Nesta semana ocorreu um fato inusitado e permitido por mim. Sim, eu me deixei permitir. Como numa força ciclópica, coloquei minha cara ao tapa e contei a duas turmas o romance mais valioso que escrevi. Entrei numa turma de 7ª série e comecei a explicar a diferença entre autor e narrador. Salientei ainda exemplos de clássicos da literatura, como Machado de Assis em Dom Casmurro (o que eles amaram - esperam que acabem por gostar também da futura leitura). Em seguida, eu disse aos 40 GÊNIOS INDOMÁVEIS: "Agora vou lhes contar um exemplo de narrador em terceira pessoa". "De quê autor, sor?" perguntou um aluno. E eu respondi (morrendo de medo): "Um obra escrita por mim". Fechei os olhos para esperar o desprezo deles. Mas não. Vibraram muito! Motivado passei a contar os primeiros detalhes da história. Como há muitos personagens e tramas paralelas, a princípio ficaram muito confusos, mas com o passar da narração, foram fazendo os links e o espanto no rosto de cada um deixava-me arrepiado. Dos quarenta alunos, trinta e oito olhavam sorrindo querendo saber uma nova surpresa. Questionavam-me mais e mais. Queriam descobrir os segredos da história, da vida das personagens, se era a minha vida a do protagonista (visto que eles encontraram algumas coincidências que eu mesmo encontrara anos depois de ter escrito). Foi muito bom para mim, um escritor de gaveta ver seus alunos batendo os livros na mesa e gritando: "CONTA. CONTA. CONTA". Arrepiava-me mais e mais. E ainda tinha que continuar o conteúdo daquele dia. Acalmá-los não seria uma tarefa fácil, já que eles são os meus gênios indomáveis (turma por que tanto aprendi a ter orgulho). Tentando ressaltar os outros tipos de narrador, eles não permitiam que eu avançasse, pois queriam, como gladiadores, saber o desfecho e o título da obra que eu contei para eles. A quebra de expectativa maior não foi não ter contado como acabara a história, mas sim do livro ainda não ter sido publicado, o que para eles era o fim de suas esperanças. Sai daquela sala com algo diferente, com um projeto para publicar meus livros, meus escritos, minhas palavras que de vez em quando jogo ao vento para preencher o tempo seco de alguém. Na tarde do mesmo dia, uma trama absurda, bem maluca passou pela minha cabeça e seria uma boa ideia para um livro infanto-juvenil. Com certeza, por causa das histórias de Álvaro, Raquel, Maira, Lúcio, Laurinha Fontana e Moldávia, uma força, uma coragem dominadora me deixou destemido para que os críticos literários possam me devorar e dizer para o mundo: "Péssimo autor". Sim, caro leitor, será que serei um Vargas Llhosa, ou um Saramago, que ganharam os louros das letras ainda em vida? Na minha baixaestima autoral, eu desperdiçado digo que não. Mas vamos lá. Jogar-me-ei aos corvos, aos abutres, para que depois, como um condor, voar pela América Latina e pela Europa num sonho de uma noite de inverno. "Vejo um talento desperdiçado", disse um aluno de 8ª serie. Para mim, os jovens sempre têm a razão. Por mais que não pareça.
Palavras, palavras... Aqui estou eu repetindo! O que está a esperar? Sem saber, eu disse em outro texto: me mostra tuas palavras escondidas. O escritor escreve para si, o leitor que arque com as consequências. Não tenha medo!
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