sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Grandes mestras (1)

Começa agora algo novo em meu blog. Falarei das professoras marcantes de minha vida. Digamos que delas que formei um pouco da pessoa que sou e do professor que acabei me tornando. Vamos ao texto.

Eis as experiências que a vida dá, deu, dará: nascer, crescer, aprender, crescer, abandonar, deixar ir, crescer, amadurecer, ensinar, dividir, multiplicar, crescer mais, doer, conhecer, abandonar, deixar ir. Aprendi a ler, segundo mamãe, aos dois anos e seis meses de idade. Segundo ela, também, eu ia às rádios da cidade para provar a minha peculiaridade: saber as capitais de todos os países. Passei ouvindo essa história durante boa parte de minha infância e adolescência. Aos quatro anos, cursando o jardim, olhava para os colegas (que ainda só sabiam fazer lambuzeiras e desenhos - tudo em prol da psicomotricidade), que todos - pelo menos os que eu vi (e lembro) - eram destros, e eu, mais uma vez diferentes daqueles normais. Olhei para o coleguinha do lado, vi como ele pegava o pincel e passei a pintar e desenhar com a mão direita. Ali comecei a minha arte das duas mãos! Meu cérebro ficou uma loucura depois daquele dia. Aos cinco anos, ao ingressar na primeira série, tive mais um momento étranger. Ninguém sabia ler nem escrever. Lembro de uma menina que sentava a meu lado no fundo da sala. Ela errava todos os exercícios de ortografia. Olhei para a minha folha, onde todos os jotas e gês estavam adequados, os ôs e ús também, inclusive os xis e cê-hagas da vida. Pensei: "se ela podia errar, eu também tinha esse direito." Apaguei tudo e coloquei as letras absurdas inseridas pela colega (segundo uma mente brilhante de cinco anos). Mais tarde veio a fogueira. A professora chegou à minha mãe e disse que fiz arte, que eu não levei as atividades a sério, que tinha errado de propósito todos os exercícios. O castigo veio logo depois: um chinelo azaleia que me dava medo. O detalhe que não tinha dito ainda: FOI COM AQUELA PROFESSORA, MINHA PROFESSORA DA PRIMEIRA SÉRIE, QUE DISSE QUE DESEJARIA SER PROFESSOR. Cada vez que ela me chamava para ajudá-la com alguma tarefa era uma explosão interna de prazer que mal podia me conter. Jamais esqueço quando ela foi sortear o ajudante do dia. Foram tantas semanas esperando que meu nome saísse. Nossa! O dia que saiu o papel com o meu nome minha ansiedade foi tão grande que simplesmente levantei sem que ela precisasse de nada, fiquei do lado dela; e ela, claro, mandou que eu sentasse.

Alex Valério - que já sonhava com o mundo e se sentia um estranheiro - aos 4 anos
Nessa época, estudava na Escola Cavalhada. No ano seguinte, fui para uma escola estadual: Roque Gonzales. Como sempre aconteceu, as coincidências temperam minha vida. A tal da nova escola ficava atrás daquela onde outrora estudei na primeira série. Das professoras que tive na nova escola, a que mais me chamou a atenção foi a professora da 4ª série: Fernanda. Jamais esquecerei, também, do primeiro dia de aula. Ela disse, segundo minha memória emocional, assim: "Boa tarde! Sou a professora Fernanda. Vamos trabalhar juntos na 4ª série. Tenho algumas regras: Não sou tia de vocês, sou professora (claro que nós fedelhos odiamos aquela vaca insensível). Vocês estão na 4ª série, estão ficando grandinhos. Somente hoje haverá beijinhos, no primeiro dia de aula. Depois só no dia do aniversário. Nem abraços haverá. É simplesmente 'tchau, sora!' na saída". Ela era uma disciplinadora e tanto. Sempre que fazíamos bagunça, ela pegava o apagador e batia na ponta da mesa até ficarmos calados. Era de um histrionismo mais exacerbado que a própria palavra histrionismo. Era esbugalhava os olhos, colocava o apagador em riste, virava o cabelo como uma bela atriz e ameaçava destroçar o objeto na mesa. Quando ela fazia a tal posição do apagador, com a cara medonha, escutávamos apenas os motores dos carros que passavam na avenida. No final do ano, a maioria dos fedelhos foi para a 5ª série. Digamos que ela soube trabalhar muito bem nosso emocional nessa fase de transição. Só sei que doeu muito quando não podíamos beijá-la, ou quando ela tinha que fingir ser má e negar um beijo na saída mesmo com as tentativas dos carentes de atenção da turma 43.

No ano seguinte, 1994, conforme algumas intercorrências sócio-político-econômicas, me mudei para um bairro no extremo sul de Porto Alegre e passei a estudar na escola mais famosa de Belém Novo, Colégio Estadual Dr. Glicério Alves. Ali fiz parte da minha 5ª série. Não consegui avançar. Em 1995, repetindo a série, iria conhecer a professora que me motivaria (sem que ela soubesse disso) a me tornar um professor de Língua Portuguesa. O professor que me tornei. Ela foi decisiva!

Sobre ela, contarei numa próxima postagem!

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