quinta-feira, 10 de março de 2011

Segundo dia com Hélio

No dia seguinte, na segunda-feira de carnaval, carnívora como somente ela, o encontro com Hélio foi inevitável. Thaís Deamici, a mãe desta, a prima desta e eu amigo destas todas fomos para a beira da praia, onde Hélio já nos aguardava com sua paciência grotesca. Esse admirador de praias, de surf, de corpos apolíneos, adorava observar como tudo acontecia. Sedento, aquecia-se e aquecia todos os corpos. Tratava-se de um opulento promiscuo.

Quando lá chegamos, ele sorria para nós, iradiando a espiritualidade que somente ele poderia proporcionar. Por mais que seja um vilão, Hélio era um ser iluminado. Sarcástico, irônico, se metamorfoseava de paciente, enquanto seu espírito, ansioso e destemido, viajava por todos os trópicos e meridianos. Seduz e afasta homens.

Mas, naquele dia, ele não queria saber se paciência, queria ação. Tratava-se de ALGO que a metereologia não poderia prever. Ele aparecia quando bem entendia. Por isso era sarcástico e irônico, ria de tudo e de todos que pensavam crer nas facetas de um homem loquaz. Inveterado, puxou-nos para a água e maneira voraz. As ondas se abalavam em beijos escondidos e afogados. Mulheres e crianças, como sempre primeiros, olhavam perplexas a discrição daquele Hélio paradoxal. Cada vez mais rumo à África nos aproximávamos. Sim, fundo, mais fundo, extravasável, trangressível, cossecantemente intangível.

O salva-vidas da casinha 71, casinha seleta, nada familiar, nem ligada ao samba, casinha das pessoas da paz; diferentemente da 75, repleta de samba (QUIOSQUE-SAMBARILOVE), gado humano, crianças gritando (o que Hélio também não apraz), bolinhas voadoras em nossas cabeças, latinhas de cerveja por todo o lugar, milhos verde (bem cozido, bastante manteiga e SAL) sem vida no chão, carcomidos pela poeira das rochas oceanográficas. Mas como ia contando o quadro clínico da dor, o salva-vidas da casinha 71 não precisou nos salvar, visto que Hélio, que nos acompanhava por conhecer todos os mares (ele é muito viajado), sabia até onde poderíamos avançar naquele oceano não muito privilegiado.

Depois de enxergar vários Hélios, depois de sentir um espasmo de gozo, no Atlântico Sul (que tristeza!), fiquei na areia, dormi. Mas antes, com a potência do fogo de Hélio, este, queimou o cigarro. Cigarro que fumei!

No mesmo momento que o frio chegava, Hélio tinha ido embora. Foi-se. Foi-se apenas com olhar, sem toque, sem nada, sem uma fotinho. Somente um sorriso, uma lacrimejada e desapareceu com a ventania que trazia as nuvens da noite.



No dia seguinte, Hélio não apareceu. As nuvens esparsas impediam que nos víssemos. Hélio, o deus sol, estava inoportuno. Era terça-feira de carnaval, sem mais carne. A previsão do tempo não preverá tanta ventania e pouco Hélio, ou melhor, pouco sol.

Um comentário:

  1. Aff.. final digno de Machado de Assis.

    Mas tudo bem amigo, outros carnavais virão... quem sabe, acompanhados de outros mares e de Hélios que participam de um final feliz, tal como escreveria Danielle Steel em "O Preço do Amor" rsrsrsrs

    Beijãooo!

    ResponderExcluir