Caro leitor, quando eu adentrara ao alojamiento de número 158 minha vida mudaria, pois enfim lavaria meus olhos com água abundante. Porém, a primeira ação que fiz foi enxergar meu colega de quarto. Lá estava ele deitado, como se estivesse olhando para cima e pensando na vida. Olhamos-nos e nos cumprimentamos. A primeira questão imediata partiu dele: where you from? Lá fui eu, cheio de orgulho da nação brasileira, disse: Brasil. Ele pareceu ter feito um misto de ódio e alivio, pois arregalara os olhos, sorrira sem olhar para mim e respirara fundo.
Senhor leitor, eu omiti-vos. Omiti na hora quando cheguei ao Colégio Mayor e ao informar meu nome e descobrir que o quarto para onde me seria destinado era o 158, havia descoberto que um romano dividiria o quarto comigo. Meu Deus, um romeno. Eu jamais tinha imaginado que alguém da Romênia lá estaria. Os fatos são bem mais instigantes quando não os prevemos, nem quando criamos expectativas.
Eu disse para ele que já sabia que o where you from dele era Romênia. Ele esbugalhou mais ainda os olhos, mais esbugalhados que já eram ao natural. Ele me perguntou se eu falava francês? Pouco. Inglês? Só leio. Romeno? Nem uma sentença. Castelhano? Portunhol. Após uma conversa estranha e praticamente no escuro, decidi ir para a casa de baño tomar um banho.
Depois de ter me banhado com o primeiro banho valenciano, pus-me a deitar. Na escuridão da noite, somente uma lua vampiresca (provinda da Transilvânia) iluminava o quarto. Lá estava eu, dormindo desconfortavelmente numa cama confortável. O romeno dormia como se estivesse num caixão. Ele estava esperando a oportunidade propicia para por os caninos afiados para fora e degustar, como num supermercado, o sangue latino-brasileiro. Mas isso não aconteceu, continuo um reles mortal, nem virei personagem da saga crepúsculo.
Era sete da manhã quando fui acordado por Edward. Opa! O nome dele não é Edward. Mas sim M... Ele acordou-me e começamos a conversar. Eram quatro dialetos: castelhano, português, francês e inglês (nesta ordem). Quando vocábulos se perdiam no conhecimento linguístico, outra língua entrava em ação. Logo eram frases compostas sempre, em média, por duas línguas. Inicialmente ele mostrou-me o caderno de resumos do congresso e desejava saber onde eu estava. Procurei-me no índice por sobrenome e facilmente encontrei. Mostrei para a ele o resumo. Depois fomos conversando sobre nossos países, economia, cultura. Falamos de nossas profissões. E enfim falamos sobre o café da manhã. Já era hora do café da manhã. Ele desceu, enquanto eu fui para o banho. Meus olhos já não mais lacrimejavam.
Meia-hora depois desci e pude encontrar minhas amigas. Encontrei na saída meu colega de quarto. Ele estava com suas amigas romenas. Apresentamos-nos todos. Em seguida estava me servindo no Buffet. Foi o melhor desayuno que tive em todos os hotéis em que já estive no mundo. Quando cheguei à mesa deparei-me com o homem que julguei ser um integrante da equipe de Osama: o homem perdido. Lá estava ele com minhas amigas. Sentei-me, falei algumas bobagens habituais, e Felícia apresentou-me a um gaucho que vive na Austrália há mais de 20 anos. Conversamos animadamente os seis. Subimos e em seguida nos dirigimos a Faculdade de Filologia.
Peguei o mapa. Tínhamos que descer na estação Benimaclet, fazer conexão e descer na estação Facultats. Lá não demorou muito para encontrarmos a instituição. Pegamos os materiais e ficamos a espera de nossas outras colegas de viagem. Como elas não apareciam, mandamo-nos.
Naquele dia não havia apresentações, nem palestras. Por isso, cidade para que te quero.
Mas antes eu tinha que fazer umas comprinhas pessoais. Encontramos o Mercadona, o Zaffari do turista porto-alegrense. Fiquei horrorizado com o preço dos produtos: um desodorante, sabonete líquido, lenços para renite (não precisava, mas comprei para quando precisasse no Brasil), shampoo, escova de dente. Tudo isso me custou no caixa sete euros. Sete euros. Sete euros. No Brasil, aqui em baixo, passaria dos 40 reais a soma dos mesmos produtos. Viva os impostos aduaneiros!
Fomos para o centro gótico de Valência.
Pegamos o metro rumo a estação Xàtiva. Lá nos deparamos com uma plaza de touros, construída entre os anos 1850-1860 para ser o cenário das grandes touradas. Um escândalo. Mais adiante fomos andando pelo centro a pé. Pobre de nossos pés. Um calor escaldante de 26ºC acusava no termômetro. No final desta imensa avenida, chamada Carrer Cólon, nos deparamos com a Plaza Porta de la Mar, porta que deve o seu nome à antiga Porta do Mar, a entrada que comunicava a cidade com as povoações marinhas e a zona portuária. Ali, olhando para o mapa, percebemos que não saberíamos para que lado ir. Então decidimos pedir ajuda, desejávamos ir a Roma. Abordamos um homem por volta dos 40 anos e dissemos que desejávamos ir a Plaza del ajuntamiento. O celular dele tocou, ele atendeu e disse que estava ajudando turistas e que depois poderia ligar. Achei aquilo de primeira! Guiou-nos. Agradecemos a simpatia e fomos ao nosso destino. O calor estava cada vez mais intenso. Pela primeira vez na minha vida meu corpo gritava por água. Andando e andando acabamos chegando a Plaza de la Reina, onde estava a catedral de Valência. Um escândalo. Em seguida, pelas ruas estreitas nos encontramos com a torre de Santa Catarina, igreja datada de 1245. As meninas já pensavam em almoço, mas eu, insaciável para conhecer a cidade, pois não era meio-dia ainda, desejava conhecer mais e mais, por mais que meus pés também já estavam dilatando de dor. Tomamos uma água. Em busca da Plaza del ajuntamiento, acabamos nos apresentando ao Mercado Central de Valência. Um primor! Construído entre os anos 1910 e 1928. Trata-se de um mercado como todos conhecemos. Como um Mercado Publico de Porto Alegre sem o cheiro de peixe. Como um Mercado Público de Porto Alegre sem sujeira. É o lugar mais limpo que já vi na vida, se tratando de mercados centrais. Ali nos arredores, há as Lonjas, Lonjas de la Seda ou de los Mercaderes, de 1482, patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO. Depois de uma caminhadinha achamos a Torre de Quart. Este ponto turístico foi construído por Pere Bofill entre 1441 e 1460 e ganhou esse nome por ser caminho que conduzia a aldeia de Quart de Poblet. Desde 1626 até o século XVIII foi prisão para mulheres.
Cansados de tanto caminhar, decidimos voltar para casa e almoçar. Desejávamos encontrar uma estação de metro. Olhávamos para os lados e nada. E aquele calor, e aquela sede, e aquele sol, e aquele céu. Certo momento pedimos auxílio a uma senhora que passeava com um bebê. Esta deixou a criança e foi até nós. Brincou conosco e apontou-nos uma estação que havia no meio de uma praça. Agradecemos a gentileza e fomos ao nosso destino. Instantes e passos dilacerantes depois encontramos a estação. Uns 15 minutos depois estávamos no hotel e almoçando.
Descansamos por uma hora e meia.
Depois disso pegamos o elétrico que passava em frente de casa e nos dirigimos a estação Eugenia Viñes, que ficava na playa de malvarrosa. Lá estava eu indo para o mar mediterrâneo. Que ansiedade. Minha expectativa esperava enxergar um mar verde, não algo medonho como uma água de Tramandaí.
Era uma imensa camada de areia, um caminho que saia dos chuveiros e vinha até o calçadão (para que os banhistas não sujem os pés de areia após a limpeza. Inteligente!). Lá embaixo estava o mar. Mas que cor era aquela que enxergava? Ia maravilhado fiscalizando as pessoas, a temperatura da areia, as mulheres de topless, homens de cueca tomando banho de sol, senhoras e moças de soutien e calcinha na praia, crianças na beira da água, cachorros brincando com seus donos. Lindy e eu jogamo-nos para dentro d’água. Quentinha, brava, transparente, verde, muito diferente de Tramandaí, sem pescadores, nem redes, nem aqueles peixinhos que beliscam os pés dos andarilhos de beira d’água. Lindy perdera os chinelos e ficou perguntando na beira da praia logo depois de sairmos da água: “Cadê o chineloooooo”. Coisas da professora Lindy.
No final do dia, após a praia, Felícia, Lindy e eu fomos a Cidade das Artes e das Ciências. Eu tinha que saber como eram os monumentos arquitetônicos de Valência à noite. Embarcamos na linha 6 do elétrico. E da estação final, Marítim-Serreria, fomos a pé até as facetas de Deus pelas mãos do homem. No meio do trajeto, pelas ruas serem curvilíneas, acabamos perdendo o sentido. E mais uma vez fomos vítimas de autóctones simpáticos. Cinco minutos de caminhada meus olhos foram capazes de avistar a assombrosa Ponte de Assut l’Or. Percorremos pelo L’Hemisfèric.
Voltaríamos ali com o resto do pessoal no dia seguinte para que possamos adentrar aos museus.
Regressamos para casa. Jantamos. No refeitório do Colégio Mayor estavam os alunos fazendo prendas e piadas, que na minha concepção de mundo não eram engraçadas. Nem entre eles tinha a devida graça. Creio que era o mico de estudante novo, pois era sempre (do almoço e do jantar) o mesmo que tinha que fazer as palhaçadas na frente de todos. O nome da criatura era Antônio.
Antes de dormir, meu colega de quarto e eu conversamos por meio de nossos quatro dialetos. Rimos bastante. Eu fui para minha cama, ele para o “féretro” dele. Dormi a noite inteira. Não tive medo da lua.
Ah, leitor sorridente e esquecido, deslembrei de dizer que naquele momento que sossegávamos, após o passeio da cidade e antes de irmos à praia, conectamos a internet e vos digo que o hospedeiro gay entrou em contato com a amiga Felícia. Tratava-se de um convite para a comunidade do Facebok.
— Felícia, amiga, vamos ver as fotos dele agora! Assim saberemos se o hospedeiro é ou não é gay, eis a questão. Vamos ver o que ele te escreveu? Será que há um convite?????
— Amigooooooo, boa ideia. Vamos acessar já — respondeu Felícia numa excitação que pingava.
Mas como ia dizendo leitor ansioso, o blog é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa condição cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste blog és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o blog anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este blog e o meu estilo são como os ébrios, guiam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem. Por isso que te digo, como te dizia na última lavra do penúltimo parágrafo, não tive medo da lua, e por não ter medo da lua, dormirei. Amanhã ou depois, tu sabes, o blog anda devagar, como dizia nosso Machado de Assis, continuarei a história – com as revelações das fotos do hospedeiro gay ou não gay.
Disse para meu colega de alojamiento:
— Me despiertas para o brakfest, desayuno, café da manhã, petit dejeneur?
Amanhã, sendo despertando, eu continuo aqui.
Leitura divertida!!!
ResponderExcluirAs cenas iniciais, com teu colega romeno, foram hilárias! Gosto da ironia...
Abraço!
Leandro