quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Motivos que me fizeram chorar, motivos que me fizeram ter a catarse na formatura. de Thais Deamici

Texto extraído do blog de Thais Deamici, minha amiga; e escutado por mim e um publico imenso na colação de grau desta, ocorrido em 07/01/2011. Texto de Carlos Rosa e Alessandra Oliveira


DISCURSO FORMATURA


Aos senhores e às senhoras da mesa, colegas formandos, familiares, amigos e demais presentes neste grande momento, o nosso muito boa noite.
Antes mesmo de iniciarmos o nosso discurso, gostaríamos de prestar duas informações de utilidade pública.
A primeira vai direcionada principalmente para as crianças. É que a situação aqui pode parecer um pouco estranha: essa sala grande, escura, flores, pessoas de preto, lágrimas... Não, mas não se assustem... Asseguro-lhes que isso não é um velório, é uma cerimônia de colação de grau. Portanto, as lágrimas que cairão aqui serão de alegria e não de tristeza.
A segunda é que, quando fomos convidados para representarmos a turma de formandos de Letras-Português, fato este recebido com alegria, mas também com preocupação, buscamos nos informar a respeito de como fazer o melhor discurso. Ou seja, quais seriam as melhores citações, as frases de efeito mais apropriadas para que todos por fim se emocionassem. Afinal de contas, formatura sem choro não é formatura. Depois de tanto pesquisarmos em bibliografia especializada, em Platão e outros compêndios de retórica, foi em uma célebre frase de MSN que encontramos a melhor definição para o que vem a ser um bom discurso. Ela diz assim, vejam o poder de síntese do pensador: “Há, pois, apenas dois tipos de discurso. O bom e o longo”. Diante dessa pérola, informamos que o nosso discurso será bom, ou seja, breve.


Passageiros, é chegado o dia da viagem! Cá estamos nós, de malas prontas, a espera da última chamada. Esses instantes que antecedem o embarque são sempre nostálgicos. Vêm à tona lembranças do que se viveu, dá um aperto no peito. É a sensação da vitória misturada com o medo do desconhecido, do que está por vir. Ao mesmo tempo em que somos invadidos por uma felicidade radiante por termos encerrado este ciclo, é difícil pensarmos que não viveremos mais o universo da Fapa. O convívio quase que diário com professores, colegas e amigos abre espaço para novos vôos. Hoje estamos aqui, juntos. Juntos não só por uma questão de espaço físico, mas porque comungamos dos mesmos sentimentos. Encerra-se uma etapa, mas inicia-se outra. É a estética da circularidade que Gabriel Garcia Marquez nos apresentou através da família Buendia: “nossa vida é um fluir contínuo que mantém a unidade do todo”. Portanto, a hora é agora! A hora da estrela. A hora e a vez não mais de Augusto Matraga, mas a nossa! Contudo, comecemos pelo desfecho, um notável paradoxo. Ou in media res, como preferirem.
É finita a graduação, o nosso romance formativo. Assim como Eugènie de Rastignac, fomos maturando com nossas experiências e, talvez hoje, já estejamos preparados para enfrentar os desafios da educação. Foram anos de uma busca incansável de conhecimento, a fim de ampliarmos, ou até mesmo modificarmos nossas visões de mundo. Éramos uma folha em branco, uma tábula rasa, segundo a teoria empirista de John Locke. Em linhas gerais, o processo do conhecer, do saber e do agir foi apreendido pela experiência adquirida na faculdade. Fomos aumentando a nossa “bagagem” e dando consistência ao que outrora parecia vago e disforme. Alimentamos a nossa fome de saber. Fomos nos preparando para a viagem.
As malas estavam vazias. Dentro delas só um imenso desejo de viver, de acontecer. Arrumar as malas nunca foi uma tarefa fácil. Requer organização e disciplina, pois tudo o que estiver ali, deverá ter uma função. Então, sejamos práticos: nada de excessos de bagagem. Além do desconforto para carregar, você paga por isso. O conhecimento deve ser um elemento facilitador, que abra novos caminhos, que modifique a realidade. Pobre Visconde de Sabugosa... tanta sapiência para nunca deixar de ser um sabugo de milho. Eis a prova de que o conhecimento enciclopédico de nada vale se não encontrar uma aplicação, uma razão de ser. Ou seja, é inútil saber se ideia é com ou sem acento, se no fundo você não tem ideias na cabeça. Ou então se a metonímia representa uma parte pelo todo ou o todo por uma parte se você só percebe a parte e não o todo. Com o perdão dos trocadilhos, mas não podemos ser sujeitos ocultos em nossa sociedade, nem nos permitirmos viver vidas secas para apenas comemorarmos memórias póstumas.
Cremos que hoje estamos de malas prontas. Ao longo desses anos, tivemos a nossa disposição as mais célebres explanações sobre a língua portuguesa, literatura, filosofia e linguística. Professores extremamente capacitados dividiram seus saberes conosco, comungaram desse mesmo anseio. Muitos deles serão inesquecíveis. Quem não guarda uma singela lembrança de alguma professora especial dos tempos de colégio? Pois então. O que ficará agora não será uma doce recordação, mas um exemplo a ser seguido, uma força que não cessa. Assim foram nossos mestres.
Mas, para onde vamos? Qual é o destino deste voo? Onde fica o portão de embarque? Bem, para os indecisos, há uma solução. A mitologia grega diz que nada foge dos desígnios da Providência. Existe uma ordem cósmica que rege o mundo. Diz que somos incapazes de mudar um desejo divino, superior. Digam então que esperarão os sopros do Zéfiro. Ou, numa linha mais popular, digam que farão tal e qual cantou Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar/Vida leva eu”. Mas será esta uma resposta a altura? É meus queridos... bom mesmo era o tempo em que a pior coisa do mundo era a tabuada. Ainda mais para nós, amantes da língua e da literatura e avessos aos números e suas incompreensíveis combinações. Mas este tempo passou. Hoje somos os comandantes dessa aeronave. Seres pensantes, e não errantes. Donos de si.
Opa! É permitida bagagem de mão? Ótimo. Como bons estudantes de Letras que somos, se nos perguntarem o que levaríamos para uma ilha deserta, nossa resposta imediata seria um livro, é claro! Desculpem-nos aqueles que se sentiram preteridos neste momento. Principalmente os mais próximos de quem muitas vezes ouvimos: “larga esses livros senão eu vou te trocar, você só estuda e não me dá mais bola”. É que aprendemos com as ilustres palavras de Garcia Lorca: “Não só de pão vive o homem. Eu, se tivesse fome e estivesse desvalido na rua, não pediria um pão, e sim pediria meio pão e um livro”. Mas qual livro? Ou quais? Oh dúvida cruel... Ser ou não ser, eis a questão. Hamlet? Hum...prefiro a transgressora Madame Bovary. Que tal o orgulho instigante de Raskolnikóv? Ou a lírica contemporânea de Arnaldo Antunes? Não posso me privar dos encantos de uma bela história de amor, como a de Tristão e Isolda. Mas já que o assunto aqui é viagem, uma boa pedida seria Viagem ao redor do meu quarto. Até mesmo porque, a viagem da qual estamos falando nada mais é do que uma metáfora. Nosso destino não necessita estar geograficamente marcado no mapa mundi, ou possuir uma latitude e longitude predeterminada. A viagem é em busca de si mesmo, como fez Eduardo Marciano em O Encontro Marcado. Ao longo dessa nossa trajetória, descobrimos que “De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.” Mas, sendo o verbo encontrar transitivo direto, temos que quem encontra, encontra alguém ou alguma coisa. Nesse caso, o encontro se dará entre nós mesmos e nossos alter egos ou heterônimos. Quantos Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro existem dentro de cada um de nós?
Apesar desta viagem marcar a descoberta dos sujeitos simples, compostos e ocultos que habitam nosso interior, estaremos sós. Não há acompanhante. É a solidão insuperável da espécie humana: nasce-se só; morre-se só. Mas, coragem! Pela figura esquisita e descompassada de Macabéa, Clarice Lispector afirma que "Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." Isso nos parece difícil demais, pois até aqui nossa evolução foi amparada e orientada por pais, familiares e professores. Andamos de mãos dadas. Estávamos todos na mesma procura. Uns há muito tempo, completando uma década de FAPA. Vocês achavam que só a Guerra de Tróia perduraria por dez anos? Não mesmo! Estes é que são os verdadeiros heróis épicos. Ulisses e Aquiles morreriam de inveja. Já outros foram breves, graduando-se em quatro ou cinco anos. Mas todos têm em comum o enfrentamento com questões do cotidiano para conseguir estar na FAPA de segunda à sexta-feira: o dinheiro para o transporte, livros, xerox e afins, ônibus lotados em que parecemos sardinhas enlatadas, a carência de atenção aos filhos, marido, esposa, compromissos profissionais e tantas outras coisas. Contudo, superamos as adversidades e estamos aqui. A vontade de aprender sobre o que será o combustível para a essa viagem foi maior. E foi com essa gana de perseverar que chegamos até este dia.
Daqui para adiante muda o ciclo. Muda o nosso papel nesse contexto. Os alunos de ontem serão os professores de amanhã. Por mais desejada que tenha sido essa afirmação, hoje ela nos causa calafrios. Parecia que tudo isso estava a milhas e milhas distantes... e agora, no entanto, é o próximo passo. O medo do desconhecido, na verdade, é um fator bem conhecido entre muitos de nós: a sala de aula. Para aqueles que eram virgens na docência, as cadeiras de estágio foram bastante iniciadoras. A docência requer astúcia para contornar as mazelas do sistema educacional, dedicação e aperfeiçoamento constante, pois há sempre algo novo para aprender e, consequentemente, ensinar, mas, acima de tudo, requer prazer pelo que se faz. Assim, ser professor não é algo inato ou que pode ser adquirido instantaneamente com a posse de um diploma. Precisa ser cultivado e, principalmente, desejado. Se não irradiarmos o entusiasmo de estar ali e a certeza de que aquele é o nosso lugar, como poderemos esperar o mesmo de nossos alunos? Nenhum de nós, se desprovido desse sentimento de satisfação pela profissão, conseguirá atingir êxito e poderá se declarar feliz com a sua formação. De acordo com Rubem Alves: “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra.”
Mas, e aqueles colegas que, ao longo do curso, não descobriram este dom? Que ingressaram no curso pela paixão à arte e à literatura, ou pela apreciação às línguas? Estariam estes passageiros fadados a um destino incerto? É claro que não! O curso de Letras abre muitas portas e possibilita uma diversidade de carreiras a serem seguidas não menos brilhantes do que ser professor. Estamos aptos para o domínio da expressão oral e escrita de nossa língua materna. Esse diferencial nos dá condições de sucesso em qualquer profissão. O importante é que tenhamos a sólida confiança de que podemos fazer a diferença.
Abrimos mão de muitas outras realizações para estarmos aqui. Vencemos e superamos os dissabores e fracassos. Não nos acovardamos diante da máquina do mundo. Não baixamos os olhos. Seguimos vagarosos e persistentes. Mas estes nossos devaneios saudosistas são interrompidos por uma voz do além que anuncia a última chamada para este voo. É tempo de virarmos a página e iniciarmos um novo capítulo. O portão já foi aberto. Despedimo-nos sem carregar o peso do “adeus”. “Até logo” é muito mais tendência no século XXI. Esbarraremo-nos nas salas de embarque dessa vida. E sempre que nos encontrarmos, seja de corpo presente ou nos pensamentos, recordaremos passagens incríveis de um tempo em que vivemos juntos, pois o que fica, de fato, são os momentos bons. Qualquer inimizade e desconforto que tenha surgido entre nós, colegas, durante a trajetória acadêmica, isso tudo já não passa de notícia velha, jornal de ontem, que hoje só serve para fazer fogo. Apertem os cintos, a aeronave vai decolar, afinal de contas: “Esse é só o começo do fim das nossas vidas; deixa chegar o sonho; prepara uma avenida; que a gente vai passar.”


Uma boa viagem a todos!

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