terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mais uma vez paris - 2/2

Saliento ao leitor-seguidor, na continuidade das narrativas, que esta é a última e senão a mais emocionante de todas as aventuras europeias. Não por ser em Paris, mas sim devido os acontecimentos que surgiriam.

As perguntas que ficaram na postagem anterior eram: Será que Cândida subiria na Torre Eiffel? Que palavras eu disse a ela? Eu conseguiria convencê-la da grande aventura? Ela iria contra seus traumas longínquos (do dia anterior)?

É claro, profícuo leitor, que tem o desaproveito de me acompanhar, pois sou muito devagar na narratória, que minha Amiga Cândida subiria na Torre Eiffel. Com minhas teorias psicanalíticas (por vezes das piores, mas para um bem benéfico) disse para Cândida o que ela jamais gostaria de vivenciar:
— Cândida, tu podes ficar aqui, mas a probabilidade de nos encontrarmos será nula. Olha a multidão de pessoas. Eu não quero te ver perdida em Paris, da mesma forma como ocorreu em Barcelona. Eu quero muito que tu subas, mas a decisão agora está nas tuas mãos.
Um segundo depois Cândida estava num canto daquele enorme elevador. Entramos juntos com ela. A cada metro que o ascensor se elevava, o ruído das ferragens era mais um som que se esquecia, assim que víamos as luzes daquela belle ville. Assim que descemos, primeiramente no segundo andar, local onde podemos viajar por lojas e brasseries, além de contemplar, é claro, a belíssima pintura da cidade, segurávamos Cândida pelas mãos para que ela pudesse ter coragem de dissipar seus medos. Na medida em que íamos irradiando boas energias, a força de Cândida foi tomando forma até a hora em que ela nos disse entre sorrisos: “Vamos para o Terceiro Piso?” Encaramos uma fila não muito agradável para pegarmos outro elevador. Era muita gente para subir ao terceiro lance.




Entramos na caixa evolutiva e tivemos as sensações que, a cada centímetro, se elevavam na mesma proporção que o elevador. Paris se tornava uma maquete e as pessoas no Camps de Mars pequenos pontos no jardim do campo. SORTIE. Saímos. Imediatamente nos deslocamos até o vidro (fechado) que cerca todo o terceiro piso. Naquele momento eu vivera aquilo na noite. Pela primeira vez, como minhas companheiras, Paris era vista do alto (mas no meu caso, á noite). Os Bateaux-Mouches passeando no Sena; os carros se cruzando na Étoile, nos doze vértices que saem do Arco do Triunfo; a cúpula dourada da Invalides, onde está enterrado Napoleão; a Basílica Sacre Coeur, no alto de Montmartre, iluminada em branco; a Tour Montparnase, prédio com mais de cinquenta andares (grande ponto turístico); a Igreja Notre-Dame de Paris, com suas gárgulas góticas. Cândida ainda perguntou, olhando para a escada: “O que há lá em cima?” Eu respondi: “O boneco de cera de George Eiffel. Tão real que parece que, ele e seus amigos, estão conversando num escritório”. Subimos aquele petit lance. Vários casais se beijavam apaixonadamente (cada um com os seus, evidentemente). Outros, amigos, tomavam champagne e gritavam em outra língua.

Descemos da Torre. Nas escadinhas que davam para o rio Sena, sentamo-nos e nos alimentamos com o crepe que somente os franceses sabem fazer (graças a Deus nada de palitinhos, como é conhecido popularmente em Porto Alegre, quiçá no Brasil). Depois de jantarmos, fomos andando pela beirada do Sena. As pessoas se preparavam para passear de barco naquela refrescante noite parisiense. Continuávamos o nosso caminhar, observando os carros no Quai Branly. Assim que chegamos à Pont de l’alma, entramos na Gare ALMA MARCEUAU em direção a Pont de Sèvres. Duas estações descemos na Trocadéro para fazermos a conexão com a linha 6. Algumas paradas depois nos conectamos mais uma vez a outra linha. Na estação Pasteur nos dirigimos a penúltima linha para chegarmos em casa. Na carreira 12 do metrô, descemos em Porte de Versailles. Com isso sim, chegamos em casa, depois dessa via crusis. DICA QUENTE: NÃO COMPRE NADA NA CVC. Uma vez no quarto do hotel, uma sede me dominava. Desci para comprar uma coca-cola. Na máquina percebi que tinha à venda as Madeleines. Uau! Comprei o bolinho da Recordação dos Tempos Perdidos. No quarto, embebi o refrigerante e comi a Madeleine. A cada mordiscada ia esperando a epifânia, a lembrança, o momento da redescoberta. Proust me enganou! Com essa quebra de expectativa, fui para cama.








No dia seguinte a coleção de estações de metrô também foi uma rotina. Saímos de casa por volta das nove da manhã. Nosso primeiro destino era a colina de Montmartre. Ah, que prazer! Marcamos: Cléia, Cândida, Lindy, Diennifer e eu tomarmos um petitdejaneur legitimamente francês. E ainda por cima numa brasserie em Montmartre. Gostaria muito que Tia Cida e Felícia estivessem conosco, mas elas optaram por fazer compras na Lafayete e mas também porque caminhariam pouco. Bom! De Porte de Versailles até Montmartre foram nada mais, nada menos do que 19 estações de metro. Depois de descermos em Pigalle, fizemos uma conexão com a linha 2. Nesta, passamos pelas Gares Anvers, Barbès Rochechouart (que minha professora Suely recomendou que não descêssemos nesta, pois certo dia um árabe tapeara sua nadegueira assim que descobriu que ela era brasileira – aff!) e enfim descemos na Gare La Chapelle. Lá, nenhuma de minhas companheiras foram deliciosamente abusadas nas suas brasilidades. Coisinhas das tribos dos tupinambás. Fomos caminhando pela parte negra de Montmartre, pelos cenários das obras naturalistas de Zola. Naquela colina, o bairro em que estávamos era o Goutte D’Or – ponto de referência de um grande romance deste grande autor da literatura francesa. Mas como o foco não é esse, por mais que o hibridismo possa ocorrer, o principal aqui é contar as aventuras de viagens. Fomos andando naquela parte pobre. O olhar que alguns aborígenes nos fitavam era o mesmo olhar dos brasileiros de má-fé. Ficamos com medo de sermos presos num terrível tugúrio em Montmartre, o que seria até elegante ser sequestrado em Paris...! Uma vez na Rue des Poissonniers fomos andando observando a humildade do bairro. Alguns passos (mais passos) depois encontramos a Boulevard Barbès, mais trafegada e menos pobre. E mais adiante a Rue de la Goutte D’Or, a rua do Romance L’Assommoir, bem como aquela que andamos, a des Poissonniers. Fomos à busca do café-da-manhã. Subimos uma das escadarias de Montmartre. Os corvos piavam. Lembrei-me de Edgar Allan Poe e Baudelaire.








Mais adiante, em frente a mais bela escadaria, a escadaria que chegamos a Basílica de Sacré Coeur, paramos assim que vimos uma placa na porta de uma brasserie. Entramos e pedimos o mais prazeroso café-da-manhã da minha vida. Entre amigos e ainda por cima em Paris, na Paris que eu gostava, em Montmartre, a Paris dos artistas, a Paris dos dionisíacos.







Enquanto isso no Musée do Louvre...
As outras meninas saboreavam Monalisa. A sala imensamente adornada de turistas, entre eles, inúmeros chineses ou japoneses ou coreanos do sul, ou coreanos do norte, ou todo o bairro da Liberdade de São Paulo. As meninas olharam para trás e não enxergaram Marcilene. Certamente ela tirava fotografias das pinturas que mais lhe marcava. Marcilene se viu sozinha no corredor da arte italiana.












Em Montmartre, tirávamos fotos na escadaria. Vislumbramos Paris inteira por cima. Um homem tocava harpa. Na Basílica, onde eu entrava pela segunda vez na vida, chorava descrente por ser merecedor daquela dádiva. Agradecia, somente. Não pedia mais nada. Assistimos a um pouco da missa.




Na área egípcia do Louvre, as meninas tiravam fotografias. Mas fotografias-preocupadas: Onde estava Marcilene? A moça que perdeu o passaporte (mas achou), a moça que queria pilhas em Valência, a moça que sentiu as mesmas pilhas explodirem em suas mãos, a moça que se perdia sempre do grupo, a moça da mala que trancou a escada rolante, a moça que realmente se perdeu, que se perdeu dentro do Louvre.




Andávamos na Paris do Fabuloso Destino de Amelie Poulain. O Carrossel de Montmartre. As feirinhas de pintura. Caminhávamos, observando tudo, pela Rue des Abesses. Passávamos por praças, restaurantes típicos, bares, cafés. Em seguida minha intuição dizia para descermos a Rue Lepic. Mais restaurantes e mercados. Placas anunciando a Basílica. Em nossa frente surgia imponente ele, o Moinho, o Moulin Rouge, no Boulevard Clichy, junto à estação de metrô BLANCHE.




No Louvre, as meninas: Lúcia, Felícia, Tia Cida, Taís, Marcela e Deise se encantavam com o quarto dos reis. As joias e a pompa do lugar.




Enquanto isso, despreocupada, Marcilene tirava uma foto com sua amiga Vitória de Samotracia.




Andávamos mais um pouco por Montmartre. Desta vez no Cemitério do Bairro, perto do Moulin Rouge. Estávamos lá para ver o Túmulo de Alexandre Dumas Filho, autor do célebre romance A Dama das Camélias. Ali também estava Marie Duplessis, a prostituta de luxo que viveu com o autor uma retumbante história de paixão no século XIX. Andamos e andamos pelas ruas do cemitério. Sem mapa em mãos não conseguíamos nos achar naquele emaranhado. Na próxima vez, com certeza.



Passamos por em frente a um restaurante. Na placa anunciava um item peculiar: Croque Monsieur, prato a que, certo dia, assisti num filme (num dos meus preferidos, a comédia romântica Simplesmente Complicado). Combinei com Dieniffer que iríamos num café da Literatura almoçar esse prato tipicamente francês. “Vamos ao Café de Flore, o café dos existencialistas?”. As meninas aceitaram. Antes disso, fomos ao Cemetière du Père Lachaise. De Montmartre, pegamos o metro na Gare Blanche e 11 gares depois desembarcamos na estação Père Lachaise. Na entrada do cemitério compramos o mapa da cidade dos mortos por € 2. Lá, guiados pela moça que trabalhou com mapas, Cândida, os turistas da literatura e das artes foram conhecendo as ruas daquela necrópole. Conhecemos o túmulo do Napoleão das Letras, Balzac; o homem da Madeleine, Marcel Proust; o transgressor, Oscar Wilde; a voz da França, Piaf; os marco da literatura francesa, La Fontaine e Molière; a vanguarda de Collete. Lá, por motivos de tempo, não podemos conhecer a tumba de Allan Kardec, Auguste Comte, Morrison, Chopin, Chaplin, nem Eugène de Rastignac.






Jogadas no jardim da Invalides, as meninas descansavam, inválidas, de tanta caminhada.




Mais tarde, atravessávamos a Place de Châtelet em direção ao Saint German-de-Près. Passamos em frente a Notre-Dame de Paris. Cândida e Lindy expressavam seu mal-estar. Cândida teve que entrar numa loja, Côte a côte, para comprar um calçado mais apropriado para a viagem. Dieniffer, sentada num banco, respirava ofegante.





Cléia e eu éramos insaciáveis no traquejo turístico. Enquanto as meninas compravam calçados, Cléia e eu andávamos pelo Boulevard Saint Germain. Eu estava ansioso para saber que prato era o Croque Monsieur. Abordamos duas francesas. Eu falei:
— Salut! Nous sommes turists. Je voudrais le Café de Flore, sil vous plâit.




Totalmente invalidas, na Invalides, Felícia, Marcela e Deise decidiram voltar para o hotel. Mas antes se perguntavam, mais uma vez: Onde estava Marcine?
— Gente, tô preocupada. Ela deve estar desesperada em algum lugar.
— Mas onde? Como iremos sabe? — disse outra.
— Ela vai se virar. Vocês vão ver.
— Não, temos que chamar a polícia. A polícia francesa, agora.




Enquanto isso no Boulevard Haussamann, Lucia, Tais e Tia Cida iam até a realização cosmética de seus sonhos, na Galeries Lafayette.




Dieniffer ofegava, a glicose e a pressão abaixara, o sol-absurdo e forte anestesiava os sentidos dessa minha amiga. Respirava fundo. Transpirava. Tudo perecia girar. As pessoas não tinham mais forma. As árvores pareciam cair. Os carros se confundiam uns com os outros. Pálida como uma folha de papel. Pálida como uma folha de papel, de olhos fechados, cabeça pendida e braços caídos num banco verde do Saint German-des-Près.



E é nesse clima tenso que chegamos, como uma boa narrativa folhetinesca, essa penúltima postagem dessa inebriante postagem.

Como minha amiga Diennifer se salvaria dessa tensão clínica? As sonhadoras da Galerie Lafayette regozijariam a felicidade de chegar ao paraíso? Cândida, para poder andar melhor, conseguiria comprar seu sapato na Côte a Côte? Cléia e eu encontraríamos o Café de Flore por intermédio das moças francesas? Eu teria o prazer de saber o que era o Croque Monsieur? A polícia francesa seria acionada? Como Marcilene se “virou” em Paris? E pela última vez... Onde estaria Marcilene?

REVIRAVOLTAS NA ÚLTIMA E MAIS SURPREENDENTE POSTAGEM DESSA EXPERIÊNCIA ARRISCADA: viver.




2 comentários:

  1. Cada episódio é uma emoção diferente. Cada descrição é como se fossemos "arremessados" novamente às aventuras vividas, é incrível! agora, expectativa para o "grande final" dessa viagem inesquecível.

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  2. Quanta emoção em Paris!!!
    Alê, o conselheiro: - Cândida, é o seguinte: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. hehehe

    Valeu tudo a pena! Cada calo no pé, cada tontura e mal estar devido a exaustão. Tudo vale a pena quando se está em Paris!!!

    Au Revoir!
    Dieniffer.

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