terça-feira, 22 de março de 2011

O CASAMENTO DO ANO - Barbaríssima Sávio Costa

Para quem conhecia Bárbara Sávio Costa, a filha da magnânima Lígia Sávio, antes do dia 12 de março, saberia que esse era o dia de seu casamento. Segundo a noiva, os preparativos da papelada, dos estágios probatórios e da compra do apartamento eram os ideais de um futuro feliz da vida à dois.

A cada encontro que tive com essa assumidade de luz, meus ouvidos se enchiam de novidade. Muitos conflitos e ansiedades cotidianos se inseriram no caminho da noiva. Porém, nem as intrigas que o preço do amor impõe ao casal, impediram que eles burlassem as regras da utópica sociedade e consumassem o casamento longe do cartório.

O dia 12 de março estava chegando.
Porém, um tsunami se aproximava do Chile e tudo podia acontecer. Estávamos preocupados com a colisão de duas placas tecnônicas nas profundezas do rio Guaíba. O casamento só poderia acontecer se o dia estivesse dia, e a noite escura estivesse como a noite. O jornal dizia: PARA AMANHÃ, CHUVA! Será que o casamento do dia 12 de março seria desmoronado com o mau tempo? A noiva dizia espumando: “Querem destruir o meu casamento. O meu casório vai sair a todo jeito”.

Quando acordei, assim que abri os olhos, a luz do dia, a luz azul celeste sorria na minha janela sem persianas. Sim, o casamento aconteceria. Preparei meu discurso, visto que eu seria o Padre Amaro. Depois do almoço, para acalmar as ideias, decidi cochilar. O casório era às 17h na Redenção, mais precisamente no Buda. O Padre, eu, acordou às 16h. Antes de vestir a batina, fui me banhar e pensar na Amelinha. Depois peguei meu Papa-móvel e me dirigi ao santuário da felicidade.

A noiva estava chegando, estava chegando no dia 12, que chegou.
Com essa informação, algo estremeceu os ânimos: o noivo não sabia onde era o Buda. O NOIVO ESTAVA PERDIDO NA REDENÇÃO. Para segurar a noiva, coube a minha mãe, sim, minha mãezinha, a senhora Vera Valério de Pequim, que estava usufruindo da cultura porto-alegrense no Brique da Redenção quando encontrou a azarada noiva do noivo azarado. Minha mãe que mal conhecia a noiva, mas conhecia a mãe desta, que passara por momentos módicos-etílicos.

O noivo fora encontrado no chafariz de Montjüic, perto do Arco do Triunfo parisiense.

Como estavam todos a postos, a noiva podia chegar.

Todos que estavam a postos, todos que não conhecíamos, turistas moradores da cidade desconhecedores da existência do Buda da Redenção, estavam lá, com suas criancinhas e máquinas fotográficas. Naturalmente foram saindo.

A noiva chegou. O padre assumiu a sua postura. Assim que os noivos trocaram olhares, o Padre teve que interferir devido o medo de estragar a surpresa do beijo no final da cerimônia.

Li o texto que previamente preparei. Em seguida, uma nova personagem entrou em cena para também dar a benção ao casal. Na fala desta, os noivos já trocavam as alianças. Quando começou a fala protocolar da noiva para o noivo, este interrompeu dizendo:

— Deus sabe que tu me ama, chega.
E se beijaram deliciosamente.

A noiva jogou o bouquet. Quem pegou?
A mãe do padre. Sim, leitor-seguidor, a mãe do padre, a minha mãe.

Em seguida fomos para uma grama seca e lá nos jogamos. Bebemos e comemos até anoitecer. Fomos para a casa de Ligia, onde embebemos Absinto, vinho frisante, cerveja e Coca-cola. Lembra-se da festa de réveillon.

Nem duas horas se passaram e já estavam, os recém-casados, de malas prontas para a lua de mel num hotel quatro estrelas.

Então com velas, recitamos Fernando Pessoa; com incensos comprados num mercadinho da Serraria (que vendia também livros filosóficos) declamamos Gregório de Matos; com outra vela declamou-se Camões. Era o sarau literário.

Enquanto isso no hotel quatro estrelas, a esposa e o marido transpiravam escarlates presos na caixa de pandora. O amor é fogo que arde sem se ver...

Um comentário:

  1. Meu amigo lindo!
    Amei o post. Fiquei imaginando tudo e até coloquei no google imagens o buda da redenção que eu nem sabia que existia, pra poder visualizar a cena toda.
    Só hj de noite consegui conectar-me, graças à minha inteligência informática, pois meu note não estava confgurado para essa rede aqui da casa. eu sozinha dei um jeito e arrumei tudo.
    Meu bem, amanhã te escrevo com mais calma sobre esse dias que já se passaram e não nos falamos.
    Te quiero con limón y sal!
    besos desde acá!

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