INÍCIO DO QUARTO ATO Homem, rapaz, brigadiana.
RAPAZ — Não... não há nada de mais nisso. É que eu tenho o “poder” de ler o que há dentro das pessoas. Tu eu não estou conseguindo ver nada.
HOMEM — Por que não?
RAPAZ — Não sei. Mas eu quero te agradecer. Essa é a primeira vez que alguém escuta a história da minha vida.
HOMEM — Não precisa agradecer. Eu já tenho o costume de ouvir.
RAPAZ — Tu é alguém muito especial.
HOMEM — Por quê?
RAPAZ — Por que se trata de um professor de literatura muito...
HOMEM — Muito...
RAPAZ — No colégio, eu não gostava de ler. Minha namorada é quem lê para mim.
HOMEM — Tua NAMORADA lê o quê?
RAPAZ — Ela deve ser agora minha ex-namorada... só quero ver quando eu chegar em Porto Alegre.
HOMEM — Ela ainda é tua namorada. Não se desespere a toa. Tudo se acertará quando chegar em casa. Mas o que ela lia para ti?
RAPAZ — Um romance que eu não lembro direito a história.
HOMEM — Qual romance? RAPAZ — Helena.
HOMEM — Helena! Nossa. Mas qual Helena? De que autor?
RAPAZ — Não lembro. Me conta a história.
(O homem fica calado propositalmente. Titubeia).
RAPAZ — Eu lembro que era uma mulher que chegava numa cidade do interior.
HOMEM — Sim!
RAPAZ — Que ganhou uma herança.
HOMEM — Sim!
RAPAZ — E parece que ela se apaixonou pelo irmão.
HOMEM — Muito bem. (Silêncio).
RAPAZ — Tu é muito especial.
HOMEM — Muito obrigado!
RAPAZ — Ouve as pessoas, simpático, bonito, de um carisma irretocável.
HOMEM (rindo)— Eu? De um carisma irretocável?
RAPAZ (sorrindo) — Sim. (Tirando o boné): — Vou te dar de presente por me ouvir.
(Dando o boné ao homem).
HOMEM — Eu não posso aceitar?
RAPAZ — Mas aceite.
HOMEM — Está bem, eu aceito. (sem pegar no boné): — E te presenteio por ser tão especial também.
RAPAZ (colocando o boné de volta na cabeça) — Está bem.
HOMEM — Fique com ele para que tu não contes a tua namorada que o boné foi roubado em Tramandaí.
RAPAZ — Eu vou escrever um livro.
HOMEM (sorrindo) — É?!
RAPAZ — Sim. Não sei o título. Creio que será apenas dezoito. Ou seria Além dos dezoito. O que tu acha?
HOMEM — Apenas dezoito dá um sentido de finitude aos dezoito; Além a própria palavra diz... RAPAZ — Um dia tu também vai escrever um livro.
HOMEM — É?
RAPAZ — Quem sabe tu contará a nossa história? (O homem sorri).
HOMEM — A nossa história?
RAPAZ — Sim, a nossa. A da nossa viagem. (O homem sorri, comovido). (Silêncio).
RAPAZ (olhando para as mãos do homem:) — O que há nos nós dos dedos?
HOMEM (titubeando) — Luta. Eu pratico uns socos por ai, na academia.
RAPAZ — Sabe que eu sou ganhador de Vale tudo?
HOMEM — Vai me dizer que tu ganhaste o campeonato mundial, baby?
RAPAZ — O Nacional. (O homem gargalha).
HOMEM — Francamente. Tu, um menino tão magrinho. RAPAZ — Magrinho? (Levantando a manga da camiseta) Toca aqui no meu braço.
(Levando lentamente a mão, o homem toca o braço fino do rapaz).
HOMEM (irônico) — Quanta força bruta. Parabéns pelo prêmio. (Ambos riem gostosamente). (As luzes de Porto Alegre se mostram).
RAPAZ — Estamos chegando.
HOMEM (pensando) — A hora da verdade. (Uma brigadiana que estava sentada atrás do homem e do rapaz segura uma pistola). (O homem tira os óculos).
RAPAZ — Agora eu te vejo. Agora está nu. A nossa história está chegando ao fim.
HOMEM — Apenas dezoito?
FIM DO QUARTO ATO
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