Porém, um belo dia não significa que ele seria de todo belo. Primeiramente tive que cruzar a cidade, ir a um distrito totalmente fora do meu circuito literário: zona norte da capital. Cheio de esperança em encontrar a primeira estação de metro perto de minha residência, dei-me conta que não estava em Barcelona. O que é uma tragédia escrita por Sófocles, para mim. Contentei-me com o fajuto ônibus da Carris. Fiquei mais de vinte minutos aguardando um mísero T2. Esperando um mísero T2 na companhia mais arbitrária da alta-roda porto-alegrense. Bem que eu poderia ter pego na internet os horários deste ônibus, pois um dos meus ódios, que são poucos – dois – e um deles é ficar numa parada de ônibus aguardando o coletivo. Para mim, PARADA-DE-ÔNIBUS, como já diz por si própria a palavra aglutinada, o que deve parar na parada de ônibus é o ônibus e não os reféns do governo (e ainda por cima a passagem está pela hora da morte... estou morrendo por isso, sim, morrendo, porque mendigo meia-passagem pelo fato de ser um estudante). E como ia dizendo, desculpe as fugas de assunto, esse é o meu maior mau, mau esse de toda uma sociedade, sociedade virulenta de subjetividade. Mas como eu ia dizendo, mais uma vez, sobre os meus ódios, o meu segundo, e último, ódio, é de esperar por alguém. Odeio quando marco com alguém em determinado horário e esse alguém se atrasa. E por odiar isso, acabo odiando quando alguém espera por mim. Sim, minha amiga Dieniffer esperava-me no Triângulo da Assis Brasil.
Quinze minutos depois, quando cheguei à Assis Brasil, deparei-me com aquelas paradas de ônibus estranhas, de uma cultura muito estranha para mim. Ônibus com letra A para em determinado espaço, que a B e a C não estacionam. Lá estava eu a correr atrás dos ônibus da Conorte: “Passa no Triângulo?”. Lá vinha um Passo das Pedras. Lembrei de um terrível trauma nessa idílica linha turística do porto dos casais. Sai correndo por entre as poças voadoras. Mais tarde vinha outro vermelhinho da Conorte, Nova Gleba. Que isso, minha gente? Onde fica Nova Gleba? Em seguida decidi atacar a linha Hospital. O motorista, simpático, respondeu-me com amabilidade, que não passava no meu destino. Esperei. Esperei. Esperei. Até que surgiu um Elizabeth. Ataquei. Entrei no coletivo. Rapidamente já estávamos no Obirici. Foi neste momento quando mandei um torpedo para Dieniffer, que me esperava há mais de meia-hora. Assim que passei pelo Shopping Lindoia mandei um rápido torpedo para minha amiga. Ali anunciei, mentirosamente, que o ônibus, para o azar do relógio, tinha estragado. Um minuto depois estava no destino. TRIÂNGULO. Quando ali desci, pensando que estava protegido da chuva perpétua, fui congelado com um caldo vindo dos céus. Tinha passado por um momento de desatenção. Como estava no Brasil, as obras estavam todas pela metade. Somente a metade do terminal de ônibus estava protegida. O lugar era um novo dilúvio. E sentadinha num banquinho, Dieniffer me aguardava com sorriso de musa do verão.
Uma vez cumprimentados, telefonei para Felícia para sabermos a melhor rota para irmos a sua casa. O leitor que me acompanha não há de acreditar no que linha de ônibus ela disse para eu pegar. Caso sejes (e sejes está certo, neste caso) um leitor de boa intuição (e atento a ironia), Felícia pediu que eu pegasse a linha Elizabeth, que me deixaria duas paradas de ônibus do Triângulo. NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO. Quase tive uma sincope pluvial com aquela orientação. Ainda por cima ela recomendou-me várias outras possíveis linhas: Nova Gleba (onde fica isso?), Educandário, Agostinho. Dois minutos depois estávamos passando pelo Motel Medieval, que era muito parecido com o Castelo de São Jorge. Esse era o ponto turístico do bairro. Outro ponto turístico do distrito era a BIGFARMA, que ficava à esquina da casa de minha amiga Felícia, que mora na Gruta Zeferiana.
Depois sim. Foi somente gozo. Além de termos nos empanturrado com os melhores acepipes e da guaraná (sem pipoca e sem filme), fomos trocando experiências e observando a dialética do comportamento humano carente de locomoção. Divertimo-nos. Depilamo-nos. Carregamo-nos. A noite era um bebê. Muito tinham ainda que contar, pois eu, um bom homem introspectivo, fui para o meu tugúrio locupletar-me de mim mesmo. E isso também é muito bom, além de estar dentro de casa com os amigos no outro lado da cidade.
Eis uma história simples, digna de uma redaçãozinha, que as fajutas professoras de português, retrogradas, pedem para escrever sobre esse tema tão erudito. Na próxima vez escreverei sobre as minhas férias. Porto Alegre é demais! E Porto alegre me dói! Mas não digo a ninguém...
Ai, como me rio con vos siempre!
ResponderExcluirNunca uma tarde com Valério será uma tarde qualquer...
ResponderExcluir"Abraçinho" (em catalão) hehehe
Dieniffer.
Que vocabulário!! Ou ele é um dicionário poliglota ambulante ou ele encarna Guimarães Rosa e sai a criar novos vocábulos na hora da inspiração!! haha
ResponderExcluirE então, num certo momento em que eu me preparava para um passeio em Porto Alegre Diluvial, quase lista para abandonar minha gruta zeferiana e retornar apenas no próximo entardecer, ele indaga:
ResponderExcluir"-Que livro estás lendo no momento?"
"-Não é livro, é Terapia do Professor."