Primeiramente, e mais emocionante, o que certamente deve ter deixado o leitor mais intrigado, foi a cena derradeira da postagem anterior, quando minha Amiga Cândida se viu presa no teleférico de Montjuïc. Revelo que até hoje não sei as sensações que essa grande pessoa passou naquela cabine. Sabe-se que seu mau agouro durou alguns minutos. As máquinas passaram a funcionar, e o sufoco durou até o momento em que ela percebeu que seus pés estavam no chão. Procurou por nós. Procurou, procurou e procurou. Evidentemente não nos encontrou. Chegou à conclusão que deveria voltar ao grupo. Como voltaria? — ela deve ter se questionado assim que viu os teleféricos.
Enquanto isso nas Ramblas, o segurança de uma loja de óculos olhava-me com olhos de cigana obliqua e dissimulada. Quem percebera isso fora Cléia, a mulher dos mil olhos. Era realmente de uma fúria a forma como aquele sedutor catalão olhava para mim. Meu trunfo é que eu o olhava com meus olhos hipócritas, olhos escondidos por lentes escuros. Safadinho, o segurança da loja de óculos das Ramblas. Cléia e eu ficamos rindo. O homem ria. Felícia efetuara sua compra e entrou na jogatina. Ela ficara pasma com aquela cena de Vicky Cristina Barcelona. Isso só podia mesmo ser uma cena de Wood Allen. Ou seria de Almodóvar? Se fosse de Almodóvar, iríamos certamente para um apartamento sujo e transaríamos animalescamente e com fuego apaixonante.
Enquanto isso na saída dos teleféricos, Lindy ficara abismada assim que viu Cândida aparecer. Esta surgira pálida e seca. Viera de ônibus, de um lugar que para mim era desconhecido. Tudo estaria resolvido nos dramas altruístas? Mal sabiam elas as novas dores que Barcelona inspirava para elas.
Nas Ramblas, tudo passou de olhares furtivos (o que o costume impera!). Fomos andando até chegarmos à Placa de Catalunya, onde tiramos umas fotinhos em chafarizes.
Depois pegamos o metrô, na estação Urquinaona, a linha 4 – linha amarela, em direção a La Pau. Dirigíamo-nos ao Parque Poblenou. Para chegarmos a essa área verde, tínhamos que percorrer seis estações. Descemos na Estació Poblenou. Chegando lá, percebemos que não sabíamos para que lado iríamos. Tivemos que usar os mesmos recursos para que pudéssemos chegar a Roma. Em nosso caminho surgiu um homem que deixou as meninas em polvorosa. (Não o descreverei).
Andamos por aqueles verdes, descansamos nos banquinhos do parque. Um catalão olhava para Felícia, que estava sedenta de prazer. Ela estava enlouquecida por um sexo europeu. Isso ocorre desde o nosso bom amigo, o hospedeiro gay. O homem que jogava futebol com os amigos olhava de soslaio para ela. Tresloucada, queria reduzir a velocidade do passeio para que a oportunidade do coito. Não houve, mais uma vez. Mais tarde um pai jogava futebol com o filho. Não era um simples pai. Era um pai catalão. Felícia tentou dar o bote. Ela não fez gol.
Mal sabíamos, o grupo da felicidade, que o outro bando tinha se separado em dois. Professora Lúcia e Taís foram às compras no El Corte Inglês e para a platja de Barcelona. Enquanto Lindy, Cândida, Marcela e Deisy saiam perdidas pelas Ramblas. Que metro pegar? Ônibus? Táxi? Mesmo assim, andavam por uma cidade perdida no espaço. Chegaram não sei como em Barcelona-Sants. Lindy apenas lembrava que o ônibus 157, que poderia deixá-las diretamente no hotel, era próximo da estação de trem. Não é que minha amiga Lindy se perdeu, e as meninas entraram em desespero? Elas acabaram pegando uma linha que poderia levá-las ao hotel. Mas no meio do trajeto, Cândida, com problemas de respiração, pensava em sair do ônibus. Lindy tentou dissuadi-la. Cândida titubeava: “Vou sair, vou sair, não dá mais.” Cândida apertou a campainha e as outras três companheiras foram obrigadas a segui-la. “Eu pagarei o táxi. Não se preocupem”, dizia a Amiga justa. Pegaram um táxi. O motorista não sabia chegar ao hotel em Saint Joan Despi. Todas se olharam!
Enquanto isso, o grupo ia, na mesma avenida do Parc del Centre Poblenou, na Avenida Diagonal, em direção à Torre Agbar. Tínhamos o objetivo de esperá-la se iluminar. Para isso, visto que anoitecia após as nove horas, fomos a um shopping tomar um café. Entramos numa Starbucks.
Depois de aproveitar uma deliciosa conversa, fazer umas comprinhas no Carrefour. As meninas tentavam me convencer a comprar algo para comer à noite. Eu argumentava dizendo que não era preciso porque eu tinha certeza que Cândida e Lindy iriam comprar alguma coisa para que pudesse me locupletar. Nessa mesma hora eu me perguntei: “Será que elas conheceram esses pontos turísticos?”
Os carros corriam na Free Way e lá passava um táxi, totalmente perdido, sem direção e com quatro passageiras querendo encontrar o lugar comum. Já era mais de quatro horas entre metrôs, ônibus e táxi.
A Torre fálica Agbar coloria-se para os turistas.
Em seguida, para a felicidade dos pés cheios de bolhas, fomos nos refrescar na Fonte Mágica de Montjuïc. Era a nossa despedida de Barcelona. Estávamos cansados, exaustos de tanta caminhada, mas assim que chegamos lá, os chafarizes, a abundância aquática, fez com que nós nos sentíssemos revigorados. Aquelas águas coloridas, a música que nos motivava à emoção. As pessoas (turistas?) enchiam o ponto turístico.
O Museu d’Art espargia luzes para o céu. Emocionávamos. Felícia, Cléia, Diennifer, Tia Cida, Marcilene e eu sorriamos percebendo que estávamos num momento importante de nossas vidas, quando a beleza era somente uma forma de gratidão aos longos dias de inconformidade e sofrimento que a vida pregressa pode até então proporcionar para nós. Sim, sorriamos, sorriamos porque sabíamos que a natureza agradecia por estarmos ali. Quantas lutas foram travadas para que merecêssemos estar ali? Quantos momentos de ansiedade? Quantos trabalhos tivéramos que decifrar para ganhar aquele merecimento? Quem sabe não percebíamos. Quem sabe não nos achávamos dignos. Mas estar ali, na Fonte Mágica de Montjuïc era um merecimento fantasioso (digno de um conto de fadas). Era a mágica de grandes veleidades que se realizarão no futuro. Aqueles dois dias em Barcelona foram de grande valia para um crescimento, seja ele cultural ou espiritual, quando os heróis, bem-aventurados ou não, puderam perceber, na medida do possível, o quanto a arquitetura da vida pode ser bela, uma beleza que pode ser encontrada dentro de nós.
Sincronicamente, tamanho merecimento estava vivendo nossas amigas, que chegavam ao hotel, salvas e sãs. O mesmo alivio que sentíamos na Praça d’Espanha, Cândida, Lindy, Marcela e Deisy sentiram quando vislumbraram o hotel em Saint Joan Despi.
***
Uma hora depois estávamos chegando ao hotel.
Lindy me atendeu. Eu, feliz, radiante por ter conhecido quase toda a Barcelona que desejava, mostrava-me na porta, meia-noite e meia, vestindo meus óculos escuros.
Foi um dia difícil, caminhar, voar, conhecer, encenar, seduzir, mancar, tirar fotos, rir, dormir-quase no metrô ao voltar para casa. Foi um dia trabalhoso, mas muito produtivo.
Antes de dormir, pude observar que tinha em cima da mesa da cozinha uma lasanha, um guardanapo, talheres e bebida. Olhei para o quarto das meninas e agradeci por tê-las em minha vida. Senti-me um irmão mais novo, sendo amparado por protetoras familiares. Senti-me mais pleno, e por me sentir pleno, senti-me mais seguro, protegido.
Deitei-me depois de me alimentar. Nunca tive tanto prazer em ver meu corpo suspenso, solto na cama.
Amanhã: Paris. Que saudade!
Enquanto todos descansavam, a cortina branca da minha janela balançava. Era uma cortina de um quarto de hotel em Saint Joan Despi.
Meu magnífico autor deste texto, desta vez chorei!! Chorei porque tive dor, chorei porque aturei companias desagradáveis, chorei porque tive muita saudade de todos do terceiro mundo, chorei porque as meninas perdidas não aproveitaram como nós, chorei porque não obtive o coito europeu, chorei porque essa foi uma das maiores realizações da minha vida, chorei porque fiz amizades pro resto da vida, e recordando da fonte mágica e sua trilha sonora "No New Year´s day to celebrate/ No chocolate cover, candy hearts to give away..." chooooro maaais e choro de saudade do solo europeu!!
ResponderExcluirA magia da fonte mágica...
ResponderExcluirLendo o texto revivi todo aqueles momento: nós nos balançando com a música da fonte, com os olhos sem piscar, simplesmente encantados com todas aquelas cores e movimentos, setindo os respingos da fonte nos tocar, fazendo-nos lembrar que estávamos ali mesmo, não era somente uma visão.
Obrigado Ale por ter me proporcionado este momento. Pois sei, que foi graças a ti, o melhor dos guias Europeus, que pude viver aquele momento.
Beijoooooo bem grande.
Dieniffer.