quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O segundo dia em Valência e medos do estranho

Intrigado leitor. Vou agora contar o que eu e minha amiga Felícia encontramos no facebook do amigo hospedeiro. Mas também aqui contarei, neste episódio, nosso segundo dia em Valência e um momento surpreendente entre mim e o meu colega de quarto, o romeno.

Lá estavam as fotos. Fora comprovado por meios técnicos que o hospedeiro gostava de tocar uma panela. O hospedeiro era gay. Mas não um gay afetado, mas um gay três eurinhos. Três eurinhos e discreto. A foto mais insinuadora foi aquela em que um pseudoamigo lhe tocava o ombro, e o hospedeiro, delicado com a tamanha intimidade, tocava-lhe a mão que afagava o peito. Mas isso, quem sabe não é nada. Quem sabe seja uma postura aceitável no velho mundo. (???)

Felícia, minha amiga, mais rápida que a luz, lançou-lhe um recado na face do livro do nosso cozinheiro. Foram palavras simples, sem nenhuma indiscrição, muito pelo contrário; dizia ali que fora um dos melhores voos até então navegado.

Mal sabíamos nos que o hospedeiro gay estaria em Barcelona, na mesma cidade de nossa parada turística.

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Mas continuando o fado, triste leitor, quero contar as peripécias aristotélicas que ocorrerem no segundo dia em Valência.

Despertei, tomei, mais uma vez, aquele café da manhã fabuloso que nos foi apresentado no Colégio Mayor.

Saímos rumo a Faculdade.

Sim, era o dia de apresentações de trabalhos científicos. Minha amiga, Lindy, estava no aguardo da professora, pois apresentariam juntas as pesquisas. Professora esta que não encontramos ainda, desde a nossa chegada ao paraíso achado.

Por um encontro do destino, entre os corredores da faculdade, acabei topando com a professora e a legião de amigas perdidas e desgarradas. Abraçamo-nos e estava tudo resolvido. Elas contaram-me que o hotel em que estavam hospedadas não ficava em Valência, mas sim em Gandhia, uma cidade há 50 minutos de trem. Narraram-me que após a nossa despedida no aeroporto, elas tiveram que pegar um taxi, três taxis para ser mais coeso, rumo ao endereço que demarcava no voucher da companhia turística. Os táxis percorreram nada mais do que duas horas, segundo a narração das moças de Gandhia, e quando o taxi trafega, o taxímetro dança, e a maquininha rebolou, mas rebolou tanto que cansou quando chegou a marca de noventa euros, meu leitor. Sim, noventa euros. Jamais poderíamos imitar o nosso hospedeiro Ryanair e dizer: — Noventa eurinhos. E para finalizar as aventuras, perceberam que não ficava em Valência o hotel. Logo, tinham que pegar o trem, pagando sete eurinhos e dez centavinhos para chegar a Valência, mais precisamente na estação do Nord.

Por essa razão não nos encontramos ontem.

As apresentações de trabalho foram bem sucedidas. Ao meio-dia iniciou o intervalo. Fugimos para a cidade. Felícia, Lindy e eu nos colocamos a disposição a levá-las a locais que não puderam conhecer.

Quero aqui contar um evento que vinha no meu intimo. Como sabes fui contemplado com uma bolsa para participar do congresso. E para que tudo desse certo eu tinha que me comunicar com duas pessoas de nome catalão: um deles, o organizador do congresso, Maria Luci, opa, errei o nome, é um homem, o nome dele é Cesário Calvo Rigual. Muito quis conhecê-lo e agradecer a bolsa concedida a mim. Mas também houve uma outra personalidade, a Senhora Inmaculada Carrasquer, aquela que me inscreveu e aceitou a minha beca.

Felícia e eu, nos corredores da faculdade de filologia e comunicação, decidimos procurar Inmaculada Carrasquer. Desejava saber como eram as feições desta senhora de alcunha tão Carrasquer. Fomos a mesa de organização para importuná-los. Questionamos sobre a procurada.

— Inmaculada deu una subidinha. Ela foi pelas escaleras... mas ela já regressa.
— Nós ganhamos una beca para participar del congress. Somos brasileños. E queremos sacar uma foto.
— Só um instante — disse a mulher se virando para um homem calvo. Ela gritou — Cesário (Felícia e eu nos viramos imediatamente), Inmaculada já descerá?
— Si, ela subiu e já volta.
— Cesário — disse Felícia — somos do Brasil e queremos sacar uma foto com usted.
Ele deu uma risada e uma explosão de flash marcou o momento.

Mas a aventura continuaria, pois queríamos saber quem era Inmaculada Carrasquer.
Aguarde leitor, ainda neste episódio saberás.
O aguardo acabou. Vou contar agora.

No inicio do intervalo procuramos a procurada. A primeira mulher que nos atendeu nos viu e abordou-nos e disse que Inmaculada Carrasquer estava presente.

— Inmaculada, eles ganharam uma beca e querem uma foto.
Sim, era ela. Inmaculada. A mulher que visualizei por semanas. “Ela é a carrasquer?”, pensei. Inmaculada era uma mulher ... Ah, veja na própria foto sacada.

Depois dos projetos realizados ganhamos a cidade.
Pegamos o metro na estação Facultats em direção a Benimaclet. Ali fizemos uma conexão com a linha 4. Acabamos descendo na frente do Colégio Mayor, na estação Tarongers. Ali, minha amiga Cândida contou-nos que esteve aqui nos procurando no dia anterior. De tanto que perguntava nas ruas de Valência onde ficava o Colégio Mayor, ela tinha conseguido chegar. Achei aquilo de uma delicadeza e uma prova de amizade. Ali, conheci melhor quem era a minha amiga Cândida. Mal sabia eu o que ela faria por mim, numa das maiores aventuras de sua vida. Aguarde os próximos episódios, curioso leitor. Esqueci de contar o porque de termos parado na Tarongers. O elétrico, quando o pegamos, anunciava que a ultima parada era em frente a minha casa. Ficamos ali esperando a próxima linha passar.

Fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Um lugar em que a arquitetura é a obra das mãos homem por meio de uma criação maior. A beleza que somente os belos têm acesso. A grandiosidade que somente os gigantes podem pisar. Quem for a Valência tem que ir a esse lugar. Por falta de tempo, devido as apresentações, tivemos que optar de ir a apenas um dos monumentos arquitetônicos: OCEANOGRÀFIC, o maior da Europa. Lá tirei foto com todas as espécies marinhas, inclusive com ele, o leão dos mares, o vilão dos marinheiros de Spielberg. Tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan. TUBARÃO. Para vê-los paga-se a quantia módica de 23 eurinhos, como diria nosso Hospedeiro. Um lugar para passar a tarde inteira.

Mas ficamos ali uma ou duas horas. Havia comunicações das minhas companheiras de jornada. E por estratégia de grupo, decidimos nos eliminar para que pudéssemos comprar a passagem de trem para Barcelona. Os eliminados do paredão foram Felícia, Cleíssima e eu.

Dirigimos-nos, os três, a estação do norte. Lá fomos atendidos por um catalão com más intenções.
— Mas para onde vai essa família?
— Minha madrecita (Cleia), minha irmacita (Felícia) e eucito iremos para Barcelona — respondi.
— Bela mare.
— Quê?
— Bela madre, em catalão.
— Minha madrecita está solteira. Quer namorar, a coitadita.
Cléia queria ter uma sincope.
— De onde vocês são? — perguntou o senhor do guichet.
— Brasil.
— Por isso são guapas.
— E por serem guapas, tem desconto — perguntei eu, o proxeneta.
— Só se voltarem para Valência.
— Não, não voltaremos desta vez — respondeu Felícia, minha irmacita.
Compramos três passagens para as 6h40min do dia 09/09 com destino a Barcelona. E outras OITO viajes para as 10h para o mesmo destino: BARCELONA-SANTS.

Depois disso fomos para a faculdade. As apresentações se encerraram. Os grupos se separaram: uns foram fazem compras no El Corte Inglês; enquanto outro foi descobrir a história de Valência no MUSEU DA HISTÓRIA DE VALÊNCIA. Tivemos uma dificuldade de chegar ao museu. As setas indicavam, mas parecia que as ruas sinuosas não auxiliavam o melhor caminho. Assim que descemos da estação de metrô perguntamos a um passante, que além de nos explanar o trajeto a tomar, ainda nos deu uma aula sobre um prédio histórico por onde passávamos. Mais uma vez ficamos encantados com a educação e sensibilidade dos valencianos. Conseguimos chegar ao museo. Ali viajamos no tempo para 138 a.C. Deparamo-nos com as invasões visigodas, com o comércio da Catalunha, com as laranjas valencianas, com o arroz valenciano, com a cultura da cidade que foi capital da Espanha, com a cidade que foi e é uma porta do Mediterrâneo, com a cidade que criou a paella. E para finalizar esse passeio histórico, quando chegamos numa das salas labirínticas, uma película iniciou. Assistimos ao filme, que contava os bombardeios culturais e bélicos que a cidade sofreu no decorrer de sua história. Foi muito bom.

Fomos para casa. Tomei um banho e desci para jantarmos. Depois do jantar fui para o quarto de Felícia, onde ficamos conversando com a italiana, sua companheira de quarto. Falamos sobre a imagem do Brasil no mundo, sobre cultura e algumas experiências.

Quando cheguei no meu quarto, deparei-me com o romeno. Começamos mais uma vez nosso bilinguismo. Falei para ele sobre o encontro com Cesário Calvo e Inmaculada Carrasquer, sobre os passeios na cidade, sobre os eventos do congresso. Ele contou-me, cheio de titubeios, pois não conseguia encontrar as palavras em castelhano, sobre sua apresentação. O titubeio foi tamanho que ele reduziu todas as impressões em:

— Foi tudo bem. Bem.

Continuamos uma conversa dinâmica, como sempre. Acabei falando sobre a praia de Malvarrosa, seu público e os fenômenos que lá ocorrem. O romeno fez-me uma pergunta que gelou minha espinha e paralisou minha arte de pensar. Perguntou com olhos esbugalhados de cigano, com um sorrisinho locupletável e com dentes de vampiro de Bucareste

— Tem muchos hombres na praya?

Só uma palavra pode descrever o que sentia:
MEDO .

“Ih, não sei não, vai ter sacanagem” — dizia uma feiticeira.
“Isso ai tá estranho, tá estranho, hein” — dizia uma aluna intrigada.

MEDO.

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