Depois de criar uma das personagens mais deslumbrantes e deslumbradas da minha literatura, uma outra, que há anos trafega por minha mente bilionária, voltou a bater à minha soleira.
Como disse no post anterior, eu contara a meus alunos as aventuras de algumas personagens de um romance escrito por mim. Neste obra (em letra minúscula ainda) há a heroica-vilã de nossas vidas Laurinha Fontana, muito conhecida de meus amigos intelectualizados. Trata-se de uma socialite maluca de amarrar em poste. Tão maluca quanto seu criador. Era uma obcecada pelo filho, por florais de bach e por echarpes. A tira-colo, tinha seu secretário exclusivo, uma espécie de Sancho Pança, que a acompanhava na doidivana aventura rumo à família perfeita.
Meus amigos vibram e gargalham com as loucuras de Laurinha Fontana. Os motivos para isso somente eles sabem, pois aqui jamais contarei. A menos que eu publique esta obra.
Nessa mesma linha de personagens, que infelizmente não me abandonam, estou a dar vida a mais uma louca para o hall da literatura de gaveta: Emilinha Dummont.
O leitor deve notar a sintonia dos nomes e concluir a falta de criatividade do escritor. Isso é mais forte que eu. Imagino uma senhora de cabelos desgrenhados, totalmente desequilibrada e com um humor negro-depressivo que muito nos divertiria. Emilinha, a coitadinha. Emilinha, a bonequinha. Emilinha diferente de Laurinha.
Laurinha queria o filho somente para ela. Emilinha nem filhos têm. Na verdade os pariu, mas os pariu para a vida (diferentemente da outra). Os filhos dela estão a viver na Europa felizes da vida por não ter a mãe por perto. O que Emilinha mais deseja, então? Eu sei, mas ainda não revelarei. É muito confusa a mente criadora de um deus-das-palavras. Personagens nascem de nossas mentes esquizofrênicas e num instante mudam seus destinos, destinos estes não pensados por nós.
Jamais me esquecerei do dia em que Lúcio Fontana, filho de Laurinha, saiu de casa para ir trabalhar e na cena seguinte estava no aeroporto comprando um ticket para Buenos Aires, onde viveu, junto aos protagonistas, momentos que não tinham sido pensados na sinopse. O mesmo acontecera com Raquel que morreria no capítulo 15 do mesmo romance. Os leitores-amigos leram as primeiras páginas e ficaram muito intrigados com a trama da personagem, que na minha mente era a mais simples de todas. Quando disse para eles que Raquel morreria nos próximos episódios, o semblante de chateação afundou-lhes a emocional de modo coletivo. Mais que rapidamente tive que mudar o rumo da personagem. Ela desaparecera, sequestrada, jogada num helicóptero. Cinquenta capítulos depois, reaparecera andando, misteriosamente, pelas ruas de Buenos Aires, onde o destino colocou o filho de Laurinha a frente do dela. Isso fez com que Raquel voltasse com tudo para a trama, o que deixara os leitores surpreendidos e apegados mais ainda ao enredo. Nada disso fora previsto quando criei as histórias. Buenos Aires não estava nos meus planos. Quando me vi, de olhos fechados, sete personagens foram teletransportados para lá.
Minha vida também é assim: cheia de destinos, teletransportes, encontros com pessoas e subencontros. Uma loucura do cotidiano que, para as pessoas a quem conto, ficam boquiabertas depois de um Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! deve ser por isso que minhas histórias, replicadas em páginas do word, sejam tão malucas quanto as do autor. Isso explica a presença de socialites malucas, intelectuais, pseudo-intelectuais, mocinhos patéticos, personagens cuja vitória seja uma questão de honra, mas que fracassos não sejam motivos de desistir. Crio personas cheias de garra, deteminação e teimosia. Personagens sonhadoras que choram e riem do drama que vivenciam. Crio uma especialidade: vilões bonzinhos e bonzinhos vilões. Tudo é maravilhoso e possível na literatura. E isso que nos reconforta.
Que venha a primeira de uma lista: Emilinha Dummont.
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