sexta-feira, 11 de março de 2011

BAILE DE MÁSCARAS NUM DIA DE SOL ESTRELADO - primeiro ato

PRIMEIRO ATO

Homem, rapaz, moça loira, cobradora, mulher idosa, motorista e uns cinquenta figurantes

(Um homem de óculos escuros estava num ônibus. Era a linha Capão da Canoa-Porto Alegre. Todos os lugares estavam ocupados. A luz forte do sol, na Av. Paraguaçu, perseguia o ônibus).

HOMEM (pensando) — Merda! Esse sol-absurdo vai me perseguir a viagem toda? (Olhando o relógio). Quatro e meia da tarde! Ainda tem três horas de viagem. (Olha para a loira a seu lado).

(Ao lado deste homem, um loira, que em seu colo segurava um travesseiro e sua bolsa de Nova York e seu celular. Ela escutava música. Tentava proteger o rosto do sol. O homem, percebendo isso, fechava a tela, protegendo-os daquele sol).

HOMEM (pegando o celular. Discando) — Alo! Oi! Sim, sim, acabei de chegar a um lugar nunca antes navegado. Passei por uma via-crusis, digno de uma obra de Clarice Lispector. Foram dunas, poeira, buracos. Creio que ainda esteja em Mariluz, ou uma dessas praiazinhas, ou mesmo Imbé. Não sei. Só sei que não se trata de Tramandaí. O ônibus levou uma hora para chegar aqui. Além do sol ser um absurdo, temos essa Paraguaçu terrível. Sim... claro (rindo de algo). Depois eu te ligo, se eu chegar vivo em Porto Alegre. Creio que tenhamos que cruzar a linha internacional da data. Vou chegar ontem em Porto, as três da tarde (risos). Até ontem (risos). Beijo.

(O ônibus sai da rodoviária de Mariluz. O vento bate faz com que as telas que protegia o sol de debatam. Rodoviária de Imbé. O homem de óculos escuros abre a tela de proteção. A loira a seu lado se move, dando a entender que vai levantar. Ela arruma guarda o celular na bolsa, se levanta, anda pelo corredor do ônibus e vai embora. O ônibus sai de Imbé. Mais sol. O homem olha contra o astro. Nada diz. Rodoviária de Tramandaí. Alguns passageiros desembarcam. Outros embarcam. Ele se levanta, deixa seu travesseiro e o livro na poltrona e anuncia ao motorista que está indo ao banheiro. Instantes depois, ele regressa).

HOMEM (pensando) — Que não venha nenhuma criança se sentar comigo. (Olhando ao redor do ônibus). Só há três ligares disponíveis. Acho que vou sozinho até Porto.

(O ônibus arranca. O sol volta a bater. O homem não fecha a tela. Pouco tempo depois o ônibus para e um rapaz embarca. Este conversa alguma coisa com a cobradora. O homem de óculos o observa. O rapaz se senta numa das primeiras poltronas. Em seguida, uma senhora embarca e o rapaz se levanta. Fica de pé).

HOMEM (pensando) — Que barbaridade! O rapaz está praticamente em cima da senhora.

(A cobradora falou algo para o rapaz. Ela fez um gesto com a mão direita. Ele passou a andar pelo coletivo. Chegou próximo do homem).

RAPAZ (sorrindo) — Posso te fazer companhia?

HOMEM (se arrumando na poltrona) — Sim, claro (sorri).

RAPAZ (olhando para o livro) — Que livro é esse?

HOMEM (se voltando para ele) — Teatro.

RAPAZ — É diretor de teatro?

HOMEM — Não.

RAPAZ — Sobre o que é esse livro.

HOMEM — Teatro do Absurdo. Ubu Rei, de Jarry.

RAPAZ — Tu é do Teatro?

HOMEM — Não. E tu? O que faz?

RAPAZ — Quer saber o que faço? Vou te contar quem sou eu. (Sorriso )

(O sol não estava mais na janela do homem. Agora o sol estava do outro lado do ônibus).

FIM DO PRIMEIRO ATO

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