. Era a primeira vez tive a oportunidade de conhecer a pequena-nascida, nascida dois meses antes de Jesus (audaciosa ela, não?). A criança alimentava-se com uma habilidade feroz, quase animalesca, degustando toda a sua comemoração por ter nascido em Outubro. Apresentei-me a criança, que me olhava, não com olhos de cigana obliqua e dissimulada, mas sim com uma curiosidade obtusa, calculando os catetos e as hipotenusas de cada gesto meu. Achei a criança de um carisma que muito me sensibilizou. Tanto me sensibilizou, que um minuto depois ela estava no meu colo, não para mamar, pois nessa encarnação não me foram atribuídas glândulas mamárias, mas sim acomodou-se a minha proteção de sua pequena-sesta. Assim que lembrei que a sesta vem depois de uma refeição, e que os bebês costumam, durante sua sesta brindar com um regozijo a existência estomacal, pus-me em pânico trigonométrico. Olhei para a minha calça branca. Uma azia me dominou. E se eu tinha sintonia, mesmo que carismática com aquela pequena-notável, certamente ela também passava sua pequena-ânsia-esofágica. Por Jesus! Ela iria gorfar na minha camiseta gola V, V de Vingança por tê-la tirado das tetas da República. Olhei de soslaio para o lado e encontrei o BICO. Por mais que eu odeie bicos (e por mais que os tenha chupado até os sete anos), vi nessa ferramenta a habilidade mais vil de não ser uma presa fácil da bile daquela herdeira. Mas ela chupava por apenas alguns segundos com aquele objeto libertino, chupava-o delicadamente, e depois cuspia-o, para o meu desespero total. Então, mais uma vez, olhando de esguelha, percebi que a mãe estava atrás de mim. Perguntei para o bebê-gorfador: “ Onde está a mamãe desse bebê lindo, hein, onde está a mamãe?”. Num zás-trás de segundo, a mulher surgiu, recompensando os dez minutos de desespero e repasto. Nem o pai da física calcularia com tamanha precisão a velocidade que a coisa se deu. Não foram três segundos que a criança se viu no colo sem igual, fraterno e humano... Três segundos de reconhecimento aristotélico (nem Telêmaco deveria ter tanta emoção ao reconhecer Ulisses); três segundos de pura exultação; três segundos de júbilo e um segundo apenas de lançamento. FELIZ NATAL!

Ainda havia três horas corrosivas de ceia natalina. Ainda havia outras duas crianças, filhas da mesma mãe; mãe, esta, atual esposa ou concubina, do irmão de minha madrasta. Minha pedagogia não permite relações inter-pessoais com crianças. Sou daqueles que não tenho muita paciência com os aprendizes; sou mais ditatorial, gostando de impor limites as indisciplinadas. E ali estava um clássico exemplo da anarquia e deselegância. Uma delas, a maior, que acabara de passar para o quinto ano, teve o desplante de acariciar o meu cabelo, melenas estas que passo horas para alinhar. O olhar, que somente eu seria capaz de fazer, fulminou a criança, que arregalou os olhos, compreendendo com a profunda sapiência, a linguagem corporal do pecado que ela acabou de cometer em plena comemoração de Jesus Cristo.

Segundos depois, naquele palco, na cena 3, outra criança apareceu, justamente quando eu queria assistir Passione, a novela mais coerente da TV brasileira. A criança em questão era a mais nova, a mais ousada, não tinha a primeira série ainda, logo não era corrompida pela sociedade. Sentou-se a minha frente e passou a fazer comentários que somente uma criança-honesta pode fazer. Ela falou do meu sapato, da minha calça, da minha gola V de Vingança, do meu cabelo recém-desalinhado. Eu me comuniquei com ela, com o mesmo olhar que aterrorizei a outra. Mas com essa, como todos os casos de irmãos diferentes, soltou uma gargalhada. Tive medo dessa criança. Ela era pior do que eu imaginava. Visto que ela começou a dissertar de modo científico sobre o meu olhar, eu a interrompi e perguntei se ela já conhecia a historinha de João e Maria. Ela disse que não. Então falei num estouro: “A Mariazinha era uma guriazinha bem pequenininha e muito bonitinha. Os dentinhos dela tinham uma janelinha. Igualzinho a essa tua. E um dia Mariazinha foi presa na casa de uma bruxa. E essa bruxa deu um peru de natal para ela, para que a Mariazinha ficasse bem gorda. E no dia que a Mariazinha ficasse bem gorda, a bruxa ia fazer picadinho da Mariazinha e a colocaria no forno. E tu sabe por quê? Porque a Mariazinha não calava a boca, não ficava quieta. Imagina se invés do Papai Noel entrasse ali a Bruxa e te colocasse no forno, junto do Peru e do Tender?” perguntei e sai dali. A criança dava gargalhadas homéricas. Foi atrás de mim e disse que queria ouvir outra história. (Tudo que eu havia aprendido na faculdade com Bethelhein sobre a psicanálise nos contos de fadas não tinha dado certo). FELIZ NATAL!

Depois disso chegaram, meu irmão, minha cunhada e a mãe desta. O bebezinho- gorfador havia mamado mais uma vez. Não sei se aquilo era uma tática da mãe, que dava o seio e depois azarava alguém com o colo existencialista. Sei que a próxima vítima da linguagem da criança foi a cunhada. Um quarto de hora depois, a cria abocanhou o bico da mãe. Ninguém mais resguardou a criança. Toda a existência da menina surgiu do âmago e esta batizou toda a genetriz. Aquilo era um circo, um picadeiro lamacento, um comemorar demoniacamente o natal. Só esperava que ninguém fizesse como Macabéa e vomitasse um coágulo.

Em seguida, quando fomos, os adultos sentarem-se à mesa, as infanto-anárquicas, indispostas de toda e qualquer etiqueta de Danuzinha Leão, locupletaram a mesa deixando os adultos insurretos, porém com uma elegância digna dos aborígenes parisienses.

PRECISEI DE ÁLCOOL. Joguei-me num vinho chileno.
Falando em parisenses, da janela da sala, podia ver a cidade, inclusive a minha casa, aos altos de Montmartre, com os cemitérios do bairro e sua basílica pomposa. Queria a minha casa, os meus livros. Depois que as crianças cearam sem total disciplina, prometi a mim mesmo que um dias levá-las-ia no templo positivista de Porto Alegre, ali perto de casa, na João Pessoa, quando elas ouviriam do palestrante: “Temos que voltar aos tempos heróicos da ditadura. Temos que voltar aos tempos do rebenque. Quem não teve um rebenque na vida e não esta vivo?”. Mas como eu não era dono da casa, nem pai, nem mãe das comunistas, eu me abstia de contar histórias infantis (que parece que deu certo, pois algo dentro daquela criança mudou para comigo. Isso se mostrou com o respeito quando eu olhei de soslaio para ela).
Era meia-noite. ELE nasceu à meia-noite? Algumas luzes explodiam na cidade, tímidas e disseminadas no ceu porto-alegrense. Um avião surgia do aeroporto Salgado Filho. Queria viajar. Todos nos abraçamos e desejamos os mesmos clichês de sempre, que por sinal são os mesmos do ano novo. Não seria nada mal que dividíssemos os desejos de natal daqueles de desejaríamos no réveillon. Mas ainda bem que não ficamos naqueles lugares-comuns de paz, amor, felicidade. Desejamos também o concreto, o que bem sabemos o que o outro deseja. É muito mais interessante e fundamental do que o famigerado e inteligentíssimo TUDO DE BOM.

Alguns raios-tempestade surgiam no céu. Já era hora de voltar para casa. Ali começou a dialética do táxi, pois as centrais não atendiam as chamadas dos clientes que desejavam a todo custo e sofrimento ir para casa. Eu exclamei: “Mãe, vamos descer, que, assim que chegarmos na rua, um táxi sobrepujará a Lima e Silva e entraremos no final feliz desse conto de fadas.” Todos duvidaram de minhas palavras. Como era natal, contive-me, com o poder de Cristo, da propriedade da verdade, pois, em tese, sou dono dela. “Que um raio estoure na minha frente se eu não estiver certo”. Virei-me para a janela e queria, devido o calor intenso, que, caísse um temporal impar.
Disse para todos, alguns minutos depois: “Au revoir, famille”. Era muita discussão por causa de um táxi. Puxei a âncora, dei um tchau-geral. Chamei o elevador. Descemos. Na saída, quando abrimos a terceira porta para a rua (hoje vivemos trancafiados), surgiu, me meio a chuva, um táxi, vazio, livre, como o seio da República.
Em cinco minutos estávamos em casa. Despi-me e fui enriquecer-me com meu novo amigo, Vargas Llosa. Durante a leitura, estrondos de Zeus, ou de Posidon alavancaram as emoções. Ulisses deve ter furado o olho do ciclope polifemo?
Estava tão entretido com as histórias de La tía Julia y el escribidor que mal dava valor aos estrondos que os deuses enviavam. As luzes piscavam, anunciando a possível treva. Certo momento, o raio, o mais raio de todos os raios, surgiu, bem diante de mim. Sim, leitor-de-espírito-natalino, a história não é fantástica. Eu, na noite de natal, amém, quando embalava a manjedoura, o meu livro, presenciei a presença do invisível, do estrondo apocalíptico. Direto da minha sacada um baque ultra-mega-explosivo-e-ensurdecedor tormentou bem em minha sacada, mais precisamente na churrasqueira, que estorricou em faíscas. Fechei a manjedoura e fiquei petrificado de tamanho horror. Desci para ver minha mãe, que andava com a mão nos ouvidos. Fomos juntos até a janela mais próxima-e-protegida para ver se não tinha aberto uma cratera na avenida.
As trombetas ameaçavam tocar. O enviado estava chegando para o juízo final. E já era sábado, o sétimo dia dos adventistas. Tudo se destruiria no dia em que tudo se concretizou? Oh, que terrível. Não havia nada pior que as trevas e os raios e as águas e os dilúvios.
Com o tempo, o tempo acalmou.
E com isso, o texto também.
FELIZ NATAL!
TUDO DE BOM (sem ponto final)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Despedida de Valência - a urbe da saudade

A história terminou desta maneira:
Fomos conversando, titubeantes, mas titubeantes por causa do excesso de fluência das línguas românicas.
A princípio o romeno disse-me que se tratava de hombres no sentido de homo sapiens, hombre sem gênero, no sentido de persona. Tendando me enganar a parte, conversamos sobre família, amigos e sobre religião. Ele disse-me, para justificar o meu questionamento, que era casado, mas não tinha filhos. O numero de anos que vivera é o mesmo quando Cristo contava três dias antes de ressusrgir. Falamos sobre religião. Parecíamos duas personagens de comédia romântica quando mostramos um ao outro o livro de Salmos que possuíamos. O vampiro cristão disse-me que era evangélico; e eu disse que acreditava numa força maior conduz a vida das pessoas. Expliquei-lhe que seguia a doutrina de Allan Kardec. Eu não sabia se os evangélicos da Romênia eram os mesmos da ceita macabra e dizimática do ressurgimento. Não aumentei esses dogmas epistolares e clericalistas, visto que sabia que o romeno era uma pessoa boa, de bons sentimentos, mesmo que antes tenha mentido descaradamente para um trabalhador com forte mediunidade enviada pelos espíritos superiores da esfera das violetas na janela. Mas para alfinetar, visto que não sou tão santo quanto deveria (é por isso que estou reencarnado, alma imperfeita), disse para ele que houve no Brasil um programa de televisão, as telenovelas, que tinha uma personagem destacada das outras, a evangélica da libertinagem, Creuza. Contei-lhe que atrás dos balcões da hipocrisia, a personagem se vendia para os mais desejos irreprimidos que as vulvas copulares poderiam beber. Os olhos do romeno piscaram duas vezes.

Conversamos mais que o habitual. Depois dos vocabulários terem cessado, fui para a sacada, onde olhava a avingunda del naranjos, dividida pela linha 4 e 6 do electrico, dos prédios da faculdade de economia, do campus tarongers, dos galhos das árvores que dançavam com o trepidar do vento de verão. Do outro lado, as quadras de tênis, ao horizonte o centro de Valência, as montanhas. Uma única lágrima crepitava dos meus olhos quando percebi, no meu espírito ainda romântico, que estaria olhando tudo aquilo pela última vez. Mas ao mesmo tempo tratava-se de um misto de felicidade com perda, pois não há no mundo melhor experiência de ir para outro pais, conhecer pessoas novas, trocar culturas, e neste país aprender a língua em loco.

O colega romeno alertou-me do aparecimento dos mosquitos. Com isso entrei e fechei a porta. Tiramos uma foto (eu mais preto impossível; preto in mediterrâneo). Trocamos e-mail. Passei a arrumar a mala. Que tristeza. Foram quatro dias espetaculares em minha vida. Com certeza não contei ao leitor, minuciosamente, os fatos do dia, caracteres que competiam apenas as vidas pessoais de minhas companheiras de jornada;mas digo, por mim, que esses foram os 4 melhores dias do ano de 2010 (MAL SABIA EU QUE SERIA UM DOS QUATRO MELHORES DIAS DE 2010).

Às cinco e meia da manhã acordei com a ligação de minha amiga Felícia.
— Vamos amigo!
— Vamos — disse ainda dormindo.
Fui para a casa de banho. Vinte minutos depois tocava o ombro do amigo romeno, este acordou, levantou-se e nos abraçamos, mas um abraço forte, desprendido de qualquer desejo reparado, ou não reparado, preconceituoso ou não, do abraço de um brasileiro que pensa ser um europeu com um romeno tímido e acanhado. (Pessoas assim chegam fácil-fácil na minha vida). Brasileiros gostam de abraçar, de se tocar. Pensei que ele se acanharia, mas não. Romenos também gostam de um abraço apertado. Puxei minha mala pelo mesmo corredor, abri a mesma porta que abrira cinco dias antes. O romeno ficou segurando-a e me disse:
— Escreve para me.
— Pode deixar — respondi batendo continência.
Acenamos e dei as costas. A porta fechou. Olhei pela última vez (?) aquele corredor repleto de apartamentos, onde moravam estudantes de vários lugares do mundo. E eu, por cinco dias, fui um deles. Entrei para a história do Colégio Mayor Galileu Galilei.

Na saída entreguei a chave do apartamento 158. Despedi-me do recepcionista. Sentadas no hall estavam minhas amigas, minhas companheiras, à minha espera. Neste exato momento em que escrevo, sinto um forte aperto em declarar cenas vividas com tanta intensidade, com tanta verdade que chegam a me faltar o ar, secar os lábios como se uma parte do meu espírito tenha ficado por lá, realizando os sonhos de infância. Sim choro, choro por ser patético, patético por ser um doente apaixonado, apaixonado por ter um vazio, um vazio difícil de complemento, de uma alma insatisfeita. Ali, como em poucos momentos de minha vida, eu sabia que era feliz. Descia as escadas do colégio Mayor para desbravar o resto da Catalunha. Pegamos o electrico. Quando entrei neste, respirei fundo e não quis olhar para trás. Descemos na Benimaclet; e com destino ao aeroporto, seguimos o fabuloso destino. Com destino ao aeroporto, ponto final da linha, descemos na estação Xàtiva, onde fica a Estação do Norte, onde pegaríamos o Renfe para Barcelona.

Era seis e quinze da manhã quando lá chegamos. Fomos a um café. Compramos água, salgadinhos e um café. Deparamo-nos com um personagem parecido com Bryan Kinney; mas isso foi passageiro; um tipo bem catalão. Em seguida fomos passar as malas no raio X e pagamos o trem.

A 200 km/h o trem, que beirava o mediterrâneo, dava todo um luxo a viagem, mais um prazer que colecionaria. Realmente, turismo é a melhor terapia. Três horas depois descemos na próxima estação: Barcelona-Sants, onde fomos recebidos com bem-vindos a capital da Catalunha, o local dos sonhos, da arquitetura, a beleza, do charme, e dos escândalos que viveríamos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Não se sabe a que nome isso se dá

Ele ganhou um fora. Saiu pela Cidade Baixa à procura de uma alma que o ajudasse. Com ela, foi para a vida boêmia e se esgueiraram em meio de hectoplasmas chefiados por Che Guevara. Adentraram num bar cubano, bem barulhento, tomados por sapateios que vinham do andar superior; cercados de mesinhas que mais pereciam pisos ou peças de uma obra de Gaudí. Não sabiam se estavam num clima comunista, que em algum momento arrebentaria a porta o mestre Fidel, ou se realmente se divertiriam naquela noite digna de um suicídio. Digna de um suicídio, digna de uma morte anunciada, de uma morte para uma nova vida. Ele ganhou um fora e se perdeu lá dentro. Naquele ambiente cidade-baixense, mais precisamente no Sierra Maestra, localizado numa ruazinha pútrida, esquecida, velada, morta. Quem por ali passava, poderia enxergar as orgias que ocorria lá dentro, pois um vidro insone e cercado pela calefação dos corações sugados, mostrava, como uma vitrine, os casais dançando, as pernas entrecruzadas, aquele bate-coxa, aquela lascívia, aqueles compassos. Indescritíveis. Lá estava o coração piegas do homem apaixonado, interessado e fora do contexto sexual. Ele e a amiga tomavam a bebida da insanidade, que nomeada na carta de destilados, se autodescrevia – BEBER SEM MIEDO. O medo, ele perdera há horas, não seria um destilado chamado VACA LOKA que regrediria a vida daquele jovem antiquadamente romântico. No final daquela bebida, a embriaguês, que usurpa e rasga a moral dos fracos, entorpeceu a subconsciência do atuante. A tontura dos dionísos, o esquecimento dos deuses, o ambiente incoerente – onde as pernas não faziam mais sentido –, a falta do outro – que poderia estar ali, mas, por opção, e não condição, decidiu estar longe –: tudo isso, mesclado, dava um sentido de pseudofelicidade, mas por escrever felicidade, não deixava de ser felicidade, pois esquecer é ser feliz, mesmo que de mentira. Como a taça de vaca loka cambaleante, o homem, que agora se tornara, pedira uma ácida marguerita. Enquanto não vinha o ébrio bálsamo precioso de Dom Quixote... Um viva a Dom Quixote, o herói dos sonhos, o herói dos moinhos da vida, dos sofrimentos que devemos ultrapassar. Enquanto não vinha o ébrio bálsamo precioso, um grupo musical tomava lugar no recinto. E nesse grupo, havia uma personagem tipicamente cubana, o homem que tocava um instrumento que, para o homem sofredor, e não tocador, parecia ser um instrumento, não sexual, provindo do nordeste. Logo tinham um forró tocado pela típica personagem cubana. Viva Fidel! Uma panamense, a garçonete do antro, aparecia rebolando as ancas de animal do campo – como dizia o amigo Álvares de Azevedo. A marguerita fora sendo sugada com parcimônia; enquanto os canapés, acepipes enganadores dos estômagos esperançosos, foram sendo degustados pela azia corrosiva das palavras reveladas. O Sierra Maestra era o cume de Sísifo. Mesmo embriagado, o jovem – que recém se tornara homem – ainda não acreditava que suas ânsias amorosas e mediúnicas tinham chegado a um fim mau; fim mau, pois prevera e sentira e olhara tudo pelas arestas que o amor não vê. Neste instante, ele lembrara de um cego ter passado em sua frente, minutos antes do encontro derradeiro, cuja palavra central era o não, não-mau, não-fim. Para ele, não havia mais motivos que o prenderiam naquela selva de criaturas que se deliciavam nos vértices corpóreos. O que ele queria era cuidar, cuidar dele e cuidar do outro. Tão simples como amar. Tão complexo como odiar. Mas isso ele não sentia, por ser desprovido de desumanidade; mas por ser desprovido de desumanidade, a humanidade dizia apenas o não-sim e o não-embriaguês. Presos na liberdade da João Pessoa, os amigos gargalhavam a maestria do deus, que também fugia daquelas arestas amorosas, daqueles cálculos trigonométricos que se chamam sentimento-aceitação. Aceitação-isolamento. Solidão-ansiedade. Ele olhou para as árvores escuras da Redenção. Gargalhava. Gargalhava uma gargalhada-embriaguês, uma gargalhada-mentira. Abraçado a amiga, continuava o caminho tortuoso das epifânias. José Bonifácio, salva-o com o seu positivismo, com o seu progresso. Venâncio Aires, acuda-o, apresente-o a farmácia de sua esquina para que a droga o acalme, para que a droga o restabelecesse. Tinha um táxi ali na frente. Não quis embarcar. O silêncio do táxi, e o falar do taxista, o irritaria. Queria ônibus, povo, roleta, sorte, coletividade, diversidade entre iguais. Despediu-se da amiga. Tonto, dizia que as babas da vaca loka o salvaram de muito. No ônibus, ao passar a roleta dos estudantes-isentos-de-sabedoria, olhou para todos, como nunca fizera anteriormente. Tentava desvendar as histórias de todos. Olhava profundo. Os passageiros perceberam que se tratava de um bêbado, de um jovem-bêbado-apaixonado. Ele ziguezagueara e se jogara num banco. Cinco paradas depois, a lágrima-única no meio das árvores brotava. Quando acenou a porta do edifício, o choro convulsivo o dominou. Subira as escadas no meio da escuridão. No apartamento, fora para a cobertura-incoberta, e ali explodira de desespero, de incerteza, de perguntas continuáveis, de lacunas formadas por pontes. Na cozinha, locupletara-se de azeitonas e ovos de codorna. Codorna? – se questionava – Para quê, pois não preciso me sulcar desse alimento libidinoso? Jogou-se na cama. Seminu, o homem dormira sem sonhos. Na manhã, com o despertar do televisor, abrira as pálpebras doidas, e lembrara-se de tudo. Ele não podia ter vivido tudo aquilo. Levantou-se, banhou-se. Saiu para trabalhar. Lá, com uma fome de literatura, a fome que os adeptos da paixão não sentem, ele sentou-se e recontinuou a leitura de Sartre, autor com quem estava há meses. Ele estava com a Náusea. Mas com a Náusea que o libertou. Ele leu:

“Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata estava saindo. Precipitou-se sobre mim.
— Tenho que lhe agradecer, senhor. Suas fotografias me proporcionaram horas inesquecíveis.”


Ele lembrou-se da cena lida meses atrás, quando o Autodidata vira as fotos de Antoine de Roquentin, quando fotografara em suas viagens pelo mundo.

“Ao vê-lo, tive um momento de esperança: a dois talvez fosse mais fácil atravessar o dia. Mas com o Autodidata só aparentemente se está a dois.
O guarda vinha em nossa direção: um corso baixinho, irascível, com bigodes de tambor-mor. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo os calcanhares. No inverno cospe nos lenços que depois põe para secar no calefator.
O Autodidata se aproximou tanto que sentia em meu rosto o sopro de sua respiração:
— Não lhe direi nada diante desse homem — disse em tom confidencial. — Se o senhor quisesse...
— O quê?
Enrusbeceu e suas ancas ondularam graciosamente:
— Ah, senhor! Estou me precipitando. Aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?
— Com muito prazer.
Tinha tanta vontade de almoçar com ele quanto de me enforcar.
— Fico muito feliz — disse o Autodidata.
Acrescentou rapidamente:
— Irei buscá-lo se quiser.
E desapareceu, certamente com medo de que eu mudasse de opinião se me desse tempo”


Fechou o livro. A catarse era evidente. Era uma quinta-feira de sua vida, quando tudo acontecera numa quarta revelatória. Agora o novo homem queria saber como foi o almoço de quarta-feira de Antoine, o rapaz da biblioteca, e o leitor voraz, o Autodidata. Sartre e sua La Nausée seriam seus primeiros companheiros. Abriu as páginas, devorando-as até chegar numa quarta-feira melhor. Numa quarta-feira no Café Mably.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Terceiro dia em Valência

Era o que estava faltando para que a viaje ou Voyage ou viagem se tornasse o marco inicial do neoneonaturalismo. O que o romeno tinha na cabeça? Tentei captar na profundeza de minha mediunidade o que ele pensava quando me perguntara se tinha muchos hombres em la platja? Não consegui. A alma cigana do romeno, mais a força da sua descendência noturna com o conde Drácula fez com que eu não conseguisse ler o que se passava dentro dele. Muito menos perceber se alguma coisa concreta latejava nele.

Até que a resposta veio molhada como as ondas de Malvarrosa. Respondi:
— Sim... há muchos hombres.
Ele continuava com o sorriso de cigana obliqua e dissimulada. Havia mistérios naquele olhar, naqueles trejeitos, nos olhos arrepiados. Fiquei olhando para ele depois de ter respondido a santa inquisição. A troca de olhar foi tão intensa que os dele se quedaram.

Ele fora se deitar e me virei para o computador. Fiquei conversando com amigos no Brasil sobre o ocorrido. As maiores intrigas e dicas quentíssimas me foram alertadas para que eu pudesse resolver esse mistério dos hombres da platja.

O amigo romeno dormia em sua furna mortuária, quando decidi fechar um dos olhos para descansar.

********

O sol e os pássaros da Catalunha anunciavam que um novo dia iniciava aos pés do Mediterrâneo. Era o dia de minha comunicação. Felícia, Lindy e eu tomamos um café da manhã rapidamente e nos descambamos a faculdade. Lá, nos deslocamos ao quarto andar do prédio. Adentramos a secció 10 – Anàlisi del discurs i de la conversació. Escrit i oral Llengua dels mitjans de comunicació. As apresentações não tinham iniciado. Inseri o arquivo no PC da sala para que pudéssemos passar os slides. Conversei com uma portuguesa, que seria a primeira a comunicar. Quando ela teve a voz, começou a discursar em francês. Vinte minutos depois ela encerrou a fala.

Felícia e eu subimos para compormos nossa comunicação. Lindy ficou gravando. Foi uma das melhores desenvolturas que tive numa apresentação em congresso. Inicialmente falei para os presentes que iríamos apresentar em Língua Portuguesa:

— Primeiramente gostaria de informar que nossa comunicação será em Língua Portuguesa, visto que o nosso francês está em processo de aquisição.
— Não há grandes percalços, pois temos aqui um grupo de portugueses — disse a pesquisadora que se apresentou anteriormente apontando para as colegas — aqui atrás há um grupo de franceses que compreendem a nossa língua e ali atrás temos espanhóis que também entendem o português. Logo, não terão problemas.

A mágica tinha iniciado ali. A cada slide, os presentes anotavam, sorriam, ovacionavam com olhos brilhantes as nossas palavras.Vinte minutos depois, o público que ali estava conversou sobre nossa pesquisa e sobre os argumentos que utilizamos para embasar o comportamento da ciberlinguagem no Brasil. Os presentes elogiaram nossa iniciativa em dividir no congresso de filologia uma pesquisa sobre a língua portuguesa no Brasil.

— Estão de parabénssssssssss — disse com seu S chiado de portuguesa.
Ganhamos as ruas de Valência.
Fomos para a Torre dos Serranos. Por dois eurinhos penetramos na torre. Depois continuamos percorrendo as ruazinhas espanholas do centro gótico. Felícia, Lindy e eu apresentamos as demais os pontos turísticos que elas não conheciam. Fomos novamente ao Mercado Modernista de Valência. Lá, a tia, aquela que tomou vinho pensando que era gratuito, comprou uns acepipes para o grupo: um saco cheio de azeitonas. Valor: alguns eurinhos. Nunca sai comendo qualquer coisa na rua. Ali pude aproveitar os sabores que a vida pode proporcionar nos fatos mais simples, como por exemplo comer azeitona na rua.

Depois do mercado e das azeitonas, fomos para a Praça do Ajuntamiento, palco de inúmeras reivindicações dos valencianos. Mais tarde, pegamos a linha 80 do ônibus em direção a Avigunda de Blasco Ibáñez. Fomos almoçar na faculdade de psicologia, que fica em frente da faculdade de filologia. Almoçamos. Assim que saiamos, um encontro. O colega romeno surgia com sua capa de morcego.

— Mas o que fazes a cá?
— Lunch.
Conversamos mais algumas palavrinhas em diversas línguas; o que era natural.
Tocou-me as costas, quando ele se despediu.
Felícia disse:
— Meu amigo, tem algo ai nessa história. Ele fala comigo, ai tudo bem. Mas contigo, ele falta pular em cima de ti. E quando vai embora ainda te massageia as costas.
Contei tudo o que aconteceu na noite anterior a minha amiga. Ela ficou amarela. No final de uma longa conversa, decidi:
— No final da noite farei um ultimato.

Tínhamos um plano de ir à praia. Quando fui para casa pegar os trajes necessários uma depressão se apossou de minha alma. Comecei a chorar como uma criança. Como uma criança que não queria ir embora. Como uma criança que sabia que era feliz ali, e a vida estava dizendo que um novo ciclo, romântico como sempre, estava iniciando. Chorava copiosamente. Corri para o quarto de Felícia e pedi o netbook emprestado. Escrevi como aquela personagem do filme ALGUÉM TEM QUE CEDER, que chorava em todo o lugar em que estava, assim que desiludira do amor. As teclas do computador de minha amiga estavam encharcadas de saudade do que ainda não tinha perdido, mas que estava, dentro de doze horas, perder. Nem Jack Bauer teria tanta presteza em evitar essa vilania.

Fomos para a praia.
A água estava gelada. Logo, não entramos na água. Ficamos observando os escândalos que a sociedade espanhola pode proporcionar em seu litoral. Um deles, dos dez mais escândalos da viagem, pode-se dizer que esse é o terceiro mais ruidoso de todos. Lá estava eu sentado nas areias valencianas, quando vislumbrei algo que vestia uma tanga nada delicada. Esta estava embocada na contraboca daquela criatura.
— Gurias, aquilo é um homem ou uma mulher fazendo topless?
— Onde?
— Ali — apontei discretamente.
— É um homem.
A criatura saia da água como se fosse a sereia de Ulisses. Cantava chamando os bofes disponíveis na área. Vestia aquela tanguinha e desfilava seus sessenta anos de sensualidade pela praya de Malvarrosa. As mulheres que estavam de titis de fora observavam o destile de Gisele, que abanava os cabelos que não tinha. A criatura, filho do ciclope polifemo, andava de lá a cá, mas esse cá, graças ao deus Hermes não era perto de nós. Mal sabia ele que uma mira estava contra ele. Era a minha mira. Grande e forte e arrebatadora mira. Um clic, como faz a Arno, e a foto fora tirada para o escândalo dos porto-alegrenses amigos. Mas pudico leitor, que pensa que somente o fato da tanga estar enganzada nos montes da Galileia era o fim do mundo, estas enganado. Além da peça estar desfrutando das mais profundas matas, o elemento frontal, o caroço dilatado por algum Viagra, denotava a circunferência de um ângulo obtuso, ou melhor, agudo perpendicular a 90º. Tudo andava na frente do homem, e nada atrás.
— Quem deu crack para essa criatura? — perguntei.
Após alguns minutos de desfiles, o homem, munido de seus acessórios, grandes e pequenos, perpendiculares ou não, fora embora, para que os outros espanhóis pudessem escandalizar. E assim foi. Um grupo de jovens começou a dançar uma espécie de funk nas areias brancas de Malvarrosa. Tocavam-se, se acaricivam e simulavam cópulas.
— Mas onde estamos, meu Deus? Cidreira? Rei do Peixe? Pinhal?
As águas não eram mais cristalinas.

Ainda queria provar uma paella valenciana. Mas não, com a minha tristeza e desanimo, por deixar Valência e seus escândalos costeiros, decidi acompanhar minhas amigas Felícia e Lindy no BURGER KING. Prometi a Valência que voltaria para provar a paella verdadeira, preparada na matriz.

Quando regressei ao Colégio Mayor lá estava o romeno.
Alguns minutos depois e depois de respirar fundo perguntei para ele:

— Eu fiquei sem entender o porquê da tua pergunta de ontem?
— Qual pergunta? — disse sorrindo.
— Se tinha muchos hombres em la platja?

Essa continuação ocorrerá, assim que as palavras saírem pelos vãos dos dedos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Hoje escreverei para ti, minha amiga. Não sei que motivos fazem com que tu gostes de mim. Certamente gostas de mim não tanto quanto gostaste no primeiro dia. Mas sei que no segundo gostastes um poucos mais. E no terceiro um pouco mais do que no segundo. E isso ocorreu até o dia em que não poderia mais proporcionar novidades, pois já me conhecera de todo. Desde os pequenos gestos, entre eles a olhada de esguelha, ou quando estou andando para lá e para cá, ou quando mordo os dedos, ou o pior de todos, quando estou quieto. Mal nos conhecemos e já me revelaste que tinhas admiração por minha pessoa. Por eu fazer parte de um grupo de pessoas, ou por representar um status cultural que, na verdade, está na média daqueles com quem freqüento, tanto quanto tu. Mas que perante o conhecimento da ciência, pouco, e cheio de certeza, sei que pouco sei. Estava aqui no meu gabinete, sem nada para pensar, e acabei vendo nossas fotos, e nas fotos nossa história de amizade. A festa que freqüentamos. As viagens que fizemos. As conversar no telefone. As ajudas emocionais desconstrutivas. A motivação infundada. O quer bem sem limites. O respeito mutuo obrigatório. Muito aprendi neste ano, neste aprendi muito porque estiveste comigo, aquele ser que estava tão alto, mas tão alto, que um dia, lá pelo vigésimo dia percebera que eu era mais um marciano, um sísifo como qualquer outro. Sim, sou absurdo, sou até mau, mau-bonzinho, mau que chora, mau que ajuda, mau que se sacrifica. Disso já estas cansada de saber, sabes que muito faço por todos, e por mim, como um Alex Valério Poulain, tive uma ajuda: tu, minha amiga. Certamente se não fosses tu, neste ano, não seria tão feliz com teus elogios incontáveis. No furor do desespero que sofria, tu vinhas e dizia que eu era o máximo. Às vezes quando repetias pela enésima vez que eu sempre tinha a razão, ou tudo o que eu fazia era perfeito, eu chegava a desconfiar. Lembras quando indaguei sobre isso? E tu ainda disseste: mas é verdade o que te digo; tu não acreditas? — dizia-me tu. E eu ainda, na honestidade quase infantil, dizia, às vezes duvido. Viajamos, rimos, rimos de nós, rimos de ti, rimos dos palitos, da batata, do carrinho, do ballet no limo, do Pluto, rimos até dos choros aos pés do Ipiranga, rimos dos mapas que queriam ir para o hotel, dos pés cansados a procura de um restaurante, rimos de uma amiga perdida, que desejava simplesmente achar Esteio (só nós entendemos isso). Um texto imenso somente para dizer o quanto sou feliz a seu lado — até o dia em que não me agüentares mais. Mas não esqueças que te admiro muito, mas um muito com muita intensidade, pois foste uma guerreira, uma heroína na minha vida, tanto quanto foste na sua este ano, minha amiga Lindyssima.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Confuso porém legítimo, normal como todo sentimento.

Estou aqui sozinho em meu gabinete. Estou aqui em meu gabinete pensando em ti. É hora do almoço, já comi meu tchê dog da 7 de setembro. Não fora tão bom quanto ontem; mas isso deve ao fato de termos dialogado ontem. Diálogos como sempre imperfeitos, limitados, limitados pelo tempo, pelo espaço, pela cidade, por nós. Pensando nisso lembro-me de Safo, a poeta que tinha ciúmes de uma mulher com outro homem. Ah, lembro-me quando o eu-lírico evocava a tecelã de intrigas, minha amiga Afrodite, que gosta tanto de uma batalha. Sim, diz-me ela, Safo, o amor é uma batalha. É uma guerra a ser travada dia a dia para que possamos conquistá-lo. Meus maiores inimigos são as barricadas que o tempo, o calendário, o maldito calendário, me impõem para te ver. Mas nos milésimos de segundo que posso te ter e acercar a respeito de teus olhares, para mim são torrentes de pequenas felicidades que coleciono toda a semana. Algumas mais solitárias outras mais sorridentes, outras aparentando uma indiferença. Os jogos que nos oprimem. Os defeitos que nos intranformam. Os erros de português que são propositais para que possamos criar uma linguagem mística, misteriosa, envolvente, sedutora. Ou um oi que poderia ser um simples oi, ou um oi que poderia ser um oi poético. Um sim, que pode ser um breve sim, ou um sim que pode ser duradouro, ou o sim, o mais terrível para mim, o sim que diz não. Mas esse não é necessário. Para que dizer não, se se pode dizer aceito. Sim, aceito. Convido-te e me aceites. Sim, aceitaste. Isso já fato. Demos um passo, um selar para o fim desta batalha que a deusa, aquela minha amiga, de inúmeras batathas, nos oferece. Que seja o fim de nossos mistérios, de nossas palavras reprimidas, de nossos medos cansados, de nossos pequenos-gozos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O segundo dia em Valência e medos do estranho

Intrigado leitor. Vou agora contar o que eu e minha amiga Felícia encontramos no facebook do amigo hospedeiro. Mas também aqui contarei, neste episódio, nosso segundo dia em Valência e um momento surpreendente entre mim e o meu colega de quarto, o romeno.

Lá estavam as fotos. Fora comprovado por meios técnicos que o hospedeiro gostava de tocar uma panela. O hospedeiro era gay. Mas não um gay afetado, mas um gay três eurinhos. Três eurinhos e discreto. A foto mais insinuadora foi aquela em que um pseudoamigo lhe tocava o ombro, e o hospedeiro, delicado com a tamanha intimidade, tocava-lhe a mão que afagava o peito. Mas isso, quem sabe não é nada. Quem sabe seja uma postura aceitável no velho mundo. (???)

Felícia, minha amiga, mais rápida que a luz, lançou-lhe um recado na face do livro do nosso cozinheiro. Foram palavras simples, sem nenhuma indiscrição, muito pelo contrário; dizia ali que fora um dos melhores voos até então navegado.

Mal sabíamos nos que o hospedeiro gay estaria em Barcelona, na mesma cidade de nossa parada turística.

********

Mas continuando o fado, triste leitor, quero contar as peripécias aristotélicas que ocorrerem no segundo dia em Valência.

Despertei, tomei, mais uma vez, aquele café da manhã fabuloso que nos foi apresentado no Colégio Mayor.

Saímos rumo a Faculdade.

Sim, era o dia de apresentações de trabalhos científicos. Minha amiga, Lindy, estava no aguardo da professora, pois apresentariam juntas as pesquisas. Professora esta que não encontramos ainda, desde a nossa chegada ao paraíso achado.

Por um encontro do destino, entre os corredores da faculdade, acabei topando com a professora e a legião de amigas perdidas e desgarradas. Abraçamo-nos e estava tudo resolvido. Elas contaram-me que o hotel em que estavam hospedadas não ficava em Valência, mas sim em Gandhia, uma cidade há 50 minutos de trem. Narraram-me que após a nossa despedida no aeroporto, elas tiveram que pegar um taxi, três taxis para ser mais coeso, rumo ao endereço que demarcava no voucher da companhia turística. Os táxis percorreram nada mais do que duas horas, segundo a narração das moças de Gandhia, e quando o taxi trafega, o taxímetro dança, e a maquininha rebolou, mas rebolou tanto que cansou quando chegou a marca de noventa euros, meu leitor. Sim, noventa euros. Jamais poderíamos imitar o nosso hospedeiro Ryanair e dizer: — Noventa eurinhos. E para finalizar as aventuras, perceberam que não ficava em Valência o hotel. Logo, tinham que pegar o trem, pagando sete eurinhos e dez centavinhos para chegar a Valência, mais precisamente na estação do Nord.

Por essa razão não nos encontramos ontem.

As apresentações de trabalho foram bem sucedidas. Ao meio-dia iniciou o intervalo. Fugimos para a cidade. Felícia, Lindy e eu nos colocamos a disposição a levá-las a locais que não puderam conhecer.

Quero aqui contar um evento que vinha no meu intimo. Como sabes fui contemplado com uma bolsa para participar do congresso. E para que tudo desse certo eu tinha que me comunicar com duas pessoas de nome catalão: um deles, o organizador do congresso, Maria Luci, opa, errei o nome, é um homem, o nome dele é Cesário Calvo Rigual. Muito quis conhecê-lo e agradecer a bolsa concedida a mim. Mas também houve uma outra personalidade, a Senhora Inmaculada Carrasquer, aquela que me inscreveu e aceitou a minha beca.

Felícia e eu, nos corredores da faculdade de filologia e comunicação, decidimos procurar Inmaculada Carrasquer. Desejava saber como eram as feições desta senhora de alcunha tão Carrasquer. Fomos a mesa de organização para importuná-los. Questionamos sobre a procurada.

— Inmaculada deu una subidinha. Ela foi pelas escaleras... mas ela já regressa.
— Nós ganhamos una beca para participar del congress. Somos brasileños. E queremos sacar uma foto.
— Só um instante — disse a mulher se virando para um homem calvo. Ela gritou — Cesário (Felícia e eu nos viramos imediatamente), Inmaculada já descerá?
— Si, ela subiu e já volta.
— Cesário — disse Felícia — somos do Brasil e queremos sacar uma foto com usted.
Ele deu uma risada e uma explosão de flash marcou o momento.

Mas a aventura continuaria, pois queríamos saber quem era Inmaculada Carrasquer.
Aguarde leitor, ainda neste episódio saberás.
O aguardo acabou. Vou contar agora.

No inicio do intervalo procuramos a procurada. A primeira mulher que nos atendeu nos viu e abordou-nos e disse que Inmaculada Carrasquer estava presente.

— Inmaculada, eles ganharam uma beca e querem uma foto.
Sim, era ela. Inmaculada. A mulher que visualizei por semanas. “Ela é a carrasquer?”, pensei. Inmaculada era uma mulher ... Ah, veja na própria foto sacada.

Depois dos projetos realizados ganhamos a cidade.
Pegamos o metro na estação Facultats em direção a Benimaclet. Ali fizemos uma conexão com a linha 4. Acabamos descendo na frente do Colégio Mayor, na estação Tarongers. Ali, minha amiga Cândida contou-nos que esteve aqui nos procurando no dia anterior. De tanto que perguntava nas ruas de Valência onde ficava o Colégio Mayor, ela tinha conseguido chegar. Achei aquilo de uma delicadeza e uma prova de amizade. Ali, conheci melhor quem era a minha amiga Cândida. Mal sabia eu o que ela faria por mim, numa das maiores aventuras de sua vida. Aguarde os próximos episódios, curioso leitor. Esqueci de contar o porque de termos parado na Tarongers. O elétrico, quando o pegamos, anunciava que a ultima parada era em frente a minha casa. Ficamos ali esperando a próxima linha passar.

Fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Um lugar em que a arquitetura é a obra das mãos homem por meio de uma criação maior. A beleza que somente os belos têm acesso. A grandiosidade que somente os gigantes podem pisar. Quem for a Valência tem que ir a esse lugar. Por falta de tempo, devido as apresentações, tivemos que optar de ir a apenas um dos monumentos arquitetônicos: OCEANOGRÀFIC, o maior da Europa. Lá tirei foto com todas as espécies marinhas, inclusive com ele, o leão dos mares, o vilão dos marinheiros de Spielberg. Tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan. TUBARÃO. Para vê-los paga-se a quantia módica de 23 eurinhos, como diria nosso Hospedeiro. Um lugar para passar a tarde inteira.

Mas ficamos ali uma ou duas horas. Havia comunicações das minhas companheiras de jornada. E por estratégia de grupo, decidimos nos eliminar para que pudéssemos comprar a passagem de trem para Barcelona. Os eliminados do paredão foram Felícia, Cleíssima e eu.

Dirigimos-nos, os três, a estação do norte. Lá fomos atendidos por um catalão com más intenções.
— Mas para onde vai essa família?
— Minha madrecita (Cleia), minha irmacita (Felícia) e eucito iremos para Barcelona — respondi.
— Bela mare.
— Quê?
— Bela madre, em catalão.
— Minha madrecita está solteira. Quer namorar, a coitadita.
Cléia queria ter uma sincope.
— De onde vocês são? — perguntou o senhor do guichet.
— Brasil.
— Por isso são guapas.
— E por serem guapas, tem desconto — perguntei eu, o proxeneta.
— Só se voltarem para Valência.
— Não, não voltaremos desta vez — respondeu Felícia, minha irmacita.
Compramos três passagens para as 6h40min do dia 09/09 com destino a Barcelona. E outras OITO viajes para as 10h para o mesmo destino: BARCELONA-SANTS.

Depois disso fomos para a faculdade. As apresentações se encerraram. Os grupos se separaram: uns foram fazem compras no El Corte Inglês; enquanto outro foi descobrir a história de Valência no MUSEU DA HISTÓRIA DE VALÊNCIA. Tivemos uma dificuldade de chegar ao museu. As setas indicavam, mas parecia que as ruas sinuosas não auxiliavam o melhor caminho. Assim que descemos da estação de metrô perguntamos a um passante, que além de nos explanar o trajeto a tomar, ainda nos deu uma aula sobre um prédio histórico por onde passávamos. Mais uma vez ficamos encantados com a educação e sensibilidade dos valencianos. Conseguimos chegar ao museo. Ali viajamos no tempo para 138 a.C. Deparamo-nos com as invasões visigodas, com o comércio da Catalunha, com as laranjas valencianas, com o arroz valenciano, com a cultura da cidade que foi capital da Espanha, com a cidade que foi e é uma porta do Mediterrâneo, com a cidade que criou a paella. E para finalizar esse passeio histórico, quando chegamos numa das salas labirínticas, uma película iniciou. Assistimos ao filme, que contava os bombardeios culturais e bélicos que a cidade sofreu no decorrer de sua história. Foi muito bom.

Fomos para casa. Tomei um banho e desci para jantarmos. Depois do jantar fui para o quarto de Felícia, onde ficamos conversando com a italiana, sua companheira de quarto. Falamos sobre a imagem do Brasil no mundo, sobre cultura e algumas experiências.

Quando cheguei no meu quarto, deparei-me com o romeno. Começamos mais uma vez nosso bilinguismo. Falei para ele sobre o encontro com Cesário Calvo e Inmaculada Carrasquer, sobre os passeios na cidade, sobre os eventos do congresso. Ele contou-me, cheio de titubeios, pois não conseguia encontrar as palavras em castelhano, sobre sua apresentação. O titubeio foi tamanho que ele reduziu todas as impressões em:

— Foi tudo bem. Bem.

Continuamos uma conversa dinâmica, como sempre. Acabei falando sobre a praia de Malvarrosa, seu público e os fenômenos que lá ocorrem. O romeno fez-me uma pergunta que gelou minha espinha e paralisou minha arte de pensar. Perguntou com olhos esbugalhados de cigano, com um sorrisinho locupletável e com dentes de vampiro de Bucareste

— Tem muchos hombres na praya?

Só uma palavra pode descrever o que sentia:
MEDO .

“Ih, não sei não, vai ter sacanagem” — dizia uma feiticeira.
“Isso ai tá estranho, tá estranho, hein” — dizia uma aluna intrigada.

MEDO.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ai rua da praia cheia de livros

Antes de ontem foi um dia mui interessante. Não que os outros não tenham sido. Bem, o que quero dizer com a intensidade da interessância é que hoje fui pela primeira vez, neste ano, à feira. Lá encontrei maças, aboboras e inúmeras tendinhas de que muito me apeteceram. Como ocorre com a feira do livro de Porto Alegre. É a época de nadar nas aventuras que somente a leitura pode proporcionar aos sonhadores solitários. Maças porque são tentações; abóboras devido a uma banca cujo nome era leituras e gostosuras.

Mas não estive sozinho nessa empreitada. Lá estava comigo Taís Deamici, companheira (de Lula) de aventuras imaginadas no mundo de Boby. Ela, uma das personagens que conheci neste ano inconcebível pela intelectualidade. Viva Xavier de Maistre! A companheira de Lula, que tem no seu celular a música de Dilma, e eu estávamos na feira das variedades. Furunfávamos todas as traças do conhecimento; carcomíamos os próprios olhos e pés.

Enquanto peregrinávamos, Taís disse-me que tínhamos que ir até uma casa de xérox para que ela fotocopiasse as provas dos aluninhos engravatenses. Encaminhamo-nos até o local. Fica ali na Rua dos Andradas, a rua da praia sem praia. Subimos uma escada mortuária e assim que chegamos ao cume não colocamos uma bandeira literária. No máximo depositaríamos uma pedra de crack que possuíamos no bolso. ( Quero salientar que crack neste texto é tão somente uma figura de linguagem, a metonímia. Opa, desculpe, não é essa a figura, mas sim a metáfora. Quem um dia não ficou dependente, logo no primeiro uso, das gotinhas malévolas do Sorinan?). Enquanto fazia essas digressões, que para nada serviram, minha companheira fez as cópias de que necessitava. Mas antes da descida do monte Everest, a confrade anunciou que desejava saber onde era a casa de baño. O proprietário do estabelecimento xerocador anunciou, por sua vez, que a casa de baño ficava na próxima porta a esquerda. Quando olhei para o que se tratava o devido estabelecimento patêntico pus-me a sentar sofregamente. A amiga mesmo assim foi. Eu disse para ela:

— Se tu não aparecer em dez minutos eu chamo a polícia.

O banheiro era escuro... han... han... como posso descrevê-lo? Sujo não era, mas tinha todo um encantamento nebuloso da miséria. O terror de alastrou quando ouvi, do lado de fora, ainda decaído no banco, uma porta rangendo. Meus olhos esbugalharam. Eles esperavam enxergar a figura de minha amiga. Com um piscar de olhos ela apareceu.

Como para baixo todo o santo ajuda, descemos sem pressa.

Decidimos ir ao Mc Café da mesma rua sem praia. Lá ficamos conversando sobre três assuntos: Literatura; A influencia da intertextualidade na literatura; e, A função que a literatura tem na vida da literatura. Logo, falamos de nós. Mas também, para variar, pegamos um voo nada rasante e nos aconchegamos nos planos futuristas de um vale encantado que encontraremos quando sairmos da faculdade: um abismo de possibilidades. Depois de um bom tempo lá dentro, preferimos ir para um lugar que tinha ar condicionado, na rua. O aquecimento global dentro de um Mc Donalds é maior que a taxa do PIB em governo tucano.

Na rua, protegidos do aquecimento global e do governo tucano, continuamos nossos papos de literatura como signo a frente do admirador. Exemplificamos sobre alguns casos de literatura de massa versus a literatura entendível de Guimarães Rosa e da tia Clarice Lispec (olha a intimidade do leitor de alma já formada!). Depois, ainda na rua sem fim e cheia de praia, nos deparamos a falar, parados numa esquina não dada a prostituição, sobre os mesmos assuntos. Queríamos ficar ali mais tempo, naquela Andradas que poucos, como eu, conhecem a noite, toda iluminada falada sobre Literatura, de ponta a ponta. E por ali anda passavam pessoas que não tinham a usança de ter como companhia um bom livro. Somente nos dois – mas que arrogância despretenciosa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

...

Para reiterar aquele sentimento sisifesco: "Aos amigos, tudo; aos inimigos, à lei". Boa sorte. Sorte se necessita; sucesso de tem.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Recado ao leitor

Caro leitor, não pense que desisti de contar as peripécias aristotélicas no mundo. Continuarei escrevendo-as. Fica ainda o mistério se o tal hospedeiro é o não gay. Mas isso pouco importa, o que mais importa é a intriga narratológica. Mas eu, como demiurgo, sei o que vou contar. Só eu sei o final da história. Mas não pensem que me gabo por tamanho poder. Justifico que estou sem tempo para continuar a narrativa épica das aventuras no continente idoso. Mas vou continuar, não se preocupe. Tome um calmante. Tudo dará certo!!! Beijos suculentos no cangote.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Desabafo mundano materialista.

Sinto-me totalmente um estrangeiro no mundo em que vivo. Sinto-me uma personagem que olhou para o sol e deu mais quatro tiros, quatro batidas na porta da desgraça. Sinto-me como um Meursault. Sinto-me um Camus. Sinto-me como um homem absurdo, que não está apto para viver as regras dessa sociedade burocrata que apenas valoriza o que está escrito num papel. Sou bem-vindo ao tramites da vida real, aos tramites do suicídio moral e do desrespeito ao indivíduo. Sei que sou mais um indivíduo no meio da coletividade, como dizia meu futuro amigo Céline. Acho que estou precisando de um lex, uma boletinha, um soninho bom e não mais acordar desse pesadelo de inúmeras incoerências filosóficas e mui misteriosas. Canso de fazer parte dessa esfera lunática cujo protagonista sou eu, Sísifo. Agora sei que a pedra vai descer e te-la-ei que subir novamente.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Tontura

O jantar de sábado, quando bebemos, misturando bebidas, foi um que de escandaloso. Precisamos repetir a dose. Já!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O primeiro dia em Valência

Caro leitor, quando eu adentrara ao alojamiento de número 158 minha vida mudaria, pois enfim lavaria meus olhos com água abundante. Porém, a primeira ação que fiz foi enxergar meu colega de quarto. Lá estava ele deitado, como se estivesse olhando para cima e pensando na vida. Olhamos-nos e nos cumprimentamos. A primeira questão imediata partiu dele: where you from? Lá fui eu, cheio de orgulho da nação brasileira, disse: Brasil. Ele pareceu ter feito um misto de ódio e alivio, pois arregalara os olhos, sorrira sem olhar para mim e respirara fundo.

Senhor leitor, eu omiti-vos. Omiti na hora quando cheguei ao Colégio Mayor e ao informar meu nome e descobrir que o quarto para onde me seria destinado era o 158, havia descoberto que um romano dividiria o quarto comigo. Meu Deus, um romeno. Eu jamais tinha imaginado que alguém da Romênia lá estaria. Os fatos são bem mais instigantes quando não os prevemos, nem quando criamos expectativas.

Eu disse para ele que já sabia que o where you from dele era Romênia. Ele esbugalhou mais ainda os olhos, mais esbugalhados que já eram ao natural. Ele me perguntou se eu falava francês? Pouco. Inglês? Só leio. Romeno? Nem uma sentença. Castelhano? Portunhol. Após uma conversa estranha e praticamente no escuro, decidi ir para a casa de baño tomar um banho.

Depois de ter me banhado com o primeiro banho valenciano, pus-me a deitar. Na escuridão da noite, somente uma lua vampiresca (provinda da Transilvânia) iluminava o quarto. Lá estava eu, dormindo desconfortavelmente numa cama confortável. O romeno dormia como se estivesse num caixão. Ele estava esperando a oportunidade propicia para por os caninos afiados para fora e degustar, como num supermercado, o sangue latino-brasileiro. Mas isso não aconteceu, continuo um reles mortal, nem virei personagem da saga crepúsculo.

Era sete da manhã quando fui acordado por Edward. Opa! O nome dele não é Edward. Mas sim M... Ele acordou-me e começamos a conversar. Eram quatro dialetos: castelhano, português, francês e inglês (nesta ordem). Quando vocábulos se perdiam no conhecimento linguístico, outra língua entrava em ação. Logo eram frases compostas sempre, em média, por duas línguas. Inicialmente ele mostrou-me o caderno de resumos do congresso e desejava saber onde eu estava. Procurei-me no índice por sobrenome e facilmente encontrei. Mostrei para a ele o resumo. Depois fomos conversando sobre nossos países, economia, cultura. Falamos de nossas profissões. E enfim falamos sobre o café da manhã. Já era hora do café da manhã. Ele desceu, enquanto eu fui para o banho. Meus olhos já não mais lacrimejavam.

Meia-hora depois desci e pude encontrar minhas amigas. Encontrei na saída meu colega de quarto. Ele estava com suas amigas romenas. Apresentamos-nos todos. Em seguida estava me servindo no Buffet. Foi o melhor desayuno que tive em todos os hotéis em que já estive no mundo. Quando cheguei à mesa deparei-me com o homem que julguei ser um integrante da equipe de Osama: o homem perdido. Lá estava ele com minhas amigas. Sentei-me, falei algumas bobagens habituais, e Felícia apresentou-me a um gaucho que vive na Austrália há mais de 20 anos. Conversamos animadamente os seis. Subimos e em seguida nos dirigimos a Faculdade de Filologia.

Peguei o mapa. Tínhamos que descer na estação Benimaclet, fazer conexão e descer na estação Facultats. Lá não demorou muito para encontrarmos a instituição. Pegamos os materiais e ficamos a espera de nossas outras colegas de viagem. Como elas não apareciam, mandamo-nos.

Naquele dia não havia apresentações, nem palestras. Por isso, cidade para que te quero.

Mas antes eu tinha que fazer umas comprinhas pessoais. Encontramos o Mercadona, o Zaffari do turista porto-alegrense. Fiquei horrorizado com o preço dos produtos: um desodorante, sabonete líquido, lenços para renite (não precisava, mas comprei para quando precisasse no Brasil), shampoo, escova de dente. Tudo isso me custou no caixa sete euros. Sete euros. Sete euros. No Brasil, aqui em baixo, passaria dos 40 reais a soma dos mesmos produtos. Viva os impostos aduaneiros!

Fomos para o centro gótico de Valência.

Pegamos o metro rumo a estação Xàtiva. Lá nos deparamos com uma plaza de touros, construída entre os anos 1850-1860 para ser o cenário das grandes touradas. Um escândalo. Mais adiante fomos andando pelo centro a pé. Pobre de nossos pés. Um calor escaldante de 26ºC acusava no termômetro. No final desta imensa avenida, chamada Carrer Cólon, nos deparamos com a Plaza Porta de la Mar, porta que deve o seu nome à antiga Porta do Mar, a entrada que comunicava a cidade com as povoações marinhas e a zona portuária. Ali, olhando para o mapa, percebemos que não saberíamos para que lado ir. Então decidimos pedir ajuda, desejávamos ir a Roma. Abordamos um homem por volta dos 40 anos e dissemos que desejávamos ir a Plaza del ajuntamiento. O celular dele tocou, ele atendeu e disse que estava ajudando turistas e que depois poderia ligar. Achei aquilo de primeira! Guiou-nos. Agradecemos a simpatia e fomos ao nosso destino. O calor estava cada vez mais intenso. Pela primeira vez na minha vida meu corpo gritava por água. Andando e andando acabamos chegando a Plaza de la Reina, onde estava a catedral de Valência. Um escândalo. Em seguida, pelas ruas estreitas nos encontramos com a torre de Santa Catarina, igreja datada de 1245. As meninas já pensavam em almoço, mas eu, insaciável para conhecer a cidade, pois não era meio-dia ainda, desejava conhecer mais e mais, por mais que meus pés também já estavam dilatando de dor. Tomamos uma água. Em busca da Plaza del ajuntamiento, acabamos nos apresentando ao Mercado Central de Valência. Um primor! Construído entre os anos 1910 e 1928. Trata-se de um mercado como todos conhecemos. Como um Mercado Publico de Porto Alegre sem o cheiro de peixe. Como um Mercado Público de Porto Alegre sem sujeira. É o lugar mais limpo que já vi na vida, se tratando de mercados centrais. Ali nos arredores, há as Lonjas, Lonjas de la Seda ou de los Mercaderes, de 1482, patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO. Depois de uma caminhadinha achamos a Torre de Quart. Este ponto turístico foi construído por Pere Bofill entre 1441 e 1460 e ganhou esse nome por ser caminho que conduzia a aldeia de Quart de Poblet. Desde 1626 até o século XVIII foi prisão para mulheres.

Cansados de tanto caminhar, decidimos voltar para casa e almoçar. Desejávamos encontrar uma estação de metro. Olhávamos para os lados e nada. E aquele calor, e aquela sede, e aquele sol, e aquele céu. Certo momento pedimos auxílio a uma senhora que passeava com um bebê. Esta deixou a criança e foi até nós. Brincou conosco e apontou-nos uma estação que havia no meio de uma praça. Agradecemos a gentileza e fomos ao nosso destino. Instantes e passos dilacerantes depois encontramos a estação. Uns 15 minutos depois estávamos no hotel e almoçando.

Descansamos por uma hora e meia.

Depois disso pegamos o elétrico que passava em frente de casa e nos dirigimos a estação Eugenia Viñes, que ficava na playa de malvarrosa. Lá estava eu indo para o mar mediterrâneo. Que ansiedade. Minha expectativa esperava enxergar um mar verde, não algo medonho como uma água de Tramandaí.

Era uma imensa camada de areia, um caminho que saia dos chuveiros e vinha até o calçadão (para que os banhistas não sujem os pés de areia após a limpeza. Inteligente!). Lá embaixo estava o mar. Mas que cor era aquela que enxergava? Ia maravilhado fiscalizando as pessoas, a temperatura da areia, as mulheres de topless, homens de cueca tomando banho de sol, senhoras e moças de soutien e calcinha na praia, crianças na beira da água, cachorros brincando com seus donos. Lindy e eu jogamo-nos para dentro d’água. Quentinha, brava, transparente, verde, muito diferente de Tramandaí, sem pescadores, nem redes, nem aqueles peixinhos que beliscam os pés dos andarilhos de beira d’água. Lindy perdera os chinelos e ficou perguntando na beira da praia logo depois de sairmos da água: “Cadê o chineloooooo”. Coisas da professora Lindy.

No final do dia, após a praia, Felícia, Lindy e eu fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Eu tinha que saber como eram os monumentos arquitetônicos de Valência à noite. Embarcamos na linha 6 do elétrico. E da estação final, Marítim-Serreria, fomos a pé até as facetas de Deus pelas mãos do homem. No meio do trajeto, pelas ruas serem curvilíneas, acabamos perdendo o sentido. E mais uma vez fomos vítimas de autóctones simpáticos. Cinco minutos de caminhada meus olhos foram capazes de avistar a assombrosa Ponte de Assut l’Or. Percorremos pelo L’Hemisfèric.

Voltaríamos ali com o resto do pessoal no dia seguinte para que possamos adentrar aos museus.

Regressamos para casa. Jantamos. No refeitório do Colégio Mayor estavam os alunos fazendo prendas e piadas, que na minha concepção de mundo não eram engraçadas. Nem entre eles tinha a devida graça. Creio que era o mico de estudante novo, pois era sempre (do almoço e do jantar) o mesmo que tinha que fazer as palhaçadas na frente de todos. O nome da criatura era Antônio.

Antes de dormir, meu colega de quarto e eu conversamos por meio de nossos quatro dialetos. Rimos bastante. Eu fui para minha cama, ele para o “féretro” dele. Dormi a noite inteira. Não tive medo da lua.

Ah, leitor sorridente e esquecido, deslembrei de dizer que naquele momento que sossegávamos, após o passeio da cidade e antes de irmos à praia, conectamos a internet e vos digo que o hospedeiro gay entrou em contato com a amiga Felícia. Tratava-se de um convite para a comunidade do Facebok.

— Felícia, amiga, vamos ver as fotos dele agora! Assim saberemos se o hospedeiro é ou não é gay, eis a questão. Vamos ver o que ele te escreveu? Será que há um convite?????
— Amigooooooo, boa ideia. Vamos acessar já — respondeu Felícia numa excitação que pingava.

Mas como ia dizendo leitor ansioso, o blog é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa condição cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste blog és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o blog anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este blog e o meu estilo são como os ébrios, guiam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem. Por isso que te digo, como te dizia na última lavra do penúltimo parágrafo, não tive medo da lua, e por não ter medo da lua, dormirei. Amanhã ou depois, tu sabes, o blog anda devagar, como dizia nosso Machado de Assis, continuarei a história – com as revelações das fotos do hospedeiro gay ou não gay.

Disse para meu colega de alojamiento:
— Me despiertas para o brakfest, desayuno, café da manhã, petit dejeneur?

Amanhã, sendo despertando, eu continuo aqui.

sábado, 16 de outubro de 2010

Um voo nada normal seguido de mistérios do companheiro de quarto.

Certamente devo ter deixado o leitor que me persegue mais intrigado que nunca depois da prolepse que joguei no final do episódio anterior. Espero que tua ansiedade não tenha feito com que as substâncias da criatividade tivessem entrado em ação e inúmeras ideias mirabolantes passassem por tua cabeça. Mas não o culpo, leitor, pois, quando falamos sobre sexo e ainda mais quando falamos de sexo envolvendo um voo, e ainda por cima num continente que expressa um símbolo um tanto libertino, isso faz com que qualquer individuo com comportamento normal ou na média tivesse, pelo menos, curiosidade pela história. É por isso que a dúvida será decapitada nas linhas que se seguem. Ei-las.

Naquela noite de 05 de setembro os aventureiros do paraíso estavam prontos para voar de Barcelona para Valência. Ficaram algumas horas no aeroporto da cidade catalã. Sem sombra de erro, o voo saiu em seu horário. Lá estava eu com meu olho vermelho, pobrezinho, provocava coceiras de tanto calor que sofrerá naquele calor lisboeta. Sentei-me na janela, fechei os olhos e passei a me concentrar para que aquele problema acabasse. Então uma epifania aconteceu: uma ideia clareou em minha mente! Quando eu tomasse um banho com água abundante em meus olhos,o tormento chegaria ao fim na manhã seguinte.

Ao olhar para o lado, observei duas moças e uma senhora. Era nítido que uma delas estava com medo de avião, e a outra aparentemente cândida, para mostrar sensibilidade a amiga, deu-lhe as mãos. Uma terceira mulher olhava para elas com uma cara horrorizada. Para piorar o quadro a moça cândida, não a apavorada, pegou um objeto na bagagem de mão, uma mantinha rosa adornada de enfeites. Com aquele miniedredon a mulher cândida protegeu-as. A terceira mulher olhava apoplética às lésbicas que calçavam 34. Não obstante, além de se protegeram do frio com a mantinha rosa, voltaram a se darem as mãos. Meu Deus, meus ojos vermelhos de tão inchados não acreditavam na cena hilária que se mostrava naquele palco. Enquanto eu olhava para a terceira mulher, eu ia limpando meu globo ocular com lenços umedecidos. Essa mulher já até coçava seus olhos com tamanha cena.

Um instante depois, assim que o voo Ryanair já sobrevoava a Catalunha, pode-se ver a mulher, a terceira, perguntando a moça que agonizava de medo: “ Tu tens medo de avião” NOSSA, ERA EM PORTUGUÊS. A moça agonizante disse retirando os tampões do ouvido: “Oi, a senhora falou alguma coisa?” ... “ Sim, tenho muito medo de avião, poderia ser de trem a nossa viagem”. “Mas fique bem, não vai ser da nossa vez que uma tragédia ocorrerá”

Além dessas aventuras mais que imperfeitas testemunhadas por mim, no auge de uma conjuntivite, ainda dentro deste voo pude observar outra mais escandalosa. Porém, esta teria continuações mesmo depois da viagem de volta para casa.

Lá estava eu, na minha mais transoceânica coceira, quando o hospedeiro do voo passava com suas promoções. Em nossa viagem havia uma grande personalidade, cuja alcunha foi geral, e aqui não será diferente. Essa grande pessoa chamava-se Tia, a tia da Sobrinha. Ingênua, Tia aceitou uma taça de vinho do hospedeiro. Mal sabia ela que deveria pagar pela bebida. Em outro caso, creio que a Sobrinha, pedira uma Coca-Cola, teve que arcar com as consequências. Nos voos low cost tudo que se consome, se paga.

Falando em pagar o que se consome, uma de minhas amigas, interessou-se pelo hospedeiro. Ficaram a conversar com o gajo, que era português. E o hospedeiro, esperto que só ele, ia dando todo o tipo de atenção às brasileirinhas. Ele versava sobre as nordestinas. Para ele o Brasil varonil era apenas o nordeste. Ó paí, ó! Só porque o primo dele, Cabral, chegou na Bahia, isso não quer dizer que... ah, enfim. Palavras ao vento. Hospedeiro, vá ler Hans Staden. Mais adiante, no prosseguimento do caso, o hospedeiro veio todo bobo para cima desta amiga, que questionava o preço de algum produto.

— Isso custa-lhe três eurinhos.

Quando aquele gajo falou TRÊS EURINHOS, pensei. Esse homem gosta de bater numa panela (em Portugal que bate na panela é paneleiro, e paneleiro em Portugal é um homossexual), ele paneleiro gosta de um tupinambá. Esse hospedeiro é parasita. Temos aí o hospedeiro gay.

E ele ficava todo dengoso para cima de minha amiga. Pronto, eram melhores amigas agora. Há algo de podre no reino da Dinamarca. Como dizia meu amigo Hamlet: Ser ou não ser, eis a questão.

O voo chegara em Valência. Assim que uma fila foi se dirigindo para o fundo da aeronave, fui me dirigindo também. Na saída, enquanto o hospedeiro se despedia a cumprimentar a todos os passageiros, minha amiga preparava o bote: ela pegara o seu cartão de visitas e na saída entregou para o chefe de cozinha.

Tchau! Boa noite!

Ainda nas escadas da ave-pássara, disse para minha amiga que achava que aquele hospedeiro era gay. A amiga também achou. Mas vá saber, tudo é possível. Mal sabíamos que o hospedeiro gay entraria em contato já no dia seguinte.

******

Os quatro bolsistas do congresso se dirigiram à linha do metro. Tínhamos que pagar a linha 3 em direção a Rafelbunyol e descer na estação Benimaclet. Na venda de passagens encontramos um homem totalmente perdido. Este portava uma bolsa, um óculos redondo (creio que ele era fã de Harry Potter) e fisicamente tinha um olhar perdido. Certamente era por isso que tinha esse olhar, pois estava perdido mesmo. Pedia ajuda para saber como chegar a uma instituição: El Colégio Mayor Galileu Galilei. Entrei em surto, pois o homem estava indo para o mesmo lugar que nós. Mas que língua ele falava?: não sabia castelhano, catalão, aragonês, leonês, basco, galego, langue d’oil, langue d’oc, rético, sardo. Ele falava alemão, só isso. E um inglês que a tia Beth, a Rainha, não aceitaria de bom grado.

Lá íamos nós, dentro do vagão do metro, do metro mais limpo onde já andei. Em primeiro lugar, Valência; em segundo, Madrid... As estações iam passando. Quando chegamos na parada Quart de Poblet, o homem perdido ia olhando para o mapa, para a bolsa dele, para os lados. Meu Deus, ele é um terrorrista do Osama. Ele vai nos matar. Quem ele vai matar primeiro? Veja a lista abaixo. Quem será a primeira vítima?


Passamos pelas estações Xàtiva, Alameda, Cólon, Facultats e enfim a Benimaclet. Nesta desembarcamos e pegamos conexão coma linha 4, o bondinho. Algumas estações depois estávamos na estação Tarongers, em frente ao Colégio Mayor Galileu Galilei. E nisso o homem vinha atrás de nós, sempre perdido, desamparado. De tantoque pensava naquele homem, me vi perdido. Não achava onde era a entrada da “república dos estudantes” típica da Europa. Quando ia pedir ajuda, uma estudante, moradora do colégio mayor, indicou-nos o caminho. Na recepção fomos muito bem atendidos. Ganhamos nossas chaves, porém não dividiria quando com nenhuma de minhas duas amigas, nem com a outra conhecida. Mas sim com alguém que nunca vira na vida. Quem era aquela criatura, como ele era. Recebi a chave do quarto: 158.

Lá estava eu indo para uma grande aventura, uma grande experiência de minha vida. Isso pode ser até piegas, até romântico, mas o fato de um brasileiro que vivia enfurnado em seu casulo, o seu quarto, com seus livros, sua literatura, suas músicas e seus sonhos sair de lá e se aventurar num quarto de uma república de estudantes, dividir o quarto com alguém que nunca na vida tinha visto antes é muita expectativa. Tanto para mim, quanto para ele que me esperava ansioso. Seja bem-vindo a realidade Alex, ela é melhor que os sonhos, ela é a realização dos sonhos. E para realizar esses sonhos, abri aquela porta azul e na porta, o número 158 desenhado em cinza. Era ali que conheceria um novo episódio na minha vida Amelie Poulain.

Como ele era? De onde vinha? Da Argentina, do Peru, da Colômbia (céus!)? Da Espanha mesmo? Não, impossível, as bolsas são destinadas a integrantes da comunidade europeia. Abri a porta. A porta rangeu. Uma escuridão no recinto. Um corredor. Acendi a luz. Larguei a porta. Um estrondo. E após o estrondo lá estava um rapaz deitado numa das camas.

Com licença leitor, vou dormir. Meia-noite e quarenta e quatro. Até mais. Depois conto o final. Au revoir.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Primeiras estórias - parte 2 e derradeira - VOO TAP PORTUGAL

A história foi inacabada quando o grupo de congressistas estava a adentrar na lata voadora. Mas isso não ocorrera por motivos que nem a psicanálise poderia revolver. Sim, por uma analepse temporal, não daquelas que voltamos no tempo, mas sim daquelas que voltamos ao tempo utópico, fez com que uma de nossas colegas esquecesse onde colocara o documento fundamental para o sucesso de sua viagem.

Por Gugu Liberato! Os pintinhos foram procurando e averiguando por todos os lugares daquele saguão onde o passaporte estaria após as 16h daquela mesma data. Uma investigação minuciosa se deu, mas nada fora encontrado. Isso poderia ser apenas um caso para o nosso C.I.S – investigação criminal. Então, senhor leitor, que não tem mais fé na minha narração, por isso creio que tomas agora um café para não dormir, devido a tamanha encheção de lingüiça.

Que assim seja. Pelas forças da fada Bela e pela pergunta do senhor que questiona na beira da praia: “ Cadê o chinelo?”, um fenômeno espiritual, provindos da novela Escrito nas Estrelas, o passaporte fora encontrado ainda com vida dentro da bolsa da moça. ACHEI! Era o grito de independência dado às beiras da Bahia da Guanabara. Que cheiro bom, onde estará meu Dolce & Gabanna?

Após tremores intensos, lágrimas de desequilíbrio emocional e um viva, as doze mulheres e um membro masculino foram adentrando a ave-pássara. Logo que iria adentrar na nave do Xuxa Park, fui abordado pelo comissário de bordo, Pedro, que me disse que eu deveria entrar pelo primeiro corredor. Quando cheguei ao meu lugar, na terrível classe econômica, percebei que estava no corredor, que bom, isso não era surpresa, pois pedira isso a moça do check-in. O que foi surpreso para mim foi a presença de duas meninas e a mãe destas. As três num só impulso usurparam o meu lugar. Abordei a mais velha, a mãe, é claro, e perguntei onde era o 17E. Então a portuguesa de deu conta que, sem querer, havia se enganado. Ao olhar no horizonte, que era logo na fileira de trás, constatei que ali estavam minhas companheiras. Troquei de lugar com as portuguesas e fui para o outro lado, mais próximos de minhas companheiras transoceânicas. Ali estavam Cléia, minha companheira de Theatro São Pedro; Felícia, AMIGAAAAAAA; e a senhora T..., a mesma que fora levada pelo trem de Paris na estação Gare du Nord e desprendida do grupo sem mapa, sem lenço e sem documento. Ali estávamos mais uma vez. Que satisfação!!! Algumas fileiras a minha frente estavam minhas amigas do peito, ambas cândidas e lindíssimas e ambas na sua primeira viagem à Europa.

“Atenção senhores passageiros. Dentro de instantes estaremos descolando nosso voo com destino a Lisboa. Nossa viagem durará cerca de nove horas e meia. E faremos o possível para que o voo seja o mais perfeito possível”.

Nisso começou a programação de todo voo. Antes da descolagem, os comissários de bordo, OS HOSPEDEIROS, ficam instruindo os passageiros como deveriam se comportar em momentos de tensão. No voo TAP PORTUGAL essa ideia semiótica mudou, pois não conduzem a nada. Quem faz isso é o vídeo que passava em cada uma das televisões, que cada um dos passageiros tem disponível na poltrona da frente.

Uma vez rolados e descolados, a viagem seguia seu curso. Inicialmente me vi num conflito com a tal televisão. A minha não ligava. Tive que pedir ajuda às portuguesinhas de Fátima, as meninas que sentavam ao meu lado. Eram tão educadas. Não choravam, nem gritavam. Eram discretas, como toda criança deveria ser: MUDA. Ironias a parte, elas me indicaram o botão a que eu deveria recorrer para chegar a meu fabuloso destino. Como o conflito das gerações é sangrento. Os jovens de hoje sabem tanto, penso eu, o sexagenário do voo 178 TAP PORTUGAL. Uma vez a televisão ligada, comecei a surfar nos canais de filmes: havia uma comédia romântica bem gay, SEX and the CITY; no outro canal um filme de aventura; noutro um filme brasileiro bem pobre, podremente mostrando a pobreza do povo, aff (aliterações em p me chamam muito a atenção); um infantil, dublado, em português de Portugal, onde cachorros e gatos falavam mais corretamente a língua do que eu (hilário o filme); e ainda havia outros; mas cansei de contar palavras.

Havia várias estações de rádio. Para todos os gostos e estilos. Sintonizei-me melhor com a POP, que segundo o locutor português dizia: “ Eis a tabela de sucessos da TAP PORTUGAL. Tu estás a ouvir TAP PORTUGAL”. E disso começa a tocar Lady Gaga, Alejandro (Fernando, Roberto...). Meus pés já dançavam depois disso. Em seguida Katy Perry, Eminen feat. Rihanna. E assim vai. A música tem o poder de te levar para o mesmo lugar em que tu a escutaste numa viagem, por exemplo. Ano passado, quando estava em Lisboa, andando pelas ruas centrais, escutava num MP3 Hot Could, de Katy Perry. Toda vez que escuto essa música, me lembro dos passos que dava na praça do comércio. E agora, uma vez de volta a terra do nunca, digo-te, que todas as músicas que escutei no voo TAP PORTUGAL estão sendo tocadas em todas as rádios e quando as escuto, eu acabo me transportando para a viagem aérea.

Dei uma cochiladinha de leve. Não consigo dormir em aviões quando estou me dirigindo a meu destino; somente na volta, durmo e durmo, e quando acordo me atraco com o comissário, com o HOSPEDEIRO. (Cabe traduzir o intraduzível, que HOSPEDEIRO em Portugal é o comissário de bordo). Mas essa é uma história, uma das últimas, que relatarei desta viagem. Que bela prolepse! Que bela catáfora! Que bela sincope!

Após ter sido comido, ou melhor jantado, outras sete horas de viagem se alongaram. Mas digo que passou mui rápido. Mui rápido que pude ver minha amiga, a mais cândida de todas, a que estava ao lado da outra lindíssima, ir escovar os dentes duas vezes. Quando dava por mim, lá estava ela com o creme e a escova na mão rumo ao banheiro de avião.

Uma aventura se deu quando eu e a senhora T..., mas que satisfação, decidimos dar uma circuladinha nas pernas. Fomos ao encontro da professora e de duas colegas, a Selma e a Velma, dos Simpsons, pois formaram uma dupla de fumantes ativas na viagem. Elas dormiam, sonhando que tragavam um charuto cubano, quando foram acordadas por mim e pela senhora T... pois estávamos fazendo uma pesquisa de clima. Perguntamos se o VOO TAO PORTUGAL estava satisfatório para elas. Ainda sonolentas, com a sintonia em ritmo, responderam, demonstrando o máximo que a simpatia deveria demonstrar: “Eu pensei que já tínhamos chegado”, disse Selma. Eis a historieta que contarei. Agora não lembro-me dos fatos, desculpa-me a subjetividade, mas conterei a história crua. Sei que alguém acabou nos pedindo água, não me lembro quem. Prestativos, a senhora T... e eu fomos correndo até o fundo do avião para pedir dois copos de água. No trajeto nos deparamos com uma criatura que dormia toda coberta com a mantinha patrocinada por TAP PORTUGAL. Olhamos-nos e rimos. A aventura até o fundo do avião era muita. Mas cerca de um minuto depois chegamos até a hospedeira. Ela, com cara de poucos amigos, disse-nos que deveríamos sentar. A senhora T... pediu dois copos de água. A hospedeira os pegou e nos passou. Quando a mulher deu os copos à senhora T... uma terrível turbulência se iniciou e os começamos a dançar o rebolation, mas um rebolation TAP PORTUGAL, com copos TAP PORTUGAL, e águas TAP PORTUGAL, e uma turbulência TAP PORTUGAL. Olhei para uma televisão e ali mostrava a posição do avião em sua rota: tragédia, o avião estava bem no arquipélago de São Pedro e São Paulo. Mas levei na brincadeira, como tudo faço na vida, com a relação ao voo da Air France. Levei na brincadeira, pois estava me divertindo com aquela turbulência e de ver a senhora T... rebolando com dois copos de água na mão durante uma turbulência.

Ela me pedia ajuda. Mas eu não era nem louco de ajudá-la. Imaginei-me derrubando a água na criatura da manta TAP PORTUGAL. Nãaaaaaaao. Fiz-me de louco e fui no ritmo do Parangolé.

A água chegara ao destino sem que uma gota fosse desperdiçada pelas turbulências da vida.

Mais horas se passaram e o avião passava pela ilha de Lanzarote. Que saudade de ti, Saramago!

Outras horas depois o televisor indicava que estávamos próximos de Lisboa.

Era um inicio de manhã naquele continente idoso, um idoso que sorria com seu nascer do sol, início da vida naquele lado oriental do ocidente. Era o nascer da nossa viagem aquele favônio, o nascer da nossa vida, uma nova fase de descobertas. Aquele sol que se anunciava era o símbolo de todas as faces de um renascimento, renascimento daqueles viajantes que teriam epifânias, alomorfias, distrofias, momentos de fortes emoções, lágrimas, paixões, escândalos e, é claro, satisfações. Voltariam para casa sem acreditar no sonho, no sonho-felicidade, anestesiados dos momentos que viveriam.

O avião aterra.

Andamos de autocarro até a imigração.
Lá, as mesmas perguntas rotineiras, e um carimbo fraco, que mal se vê no passaporte.
Por ter sido o primeiro a passar pela imigração, fiquei esperando minhas amigas de aventuras lisboetas. Estas amigas seriam algumas, pois em duas horas um voo levaria três companheiras separadamente para Barcelona. A senhora T... e Felícia ficaram fazendo companhia uma a outra no aeroporto; outra companheira de viagem, a senhorita F..., recebeu uma amiga que morava na terrinha; outras três foram para Barcelona; e o resto correu para desbravar Lisboa. Tínhamos cinco horas. Corremos.



Quero salientar ao leitor esquecido a frase que minha mamãe-profética dissera em Porto Alegre, naquela cidade meridional do mundo terceiro: NÃO SAIAM DO AEROPORTO, PODEM PERDER O VOO”

Naquela corrida, ainda no aeroporto de Lisboa, que era mais aeroporto, procuramos o serviço de informações. Queria comprar o cartão VIVA!, para podermos passear nos autocarros, metros, eléctricos. O puto, como dizem em boa variação diatópica, explicou-nos que existia o cartão para um dia. Naquele cartão poderíamos utilizar em todos os transportes, excepto em metros. Tudo isso por € 3,50. Caímos de boca. Pegamos o primeiro aerobus.

Fomos passeando pelos pontos turísticos. Trafeguei novamente, de aerobus, na avenida da Liberdade, ponto lisboeta em que me perdi da outra vez em que ali estive. Naquele incidente, cigarros similares me foram indicados, indicados pelos traficantes dignos da da novela Passione. (Falando nisso, cadê o Danilo?, fecha parênteses). Descemos em frente ao Teatro Maria I. Subimos até o Castelo de São Jorge. Para chegar lá, subimos o bairro inteiro de bondinho. Adentramos no castelo. Estar ali novamente era a concretização da minha primeira viagem. Agora sim eu acredito em meus sonhos: um dia eu tinha passeado na Europa. Pois, quem vai a Europa uma vez, volta aqui para baixo e não acredita que lá esteve. Agora, que fui pela segunda vez, acredito e se acredito, não sofro. Depois do castelo de São Jorge, andando no bondinho da carreira 28, levei minhas companheiras de jornada até o monumento de Fernando Pessoa, na praça Camões. Depois fomos descendo uma rua, de cujo nome não lembro, mas lá estava Eça de Queirós abraçado a uma mulher nua. Bárbaro, nada como Eça de Queirós. Um escândalo na sociedade portuguesa. Nessa mesma rua, uma das integrantes quase morrera atropelada por um autocarro, que descia a rua uma velocidade que parecia de um filme com Keanu Reeves como o tira-herói. Mas todos foram salvos. Dirigimo-nos até a praça do comércio. Lá, depois de uma seção de fotos para a Moda Brasil (da novela TITITI), pegamos um bondinho moderno rumo à torre de Belém. Lá, como se fosse o parque da Redenção ou o Parcão aos domingos, estava apinhado de gente o lugar. Ficamos a caminhar pela beira do rio Tejo, observando o corcovado, a ponte 25 de abril, o padrão dos descobrimentos. Tudo um dejavu. Discorda-se de dejavu quando se refere a clima. Da outra vez, inverno; agora, forno. Que vontade eu tive de adentrar ao chafariz que fica em frente aos Mosteiros do Jerónimo, onde fica o túmulo de Luis de Camões, Vasco da Gama, Fernando Pessoa. Ao lado, na esquina, estava o glorioso, o fenomenal, o misterioso pasteizinho de Belém. Eu estava com fome, mas com aquele calor, que arrebatava a Lisboa nunca Dante caminhada naquela temperatura, fazia com que eu não tivesse a paciência divina para encarar uma fila de turistas que queriam a fórmula secreta do acepipe. Exaustos, de termos feito chover no nordeste, pegamos o primeiro autocarro em direção ao Cais Sodré. Ali embarcamos no autobus com destino ao aeroporto. Como eu queria ter conhecido o Parque das Nações! Mas deixa para a próxima.
Chegamos ao aeroporto de Lisboa e ficamos esperando por duas horas, até que o VOO TAP PORTUGAL nos levasse até o terceiro estouro da pipoca, Barcelona, onde esquentaríamos a panela para o quarto e derradeiro estouro, Valência, o destino de nosso congresso. Mal sabiam os aventureiros o que Valência preparava além do arroz, das laranjas e da paella original.
O VOO TAP Portugal descolou e deixou Lisboa lá em baixo, e eu lá em cima com uma alergia ao calor. Meus olhos choravam de tanto calor. Mal sabia eu, mas era a conjuntivite em ação. O voo durou uma hora e algumas pequenas frações de hora quando chegamos a Barcelona. Agora era aguardar mais um pouco, o voo da Ryanair, voo que daria para a história aos aventureiros os momentos mais intrigantes e misteriosos da viagem.

Mas isso se dará brevemente, creio que na semana que vem, quando contarei a vós, que me perseguem, a história do turbulento e sexual voo da Ryanair. Plauto daria muitas risadas com os quiproquós.