Era o que estava faltando para que a viaje ou Voyage ou viagem se tornasse o marco inicial do neoneonaturalismo. O que o romeno tinha na cabeça? Tentei captar na profundeza de minha mediunidade o que ele pensava quando me perguntara se tinha muchos hombres em la platja? Não consegui. A alma cigana do romeno, mais a força da sua descendência noturna com o conde Drácula fez com que eu não conseguisse ler o que se passava dentro dele. Muito menos perceber se alguma coisa concreta latejava nele.
Até que a resposta veio molhada como as ondas de Malvarrosa. Respondi:
— Sim... há muchos hombres.
Ele continuava com o sorriso de cigana obliqua e dissimulada. Havia mistérios naquele olhar, naqueles trejeitos, nos olhos arrepiados. Fiquei olhando para ele depois de ter respondido a santa inquisição. A troca de olhar foi tão intensa que os dele se quedaram.
Ele fora se deitar e me virei para o computador. Fiquei conversando com amigos no Brasil sobre o ocorrido. As maiores intrigas e dicas quentíssimas me foram alertadas para que eu pudesse resolver esse mistério dos hombres da platja.
O amigo romeno dormia em sua furna mortuária, quando decidi fechar um dos olhos para descansar.
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O sol e os pássaros da Catalunha anunciavam que um novo dia iniciava aos pés do Mediterrâneo. Era o dia de minha comunicação. Felícia, Lindy e eu tomamos um café da manhã rapidamente e nos descambamos a faculdade. Lá, nos deslocamos ao quarto andar do prédio. Adentramos a secció 10 – Anàlisi del discurs i de la conversació. Escrit i oral Llengua dels mitjans de comunicació. As apresentações não tinham iniciado. Inseri o arquivo no PC da sala para que pudéssemos passar os slides. Conversei com uma portuguesa, que seria a primeira a comunicar. Quando ela teve a voz, começou a discursar em francês. Vinte minutos depois ela encerrou a fala.
Felícia e eu subimos para compormos nossa comunicação. Lindy ficou gravando. Foi uma das melhores desenvolturas que tive numa apresentação em congresso. Inicialmente falei para os presentes que iríamos apresentar em Língua Portuguesa:
— Primeiramente gostaria de informar que nossa comunicação será em Língua Portuguesa, visto que o nosso francês está em processo de aquisição.
— Não há grandes percalços, pois temos aqui um grupo de portugueses — disse a pesquisadora que se apresentou anteriormente apontando para as colegas — aqui atrás há um grupo de franceses que compreendem a nossa língua e ali atrás temos espanhóis que também entendem o português. Logo, não terão problemas.
A mágica tinha iniciado ali. A cada slide, os presentes anotavam, sorriam, ovacionavam com olhos brilhantes as nossas palavras.Vinte minutos depois, o público que ali estava conversou sobre nossa pesquisa e sobre os argumentos que utilizamos para embasar o comportamento da ciberlinguagem no Brasil. Os presentes elogiaram nossa iniciativa em dividir no congresso de filologia uma pesquisa sobre a língua portuguesa no Brasil.
— Estão de parabénssssssssss — disse com seu S chiado de portuguesa.
Ganhamos as ruas de Valência.
Fomos para a Torre dos Serranos. Por dois eurinhos penetramos na torre. Depois continuamos percorrendo as ruazinhas espanholas do centro gótico. Felícia, Lindy e eu apresentamos as demais os pontos turísticos que elas não conheciam. Fomos novamente ao Mercado Modernista de Valência. Lá, a tia, aquela que tomou vinho pensando que era gratuito, comprou uns acepipes para o grupo: um saco cheio de azeitonas. Valor: alguns eurinhos. Nunca sai comendo qualquer coisa na rua. Ali pude aproveitar os sabores que a vida pode proporcionar nos fatos mais simples, como por exemplo comer azeitona na rua.
Depois do mercado e das azeitonas, fomos para a Praça do Ajuntamiento, palco de inúmeras reivindicações dos valencianos. Mais tarde, pegamos a linha 80 do ônibus em direção a Avigunda de Blasco Ibáñez. Fomos almoçar na faculdade de psicologia, que fica em frente da faculdade de filologia. Almoçamos. Assim que saiamos, um encontro. O colega romeno surgia com sua capa de morcego.
— Mas o que fazes a cá?
— Lunch.
Conversamos mais algumas palavrinhas em diversas línguas; o que era natural.
Tocou-me as costas, quando ele se despediu.
Felícia disse:
— Meu amigo, tem algo ai nessa história. Ele fala comigo, ai tudo bem. Mas contigo, ele falta pular em cima de ti. E quando vai embora ainda te massageia as costas.
Contei tudo o que aconteceu na noite anterior a minha amiga. Ela ficou amarela. No final de uma longa conversa, decidi:
— No final da noite farei um ultimato.
Tínhamos um plano de ir à praia. Quando fui para casa pegar os trajes necessários uma depressão se apossou de minha alma. Comecei a chorar como uma criança. Como uma criança que não queria ir embora. Como uma criança que sabia que era feliz ali, e a vida estava dizendo que um novo ciclo, romântico como sempre, estava iniciando. Chorava copiosamente. Corri para o quarto de Felícia e pedi o netbook emprestado. Escrevi como aquela personagem do filme ALGUÉM TEM QUE CEDER, que chorava em todo o lugar em que estava, assim que desiludira do amor. As teclas do computador de minha amiga estavam encharcadas de saudade do que ainda não tinha perdido, mas que estava, dentro de doze horas, perder. Nem Jack Bauer teria tanta presteza em evitar essa vilania.
Fomos para a praia.
A água estava gelada. Logo, não entramos na água. Ficamos observando os escândalos que a sociedade espanhola pode proporcionar em seu litoral. Um deles, dos dez mais escândalos da viagem, pode-se dizer que esse é o terceiro mais ruidoso de todos. Lá estava eu sentado nas areias valencianas, quando vislumbrei algo que vestia uma tanga nada delicada. Esta estava embocada na contraboca daquela criatura.
— Gurias, aquilo é um homem ou uma mulher fazendo topless?
— Onde?
— Ali — apontei discretamente.
— É um homem.
A criatura saia da água como se fosse a sereia de Ulisses. Cantava chamando os bofes disponíveis na área. Vestia aquela tanguinha e desfilava seus sessenta anos de sensualidade pela praya de Malvarrosa. As mulheres que estavam de titis de fora observavam o destile de Gisele, que abanava os cabelos que não tinha. A criatura, filho do ciclope polifemo, andava de lá a cá, mas esse cá, graças ao deus Hermes não era perto de nós. Mal sabia ele que uma mira estava contra ele. Era a minha mira. Grande e forte e arrebatadora mira. Um clic, como faz a Arno, e a foto fora tirada para o escândalo dos porto-alegrenses amigos. Mas pudico leitor, que pensa que somente o fato da tanga estar enganzada nos montes da Galileia era o fim do mundo, estas enganado. Além da peça estar desfrutando das mais profundas matas, o elemento frontal, o caroço dilatado por algum Viagra, denotava a circunferência de um ângulo obtuso, ou melhor, agudo perpendicular a 90º. Tudo andava na frente do homem, e nada atrás.
— Quem deu crack para essa criatura? — perguntei.
Após alguns minutos de desfiles, o homem, munido de seus acessórios, grandes e pequenos, perpendiculares ou não, fora embora, para que os outros espanhóis pudessem escandalizar. E assim foi. Um grupo de jovens começou a dançar uma espécie de funk nas areias brancas de Malvarrosa. Tocavam-se, se acaricivam e simulavam cópulas.
— Mas onde estamos, meu Deus? Cidreira? Rei do Peixe? Pinhal?
As águas não eram mais cristalinas.
Ainda queria provar uma paella valenciana. Mas não, com a minha tristeza e desanimo, por deixar Valência e seus escândalos costeiros, decidi acompanhar minhas amigas Felícia e Lindy no BURGER KING. Prometi a Valência que voltaria para provar a paella verdadeira, preparada na matriz.
Quando regressei ao Colégio Mayor lá estava o romeno.
Alguns minutos depois e depois de respirar fundo perguntei para ele:
— Eu fiquei sem entender o porquê da tua pergunta de ontem?
— Qual pergunta? — disse sorrindo.
— Se tinha muchos hombres em la platja?
Essa continuação ocorrerá, assim que as palavras saírem pelos vãos dos dedos.
Amei a " sereia de Ulisses " Excelente!!!
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