segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Formatura de uma amiga-formanda

— Alô, quem fala?
— Aqui é o bola de fogo!

Assim começava, com a seiva bruta da pluralidade helicoidal, a poesia neobrutalista provinda dos recônditos recantos do complexo do alemão. E também essa era a erudita canção que tocou na festa em que estive. Festa essa, cujo motivo era a comemoração da colação de grau de uma distinta mulher, Thais Deamici — uma amiga-colega, uma colega-amiga, agora professora, agora uma maestra provinda de Buenos Aires, mi Buenos Aires Querida!

Mas antes destes meandros dançantes, tudo tinha começado quando eu, dentro de um táxi, cujo motorista não sabia o hábil caminho para chegar ao Bourbon Country, local da colação de grau terceiro. O trânsito caótico de uma sexta-feira somadas as incongruências da terceira perimetral com suas sinaleiras que só sabem informar a vermelhidão das passagens e ainda somada a guerra trafegária numa cidade em que a participação das lideranças parece isenta de posicionamento, abro parênteses (Se ainda Porto Alegre fosse como Paris (hahahahahahahahaha), cidade em que táxis trafegam nos corredores dos ônibus) onde tudo seria menos estressante. Mas como essa é a dura realidade silvícola em que vivemos, continuemos.

Estressado, babando como se estivesse com a vaca louca, cheguei ao Théâtre des Variétés. Lá, me pus a observar os bastidores. Ao longe vinha a turma de 34 formandos. Sete deles (delas) puseram a me cumprimentar, fomentando-me de impulsos libidinosos: abraços, risos.

Uma vez sentado na platéia, quando os colegas iam sendo chamados, uma criança (sempre uma criança) começou a dialogar sobre o presente que estava esperando há meses. Mal sabia o moleque, o presente que eu tinha para ele no meu bolso (depois do meu natal demoníaco ando sempre com um vidro de éter para subtraí-las por algumas horas). Sei que dei uma fulminada no pequeno-notável. Nada de tão vilanesco, mas era apenas para ele perceber que estávamos ali para ouvir e ver, e não para falar. E a mãezinha dele, tão absorta e desobrigada de educação. Pobre infante!

Depois dos protocolares momentos, foi concedida a palavra para os oradores, meus amigos Carlos Rosa e Alessandra Oliveira. Jamais pensei que Carlos, o anti-herói das mocinhas árcades, seria capaz de emocionar-me com incontáveis palavras em que divido as mesmas ideias, o que foi um milagre, ou um senso comum aos alunos do curso de Letras. Alessandra, a melhor amiga de Clóvis e Dolce & Gabanna, elevou meu emocional a níveis estratosféricos. Se com Carlos eu já chorava, com Alessandra, as lágrimas brotavam incontidas. Como não emocionar um aluno do curso de Letras, amante da intertextualidade, quando ouve palavras de sabedoria. Dentre essas as que são usadas com intertexto e hipertexto comparadas as situações adversas do cotidiano. Citaram Homero, Aristóteles, Dostoiéviski, Camus, Fernando Sabino, Balzac, Sófocles. Só sei que muito chorei. Tive a catarse. Sai de lá purificado. Em seguida Lígia Sávio, minha amiga-professora, a paraninfa da turma, entregou-se ao microfone. Mais lágrimas.

Mais tarde fomos para a festa. Em Gravataí, uma cidade que possuo grande cujo carinho não sei por quê. Quem sabe a razão deve ser devido a alguns amigos que lá residem. Gravataí, porto de homens e mulheres belos, foi o cenário da prosódica festa de Thais Deamici. Primeiramente nos alimentamos de pizzas e massas numa elegante e agradável casa. Conheci um ponto turístico da cidade: o Parcão de Gravataí. Conta-se a lenda que Giuseppe Garibaldi passou naquele Parcão acompanhado de Anita, Davi Canabarro e Corte Real, e juntos iam em busca dos imperiais que tentavam assolar a cidade e dominá-la para que ela fosse sede geral da comarca imperialista. Tudo isso, evidentemente, contra os farrapos mal-trapilhos. Depois dessa verdade bem verdadeira, e depois de enriquecermos nosso ser estomacal, a Professora Thais ofereceu a seus convidados uma seleta de fotografias, estas, reminiscências de sua trajetória terrena, desde os tempos imperialistas até o momento em que Dilma Rousseff já é a primeira PresidentE da Republica Federativa brasileira. Parece que agora temos um seio esplêndido.

O seio esplêndido, metaforicamente, é claro, se mostrou em danças e pessoas belas. Sentia-me na Arcádia de Carlos Rosa, onde há todos os protótipos de belezas num único ambiente. Entre danças hispânicas cantadas desde o século XIX, nos tempos em que Martin Fierro ainda não era vendido como água numa das livrarias da Avenida Corrientes, homens e mulheres se ansiaram pela felicidade de Thais, que deslumbrava os olhares atônitos quando expunha sua figura vestindo um Victor Valentin. Enlouquecíamos com uma Macarena dionisíaca, com o axé dos bodes (girávamos como a ala das baianas), sapateávamos com um sertanejo universitário (agora minha amiga tinha que procurar um sertanejo pós-graduado – que leda bobagem, enfim). Uma amiga, Janine Oliveira, puxara-me para a contra-dança. Assim que tocou-me a mão, fiz como uma prenda de CTG que de despede da dança, o riso é que foi logo na partida. Sei que em seguida, quando Francine Spineli, que teve seu namorado, meu amigo Felipe, usurpado pelas agendas cheias de hiatos, dançou um bate-coxa junto de meu corpo apolíneo. Era um dois e dois de causar inveja. Como sempre comigo, levo tudo para o pastiche, e levava Francine, na contradança, nos paços dois e dois em direção a cozinha, isolando-nos do grupo. Rodávamos no centro do palco. Fazia-a girar, como o bom par que puxa a parceira, duas, três, quatro vezes consecutivas. “Eu vou desmaiar”, disse-me ela. “Então vamos girar mais”, eu disse. Como uma boa parceira de fanfarras (isso que não tinha bebido uma gota de álcool), o humor é genuíno, e com o álcool é mais ainda provocado, Francine se ansiava por uma boa gozação e girava às gargalhadas entorpecentes. Após a uma dança arrebatadora, um rapaz disse-me que estávamos, Francine e eu, a léguas de distância, à frente, quando o assunto era a dança. Disse para ele que foram anos de prática quando dançava no Vera Bublitz e nos tempos em que fazia apresentações em Moscou. O rapaz de olhos esverdeados e brilhantes olhou-me incrédulo e cheio de vontade de rir. “Poderíamos, Francine e eu, dançarmos a morte do cisne, se quiseres”, disse para ele denunciando meu total sarcasmo. Esclareci que foram anos de prática, apenas. O rapaz em questão era um ex-aluno de faculdade do curso de Letras. Conhecemo-nos e conversando, bebendo água, sobre pós-graduação e assuntos empíricos.

Sentia-me como se estivesse entorpecido. Creio que tenha sido aquele cheiro de balão que o gelo seco, que se eleva aos montes em festas, provocava. Certo momento, minha amiga Thais Deamici perguntou que tipo de música eu gostaria de dançar. “ Meu espírito pede um Funck”, disse brincando. Percebi no olhar da professora algo de incrédulo em minha sentença. Ela não acreditara. Mas titubeante, colocou em prática o pedido. Em questão de segundo, quando pude ouvir a poesia naturalista e concretista das alomorfias periféricas e culturais, meu espírito sincero e realizador esbugalhou os olhos numa vermelhidão. Noutro segundo TODOS dançavam atoladinhos. Em seguida, o respeitável Senhor Bola de Fogo ensinava-nos a arte de amar. Se eu soubesse jamais teria lido Ovídio (???). Jamais teria imaginado-me e imaginado minha amiga da alta literatura, L.S., dançando e cantando elegantemente a contra-dança de título TÔ FICANDO ATOLADINHA. Essa era a morte do cisne a que me referia ao rapaz de olhos esmeraldicos. TODOS, sim, TODOS, sem exceção, TODOS, dançavam hipnotizados pelo gelo seco.

O samba aconteceu. E Mônica, que estava acompanhada de seu namorado-segurador, dançava na roda entre palmas e gingados a contradança erudita O HOMEM DA GALILEIA (lembranças do seu tempo de faculdade, minha amiga Thais). Certamente se o leitor-pesquisador procurar em algum recurso eletrônico, encontrará, assim que digitar o nome citado em caixa alta, a dança provinda dos confins da África. Se não encontrar, faça como Amelie Poulain, diga: Grande Coisa!

Decidimos pagar a conta. Assim que fizemos isso, todos os demais participantes da festa desapareceram perdidos no gelo seco. Foi como uma mágica. Pareceu que eles desapareceram na nave da Xuxa, que fazia as crianças tossir de tanta fumaça, assim que a voz da rainha (? – destronada, visto que agora estamos em áurea Republica), surgira como uma Madelaine de Proust, para alegrar e relembrar os baixinhos que éramos e ainda o somos.

A festa chegou ao fim. No carro para ir para casa, íamos rindo sobre diversos assuntos: ciúmes, latifúndio, azeitonas, balão, gelo seco, olhos esverdeados, macarena, a morte do cisne e sobre a urina. Sabe-se que assim que chegamos a Cidade Baixa, zona abençoada de Porto Alegre, o motorista, o condutor do tílburi, anunciou-nos que seu órgão excretor estava em processo de desfalecimento. Ele saiu do carro, foi para um canto indiscreto, e passou a regozijar sua bexiga. “Graças a Deus!”, dizia a bexiga desinflando. O pavor maior foi ver o quanto aquela bexiga trabalhava, pois um dilúvio inundava a José do Patrocínio, fazendo com que os passantes curvassem-se para que não fossem alvos fáceis da necessidade sanitária do homem. Certo momento nossos olhos inflaram-se, pois o homem não parava de purificar-se das quintessências mundanas. “Meu Deus, o que é isso...”, eu disse, “temos que chamar a guarda costeira. Temos que nos salvar”. Depois de muitas risadas, MUITAS RISADAS, o motorista deixou-nos em nossos destinos. Na despedida, como sempre, faço um cometariozinho. Disse para Thais: “Querida, tu és muito especial. Parabéns, professora”. Olhei para o rapaz e percebi que não tinha muito o quê comentar, então disse para ele: “ Parabéns, tu mijas muito bem”. Ainda drogado pelo o gelo seco, mas mesmo assim sabendo de minhas faculdades mediúnicas, disse: “Péssimo comentário (ria), au revoir”.

Era seis da manhã, quando na minha sacada, olhava para o céu, que se azulava, e se mostrava pleno de felicidade, que percebi o quanto podíamos ser felizes, e do quanto perdemos tempo com questionamentos e pensamentos infrutíferos, dentre eles reclamações e frustrações. Com aquele céu azul percebi que era um homem feliz e que as pessoas ao meu redor também o eram. Eram, porque realizam todas os seus projetos.

Fui dormir, porque dormir é estar de bem consigo mesmo.

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