sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Não se sabe a que nome isso se dá

Ele ganhou um fora. Saiu pela Cidade Baixa à procura de uma alma que o ajudasse. Com ela, foi para a vida boêmia e se esgueiraram em meio de hectoplasmas chefiados por Che Guevara. Adentraram num bar cubano, bem barulhento, tomados por sapateios que vinham do andar superior; cercados de mesinhas que mais pereciam pisos ou peças de uma obra de Gaudí. Não sabiam se estavam num clima comunista, que em algum momento arrebentaria a porta o mestre Fidel, ou se realmente se divertiriam naquela noite digna de um suicídio. Digna de um suicídio, digna de uma morte anunciada, de uma morte para uma nova vida. Ele ganhou um fora e se perdeu lá dentro. Naquele ambiente cidade-baixense, mais precisamente no Sierra Maestra, localizado numa ruazinha pútrida, esquecida, velada, morta. Quem por ali passava, poderia enxergar as orgias que ocorria lá dentro, pois um vidro insone e cercado pela calefação dos corações sugados, mostrava, como uma vitrine, os casais dançando, as pernas entrecruzadas, aquele bate-coxa, aquela lascívia, aqueles compassos. Indescritíveis. Lá estava o coração piegas do homem apaixonado, interessado e fora do contexto sexual. Ele e a amiga tomavam a bebida da insanidade, que nomeada na carta de destilados, se autodescrevia – BEBER SEM MIEDO. O medo, ele perdera há horas, não seria um destilado chamado VACA LOKA que regrediria a vida daquele jovem antiquadamente romântico. No final daquela bebida, a embriaguês, que usurpa e rasga a moral dos fracos, entorpeceu a subconsciência do atuante. A tontura dos dionísos, o esquecimento dos deuses, o ambiente incoerente – onde as pernas não faziam mais sentido –, a falta do outro – que poderia estar ali, mas, por opção, e não condição, decidiu estar longe –: tudo isso, mesclado, dava um sentido de pseudofelicidade, mas por escrever felicidade, não deixava de ser felicidade, pois esquecer é ser feliz, mesmo que de mentira. Como a taça de vaca loka cambaleante, o homem, que agora se tornara, pedira uma ácida marguerita. Enquanto não vinha o ébrio bálsamo precioso de Dom Quixote... Um viva a Dom Quixote, o herói dos sonhos, o herói dos moinhos da vida, dos sofrimentos que devemos ultrapassar. Enquanto não vinha o ébrio bálsamo precioso, um grupo musical tomava lugar no recinto. E nesse grupo, havia uma personagem tipicamente cubana, o homem que tocava um instrumento que, para o homem sofredor, e não tocador, parecia ser um instrumento, não sexual, provindo do nordeste. Logo tinham um forró tocado pela típica personagem cubana. Viva Fidel! Uma panamense, a garçonete do antro, aparecia rebolando as ancas de animal do campo – como dizia o amigo Álvares de Azevedo. A marguerita fora sendo sugada com parcimônia; enquanto os canapés, acepipes enganadores dos estômagos esperançosos, foram sendo degustados pela azia corrosiva das palavras reveladas. O Sierra Maestra era o cume de Sísifo. Mesmo embriagado, o jovem – que recém se tornara homem – ainda não acreditava que suas ânsias amorosas e mediúnicas tinham chegado a um fim mau; fim mau, pois prevera e sentira e olhara tudo pelas arestas que o amor não vê. Neste instante, ele lembrara de um cego ter passado em sua frente, minutos antes do encontro derradeiro, cuja palavra central era o não, não-mau, não-fim. Para ele, não havia mais motivos que o prenderiam naquela selva de criaturas que se deliciavam nos vértices corpóreos. O que ele queria era cuidar, cuidar dele e cuidar do outro. Tão simples como amar. Tão complexo como odiar. Mas isso ele não sentia, por ser desprovido de desumanidade; mas por ser desprovido de desumanidade, a humanidade dizia apenas o não-sim e o não-embriaguês. Presos na liberdade da João Pessoa, os amigos gargalhavam a maestria do deus, que também fugia daquelas arestas amorosas, daqueles cálculos trigonométricos que se chamam sentimento-aceitação. Aceitação-isolamento. Solidão-ansiedade. Ele olhou para as árvores escuras da Redenção. Gargalhava. Gargalhava uma gargalhada-embriaguês, uma gargalhada-mentira. Abraçado a amiga, continuava o caminho tortuoso das epifânias. José Bonifácio, salva-o com o seu positivismo, com o seu progresso. Venâncio Aires, acuda-o, apresente-o a farmácia de sua esquina para que a droga o acalme, para que a droga o restabelecesse. Tinha um táxi ali na frente. Não quis embarcar. O silêncio do táxi, e o falar do taxista, o irritaria. Queria ônibus, povo, roleta, sorte, coletividade, diversidade entre iguais. Despediu-se da amiga. Tonto, dizia que as babas da vaca loka o salvaram de muito. No ônibus, ao passar a roleta dos estudantes-isentos-de-sabedoria, olhou para todos, como nunca fizera anteriormente. Tentava desvendar as histórias de todos. Olhava profundo. Os passageiros perceberam que se tratava de um bêbado, de um jovem-bêbado-apaixonado. Ele ziguezagueara e se jogara num banco. Cinco paradas depois, a lágrima-única no meio das árvores brotava. Quando acenou a porta do edifício, o choro convulsivo o dominou. Subira as escadas no meio da escuridão. No apartamento, fora para a cobertura-incoberta, e ali explodira de desespero, de incerteza, de perguntas continuáveis, de lacunas formadas por pontes. Na cozinha, locupletara-se de azeitonas e ovos de codorna. Codorna? – se questionava – Para quê, pois não preciso me sulcar desse alimento libidinoso? Jogou-se na cama. Seminu, o homem dormira sem sonhos. Na manhã, com o despertar do televisor, abrira as pálpebras doidas, e lembrara-se de tudo. Ele não podia ter vivido tudo aquilo. Levantou-se, banhou-se. Saiu para trabalhar. Lá, com uma fome de literatura, a fome que os adeptos da paixão não sentem, ele sentou-se e recontinuou a leitura de Sartre, autor com quem estava há meses. Ele estava com a Náusea. Mas com a Náusea que o libertou. Ele leu:

“Quando entrei na sala de leitura, o Autodidata estava saindo. Precipitou-se sobre mim.
— Tenho que lhe agradecer, senhor. Suas fotografias me proporcionaram horas inesquecíveis.”


Ele lembrou-se da cena lida meses atrás, quando o Autodidata vira as fotos de Antoine de Roquentin, quando fotografara em suas viagens pelo mundo.

“Ao vê-lo, tive um momento de esperança: a dois talvez fosse mais fácil atravessar o dia. Mas com o Autodidata só aparentemente se está a dois.
O guarda vinha em nossa direção: um corso baixinho, irascível, com bigodes de tambor-mor. Passeia horas inteiras entre as mesas, batendo os calcanhares. No inverno cospe nos lenços que depois põe para secar no calefator.
O Autodidata se aproximou tanto que sentia em meu rosto o sopro de sua respiração:
— Não lhe direi nada diante desse homem — disse em tom confidencial. — Se o senhor quisesse...
— O quê?
Enrusbeceu e suas ancas ondularam graciosamente:
— Ah, senhor! Estou me precipitando. Aceitaria almoçar comigo na quarta-feira?
— Com muito prazer.
Tinha tanta vontade de almoçar com ele quanto de me enforcar.
— Fico muito feliz — disse o Autodidata.
Acrescentou rapidamente:
— Irei buscá-lo se quiser.
E desapareceu, certamente com medo de que eu mudasse de opinião se me desse tempo”


Fechou o livro. A catarse era evidente. Era uma quinta-feira de sua vida, quando tudo acontecera numa quarta revelatória. Agora o novo homem queria saber como foi o almoço de quarta-feira de Antoine, o rapaz da biblioteca, e o leitor voraz, o Autodidata. Sartre e sua La Nausée seriam seus primeiros companheiros. Abriu as páginas, devorando-as até chegar numa quarta-feira melhor. Numa quarta-feira no Café Mably.

Um comentário:

  1. Alex!
    Continuo a dizer que és um escritor nato. Bebi tuas palavras até o fim, de um só gole. Adoro a intertextualidade, as muitas vozes vindas por meio da tua.
    A sensação foi a de beber uma boa dose cowboy de Jack Daniels.
    Beijíssimos.

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