sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ai rua da praia cheia de livros

Antes de ontem foi um dia mui interessante. Não que os outros não tenham sido. Bem, o que quero dizer com a intensidade da interessância é que hoje fui pela primeira vez, neste ano, à feira. Lá encontrei maças, aboboras e inúmeras tendinhas de que muito me apeteceram. Como ocorre com a feira do livro de Porto Alegre. É a época de nadar nas aventuras que somente a leitura pode proporcionar aos sonhadores solitários. Maças porque são tentações; abóboras devido a uma banca cujo nome era leituras e gostosuras.

Mas não estive sozinho nessa empreitada. Lá estava comigo Taís Deamici, companheira (de Lula) de aventuras imaginadas no mundo de Boby. Ela, uma das personagens que conheci neste ano inconcebível pela intelectualidade. Viva Xavier de Maistre! A companheira de Lula, que tem no seu celular a música de Dilma, e eu estávamos na feira das variedades. Furunfávamos todas as traças do conhecimento; carcomíamos os próprios olhos e pés.

Enquanto peregrinávamos, Taís disse-me que tínhamos que ir até uma casa de xérox para que ela fotocopiasse as provas dos aluninhos engravatenses. Encaminhamo-nos até o local. Fica ali na Rua dos Andradas, a rua da praia sem praia. Subimos uma escada mortuária e assim que chegamos ao cume não colocamos uma bandeira literária. No máximo depositaríamos uma pedra de crack que possuíamos no bolso. ( Quero salientar que crack neste texto é tão somente uma figura de linguagem, a metonímia. Opa, desculpe, não é essa a figura, mas sim a metáfora. Quem um dia não ficou dependente, logo no primeiro uso, das gotinhas malévolas do Sorinan?). Enquanto fazia essas digressões, que para nada serviram, minha companheira fez as cópias de que necessitava. Mas antes da descida do monte Everest, a confrade anunciou que desejava saber onde era a casa de baño. O proprietário do estabelecimento xerocador anunciou, por sua vez, que a casa de baño ficava na próxima porta a esquerda. Quando olhei para o que se tratava o devido estabelecimento patêntico pus-me a sentar sofregamente. A amiga mesmo assim foi. Eu disse para ela:

— Se tu não aparecer em dez minutos eu chamo a polícia.

O banheiro era escuro... han... han... como posso descrevê-lo? Sujo não era, mas tinha todo um encantamento nebuloso da miséria. O terror de alastrou quando ouvi, do lado de fora, ainda decaído no banco, uma porta rangendo. Meus olhos esbugalharam. Eles esperavam enxergar a figura de minha amiga. Com um piscar de olhos ela apareceu.

Como para baixo todo o santo ajuda, descemos sem pressa.

Decidimos ir ao Mc Café da mesma rua sem praia. Lá ficamos conversando sobre três assuntos: Literatura; A influencia da intertextualidade na literatura; e, A função que a literatura tem na vida da literatura. Logo, falamos de nós. Mas também, para variar, pegamos um voo nada rasante e nos aconchegamos nos planos futuristas de um vale encantado que encontraremos quando sairmos da faculdade: um abismo de possibilidades. Depois de um bom tempo lá dentro, preferimos ir para um lugar que tinha ar condicionado, na rua. O aquecimento global dentro de um Mc Donalds é maior que a taxa do PIB em governo tucano.

Na rua, protegidos do aquecimento global e do governo tucano, continuamos nossos papos de literatura como signo a frente do admirador. Exemplificamos sobre alguns casos de literatura de massa versus a literatura entendível de Guimarães Rosa e da tia Clarice Lispec (olha a intimidade do leitor de alma já formada!). Depois, ainda na rua sem fim e cheia de praia, nos deparamos a falar, parados numa esquina não dada a prostituição, sobre os mesmos assuntos. Queríamos ficar ali mais tempo, naquela Andradas que poucos, como eu, conhecem a noite, toda iluminada falada sobre Literatura, de ponta a ponta. E por ali anda passavam pessoas que não tinham a usança de ter como companhia um bom livro. Somente nos dois – mas que arrogância despretenciosa.

Um comentário:

  1. Eu simplesmente a-do-rei esse texto. Inclusive, se me permites, copia-lo-ei e cola-lo-ei no meu blog. Ao ler agora, tarde da noite, pergunta-me minha mãe: de que tanto ris? E eu às gargalhadas!
    Um deleite massageador de egos ao ver-me narrada em teus escritos com um post só para nós dois!

    Meu amigo escritor, adoro ler-te! Chego rápido à tua alma.
    Um beijo em teus pensamentos!

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