sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Réveillon em Londres

TOME UM CAFÉ... ESSA POSTAGEM SERÁ GRANDE, uma das maiores — para compensar o atraso.


Assim que adentrei aquela casa, mal sabia eu que algo mudaria drasticamente o meu pensamento por um bom espaço de tempo. Cabe ressaltar que faz um mês que cruzei os portais daquela residência — e nesses trinta dias muitas reflexões sobre os meus comportamentos ocorreram.

À soleira, estava Fernanda Porter, uma moça de seus não-sei-quantos-anos-pois-nunca-ousei-perguntar que, muito solícita, simplesmente me perguntou: Você é o rapaz que perdeu o voo? Eu poderia dizer apenas um Sim, mas como um bom professor, e pelo visto de Língua, e a minha é das grandes, um Sim seria pouco demais para uma pergunta ligeiramente complexa. Contei à ela toda a desventura vivida em Paris. Ela ouviu aparentemente paciente os ensejos dignatários de um novo londrino. Conclui com o meu desabafo inumano que um dia poderia contar esta história: que um dia, lá na década de 10, o amigo de seu avô (sim, amigo de seu avô, pois filhos não os tenho, nem os terei, por isso contarei aos netos de meus amigos) que ao tentar passar o réveillon em Londres, por perder o voo, acabei vivenciando desventuras em série em Paris.


A solícita Fernanda Porter, que muito diferente de mim não era, abriu um papiro em minha frente e relatou toda a sua folha-corrida. Num piscar de olhos, percebi que desejaria passar a virada de ano em companhia dela. Na conversa, descobri que ela havia chegado recentemente à casa dos estudantes. E por motivos mais que pessoais, ela estaria se retirando em alguns dias. O que seria uma pena, pois eu, amante fervoroso dos amigos, e destes apaixonado à primeira vista, já queria abrir bandeiras vitorianas para impedir a ida de Fernanda para a outra casa.


Em seguida, bati à porta da casa dos estudantes Amanda Faccioni, minha ex-colega de trabalho, alguém também muito especial em minha vida. Como era bom quando saíamos do trabalho, reuníamos os mais chegados (os menos invejosos e despeitados, é claro) para irmos a cinemas, Mc Donald’s e principalmente à Cidade Baixa, na Lima e Silva, em Porto Alegre, no tradicional Cavanhas. As saídas não eram nada sazonais: minimamente duas vezes na semana. Não era regra, passou a ser uma necessidade. O bom é que comíamos a gordura e não engordávamos. Foi por meio dela (não da gordura, mas de Amanda) que cheguei ao Reino Unido. Eis a história.


Eu e uma conhecida iríamos passar o réveillon em Paris. Comprei a passagem superempolgado. Duas semanas depois a Conhecida disse que não poderia mais viajar (por motivos pessoais). Eu cá pensei com minhas canetas-tinteiro Crown: EU JAMAIS VOU DEIXAR DE IR À EUROPA PORQUE ESTOU SOZINHO. Vou passar meu réveillon lá fora, sim. O meu desafio era: não tinha personalidade para passar o réveillon debaixo da Torre Eiffel, com uma garrafa de champagne, e acima de tudo sozinho. Jamais — como dizem meus amigos. Tinha que vir uma solução. Alguns dias depois, mais que a galope, Amanda Faccioni, lépida e friorenta, publicou em um site de relacionamento: COMO ESTÁ FRIO HOJE. Franzi o senho, olhei para o lado desconfiado, acendi a luz e a ideia pariu. Imediatamente perguntei a ela onde estava. Até o leitor com déficit de atenção acentuado chegou à conclusão onde ela estava. Rastejante, como uma serpente incitando o outro a provar da maçã, perguntei melado se ela não gostaria de passar o réveillon em Paris. Ah! Peripécia! O leitor nefando deve ter pensado que eu cairia de bocarra em casa de Amanda, não é mesmo? Desejoso de um sofá na sala, leitor duas vezes nefando? Hahahahahahahaha. E tinhas toda a razão, fiz isso depois que ela disse que passaria o passar das doze badaladas em Londres. Ela disse que não haveria problemas e contactaria a responsável da casa, pois ela morava com mais 14 cabeças. A opereta não foi tão trágica quanto a de Alfredo. Dias depois já estava em minha caixa de e-mail a carta-convite para que eu apresentasse na imigração. E mais algumas semanas depois eu abri a porta e Amanda entrou.


Revemo-nos.


E apresentei a ela Fernanda Porter, amiga de longa data (30 minutos) que possivelmente se transferiria para a mesma casa de Amanda. Sim, leitor atento, eu, por motivos de demanda, não fiquei habitando a mesma casa de Amanda.

Cinco minutinhos depois saímos para ir fazer as comprinhas de réveillon no melhor supermercado do mundo: o Sansbury’s. Lá aproveitei o momento e fiz um rancho. Compramos também taças e um champagne.

Pouco tempo depois estávamos pegando o metro em Willesden Green Station indo em direção a Westminster. Chegamos lá às 19 horas. Parecia que todos os habitantes de Londres e seus imigrantes estavam chegando naquele local ao mesmo tempo. Maldição! Eu ainda tinha pensado que minha ideia de passar a virada do ano na London Eye seria, no mínimo, exótica. Aquilo muito me lembrou uma partida de futebol. Mas não. Fomos andando rumo à entrada. Percebemos que a polícia estava revistando a bolsa das mulheres. Como eu estava acompanhado de Amanda Faccioni e outras duas moças que tive a oportunidade de rapidamente conhecer que faziam companhia a ela, as ladies tiveram que proteger suas bebidas, pois parecia que a regra era clara: NO DRINKS. Rebolando, no jeitinho brazuca de ser, ouvindo o Ipiranga às margens do Tâmisa plácido, as ladies mocozaram (é assim que se escreve essa erudita palavra?), sim, mocozaram o bálsamo precioso de Dom Quixote nas profundezas misteriosas da bolsa. Sim, porque é um mistério a bolsa de uma mulher. Esses dias alguém precisava de um remédio e uma mulher tirou uma drogaria do acessório. Certo dia na Faculdade, quando ia me aventurando dentro do saudoso Mario Quintana 497, a mulher levava um frango — vivíssimo — adornado de uma suntuosa crina, dentro do acessório feminino.


Quer saber o fim da história? Caso sim, contarei. Mas o leitor acha que será agora? Não? Hahahahahahahaha. Estás enganado. Tome um fôlego e continue a leitura.


As ladies passaram triunfantes pela imigração. O Big Ben, a cada sessenta segundos, incansável, trabalhava o rodar dos minutos. Em seguida, os olhos fitavam a London Eye. O difícil foi escolher o melhor lugar. O que tínhamos escolhido parecia intransponível: entre duas árvores, onde poderíamos ver sem problemas o monumento pirotécnico. Os chineses, ou coreanos, ou japoneses, ou malasianos não ajudavam muito, pois haviam marcado território.


Sentavam-se no chão, em rodinhas, onde jantavam, divertiam-se com jogos e o resto do mundo esfomeado e expelindo a rotina do passar das horas. Uma inveja brilhava nos olhos dos ocidentais despreparados para as adversidades.

Ao expressar as adversidades, choveu. E dessa vez, depois de uma discussão entre as ladies e o povo do China in Box (sem ofensa alguma — pois eles comiam nas caixinhas à medida que estavam sentados no chão). Sim, senhor leitor comportado, uma das moças orientais era adepta do barraquismo. Por tudo a moça brigava e parecia fazer questão para isso. Depois de uma série de palavras mal escutadas: IACA TUCA UCA TUTAAAAAAAAA, uma chuva oriental pareceu estragar o réveillon. As ladies abriram a bolsa (mais uma vez a bolsa) e de lá tiraram o guarda-chuva. As ladies, tão finas que eram, faziam questão de molhar a gurizada da terra do nascer do sol. Sim, faziam questão, visto que eles tinham todos os equipamentos bélicos para esperar o show de fogos, mas não tinham a proteção do elemento água. Elegantíssimas, as inglesas made in Brazil, levantavam o ombro, o queixo, olhavam para o outro lado como se estivessem a ver O Almoço na Relva no Musée d’Orsay.


Nessa onda pluviométrica, junto a nós, estava um casal de idosos — daquele tipo COISA MAIS AMOR. Porém, como uma boa antítese, atrás de mim estava uma família Horrenda, cujas filhas, Horrendas ao quadrado, tentavam empurrar-me para ganhar espaço. Eu, inspirado em João Cabral de Melo Neto, pensava: aquela era a parte que cabia a elas no latifúndio. Quanto mais elas tentavam me empurrar, mais eu ficava como a estátua de Lincon da Parliament Square. Certa hora, indignado, já me sentindo desrespeitado, o espírito de professor apossou-se de mim: franzi o cenho, olhei de canto, carrancudo para uma das moças. A dita cuja olhou-me apavorada.


Assim, nesse clima de paz entre os homens, ficamos esperando as horas passarem. Foram cinco horas intermináveis. A London Eye passou, por volta das dez horas, a fazer um show de luzes. Nessa hora uma chuva, mais que pluviométrica, sísmica, assustou o povaréu. Mas aquelas labaredas aquáticas não caíram por muito tempo.


Muito tempo depois: um minuto para a meia-noite. Num dos prédios a contagem se fazia regressiva. Eu não sabia para onde olhar: se para a London Eye ou para o Big Ben. Assim que os 15 segundos suspiraram, o relógio passou a cantarolar, preparando para a chegada da hora mais esperada das últimas cinco giradas do tempo. CINCO SEGUNDOS. Olhar para onde? E agora? UM SEGUNDO.


Os primeiros fireworks iluminaram o céu, o sino do Big Ben estourou e fogos passaram a arrebentar por todos os lados no monumento. Sincronicamente, a cada badalada do sino, os estouros presenteavam o início de 2012. E eu lá embaixo, a uns 300m, pequeno, pequenininho; e ele, lá em cima, imponente, dizia a todos: “comemorem, vocês incendiaram por onde passaram, fizeram com que as coisas acontecessem em 2011 e agora merecem o prêmio. O tempo salva e recompensa e este é o vosso prêmio: a beleza em seus olhos. Chorem, dizia o relógio, agradeçam, não percam tempo pedindo ou exigindo. Vocês voaram de inúmeros continentes para me ver e agora as luzes de seus trabalhos anunciam que tudo valeu a pena. E tu não acreditas, eu estouro mais uma vez.” MAIS UMA BADALADA, MAIS FOGOS DE LUZES. “Não acreditam? Então olhem de novo?. MAIS UMA BADALADA, MAIS FOGOS. E ele estourava mais. Disse: “Continuem a jornada, acreditem em seus sonhos, façam as pessoas a seu lado mais felizes, abrace quando necessário, façam piadas para o mundo rir. PARA O MUNDO RIR.” E o registrador do tempo estourou e badalou tudo o que pode até desaparecer nas névoas.


Com o fim dos fogos do Big Ben, a London Eye se iluminava mais e mais. A grande energia de luzes nos envolvia por todos os lados. Elas iam ao céu e desciam candidamente parecendo que nos abrigaria. As músicas tocavam e os fogos dançavam conforme a melodia. Um grande espetáculo. Lágrimas veementes transbordaram como nunca. E cabia a mim olhar para o funesto 2011 e agradecer por tudo o que vivi, pois fui feliz e sabia que o era.


Com o fim das chamas, estouramos a rolha do Champagne e brindamos. Duas taças depois, eu, o autor deste blog alucinógeno, estava tonto e falando besteiras pelas ruas de Londres. Passeávamos pelo Green Park à noite. Desejei Happy New Year a pessoas que nem conhecia. Procurávamos estação de metro em frente ao palácio da Queen. E eu, cambaleando, como nunca na vida, e falando mais ainda. Andamos, andamos e andamos. A fome já tinha batido na nossa porta desde que vimos a santa ceia dos asiáticos. Em Victoria Station, cheguei a torcer o pé e um cara foi me ajudar. Eu olhei para ele e disse: “Thanks, Guy. I’m good, good, good. Happy New Year”. Continuei minha caminhada nordestina e avistei o M, o M mais famoso do mundo. “Lá!”, apontei. Adentramos a loja do Mc Donald’s e fizemos a primeira refeição de 2012.


Mais tarde, as duas da manhã, adentrávamos na EGG, numa balada. Depois de dez minutos, ao observar a energia estranha do lugar, decretei às Ladies: Vou para casa. Ganhei as ruas novamente, sentei-me numa parada de ônibus, uma inglesa apaixonada pelo Brasil (e que falava português) puxou papo comigo. E eu tonto ainda. A mulher era apaixonada pelas escolas de samba. Quando eu disse que era de Porto Alegre, a mulher ainda falou nos Imperadores do Samba. E eu zonzo: “Han?”. Depois de mais algumas palavras decidi caminhar até Kings Cross. Estonteado fui andando pelas ruas desertas de um bairro nebuloso. Pessoas estranhas, numa Londres estranha.


Em Kings Cross passei pela estação de metro ficctícia do Harry Potter.


Na plataforma da Piccadilly Line, esperei o comboio por um minuto. Assim que ele chegou, entrei, sentei e dormi. Dormi, sem destino. Onde parei? Eu conto depois...


MIND THE GAP

Um comentário:

  1. E o Big Ben disse:

    "O tempo salva e recompensa"
    "...não percam tempo pedindo ou exigindo"

    Maravilhoso, amigo, simplesmente tu teve a virada de ano que merecia!

    Aguardo pelo desfecho final ansiosíssima!!

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