sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Mais uma vez Paris - parte 1/3

Era cinco e meia da manhã do dia 11 de setembro de 2010, quando todas as meninas e eu estávamos prontos para pegar o voo para Paris. Eu estava excitadíssimo, pois tinha pensado em cada dia do ano no momento em que reveria esta cidade. Para tanto, naquela manhã fria, e imaginando que em Paris a temperatura estivesse em torno de 15ºC, vesti-me de gola olímpica e um suntuoso sobretudo.

Passamos pela imigração européia, logo que recebemos nosso ticket aéreo, no check-in da Vueling. Minha ansiedade era tamanha que não tive estômago para um café da manhã. Fiquei andando entre as lojas de free shop para sentir o tempo passar. Na verdade minha ansiedade tinha outro motivo: o pós-trauma de minhas amigas que se perderam em Barcelona. Para tentar acalmá-las, pedi que elas não saíssem de perto de mim. Caso isso acontecesse, elas teriam uma bela Paris.

Senhores passageiros, nosso voo se direciona ao aeroporto de Paris-Orly. Nosso tempo de voo é de uma hora e meia. Apertem os cintos, posicionem suas poltronas na vertical e boa viagem.

O voo foi um sucesso. Diennifer e eu fomos conversando agradavelmente durante o trajeto. Uma vez em terra firme, pegamos nossas malas e nos dirigimos ao balcão de informações. Compramos o passe antecipado PARIS VISITE, ticket que nos dava livre acesso a metrôs, trens e ônibus por Paris por dois dias. Depois disso, fomos em direção ao terminal do ônibus DENFERT ROCHEREAU, que nos deixaria em frente à Gare de Metrô que nos levaria até o hotel PARIS XV. As aventuras começaram assim que fomos embarcar no ônibus. Fui o primeiro a entrar no coletivo e pagar a taxa de € 6,60 ao motorista. Em seguida mais cinco colegas ainda entraram. Abruptamente, a porta foi fechada pelo condutor. Isso fez com que Deisy voasse para fora do ônibus. O carro partiu. Em menos de quinze minutos estávamos esperando no final da linha. Já estávamos sem casacos. Paris: 30ºC. Em seguida, as outras meninas chegaram. Dirigimo-nos ao metrô. Assim que chegamos à plataforma lembrei-me da primeira vez que estava em Paris. O comboio laranja, das linhas de trem, que nos levava ao Charles de Gaulle naquela sexta-feira 13 de fevereiro de 2009. (Leia se quiser em: http://wwwalexvalerio.blogspot.com/2010/06/as-perdidas-sem-mapa-sem-lenco-e-sem.html e http://wwwalexvalerio.blogspot.com/2010/07/as-perdidas-sem-mapa-sem-lenco-e-sem.html). Quando o trem surgiu, o pegamos. Mas olhando em meu mapa e verificando o sentido da locomotiva, percebi que estávamos nos afastando de nosso destino. Na parada seguinte descemos todos, cheios de malas. Para nos guiarmos, a Professora Lúcia pediu auxílio a uma francesa que estava sentada lendo um livro. Ela explicou-nos o caminho que deveríamos tomar para chegarmos às linhas de metrô. Íamos passando tranquilamente pelas portas giratórias que davam acesso ao metrô. Mas por um contratempo, Cléia, minha amiga, fora engolida entre a porta e a roleta. Ela gritava, ria, gargalhava, pedia socorro. SOCORRO! A mala estava presa com ela. Os cabelos esvoaçavam. Como um perfeito-amigo, fui até ela e a orientei da maneira mais equilibrada para se desvencilhar do estômago daquela catraca. Final feliz, após muitos ataques de risos. Entre sobe e desce de escadas, as meninas iam puxando malas. Certo momento, um grupo decidiu pegar um elevador. Ali pensei num déja-vu (será que tinha visto uma cena parecida em Barcelona? Grupo se separando?). A caravana (de Sílvio Santos?), que estava a pé, se dirigia a plataforma da linha 6 com sentido à Étoile. Sentamo-nos e aguardamos com que as outras aparecessem. (Elas sumiram. Nada melhor que começar Paris com mais uma aventura). Elas apareceram. Algo tirou minha elegância das órbitas: algumas anunciaram que queriam fazer compras na Galerie Lafayette. Deixei bem claro a elas que eu iria seguir o roteiro que tínhamos combinado. Mal sabíamos o que aconteceria conosco. E mal elas sabiam que jamais encontrariam a Galerie aberta. Pegamos o metrô. Abrimos a porta do vagão e entramos com as malas. O sinal de que as portas fechariam soou. A máquina passou a se movimentar. Tinha esquecido o quanto era dinâmica as linhas metroviárias parisienses. Transitamos seis estações. Fizemos uma conexão na Gare LA MOTTE PICQUET GRENELLE e nos dirigimos à linha 8, com direção a Balard. Quatro estações depois, descemos em BOUCICAULT. Antes de ganharmos a rua, as meninas iam subindo as escadas rolantes. Uma delas, Marcilene, com sua delicada mala de 30 kg, pressionou uma delicada-francesa. Isso se sucedeu da seguinte forma. Marcilene, que era surpreendentemente a primeira da fila, na escada rolante, viu sua mala trancada no final daquela escadaria. Por lógica, ninguém conseguia sair daquela emboscada. As pessoas iam se aproximando dela. A francesa era a primeira da fila. Mas atrás desta se aproximava o batalhão de mulheres brasileiras com suas respectivas malas. A leitora de Balzac no original olhou para trás e esbugalhou os olhos, se vendo num filme da série Jogos Mortais, sendo a próxima vitima de uma terrível prensadeira indianista. Um salseiro no cume da escadaria se deu. Felícia e eu, que puxávamos o grupo, estávamos isentos daquela feliz história. Olhávamos perplexos, não sabendo se riamos ou se ajudávamos. Mais uma vez, uma história de subterrâneos. Em Paris, tudo acontece muito rápido. Mais uma vez, final feliz. A francesa saíra com um riso amarelo, pronta para ler as cenas da vida parisiense da Comédie Humaine.

Ganhamos a Rue de la Convention. Por certo momento não sabíamos se íamos para a esquerda ou para a direita da rua. Então Felícia, com seu inglês norte-americano, decidiu pedir ajuda; Lúcia correu na frente e questionou, com seu francês da Aliança, onde ficava o HOTEL PARIS XV. Uma vez com as orientações, fomos puxando as malinhas. Enfim chegávamos à rua em que víamos no Google Map. Pronto! Até que não foi tão difícil. Apresentamos nossos vouchers. A moça da recepção informou-nos que não há nenhuma reserva para nenhum dos nomes citados nos vouchers. Lúcia e a recepcionista passaram a discutir sobre a questão. A mulher mostrou-nos que o endereço citado no voucher não era o mesmo da rua em que nós estávamos, muito menos onde ficava o HOTEL PARIS XV. Olhei para Felícia e certamente ela deve ter lido em meu olhar: “Só falta esse tal Hotel Paris XV não ser em Paris”. Todos os hotéis que a CVC nos colocou era em outra cidade! Dito e feito. Lúcia e eu pegamos o mapa e nos dirigimos a Rue Douparadour. Lá estava o homônimo HOTEL PARIS XV. Em Port d’Issy. Entramos.



Enquanto isso um incidente dantesco e bem sexual ocorreria no 15º distrito. Tia Cida ficou desesperada, pois sua bexiga gritava aos quatro ventos devido a inchação mórbida. Para acudi-la, Cléia, como sempre, Cleíssima, foi para acompanhá-la a um banheiro público. Próximo a Rue de la Convention havia um banheiro na praça. A porta de ferro se abriu, Tia Cida desabotoou a calça, cheia de prazer com a iminente excreção. Uma secretária (eletrônica) ia dando as instruções para usar o toilette. A calça de Tia Cida jazia em seus joelhos e o primeiro pingo urinário surgia. O prazer seria súbito se ela pudesse usar o urinol (como dizem nossos amigos portugueses), pois o sanitário desaparecera misteriosamente. Tia Cida se questionou com os joelhos presos para também prender o dilúvio que viria. Cléia esperava do lado de fora. Uma das regras do toilette de la place era, por uma questão lógica (pense comigo, leitor-seguidor): a porta de ferro abria a porta para o novo usador; o usador fazia suas necessidades; o vaso, uma vez saciado de aluviões, entrava para algum lugar misterioso para ser lavado; e por lógica, leitor-seguidor, o que o usador deve fazer após usar o toillete, além de lavar as mãos? Feliz é aquele que chegou a conclusão que se deve sair dali, e para sair dali, a porta se abre num rompante automático. Foi isto o que aconteceu, caro seguidor: assim que o vaso desapareceu, sem ao menos ser alimentado da chuva forte de Tia Cida, a porta do toilette se abriu sem ao menos esperar, o que seria delicado para um banheiro parisiense. Tia Cida ficara estática, com suas vergonhas à mostra em public place. Ela apenas perguntava: “Cadê o vaso?” – dizia uma mulher nua em PARIS. Me ne quite pas.



Lúcia e eu adentramos e nos certificamos que estávamos no lugar certo. Lucia falou com a recepcionista e pediu para que pudéssemos entrar em contato com o errôneo PARIS XV. Uma vez feito isso, descobrimos que as meninas haviam desaparecido. Oh mon Dieu, onde elas foram parar? Pegamos um trem de superfície, cuja estação era na frente do hotel. Na estação seguinte, em Porte de Versailles, pegamos o metrô em direção ao pseudo-Paris XV.




Enquanto isso, na sarjeta, as meninas sentaram-se na calçada, cobertas por malas e casacos.
Certo momento os sapatos foram tirados, ficaram a brasileirinhas, de Havaianas ou então de rasteiras. Felícia, com o humor sempre apurado (obrigado por dividir momentos insanos comigo), pegou seu chapeu, recém-comprado nas Ramblas (barcelonescas) e colocou-o na calçada, para que os passantes pudessem ser justos ao destino farto dos turistas do descobrimento. Um sous, s’il vous plâit.







Enquanto isso na Place do Toilette...
— Mas o quê que é isso, Cidaaaaaaaaaaaaaaaa — questionara Cléia correndo para apurar Tia Cida, que somente pensava no sanitário que desaparecera misteriosamente.
— Cadê o vaso — dizia nua, com sua belle chose à mostra.
— Levanta essa calça, Cida.
Tia Cida passou a levantar a calça quando percebeu:
— Cadê minha calcinha?
Cléia passou a procurar a calcinha de Tia Cida no toilette maudit.
— Mas não está aqui — disse Cléia procurando ao redor da banheiro-eletrônico.
Tia Cida passou a mão nas pernas e percebeu que sua calcinha tinha virado uma cueca-virada.
— Ta’qui, ta’qui. Achei.



Lúcia e eu chegamos para informar a boa-ventura. Paralelamente Tia Cléia e Cida, ou melhor, Tia Cida e Cléia vieram com a bomba do momento. Foi uma explosão de gargalhadas naquela rua parisiense. Os passantes da cidade tiveram que pedir um excusez-moi. “Vamos para o hotel verdadeiro?”, perguntei as aventureiras. O grupo se dividiu em dois: aqueles que foram de táxi e aqueles que decidiram se aventurar, com mala e cuia, pela malha ferroviária. É claro que eu, como um amante do metrô de Paris, disse as meninas: “Sigam-me as boas”. Dez minutos depois estávamos no hotel. Arrumo-nos em nossas suítes. Ficamos juntos: Cléia, Lindy, Cândida e eu. “Vamos, que Paris nos espera, sedenta de prazer!” — eu disse.

As meninas estavam morrendo de fome. Era uma morte lenta, magra e cinza. Queriam todas ir a um Mc’Donalds. Mc’Donalds em Paris?!!!?????@#$%¨&*()__+? Totalmente refém de Ronald McDonald, cedi ao voto vencido. De Porte de Versailles à estação Concorde do metrô foram 12 estações. Assim que saímos em Concorde, a place de la Concorde se mostrou imensa para nós.
O seu não tão imenso obelisco no meio da avenue! De um lado, o museu do Louvre com sua pirâmide. Do outro, o Arc de Triomphe.



E mais adiante do Arc de Triomphe, o Grande Arche de La Défense. Íamos andando pela Champs-Élyssées, passando pelo Clemanceau, o parque dos Campos Elíseos. Atravessamos a avenida e tirávamos a clássica foto da ruazinha mais famosa do mundo (pelo menos mais famosa que a Assis Brasil, ou Tijuca, ou Getúlio Vargas – não a de Porto Alegre, mas sim da Getúlio Vargas de Alvorada Voraz; ou Salgado Filho – não a de Porto Alegre, mas sim a de Viamão). Fomos trafegando.
Observando os turistas, os amigos parisienses pagando a entrada do cinema, homens e mulheres rindo tomando um café e um croissant nas brasseries (Vou parar de descrever por aqui, se não isso virará uma nova versão de O Regabofe, de Émile Zola).
Quase com o Arco do Triunfo, vislumbramos uma das lojas do Ronald McDonald. Foi até um mimo ouvir da caixa, em francês, se eu desejava, por mais um euro, comprar a batata e refri médios. Hahaha. Eu simplesmente perguntei :

— S’il vous plâit, c’est combien cinq et soixante euro?
— Ne.
— Je voudrais un big mac de cinq et soixante euro, s’il vous plâit.

Depois de visitarmos o Arco do Triunfo, o grupo acabou se separando. Cléia, Tia Cida, Diennifer, Cândida, Lindy e eu. O pessoal acabou andando devagar e fomos adiante. Andávamos pela Avenue Montaigne, a rua da moda. Lojas das grifes: Prada, Dolce & Gabanna, Dior, Armani, Channel, Yves Saint-Laurent. Passamos por um grande grupo de franceses que esperavam pela abertura do Théâtre des Champs-Élysées.

Alguns passos depois estava ela, a magnânima, a republicana: La Tour Eiffel. Somente o Rio Sena nos separava dela. Era aquele olhar que eu esperava: ver que olhar minhas amigas exporiam ao ver a desmistificação do mito de vislumbrar realisticamente o ponto turístico mais desejado no mundo. Ali eu senti, como uma missão pessoal, que a minha tarefa tinha se cumprido: dar um novo olhar do mundo àquelas pessoas. ELAS PODEM. TODOS PODEM!


O visionário só é cego quando quer. Junto de um olhar vinha o sorriso, um sorriso de criança, um sorriso-anestesiado de quem diz: “Eu não acredito que estou aqui”. É de se sentir isso mesmo. Eu mesmo, vislumbrando a Torre, pude concretizar o meu passado e sentir a mesma felicidade daquele 10 de fevereiro de 2009. É uma filosofia: Fazer os outros felizes. Disso eu não me arrependo, jamais. Fomos caminhando pela beira do Sena. Os barcos passando com os turistas por baixo da Pont de l’alma. Percorríamos o caminho até chegar ao monumento. Mas antes, como que exaustos, sentamo-nos num banquinho antes da Pont D’Iena. Um indiano abordou-nos para vender chaveirinhos da Torre Eiffel. Ele negociou o mais que pode. Diminuiu os preços até o limite celeste. Falei para as meninas que era um bom negócio comprar cinco torrezinhas por um euro (da outra vez, no inverno, comprei três por um euro). Elas caíram de boca nos suvenirs. Feito a venda de todo o estoque, o indiano correu como um assaltante brasileiro. Partimos em direção a Torre. Quando chegamos à Pont D’Iena, a ponte que nos dá a visão plena da torre, um mar de indianos vendiam lembrancinhas de Paris. As meninas ficaram indignadas quando viram a placa dos chaveirinhos da torre: 1€ = 10.

— Indiano, filho-da-puta. Filho-da-puta. Filho-da-puta. Se eu vir aquele Dalit, eu o pego pelo pescoço — elas diziam espumando.


Era uma fila sem fim nos quatro acessos à Torre. Ficamos mais de trinta minutos esperando para acessarmos o símbolo republicano. Já era noite. Passava das nove quando anoiteceu. Certo momento ouve uma permuta: as meninas que se desgarraram do grupo apareceram. Fiquei feliz por ver minha amiga Felícia. Elas estavam indo para a Galerie Lafayette. Quando Tia Cida ouviu isso, deu um pulo e se foi. Em seu lugar ficou Marcilene, a fotógrafa das mil fotos diárias.

Cândida hesitava. Não sabia se queria subir ou não. Mesmo assim ficou na fila conosco. Na fila, a imensa tela anunciava que o acesso ao terceiro andar da torre estava interrompido, devido à lotação. Para mim, o terceiro andar era o mínimo. O segundo era muito pouco. Eu olhava ansioso para a tela. A nossa vez estava chegando. Não podíamos perder a experiência de não ir ao limite da torre. Faltando dez pessoas na fila, a informação que eu precisava ler se mostrou. Havia vagas para nossa elevação ao topo!!! Compramos os tickets. Cândida, com as mãos suadas, ia andando vagarosamente até a entrada dos elevadores. Paramos os seis na frente do ascensor, esperando a nossa vez de entrar. Cândida disse:

— Não subirei.
— Por quê? — perguntei.
Na mente de minha Amiga, estava a cena dela presa sozinha, num elevador suspenso da Torre.
— Cândida, o elevador não vai parar, não vai trancar — eu disse.
— Eu não posso — disse ela indo para um canto. O suor brotava em sua testa.

Então puxei as palavras certas para fazer com que minha amiga se convencesse que uma tragédia não iria acontecer. Por mais que fosse 11 de setembro, nenhum avião explodiria na Torre Eiffel. Mas não era esse o errôneo argumento que eu proporia a Amiga. Respirei fundo e disse num estouro de luz.

Será que Cândida subiria na Torre? Que palavras eu disse a ela? Eu conseguiria convencê-la da grande aventura? Ela iria contra seus traumas longínquos (do dia anterior)?

A porta amarela do elevador se abriu, pronto para adentrar e subir.

Não perca, em Le Fabuleux Destin, a próxima e penúltima postagem desta grande aventura. Digo previamente que muitas emoções acontecerão nessas peripécias aristotélicas. Aguarde!

2 comentários:

  1. Socooooooooorro!! Autor amado, não tenho dúvidas de que o erro fatal de comunicação se deu por tentar evitar o uso do meu American English! Mas tudo bem, por esse motivo perdemos apenas meio dia!! Ai... Aguardo o próximo capítulo!!

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  2. "Indiano, filho-da-puta. Filho-da-puta. Filho-da-puta. Se eu vir aquele Dalit, eu o pego pelo pescoço"; e o principal: Sanitário parisiense, ne me quite pas.. hehehehehehe

    Bjãoo Ale,

    Dieniffer.

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