terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O segundo dia em Barcelona - bem ou mal mais um dia inesquecível



Aquele segundo dia em Barcelona foi muito especial. E de tão especial, emocionante.

Saímos todos do hotel e nos dirigimos em direção ao Estádio do Barcelona. Não entramos no estádio! Apenas fomos à loja do Barça. As meninas se esqueceram lá dentro, comprando desde canetas, meias, pantufas, lingueries e produtos para seus namorados. Mas para lá chegar, pegamos o elétrico de superfície. E depois fizemos o transbordo para a linha 5 do metrô. Descemos na estação Collblanc. Mas antes de descermos, passamos por cinco paradas: foram as cinco paradas mais tortuosas da minha vida, pois ali, dentro daquele metrô, de vagão único, no dia 10 de setembro, havia um árabe. Um árabe com uma mochila, com olhar suspeito e explosivo. E eu que não estava com óculos escuros para disfarçar o meu ataque terrorista. As minhas companheiras de viaje estavam em sua maioria, como boas mulheres, conversando sobre o que iriam comprar nas Ramblas. E eu explodindo de ansiedade. ESTAÇÃO SAINT IDELFONS. O som da porta que estava disponível para ser aberta. O soar da campainha do romper de portas. O trem partiu. Entrava mais ainda nos subterrâneos. Ali, entre uma estação e outra, aquele árabe (preconceito puto de minha parte) abriu sua bolsa. E ficou com as mãos lá dentro. Olhava, com olhos escarlate, para o mapa das estações que estava em cima da porta. Que o árabe não tivesse vontade de conhecer suas virgens naquele dia, por Allá. A estação Collblanc nunca chegava. ESTACION PUBILA CASSES. Ali faltava uma parada apenas. Na minha mente insana, entre aberturas de portas, entre o som que ecoa num metrô, e num árabe com a mão dentro da bolsa, era apenas a de uma cor: amarela, amarelo fogo, amarelo estouro, estouro-um-segundo, e tudo acabou-fim. Nem quarenta segundos separava uma estação da outra. PROSPERA ESTACIÓ: COLLBLAC – destinacció da lígnea: HORTA. Quando mal saímos da Pubila Casses, e a locomotiva se pôs a trabalhar, levante-me, com mãos poluídas de suor, e avisei as companheiras que chegamos ao destino. Segundos de total pânico, de minha parte, foram os maiores, desde a parada do trem até a despedida deste dentro do túnel. Quando subi as escadas em direção à rua, e vi as pessoas trafegando normalmente, o ar voltou a circular no meu peito. Fomos ao Clube do Barcelona.

Feito isso fomos a Plaça d’Espanha, onde fica a Fonte Mágica de Montjuïc. Fomos subindo as escadas rolantes para chegarmos ao MNAC (Museu Nacional d’Art de Catalunya). Até tivemos interesse em conhecê-lo, mas como o tempo era escasso (visto que era o nosso segundo e último dia na cidade), paramos para um lanche. Lindy, Cândida e eu paramos para abastecermo-nos de Red Bull, que era vendido por dois eurinhos e cinquenta centavinhos (como dizia o nosso bom amigo hospedeiro).
A caminhada continuou. Desbravamos aquela elevada barceloneta. Passamos por relvas, jardins, estradinhas. Tudo isso para chegarmos ao Teatre Grec. Lá fizemos, Tais, Cléia e eu, uma encenação de As Troianas, de Eurípedes. Tais era Hécuba. Cléia vestiu a máscara de Helena de Troia, e eu, como mera participação especial, fiz o papel de Astianax, o filho de Heitor e Andrômaca, que foi assassinado a mando de Ulisses, o austucioso.
Cléia gritava para todos ouvirem: “A Culpa não é minha, Hécuba. A Culpa é dos deuses. A culpa é da Culpa!”. Tais: “Jamais te perdoarei, Helena, por usares de tua beleza para seduzir o meu filho, Páris, ele que era a tocha que nasceu de meu ventre que pôs fogo em toda a Ilion”.

Para o pânico de Hécuba, Astianax ia sendo levado para a morte. Então, eu, fui me dirigindo da maneira mais trágica (e tímida possível, pois lá naquele local não estavam apenas o pessoal de nosso seleto grupo). Tais (gritos convulsos de dor): “Não, não. Astianax. Não o matem. Não, Astianax, naaaaaaaaaaaao”. Astianax mal sofrera assim que (o ator, eu, se jogou no vão do palco e Hécuba perseguia desesperada o corpo do neto)” Fim da peça. Aplausos. Um senhor, que passava por ali para descansar, abordou-me e disse: “Entendes, Espanhol?”. Uma vez respondido que sim, ele me disse: “Dentro de cinco minutos a porta para os leões será aberta”. Rimos todos com aquela piadinha. (Se não entendeste é porque sofres, decerto, da mesma doença que a minha: a de não entender piadas. (Mas dessa vez eu entendi – toda regra há suas exceções)).
>

Seguimos caminho até a Fundació Joan Miró. Ali, logo na entrada da casa de Miró, há uma de suas obras: o ET, o Et com sua ferramenta sexual ereta e encurvada. Isso foi um deleite para as meninas da viaje.
Na medida que o bondinho dos ares ia tomando fôlego, podíamos ver mais e mais a beleza daquela cidade.

Eu, que estava de costas para o destino, podia enxergar a Sagrada Família, a Torre Agbar (onde iríamos mais tarde), ver a cidade por um todo. Certo momento Tais suspirou quando viu o Mediterrâneo, azul da cor de um mapa, se mostrando desnudo para nós. Meus olhos jamais viram tanta beleza num mesmo olhar. Chegamos ao destino. Ficamos esperando pelo teleférico mais balançador que vinha. Este era de minhas amigas Lindy e Cândida, que sofriam de altura, que certamente se debatiam desesperadas.
Todas vivas, fomos indo em direção ao castelo, num dos pontos mais altos de Barcelona. Dividimo-nos em dois grupos. Combinamos que estaríamos na saída do castelo, as 14h20, horário de Barcelona. Andamos, contando histórias divertidas, irradiando bom astral. Mas isso não durou muito. O pânico, em mim, se alastrou quando vi Diennifer e sua tia, a tia Cida, se empoleirando no limite do muro, entre o castelo e o porto, que fica láaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa em baixo. Eu disse para elas: “Meninas, saiam daí, a Marcilene vai ver isso e vai cair daí se ela se dependurar. Não dão ideia para ela”. Era tarde demais. Marcilene viu e quis fazer igual. “Marcilene, não faz isso, mulher. Se tu descambar daí, tu vai cair num navio que vai parar em Istambul”. Puxei Felícia pela mão, desesperado com aquela cena. Pai nosso que estais no céu... Felícia e eu corremos. Longe delas, fomos contemplando a paisagem. Minutos depois apareceram correndo as três doidavanas. Como toda mulher que vê um banheiro, lá foram todas. Diennifer e eu ficamos na porta, aguardando. Ali estavam as figuras, os naipes de maior beleza, uma miscigenação de culturas e sexos sexuados. Do nada, surgiu nossas amigas, que acabaram ficando no outro grupo, Lindy e Cândida, que abanaram para uma foto. Mal sabíamos nós que jamais voltaríamos a nos ver.

“Nos encontramos na saída, daqui a pouco” , disse-lhes. “Sim”, disse Lindy abanando. Cléia, Felícia, Tia Cida e Marcilene saíram do banheiro. Alertamo-nos que era 14h15. Fomos para a saída. Os minutos passavam, passavam e nada do outro grupo. Quando percebemos ficamos vinte minutos por uma espera vã. Decidimos ir embora, em destino às Ramblas.

Pegamos o funicular, fizemos uma conexão com a linha 3, que ia em direção a Canyelles. Desembarcamos na estação Liceu. Fomos andando por aquele centro. Pessoas de todas as culturas, árabes, indianos, brasileiras. Percebemos que estávamos com fome quando nos deparamos com uma confeitaria. Decidimos entrar em algum restaurante. Antes de escolhermos, fomos andando. Chegamos à Catedral. Ali na frente tinha uma espécie de brique (da Redenção?). Ali, se tivesse cem euros eu teria arrebatado a obra completa da literatura francesa, contada desde os primórdios até a década de 1980. As meninas me chamaram: Cléia, Felícia, Diennifer, Tia Cida e Marcilene. Entramos num restaurante. Pedimos seis paellas. Antes de sermos servidos comecei a perceber um interesse do garçom, a amabilidade do garçom, a uma de minhas amigas. A amiga, desesperada, tímida (mal parecia aquela que caíra de boca no et do Miró). Almoçamos. Depois de muitas risadas, uma foto para guardar o momento. Surpreendentemente o garçom se posicionou junto de minha amiga, abraçou-a e um clic e o momento se marcou para sempre (caso a foto não seja deletada e não-impressa e não-queimada). Os olhares tímidos, da parte de minha amiga. Os olhares do catalão, fortes, furiosos. Trocaram um último olhar, um último olhar com trilha sonora de Jade e Lucas.

Ah, se pudéssemos contar
As voltas, que a vida dá
Pra que a gente possa encontrar
Um grande amor

É como se pudéssemos contar
Todas estrelas do céu
Os grãos de areia desse mar
Ainda sim

Pobre coração, o dos apaixonados,
Que cruzam o deserto em busca de oásis em flor
Arriscando tudo por uma miragem
Pois sabem que há uma fonte oculta nas areias
Bem-aventurados os que dela bebem
Porque para sempre serão consolados

SOMENTE POR AMOR...

Riamos não acreditando naquilo...

Enquanto isso num teleférico de Montjuïc...
Mal sabíamos nós que minha Amiga Cândida tinha conseguido, preocupada e acreditada que ainda estávamos lá, esperando por elas (há mais de uma hora), voltar ao teleférico, sozinha, rompendo todos os medos terríveis que a impedem de chegar às altura em paz. Imagino, que suando frio, por lá estar nessas condições, e ainda sozinha, não deva ter passado bem a trajetória. Mas o pior aconteceu. Todos os teleféricos que estavam no ar trancaram, pararam no ar de Barcelona (o que era uma tragédia elegante). Vejo minha amiga Cândida, muda e paralisada.

Enquanto isso nas Ramblas...


O grupo do somente por amor comprava óculos para melhorar a visão do sol-absurdo.
O segurança da loja passa seduzir-me. Meu Deus! Por Crisipo! Lá vem Laio!






Enquanto isso na saída dos teleféricos...
— Trancaram todos — dizia Lindy — Meu Deus, a Cândida tá lá. Senhor, que Cândida não esteja lá. Ela tá desesperada — dizia Lindy olhando para o céu azul e com teleféricos parados.

Enquanto isso no teleférico de Cândida...


















Imagino o suor caindo da testa e pingando no chão.
Ela não olha para baixo (E mesmo assim estava pálida como um papel A3 ou A4, como melhor lhe aprover).

E assim termina a postagem de hoje.

As compras dos amigos apaixonantes será produtiva? Eu conseguiria desenredar-me do segurança sedento? Lindy conseguirá ter calma ao ver sua amiga em apuros? Como a empresa de Periféricos, desculpe, Teleféricos de Montjuïc solucionará o impasse? Como Cândida sairá dessa vulnerabilidade?

Não perca essas e outras emoções na próxima e surpreendente postagem, que será amanhã, de Le Fabuleux Destin

3 comentários:

  1. Ai, que angústia ler as aventuras das personagens e o teleférico! Será que Lindy e Cândida sobreviverão? Tenho fé que sim. Aguardaremos aflitos o desfecho dessa mirabolante história.

    ResponderExcluir
  2. Tenho a impressão, caro autor, que o leitor pode vir a interpretar mal o episódio do garçom com a moça que caiu de boca no ET. Quero deixar claro que tal episódio não se passou com quem vos fala, mas sim com ooouttra viajante que também caiu de boca bem como yo!!

    Quero também citar o momento que passou despercebido aqui durante a descida do grupo pelo teleférico com a presença da "fada bela" que foi muito emocionante naquela hora em que ela tinha a intenção de "voar" do periférico, digo, teleférico!!

    ResponderExcluir
  3. Voar Felícia? Não conhecia os poderes dessa personagem. hehehehehehe.

    ResponderExcluir