domingo, 22 de janeiro de 2012

EM PARIS: AU REVOIR, E EM LONDRES: GOODBYE MY LOVERS

continuação da postagem anterior...


Quando aquela dama me disse aquilo, eu simplesmente tirei minha echarpe e joguei-a sobre minha mala, e disse Shakesperiano (em francês):


— Eu não tenho reserva de hotel e não tenho amigos em Paris. Há uma amiga me esperando em Londres. Eu pago o quanto você quiser pelo excesso de bagagem.

Gostaria de salientar ao leitor que a atuação foi tão sublime, que a mulher chegou a fazer um beiçinho. Eu tremia as mãos para que ela pudesse acreditar na minha história (que era verdadeira) e no meu nervosismo ( relativamente verdadeiro, porém revelando o péssimo domínio das emoções que realmente meu corpo passava). Para mim era muito desesperador ficar em Paris, sem hotel, sem voo, sem destino.


Mas um lampejo fez com a dominação maligna voltasse para o corpo low-cost-easyjetiano da representante da companhia aérea. Ela disse-me que tinha que ser justa e todos tinham que receber o mesmo tratamento. Discuti mais um pouco com ela, sem sucesso. PARIS ME CONDENOU. Os funcionários da polícia federal ficaram condescendentes com minha situação. Eles chegaram a me dizer que consideravam a EasyJet um câncer na aviação europeia. Eu simplesmente os informei: a culpa da tragédia toda foi porque um homem havia suicidado.

Eu me questiono! O que faz um homem se matar dois dias antes do réveillon? E ainda por cima na linha de metro por onde eu passaria? Muito egoísmo da parte dele, não é mesmo?!


Puxando minha mala e carregando minha bagagem de mão, fui a um terminal de internet avisar Amanda Faccioni da impossibilidade de viajar naquela noite. E paralelamente pesquisava hotéis por Paris e passagem para comprar para o dia seguinte. Observava bons hotéis próximos à Opera, à Montmartre. Todos haviam vaga para uma noite. Havia um trem às 7h para Londres com uma passagem um pouco salgada. Era aquele que iria pegar! — pensei.


Quando meu tempo acabou junto ao terminal de internet, algo me levou até ao balcão de informações do aeroporto. Lá, encontrei moças tão simpáticas quanto o rapaz que me ajudou anteriormente. Ela depositou-me boas palavras e deu-me dicas: ficar no hotel Íbis, tomar um banho, descansar e retornar ao balcão da Easyjet pela manhã para comprar um novo bilhete.


Dez minutos depois, eu e um bando de perdidos estávamos adentrando ao lobby do hotel Íbis Charles de Gaulle-Roisy, onde fiquei discutindo literatura francesa com um francês. Epifânia panteônica.














31 DE DEZEMBRO DE 2011 – o meu último dia do melhor ano da minha vida


Para não me estender em detalhes narratológicos, dormi, tomei banho, tomei café da manhã, comprei passagem, fiz o check-in naturalmente, passei pela imigração (EU TENHO UM CARIMBO DE PARIS NO PASSAPORTE – morram de inveja!). Passei pela mesma esteira de raio X na polícia federal, no mesmo portão de embarque. Assim que me sentei e comprei uma Badoit Rouge e uma Ruffles, a companahia aérea avisa que o voo atrasará quinze minutos. Detalhe, leitor: eu não poderia me atrasar, a companhia pode! Ainda no hall de embarque, ao observar os colegas de viagem, fiquei a constatar a presença de inúmeros brasileiros. A brasileirada toda estava indo passar o réveillon em Londres. Enfim! O voo foi rápido, interessante e Paris ficou para traz.


Londres. Cheguei! Não! Ainda tinha que convencer o agente de imigração que eu era um cara do bem, ou seja, que não ficaria em Londres para usurpar o emprego dos londrinos. QUESTÃO, CARO LEITOR, O PROFESSOR DE PORTUGUÊS AQUI DÁ UMA ARRANHADA NO FRANCÊS, DANÇA UM FLAMENCO NO CASTELHANO, MAS NO INGLÊS...? Lá fui para a fila da imigração. Um brasileiro corajoso, carimbado pelo mundo e pedido para que Londres não tivesse a ousadia de lhe virar as costas. Assim que chegou a minha vez, o Senhor do carimbo me fez uma pergunta intraduzível. Eu simplesmente pisquei os olhos ao ouvir a palavra DAY e disse retumbante: FIFTEEN DAYS. Em seguida, o senhor carimbador me inquiriu outra questão intraduzível. Desta vez eu simplesmente respondi, por não encontrar nenhuma palavra conhecida na pergunta: I NO SPEAK ENGLISH. I SPEAK MORE LESS. Ele levantou o sobrolho! FERREI-ME! Mas como estamos numa grande perícia aristotélica e como pregou o grande pai da poética, peripécia é a quebra da expectativa da personagem. Sempre haverá um efeito contrário ao que eu espero, da mesma forma como ocorreu em todas as viagens que fiz. Quando pensava que tudo daria certo, um vendaval de emoções e miserabilidades humanas me surgiam no caminho. Como previ um incidente dantesco, tal como eu sendo levado para o Brasil embalado, dentro de um saco, no porão do avião, o senhor dos carimbos migratórios, sorriu e disse: ARE YOU SPEAK SPANISH? Abri um sorriso (sorriso que não devemos jamais abrir num balcão de imigração — mas como estamos no Reino Unido, essa é uma exceção válida, visto que os ingleses são muito mais receptivos que qualquer povo mo mundo — basta uma boa dose de elegância, naturalidade e educação). A conversa fluiu! Tanto fluiu que ele me fazia perguntas e no final desta ele mesmo respondia as próprias questões. Eu simplesmente dizia SIM. Ao final, ele disse GOOD, GOOD. O homem pegou a ferramenta de trabalho, carimbou o passaporte. E ainda ficamos a desejar ano novo em inúmeros dialetos portugueses e espanhóis. HAPPY NEW YEAR — ele me disse sorridente antes de eu sair. Esse papo todo, durou menos de 90 segundos.


Corri. Minha mala era a última que rolava na esteira flamejante. Assim que saí do aeroporto, adornado de meu sobretudo e outras peças invernais, senti-me levitando, como uma criança que acabara de ganhar seu presente tão esperado de Natal. Meia-hora depois, desembarquei em Kings Cross St. Pancras. Tinha que pegar a Piccadilly Line, a linha Azul, descer em Green Park e pegar a linha Cinza, a Jubilee Line, rumo à Willesden Green, meu bairro de Londres.


Assim que desci em Willesden Green, um brasileiro conversava com sua filha. Eu o abordei e perguntei onde ficava a Ellesmere Road. Deu-me a dica. E fui puxando a mala pela St.Paul Avenue. Já sem lembrar ao certo da dica do patrício, fui andando reto até chegar à Chapter Road, onde trafeguei e trafeguei. Já cansado, perguntei a um senhor, que mais parecia um manobrista, ou um flanelinha. No meu inglês superbritânico, perguntei sobre o endereço. Ele não sabia, e o pior, não entendeu o que havia falado. Sugeriu que eu seguisse a próxima rua, a Churchill Road. Com muito gosto, fui-me a saga. Contra a minha direção vinha uma moça, que foi abordada por mim. Perguntei para a ela a mesma questão. Com meu inglês ultraproficiente, a moça percebeu que eu era brasileiro e um brasileiro perdido. Rimo-nos. Ela simplesmente disse:


— Vamos à minha casa e acessaremos à internet e descobriremos onde fica essa rua.


Voltei acompanhado da paulista que estava refugiada, a seu bel-prazer, em Londres, há dez meses. Quando chegamos à esquina, o mesmo senhor a quem eu tinha feito o questionamento continuava em volta da Mercedes. Os dois conversaram uns três diálogos até que pararam e olharam para mim e afogado naquele silêncio, sorri para os dois e disse:


— Quê? Falaram alguma coisa? Eu não entendi nada. I no speak english.


Os dois ficaram boquiabertos e acharam um milagre a imigração ter permitido a minha entrada no Reino Unido sem ao menos saber falar The Book is on the table.


— Mas isso eu sei! — respondi

— Então é por isso que você entrou! — ela disse despachada


Rimos.


Depois dessa tipicamente piada inglesa, o homem sugeriu para a minha interprete que iria me levar até a Ellesmere Road. Aceitei, relutante, a proposta, pois não é todo o dia que recebemos uma carona de um desconhecido, ainda mais quando estamos num país estrangeiro e só sabemos falar “The Book is on the table”. A esposa do homem apareceu. A brasileira paulista despediu-se de mim ao desejar boa estadia. O homem, que eu havia pensado ser um cuidador de carros, na verdade era o dono da Mercedes que estava estacionado na Chapter Road e ele estava o tempo inteiro aguardando a esposa maquiar-se com os produtos da MAC.


Quando me dei conta, eu estava dentro da Mercedes e apavorado porque o carro andava sozinho. Socorro! Depois a realidade me surgiu. Eu estava na Inglaterra! Em dois minutos, desci imperial do carro, como se fosse o primo de Lord Byron. A esposa do distinto senhor, pensando que eu era um francês, disse-me um AU REVOIR. O homem, tirou as valises do porta-malas e despedimo-nos.


195, Ellesmere Road.

Ali estava eu.

Não precisei bater à porta. Ali já estava uma das pessoas mais fantásticas que conheci nos últimos anos. Dei uns passos, entrei na casa. Mal sabia eu que conviveria com todo o tipo de cultura e mal sabia o quanto essa experiência seria uma escola para mim.


Na próxima postagem:

A pessoa que me recepcionou à porta. As grandes pessoas com quem dividiria a morada. O escandaloso réveillon de Londres, algo que nenhum alzheimer tirará da minha memória.

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