segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Comemorando demoniacamente o Natal

Havia algo de estranho nesse natal. As cenas não eram típicas. Sei apenas que minha mãe e eu pegamos um táxi em direção a casa de minha madrasta, na Cidade Baixa. Quando chegamos a meu bairro preferido, percebi que havia algo de podre no reino da Dinamarca. O Olaria estava às escuras, O Olaria-morto que enxergava de numa janela de nono andar. O Zaffari fechado. Certamente os funcionários-bourbons tinham, deveras, direito a Santa Ceia. A Lima e Silva sitiada. Bares e pubs fechados. Não estava crendo naquilo, crendo no fantasma que se tornou a personagem personificada por mim. As estranhezas ocorreram quando lá cheguei, no apartamento da comemoração do nascimento do enviado. A primeira tela que vi foi de uma mãe que dava de mamar a sua filha recém-nascida. Aquilo me lembrou o seio da República alimentando o povo. Era a primeira vez tive a oportunidade de conhecer a pequena-nascida, nascida dois meses antes de Jesus (audaciosa ela, não?). A criança alimentava-se com uma habilidade feroz, quase animalesca, degustando toda a sua comemoração por ter nascido em Outubro. Apresentei-me a criança, que me olhava, não com olhos de cigana obliqua e dissimulada, mas sim com uma curiosidade obtusa, calculando os catetos e as hipotenusas de cada gesto meu. Achei a criança de um carisma que muito me sensibilizou. Tanto me sensibilizou, que um minuto depois ela estava no meu colo, não para mamar, pois nessa encarnação não me foram atribuídas glândulas mamárias, mas sim acomodou-se a minha proteção de sua pequena-sesta. Assim que lembrei que a sesta vem depois de uma refeição, e que os bebês costumam, durante sua sesta brindar com um regozijo a existência estomacal, pus-me em pânico trigonométrico. Olhei para a minha calça branca. Uma azia me dominou. E se eu tinha sintonia, mesmo que carismática com aquela pequena-notável, certamente ela também passava sua pequena-ânsia-esofágica. Por Jesus! Ela iria gorfar na minha camiseta gola V, V de Vingança por tê-la tirado das tetas da República. Olhei de soslaio para o lado e encontrei o BICO. Por mais que eu odeie bicos (e por mais que os tenha chupado até os sete anos), vi nessa ferramenta a habilidade mais vil de não ser uma presa fácil da bile daquela herdeira. Mas ela chupava por apenas alguns segundos com aquele objeto libertino, chupava-o delicadamente, e depois cuspia-o, para o meu desespero total. Então, mais uma vez, olhando de esguelha, percebi que a mãe estava atrás de mim. Perguntei para o bebê-gorfador: “ Onde está a mamãe desse bebê lindo, hein, onde está a mamãe?”. Num zás-trás de segundo, a mulher surgiu, recompensando os dez minutos de desespero e repasto. Nem o pai da física calcularia com tamanha precisão a velocidade que a coisa se deu. Não foram três segundos que a criança se viu no colo sem igual, fraterno e humano... Três segundos de reconhecimento aristotélico (nem Telêmaco deveria ter tanta emoção ao reconhecer Ulisses); três segundos de pura exultação; três segundos de júbilo e um segundo apenas de lançamento. FELIZ NATAL!

Ainda havia três horas corrosivas de ceia natalina. Ainda havia outras duas crianças, filhas da mesma mãe; mãe, esta, atual esposa ou concubina, do irmão de minha madrasta. Minha pedagogia não permite relações inter-pessoais com crianças. Sou daqueles que não tenho muita paciência com os aprendizes; sou mais ditatorial, gostando de impor limites as indisciplinadas. E ali estava um clássico exemplo da anarquia e deselegância. Uma delas, a maior, que acabara de passar para o quinto ano, teve o desplante de acariciar o meu cabelo, melenas estas que passo horas para alinhar. O olhar, que somente eu seria capaz de fazer, fulminou a criança, que arregalou os olhos, compreendendo com a profunda sapiência, a linguagem corporal do pecado que ela acabou de cometer em plena comemoração de Jesus Cristo.

Segundos depois, naquele palco, na cena 3, outra criança apareceu, justamente quando eu queria assistir Passione, a novela mais coerente da TV brasileira. A criança em questão era a mais nova, a mais ousada, não tinha a primeira série ainda, logo não era corrompida pela sociedade. Sentou-se a minha frente e passou a fazer comentários que somente uma criança-honesta pode fazer. Ela falou do meu sapato, da minha calça, da minha gola V de Vingança, do meu cabelo recém-desalinhado. Eu me comuniquei com ela, com o mesmo olhar que aterrorizei a outra. Mas com essa, como todos os casos de irmãos diferentes, soltou uma gargalhada. Tive medo dessa criança. Ela era pior do que eu imaginava. Visto que ela começou a dissertar de modo científico sobre o meu olhar, eu a interrompi e perguntei se ela já conhecia a historinha de João e Maria. Ela disse que não. Então falei num estouro: “A Mariazinha era uma guriazinha bem pequenininha e muito bonitinha. Os dentinhos dela tinham uma janelinha. Igualzinho a essa tua. E um dia Mariazinha foi presa na casa de uma bruxa. E essa bruxa deu um peru de natal para ela, para que a Mariazinha ficasse bem gorda. E no dia que a Mariazinha ficasse bem gorda, a bruxa ia fazer picadinho da Mariazinha e a colocaria no forno. E tu sabe por quê? Porque a Mariazinha não calava a boca, não ficava quieta. Imagina se invés do Papai Noel entrasse ali a Bruxa e te colocasse no forno, junto do Peru e do Tender?” perguntei e sai dali. A criança dava gargalhadas homéricas. Foi atrás de mim e disse que queria ouvir outra história. (Tudo que eu havia aprendido na faculdade com Bethelhein sobre a psicanálise nos contos de fadas não tinha dado certo). FELIZ NATAL!

Depois disso chegaram, meu irmão, minha cunhada e a mãe desta. O bebezinho- gorfador havia mamado mais uma vez. Não sei se aquilo era uma tática da mãe, que dava o seio e depois azarava alguém com o colo existencialista. Sei que a próxima vítima da linguagem da criança foi a cunhada. Um quarto de hora depois, a cria abocanhou o bico da mãe. Ninguém mais resguardou a criança. Toda a existência da menina surgiu do âmago e esta batizou toda a genetriz. Aquilo era um circo, um picadeiro lamacento, um comemorar demoniacamente o natal. Só esperava que ninguém fizesse como Macabéa e vomitasse um coágulo.

Em seguida, quando fomos, os adultos sentarem-se à mesa, as infanto-anárquicas, indispostas de toda e qualquer etiqueta de Danuzinha Leão, locupletaram a mesa deixando os adultos insurretos, porém com uma elegância digna dos aborígenes parisienses.

PRECISEI DE ÁLCOOL. Joguei-me num vinho chileno.
Falando em parisenses, da janela da sala, podia ver a cidade, inclusive a minha casa, aos altos de Montmartre, com os cemitérios do bairro e sua basílica pomposa. Queria a minha casa, os meus livros. Depois que as crianças cearam sem total disciplina, prometi a mim mesmo que um dias levá-las-ia no templo positivista de Porto Alegre, ali perto de casa, na João Pessoa, quando elas ouviriam do palestrante: “Temos que voltar aos tempos heróicos da ditadura. Temos que voltar aos tempos do rebenque. Quem não teve um rebenque na vida e não esta vivo?”. Mas como eu não era dono da casa, nem pai, nem mãe das comunistas, eu me abstia de contar histórias infantis (que parece que deu certo, pois algo dentro daquela criança mudou para comigo. Isso se mostrou com o respeito quando eu olhei de soslaio para ela).
Era meia-noite. ELE nasceu à meia-noite? Algumas luzes explodiam na cidade, tímidas e disseminadas no ceu porto-alegrense. Um avião surgia do aeroporto Salgado Filho. Queria viajar. Todos nos abraçamos e desejamos os mesmos clichês de sempre, que por sinal são os mesmos do ano novo. Não seria nada mal que dividíssemos os desejos de natal daqueles de desejaríamos no réveillon. Mas ainda bem que não ficamos naqueles lugares-comuns de paz, amor, felicidade. Desejamos também o concreto, o que bem sabemos o que o outro deseja. É muito mais interessante e fundamental do que o famigerado e inteligentíssimo TUDO DE BOM.

Alguns raios-tempestade surgiam no céu. Já era hora de voltar para casa. Ali começou a dialética do táxi, pois as centrais não atendiam as chamadas dos clientes que desejavam a todo custo e sofrimento ir para casa. Eu exclamei: “Mãe, vamos descer, que, assim que chegarmos na rua, um táxi sobrepujará a Lima e Silva e entraremos no final feliz desse conto de fadas.” Todos duvidaram de minhas palavras. Como era natal, contive-me, com o poder de Cristo, da propriedade da verdade, pois, em tese, sou dono dela. “Que um raio estoure na minha frente se eu não estiver certo”. Virei-me para a janela e queria, devido o calor intenso, que, caísse um temporal impar.
Disse para todos, alguns minutos depois: “Au revoir, famille”. Era muita discussão por causa de um táxi. Puxei a âncora, dei um tchau-geral. Chamei o elevador. Descemos. Na saída, quando abrimos a terceira porta para a rua (hoje vivemos trancafiados), surgiu, me meio a chuva, um táxi, vazio, livre, como o seio da República.
Em cinco minutos estávamos em casa. Despi-me e fui enriquecer-me com meu novo amigo, Vargas Llosa. Durante a leitura, estrondos de Zeus, ou de Posidon alavancaram as emoções. Ulisses deve ter furado o olho do ciclope polifemo?
Estava tão entretido com as histórias de La tía Julia y el escribidor que mal dava valor aos estrondos que os deuses enviavam. As luzes piscavam, anunciando a possível treva. Certo momento, o raio, o mais raio de todos os raios, surgiu, bem diante de mim. Sim, leitor-de-espírito-natalino, a história não é fantástica. Eu, na noite de natal, amém, quando embalava a manjedoura, o meu livro, presenciei a presença do invisível, do estrondo apocalíptico. Direto da minha sacada um baque ultra-mega-explosivo-e-ensurdecedor tormentou bem em minha sacada, mais precisamente na churrasqueira, que estorricou em faíscas. Fechei a manjedoura e fiquei petrificado de tamanho horror. Desci para ver minha mãe, que andava com a mão nos ouvidos. Fomos juntos até a janela mais próxima-e-protegida para ver se não tinha aberto uma cratera na avenida.
As trombetas ameaçavam tocar. O enviado estava chegando para o juízo final. E já era sábado, o sétimo dia dos adventistas. Tudo se destruiria no dia em que tudo se concretizou? Oh, que terrível. Não havia nada pior que as trevas e os raios e as águas e os dilúvios.
Com o tempo, o tempo acalmou.
E com isso, o texto também.
FELIZ NATAL!
TUDO DE BOM (sem ponto final)

2 comentários:

  1. Magnífica tua técnica com as criança. Seres iluminados em nossas vidas.(risos). És genial.

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  2. Meu amigo, a passagem com o bebê ficou muito, mas muito mais hilário em tua escrita!!!
    Diverti-me muito!
    Abraço!
    Leandro

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