quinta-feira, 31 de março de 2011

POR NOSSA SENHORA DA MEDIANEIRA, PROTEGEI-OS E SALVAI-OS

Hoje passei por um dia difícil, mas em meio a todas as trevas conflitantes, uma luz mental surgiu. Era a luz do banheiro. Oh, como era bom banhar meu espírito com sais, oh sais de macadâmia! Quanta delícia depois de um turbulento dia de trabalho. Entre espuma e água, meu corpo (somente o corpo, visto que a mente ainda fervilhava) descansava o que podia. Então, no meu daquelas efervescências mentais, meus ouvidos pareciam não acreditar no que ouvia: uma criança berrava de dor. Continuei no meu mundinho egocêntrico. Em seguida a criança voltou a projetor a força de sua glote. Então decidi abrir a janela que dá contato com a avenida. Os carros trafegavam como de costume, quando a criança-gritadeira voltava a urrar e correr em direção a avenida movimentada. Cerrei a visão e quase ingeri meus sais de macadâmia. A criança gritava desesperada porque seu pai era alvo de um terrível vilão, vilão este que portava uma arma mortífera: um tijolo. Uma mulher correu para salvagurdar a criança, enquanto o pai da criança era salvaguardado por ele próprio. Naquele segundo, quando o homem levantou o antebraço para violentar o pai da criança-gritadoira, minha mente voltou naquele 2006 (parece que era essa data) ou seria 2007, noite de final da libertadores, campeonato cujos rivais eram Grêmio e Boca Juniors. Era um dia quente, de expectativa, Porto Alegre fervilhava de emoção, curiosidade e ânsia. A Avenida da Azenha tumultuada com aquela peça grega. A Ipiranga estirpava os habitantes da Zona Norte. Da Tinga, meu povo de ama, vinham outras tribos. Da Carlos Gomes, vinham eles, os meus irmãos e amigos argentinos. Porto Alegre estava trancada. As veias da cidade necessitando de cateterismo. Que viesse já o metro. Muito custei para regressar para o meu lar doce. Assim que lá adentrei, corri para o sabonete que lambuzaria meu magro-corpo, na época. Uma vez relaxado para assistir uma novela de Manoel Carlos ou Sílvio de Abreu ou Gilberto Braga, jantei. Após o relaxamento, fui a água-furtada de meu quarto e me pus a ler, visto que o Boca Juniors passara em frente de minha casa, na mesma avenida que a criança correria cinco anos depois. O helicóptero perseguia os argentinos, a brigada os salvaguardava. Como podemos lembrar, o Boca Junior (que tal?) desmoralizou o Grêmio futebol porto-alegrense. E eu, no meio daquela comuna parisiense, querendo ler um livro. A cada gol do Boca Juniors uma mulher, que também assistia a partida futebolística em seu alpendre, gritava: — BOCAAAAAAAAAAA E o Gremista que flaneriava pela rua declinava: — Putaaaaaaaaaaaaaaa E ela: — BOCAAAAAAAA E ele: — Puuuuuuuuta Era uma buzinada dos infernos. Mas onde poderíamos encontrar a paz naquele inferno? A vida me diria apenas que isso somente aconteceria quando tivesse um encontro na relva, é claro sem aquela dama nua, o que me causaria um problema existencialista, visto a náusea sartreana dos homens. Certo momento, mais um gol. Só lembro de que se tratava de um ponto que definiu o jogo das coxas grossas. Então um rojão explodiu de uma casa e espargiu no céu porto-alegrense. E a velha: — BOOOOOOOOCAAAAAAAA De onde estourara os fogos de artifício, pude ouvir a discussão aristotélica de dois homens suburbanos. Sim, caro leitor, na rua que corta a avenida do bairro onde moro a cor muda assim que pisa-se na sétima casa. Ali, a rua já sobe, e um outro bairro cinzento (ou azul cubista dos tempos negros de Picasso) se pinta e as malocas de alvernaria crescem primitivamente. Ali, naquele protótipo de favela, a discussão filosófica de dois homens se mostrou aos ouvidos do homem que vós narra a peripécia. Assim que vi um homem nu, com a cabeça, a cabeça de membros sem tronco, uma cabeça irritada e gritadeira abrir briga com o vizinho, cuja casa se separa alguns centímetros úmidos e explosivos, corri para pegar meu binóculo. AQUELA EU NÃO PODIA PERDER. Era a história dos subúrbios que Machado de Assis queria contar no final de D. Casmurro. Eu, senhores-leitores, fiquei excitado, com imenso volume de prazer, quando assistia de camarote central aquela tragédia dos mineiros que brotavam da terra, em Germinal. A questão maior é que ninguém brotou da terra, muito pelo contrário, o ar que germinou à cova solitária. Sim, choroso leitor. Uma briga se deu no ringue: tudo acontecia no telhado daquela vã casa. Era um empurra-empurra dos homens, um ódio sanguinário da carne nua naquelas navalhas. — BOCAAAAAAAA – gritava a velha. Enquanto o Grêmio tentava dar a rasteira no Boca, o homem da Boca deu uma rasteira no homem nu, que saíra voando como um pombo. Mas como era um pombo sem treinamento, acabou caindo na cova solitária nos anjos sonolentos. Aquela sombra desaparecera no vão das casas desafortunadas. O juiz apitou o fim de jogo. Fiquei pensando se aquele pobre homem havia ido passear com Caronte no Auto da Barca do Inferno. Só sei que o possível assassino fugia da possível viúva, do possível morto, cujas mãos possíveis apareceram denotando a vida que ainda pulsava naquela miséria. O quase assassino tentou investir com uma taquara enorme contra o homem nu e brochado. A iminente viúva gritava com um bebê no colo – o mesmo bebê que cresceria anos depois e correria na avenida. Como ia dizendo, a iminente viúva gritava, mostrando a força hereditária do urro, do urro da mulher que jamais viria, novamente, seu homem nu, de pé, forte, voraz, vivo, ereto. Num átimo de segundo, o homem conseguira escapar pelos muros burgueses. O meu binóculo perseguidor observava tudo atento. Da outra rua mais acima, vinha a mulher desesperada para salvagurdar (como todos se salvaguardam nessa tragédia!) o marido desarrumado. O vilão terrível, o algoz nas noites perdedoras, corria pela avenida atrás do homem nu. Este, desesperado, correra até a parada do ônibus para pegar a linha da Carris. Visto que homem não tinha bolso para pagar ao cobrador, o motorista decidiu continuar sua jornada. O executor dos fogos de artifício corria atrás do homem sem bolso, do homem sem sombra, o fugidor da morte anunciada. — SOCORRO, POLÍCIA. BRIGADA. TAXISTA! O nu, lutando contra o cansaço dos joelhos acarinhados pelas palmas das mãos, ia para o meio da avenida pedir clemência aos cristãos. Pobre coitado. No seu caminho havia apenas pagãos e ateus. Todos passavam sem o préstimo da caridade. Como dizia um amigo, fora da caridade não há salvação. Como ninguém era caridoso com ele, a salvação foi acorrer a medidas mais extrínsecas sobre a possível sobrevivência. Já que os homens não se ajudam, Deus mandou-lhe uma fada, a Bela, para que pudesse correr na primeira viela do bairro desfavorecido da rua de cima. — POR NOSSA SENHORA DA MEDIANEIRA, salva-me desse tormento, desse terrível algoz sanguinolento! A mulher corria danada com a criança no colo e dizia ao iminente assassino: — Eu sei do teu passado seu ladrão de galinha. O vilão não falava nada. — Vamos! Faça comigo o mesmo que ia fazer com meu marido — dizia ela empurrando o atirador de homens que caminham nos telhados. O vilão não falava absolutamente nada. — Seu bosta. Ladrão. LADRÃO. LADRÃAAAAAAAAAAAAAAO. O terrível carnífice deu as costas a mulher desasada e encontrou seu homem amado, brochado e nu. Ainda pude ouvir o que ele disse: — Pô, eu só gostaria de dormir. Tenho que acordar às cinco da manhã pra pagar minhas contas e vem esse ladrão me fazer dessas na minha janela. — BOOOOOOOOOOCAAAAAAAA — gritava a mulher depois do drama ter acabado. Mas o drama não acabou. O antebraço do vilão ia dilacerar o crânio do mesmo homem que anos atrás, naquela noite de final de campeonato, havia tentado matar um trabalhador do alto de um ringe criativo. Sim, leitor, seria o vilão de ontem o mocinho de hoje? A criança que gritava na avenida DA NOSSA SENHORA DA MEDIANEIRA era a mesma que ouvira sua mãe gritar anos atrás? Que escola! O homem, o vilão da vez, contra o mocinho da vez, o pai que provocava o choro compulsivo de não vê-lo em tamanha barricada, estava pronto para uma terrível vingança. Mas o homem, cujos olhos de macadâmia eu não conseguia identificar se era o mesmo de anos atrás (visto que o homem de anos atrás não tinha roupas, e este agora as possuía). O vilão de outrora correu para se proteger do duro tijolo. O vingador do passado (de possíveis drogas, decerto) jogou-lhe um dos tijolos de uma nova construção. O tijolinho que falava na construção fracionou-se no muro, a alguns palpos do explosivo rasteirador de teclados. Era somente mais um cenário do reflexo que foi o meu dia: mulheres, como aquela de Delacroix, que guia o povo, que se matam por uma ideologia política. VIVA A REPÚBLICA! FRATERNIDADE, IGUALDADE e acima de tudo HUMANIDADE. — BOOOOOOCAAAAAAAAAA

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