TERCEIRO ATO
RAPAZ — Eu conheci... os lugares... que todo mundo conhece. Mas também conheci a sujeira de Paris. A nossa sujeira começa lá.
HOMEM — Então a nossa sujeira começa lá. Que ruas tu conheces de Paris.
RAPAZ — Ah, ruas e bairros eu não lembro. E tu, já viajou?
HOMEM (sorrindo) — Eu? Eu não. Nunca sai de Porto Alegre.
RAPAZ — Capão não conta?
HOMEM — Ah sim. Mas também não conta comparar suas aventuras pelo mundo. Viajar pelo mundo deve ser fascinante. Ainda mais quando ainda temos dezoito anos.
RAPAZ — E o que tem feito que ainda não viajou?
HOMEM — Estudado.
RAPAZ — Estudado o quê?
HOMEM (mostrando o livro) — Literatura.
RAPAZ — Tu não me respondeu... o que tu faz?
HOMEM — Sou professor.
RAPAZ — Um professor de Literatura. Não me dava bem com um professor de Literatura. Mas agora tenho um amigo professor.
HOMEM — Parece que sim.
RAPAZ (tocando no livro que estava no colo do homem) — Posso ver o livro?
HOMEM — Pode, com prazer.
(O rapaz lê um pequeno trecho).
RAPAZ — Não entendi muito bem. Do que se trata.
HOMEM — Bom. Tu leste a introdução de um crítico. O livro trata-se do Teatro do Absurdo.
RAPAZ (lendo a capa) — Alfred Jarry. Ubu-Rei.
HOMEM — É isso ai.
(Silêncio).
RAPAZ — Eu gosto de andar de Skate.
HOMEM — Posso te falar uma coisa?
RAPAZ — Pode.
HOMEM — Creio que falta um pouco de verossimilhança em tua história.
RAPAZ — O que é verossimilhança.
HOMEM — É a semelhança com a realidade.
RAPAZ — Então tu quer dizer que falta semelhança com a realidade a minha história.
HOMEM — Um tanto. O que podemos pensar de um rapaz de dezoito anos, que é promoter, perdeu a namorada, foi assaltado, sem celular? A namorada de dezessete pegou, desesperada, o carro. A sogra o expulsou de casa. Em seguida, me conta que já viajou a vários países.
RAPAZ (com sobrancelhas arqueadas) — E ainda não te contei que reuni 40 mil pessoas no Rio de Janeiro para apresentar uma banda de garagem.
HOMEM — Olha que surpreendente. Mais um dado. Porém, quando tu me contas que gosta de andar de Skate isso me parece mais o teu perfil, não que tudo o que tu me contou não seja verdade, mas isso me parece mais plausível.
RAPAZ — Por quê?
HOMEM — A roupa que tu vestes: a bermuda, a camiseta, o boné. (Mostrando o livro) No teatro, as personagens, como qualquer ser humano, veste uma máscara. Criamos sempre um sentido, alguém que gostaríamos de ser.
RAPAZ — Máscara?
HOMEM — Máscara não é no sentido que todo mundo pensa. É um termo literário dito por Aristóteles. Personagem é igual a uma máscara.
RAPAZ — Será que a máscara que tu veste mesmo é a de Professor de Literatura? Quem tu é, na verdade?
HOMEM — Um homem que tu ainda tentou desvendar e não consegiu?
RAPAZ — É verdade! Tu é o livro cadeado mais fechado que conheci.
HOMEM — Então me explica... Por que tu queres saber quem eu sou? Um motivo maior nisso há.
FIM DO TERCEIRO ATO
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