segunda-feira, 28 de março de 2011

BAILE DE MÁSCARAS NUM DIA DE SOL ESTRELADO - quarto ato

INÍCIO DO QUARTO ATO Homem, rapaz, brigadiana.

RAPAZ — Não... não há nada de mais nisso. É que eu tenho o “poder” de ler o que há dentro das pessoas. Tu eu não estou conseguindo ver nada.

HOMEM — Por que não?

RAPAZ — Não sei. Mas eu quero te agradecer. Essa é a primeira vez que alguém escuta a história da minha vida.

HOMEM — Não precisa agradecer. Eu já tenho o costume de ouvir.

RAPAZ — Tu é alguém muito especial.

HOMEM — Por quê?

RAPAZ — Por que se trata de um professor de literatura muito...

HOMEM — Muito...

RAPAZ — No colégio, eu não gostava de ler. Minha namorada é quem lê para mim.

HOMEM — Tua NAMORADA lê o quê?

RAPAZ — Ela deve ser agora minha ex-namorada... só quero ver quando eu chegar em Porto Alegre.

HOMEM — Ela ainda é tua namorada. Não se desespere a toa. Tudo se acertará quando chegar em casa. Mas o que ela lia para ti?

RAPAZ — Um romance que eu não lembro direito a história.

HOMEM — Qual romance? RAPAZ — Helena.

HOMEM — Helena! Nossa. Mas qual Helena? De que autor?

RAPAZ — Não lembro. Me conta a história.

(O homem fica calado propositalmente. Titubeia).

RAPAZ — Eu lembro que era uma mulher que chegava numa cidade do interior.

HOMEM — Sim!

RAPAZ — Que ganhou uma herança.

HOMEM — Sim!

RAPAZ — E parece que ela se apaixonou pelo irmão.

HOMEM — Muito bem. (Silêncio).

RAPAZ — Tu é muito especial.

HOMEM — Muito obrigado!

RAPAZ — Ouve as pessoas, simpático, bonito, de um carisma irretocável.

HOMEM (rindo)— Eu? De um carisma irretocável?

RAPAZ (sorrindo) — Sim. (Tirando o boné): — Vou te dar de presente por me ouvir.

(Dando o boné ao homem).

HOMEM — Eu não posso aceitar?

RAPAZ — Mas aceite.

HOMEM — Está bem, eu aceito. (sem pegar no boné): — E te presenteio por ser tão especial também.

RAPAZ (colocando o boné de volta na cabeça) — Está bem.

HOMEM — Fique com ele para que tu não contes a tua namorada que o boné foi roubado em Tramandaí.

RAPAZ — Eu vou escrever um livro.

HOMEM (sorrindo) — É?!

RAPAZ — Sim. Não sei o título. Creio que será apenas dezoito. Ou seria Além dos dezoito. O que tu acha?

HOMEM — Apenas dezoito dá um sentido de finitude aos dezoito; Além a própria palavra diz... RAPAZ — Um dia tu também vai escrever um livro.

HOMEM — É?

RAPAZ — Quem sabe tu contará a nossa história? (O homem sorri).

HOMEM — A nossa história?

RAPAZ — Sim, a nossa. A da nossa viagem. (O homem sorri, comovido). (Silêncio).

RAPAZ (olhando para as mãos do homem:) — O que há nos nós dos dedos?

HOMEM (titubeando) — Luta. Eu pratico uns socos por ai, na academia.

RAPAZ — Sabe que eu sou ganhador de Vale tudo?

HOMEM — Vai me dizer que tu ganhaste o campeonato mundial, baby?

RAPAZ — O Nacional. (O homem gargalha).

HOMEM — Francamente. Tu, um menino tão magrinho. RAPAZ — Magrinho? (Levantando a manga da camiseta) Toca aqui no meu braço.

(Levando lentamente a mão, o homem toca o braço fino do rapaz).

HOMEM (irônico) — Quanta força bruta. Parabéns pelo prêmio. (Ambos riem gostosamente). (As luzes de Porto Alegre se mostram).

RAPAZ — Estamos chegando.

HOMEM (pensando) — A hora da verdade. (Uma brigadiana que estava sentada atrás do homem e do rapaz segura uma pistola). (O homem tira os óculos).

RAPAZ — Agora eu te vejo. Agora está nu. A nossa história está chegando ao fim.

HOMEM — Apenas dezoito?


FIM DO QUARTO ATO

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