domingo, 3 de junho de 2012

Pretérito menos que perfeito, Presente e Futuro do subjuntivo(indicativo)

Algo toca o meu teto e por isso tenho a necessidade de escrever. A casa, misteriosamente em silêncio, grita para mim: "Escreve, anda, escreve, seu imprestável". Mas escrever o quê? - perguntou eu a casa. Ela, mais do que acolhedora, uma pensante, diz: "Porque tua vida é escrever e será por um bom tempo". Pasmo, desco as escadas estreitas, de degraus diminutivos, e paro na cozinha. Silêncio nebuloso. Nada a contar. Na sala, um vulto quieto, sentado à cadeira. Volto à minha amiga cama e a casa, que choram nela, me diz: "Então, vais escrever o quê?". Tu sabes que eu tento, casa. Tenho buscado personagens, mas eles não vêm. Tenho buscado enredo, o que não tenho dificuldade nenhuma, visto que histórias é o que mais tenho. Não porque são minhas, mas sim as que poderiam ser. Argumentos é o que mais tenho. Opa! Desculpa casa, utilizei da repetição para dizer dois argumentos. Opa! Repeti a palavra argumento! Deixa eu parar, respirar fundo e não ouvir nada. Pronto parei. Depois de alguns segundos de silêncio, silêncio dos teclados vibrantes, voltei a ouvir o chorar do meu teto. Meu teto? Não seria o teu teto, casa? Desculpa-me, casa. Tu, como uma personagens personificada nessa miscelênia de palavras incongruentes e oblíquas, deves ter uma digna letra maiúscula: Casa. Isso Casa, ordena-me, manda-me escrever mais e mais. Força-me a digitar e escrever minhas besteiras, meus dramas de rimas pobres, minhas inversões assindéticas, minhas palavras sem nome. Quero escrever para Ti, que me deixa com sono, que me põe em preguiça. Nada fiz hoje, fiquei apenas a te contemplar. Para quê? Para esperar o dia passar. E para que escrevo agora? Para esperar a noite acabar e observar o não-brilho das estrelas. Não perca as esperanças em mim Casa, dita a ordem. "Progrida, menino" E eu: "Não sou mais um menino" E ela:"És sim" "Então argumente" "Por que ainda buscas o sonho de menino?" "Por que tenho medo" "Isso é afirmação?" "Não, uma pergunta" "E por que não botaste porto de interrogação se era uma pergunta?" "porque o porque está separado" "Não estraga a conversa, menino" "Lá vem Tu de novo com essa história de menino" "E por acaso não te convenceste de que és" "Eu sei que sou um menino" "Teu orgulho não permite que tu crescas" "Meu orgulho?" "Sim, tu vaidade não permite que te assumas como um menino" "Mas eu me assumi" "Depois de eu argumentar, menino" "está bem, o que queres agora" "Que deixes de ser menino" "Difícil" "Eu sei o quanto é difícil crescer. Quando nasci eu era uma casa pequena, praticamente uma garagem, num fundo de quintal. Hoje sou essa casa frondosa que te protege. Tive que crescer para te abrigar" "Eu sei" "E quando tu vais crescer" "Já é hora?" "Tu sabes que sim" "Eu sei" "De novo eu sei" "Isso foi uma pergunta?" "Não uma afirmação. Não viste o ponto final?" "Vi. Foi eu quem escreveu" "Então! Não me enrola" Não enrola o quê?" "Não enrola para crescer. Tu, meu menino, és uma árvore frondosa, difícil de cair. Não tenha medo. Progrida. Produze galhos belos" "Galhos? Minha árvore não se perpetuará" "Vai sim, meu menino, não da maneira natural, mas vai se perpetuar, tu sabes" "Não sei" "Sabe sim, porque tu já imaginas" "Imagino e penso que é imaginação" "Sim, se que és fértil nesse campo, mas tuas imaginações muitas delas são verdadeiras" "Mas as verdadeiras que eu duvido serem verdades" "Quando duvidas, duvidas de ti" "Não, duvido das verdades" "Mas as verdades imaginadas não vieram de ti?" "Sim, vieram" "Então! Então é porque duvidas de ti" "..." "Ficaste sem palavras, meu menino" "Não" "Como não? Mais uma vez a vaidade te pegando na carne?" "É difícil" "Que isso? Nunca falaste tanto em dificuldade. Nada foi fácil para ti, sei bem, mas nunca reclamaste da falta de facilidade, muito contrário, olhaste para onde ela estava e correste a favor" "Sim" "Sim o quê?" "Corri atrás" "Então não reclamas" "Mas não estou reclamando" "Então o que é difícil?" "Nada. Difícil é a minha antítese. Difícil é a minha verdade" "Tu és o dono dela, menino" "Por que eu tenho que ser o dono da verdade?" "Porque tu sempre quiseste ser o dono." "Sim" "Oh, alguém assumindo" "Mas sempre fui assim mesmo" "Hum, que maravilha" "Já assumi há muito tempo..." "Ser o dono da verdade" "Sim" "Então te apega a essa verdade e vai escrever um romance. Tu vais ser um cometa que girará todo o mundo" "Isso não é meio infantil" "Ué! E tu não és um menino?" "Não" "Pensei que já tinhas te convencido" "Está bem, ainda sou aquele menino que sonha" "E continuará sendo. Mas sendo um menino com responsabilidades. Tu tens uma missão, criança!" "Tenho" "E estás cumprindo belamente" "É?" "Não duvides disso" "Sinto que sou mau" "Não és não. Quando somos jovens, não temos paciência com os gritos" "Sei disso" "Tu és maravilhoso dentro de teus poderes e aprendeste a ser humilde, mesmo ainda sendo um tanto vaidoso. Agora deves escrever e não emocionar apenas a vida de teus pequenos com tuas caras e bocas, meu menino. Eles te amam. Só pensam em ti. Querem te agradar. Querem mostrar que são capazes e querem mostrar para ti isso. As glórias são todas tuas. Deves escrever a tua obra, como eu ia dizendo, para não somente agradar os teus pequenos, mas sim os pequenos e os grandes. Não emocionar no teu pequeno condado com nome de santa, mas sim num reino inteiro. E vais conseguir. As palavras são tuas" "..." "Não me falas nada?" "Tenho medo" "Não tenha. Já está tudo combinado. Tudo acertado" "Tenho medo. Sozinho acho que não tenho forças" "Mas quem disse que estarás sozinho?" "Não sei" "A partir de agora não estarás nunca mais sozinho" "Em que sentido?" "O amor e a paixão te acompanharão" "Não acredito mais nisso" "Nisso o quê" "Numa história de amor" "Mas não falo somente nisso, meu menino" "Falas em quê?" "Nas pessoas que amas e por quem és apaixonado e das pessoas que te amam e daquelas que são apaixonadas por ti... Chegará o dia em que deixarás de ser cético com o amor e deixará de ser essa figura independente" "Não estou interessado em sofrer, obrigado" "Meu menino, viu como és ainda um menino? Se sofreste éporque nunca amaste. Agora te digo de antemão: vem ai alguém chamado Amor" "Não me lanças essa intriga, Afrodite" "Fica calmo" "Se me conheces tanto, tu sabes que não vou me acalmar" "É verdade. Providenciarei o encontro para o mais breve possível" "Para quando?" "Hum, temos um interessado" "Não brinca" "Sei, menino que foste sempre sozinho. tudo na hora certa. Receberás o sorriso que sempre esperaste. O abraço que sempre agurdaste. O olhar de afeto que sempre sonhaste" "Por que agora?" "Porque essa era a hora.Tu já aprendeste isso" "Sim já aprendi, mas parece que não aceitei a teoria de todo" "É. Mas a hora está chegando ao fim e receberás o preenchimento da solidão. Viverás teus sonhos: viajarás o mundo com teus livros e com teu amor e terá um grande galho em tua árvore." "..." "Terás uma linda história pela frente. Todos vão saber quem tu és" "Tenho medo disso" "Não tenhas. Tu saberás reagir muito bem. E teus amores estarão a teu lado: a semente e o fruto" "Não me deixe ansioso. Estou a pensar mil coisas" "E essas mil coisas estão certas.Isso mesmo o que pensas é o que acontecerá" "Será que sou capaz?" "És capaz de tudo o que há de bom e belo" "Se dizes isso eu acredito, mesmo sem acreditar" "Eu sei,é difícil seres tu, meu menino, mas tu alcançarás a plenitude. Agora vou indo apagar as luzes. Tenho que descansar enquanto as estrelas brilham." "Muito boa a nossa conversa" "Foi meio piegas, meio absurda, mas foi muito boa. Aguarde! Boa noite, meu menino. E vai escrever". "Está bem". Um silêncio absoluto. O teto não chora mais. O sono se aproxima. Espero que tudo isso não tenha sido um sonho. Mas sei que foi minha imaginação. Espero que minha imaginação, conforme disse a Casa, seja fruto da verdade. O meu íntimo diz que é. Agora vou apagar as luzes e ir dormir, pois meu momento Lispector acaba aqui.

Um comentário:

  1. Li tua postagem há vários dias, mas só agora tive um tempinho para dizer-te apenas o seguinte: teu texto é digno de um livro. Acreditei na Casa, visualizei-a, odiei-a em certos momentos, mas a compreendi!Nada piegas, nada absurda...

    P.S.: Nunca te esqueço!

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