segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

E assim foi, simples, básico, informal, e bem temperado.

Totalmente imprevisível, este (e aquele), que foi um final de semana diferente em minha pseudoidílica vida. Tinha eu marcado um (petit) jantar com Thais Deamici em meu tugúrio na sexta-feira à noite. Mamãe preparara seu famoso carreteiro à mussarela. Depois de termos perdido nosso tempo, em digestão, assistindo a Insensato Coração e ao bélico episódio daquele “programeco” que pós-segue a trama de Gilberto Braga (Vale Tudo? – Insensato Coração?, quanto hibridismo). Aquele BBB indecoroso e vazio. E tão vazio, que ao assisti-lo, quase meu estômago se esvaziou como um Vulcano do Olímpo, em queda arquejante da minha moral. Saltei em fuga alucinante a minha alcova. Assim que cansamos de tantos pensamentos enervantes, passamos a assistir a uma comédia romântica, obras norte-americanas muito caras a mim. Desta vez, ou pela décima vez que assistia à película, SIMPLESMENTE COMPLICADO. Depois, continuamos a conversar, conversar. Invadimos a cozinha a procura de alguma bebida ou acepipe que melhor nos aprouvesse. Assim que olhamos para o cuco, um grito lancinante ecoou da glote: Três da manhã. Num piscar de olhos dormimos.

Na manhã derradeira de horário de verão (ó quanta tristeza), enquanto Thaís ainda sonhava com os Sonhos D’Ouro, eu ia lendo meu Émile Zola. Mais tarde, acordados para a realidade naturalista, tomamos o petit-déjeuner. Horas depois estamos num Centro Espírita, mais uma aventura. Lá nos encontraríamos com Dieniffer, amiga-aventureira. Após inúmeras aventuras espirituais e gritos dignos de espíritos obsessores que necessitavam da ajuda das luzes da espiritualidade maior, todos presos a urbe da matéria, aclamando por dores dignas da carne dos encarnados, fomos os três, devidamente sanados por passes mediúnicos, salas misteriosas de desobsessão, palestras elucidativas, fomos os três tomar um café no shopping Bourbon Ipiranga – local onde não há sequer uma livraria genuinamente de livros digna de presença de alunos de Letras. Logo, fomos para um café com croissant no Mc Café (algo que nos salva desse fast food letal). O café vale muito a pena. Ficamos por uma hora naquele lugar. Depois ficamos parados, olhando um para o belo semblante do outro, e os três se questionando: o que iríamos fazer? Para chegarmos a um denominador comum, ficamos mais metade de hora investigando os possíveis destinos. Pensamos Cidade Baixa, na Rua da República – boa pedida. Dieniffer sugeriu minha residência: compraríamos um vinho no Zafarri e pediríamos uma pizza. Para mim, qualquer destino esta ótimo. Thais não queria casa, queria uma Polar no Tapas (mais uma cerveja no Tapas). Depois Dieniffer sugeriu que todos fossem para a casa dela (longe do circuito literário). Pensei nos bolinhos indianos do Tapas. Fomos para o caixa eletrônico. De lá entramos no Zaffari para comprarmos o vinho. Lá, tive uma ideia: ao invés de pedirmos uma pizza, propus preparar o prato da noite. Elas poderiam escolher. Pediram-me o Misterioso Strogonoff de Alex Valery de Paris. Nas compras, destacamos que o preço do quilo do Patinho estava pela hora derradeira da morte. Então indiquei que fossemos comprar a carne perto de minha residência, cujo açougueiro, digno do Ventre de Paris, cortava as iscas, para mim, a seu bel-prazer.


Horitas despues, o Misterioso Strogonoff estava à mesa. Diennifer fez a salada e o brigadeiro; Thais preparou o ponto da locupletagem. Mais tarde, depois do jantar, abrimos o vinho e caímos no brigadeiro. Assistimos VICKY CRISTINA BARCELONA – evidentemente que Dieniffer e eu suspirávamos com algumas cenas.

Em seguida do jantar, do brigadeiro, do filme, do vinho, tivemos energia para ler – lentamente – em francês, e mais energia ainda para treinar o francês falado – que é muito mais fácil ou adequado. Ficamos uma hora com o CD de francês:

— Bonjur, Je m’appelle Céline Legrand.
— Bonjour, madame. Monsieur Rossi, enchantée
— Enchantée.
— Alors, à demain ?
— Oui, au revoir.
— Au revoir. À biêntôt.

Dorminos.

Na manhã seguinte, assim que acordei, peguei Zola, uma leitura gostosa. Depois, quando ouvi vozes, dei sinal de vida. Dieniffer surgiu nas escadas. Falamos por boas horas sobre literatura e sobre a baixa esfera composta por professores da faculdade porto-alegrense (coisas de pessoas pequenas).

Descemos. Que horas era? Thais dizia um horário. O cuco da cozinha dizia outro. Meu celular mostrava outra posição. Será que mudou automaticamente? O computador estava louco, informava 23h. O sol desaparecera numa nuvem. Quase fui à janela gritar: Que horas sãaaaaaaaaaaaao? Não importando, fomos para o nosso petit-déjeuner, regado a iogurtes, café creme, grand café e le thé au lait, fois gras...

Ficamos dissertando sobre o futuro, como sempre. Sim, sobre o futuro. Por que conversar sobre o presente, pois se justamente o presente que vivemos? Sim, sobre o futuro. Pois é pensando no futuro, que os pensamentos, antes passados, se realizam abruptos, e por vezes demorados, nos nossos primas realizadores e decorativos de nossa vida gutural e nada fugaz. Sim, pensamos nos projetos intelecto-emocionais que nossas propensões de elevação de alma e belo saber de pequenos e inefáveis burgueses que pensamos que somos. Pensamos como sonhadores do amanhã, e somente do amanhã, porque o agora já tornou-se passado, e o próximo segundo é o da realização do projeto anteriormente exclamado, exclamado com tanta volúpia e energia atômica, que num espasmo de gozo frenético e fugaz, esse sim fugaz, se esvai para o próximo projeto.



Fim abrupto e sem sentido... que continuasse o final de semana.

E assim foi, simples, básico, informal, e bem temperado.

Um comentário:

  1. Mon chèr ami Valerí de Parí... :)
    Como é bom tê-lo por perto em minha vida: guia, amigo, confidente, ouvinte, conselheiro... São milhares os adjetivos que eu te atribuiria, todos bons, logicamente!

    Merci ami.. por tudo!
    Dieniffer.

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